segunda-feira, 31 de março de 2014

Faites vos Jeux....

"O jogo é um corpo-a-corpo com o destino." Anatole France



"O jogo é uma analogia para a vida: não existem cadeiras suficientes ou bons tempos para andar por aí,
 nem comida suficiente, nem divertimento suficiente,
 nem camas nem empregos nem risos nem amigos nem sorrisos nem dinheiro nem ar limpo para respirar... e no entanto a música continua."

Steve Jobs






Ser genial, não significa ter propriamente razão em tudo o que se diz, nem tampouco que os demais lhe bebam as palavras, sigam os passos ou transformem a persona num culto.
Um génio pode explicar o Universo por números e não conseguir enroscar o parafuso que faz funcionar o afia-lápis da sua secretária.
Os génios são racionais demais para compreenderem jogos de azar.
Jogar é apostar com as sortes . Não é preciso saber muito da aposta, somente se se ganha ou se se perde.
Este fim de semana apostaram comigo. Aceitei o desafio. Perdi.
Ainda bem.























Se recusasse a posta, por ser demasiado imprevisível ou por puro receio de tentar a sorte, de dar o tal passo em frente, o salto de fé ou simplesmente desistir, não teriam os meus olhos contemplado as maravilhas da claridade.



             

sexta-feira, 28 de março de 2014

Daurat

"Cada momento é de ouro se o soubermos reconhecer como tal."
Henry Miller


Nothing Gold Can Stay


Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf,
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day
Nothing gold can stay. 



Robert Frost






Descer o Aconcágua  não é para meninos. Um desafio para onde se vai derrotado à partida, não é um desafio, é um suicídio de carácter, um apelo à depressão, o reconhecimento duma incapacidade de que se desconhece a deficiência. Partir com baixas expectativas e atingir o objectivo, é superar-se, é deixar o ego elevar-se até ao cume, lá onde a altitude te prega partidas e te leva a sobrevoar Titicaca no dorso da Grande a Serpente Emplumada  até Chichén Itzá aparecer imponente recortada  no  dourado e laranja do pôr do sol.
Três dias depois da ressaca da hipobaropatia, o gelo da Terra do Fogo quebrava-se sob os meus pés molhados e inchados, como cascas de amendoim numa tasca rançosa  na Route 66, onde depois de duas cervejas e um shot de tequilla o norte e o sul rodopiam agulhas sem magnetismo, dentro daquela bússola tresloucada a que chamamos cérebro e que norteia os nossos passos, quantas e quantas vezes rumo ao meridião.
Encontro-me amorfa e mole a seguir um tipo com uma lanterna,   embrulhado numa manta escura com a aura delimitada pelo vapor do próprio bafo na noite gelada. 
Deixou o sendeiro à entrada da casa baixa de pedra e lama de adobe, como o teria feito Paul Revere enquanto 39 homens à luz de muitas velas acesas pela discussão,  signavam a mudança num papel fibroso. 
Lá dentro o ar era quente e pesado,  saturado de Pisco e guano, mas o ceviche do grande peixe de Santiago que comi, sentada no chão junto ao lume crepitante enquanto Manolin contava histórias do mar, soube- me pela vida.
 Cá fora os diamantes do cruzeiro do sul brilhavam contra o veludo azul de um céu de paraíso, onde uma lua redonda como um imenso queijo disparava raios de luz em todas as direcções, conferindo aos gelos glaciares uma cor opalina e um brilho irreal. Lembrou-me Opar , onde as mulheres são belas e os homens simiescos e alguns elos inferiores, onde o mistério espreita em cada pedra e em cada folha e a água do Nilo cai azul em terra de homens sei lei nem alma. Lembro-me do bar que o Dr. Livinstone tinha na margem do Lago Vitória onde serviam os melhores Gins tónicos do mundo, perfumados com as neves do Kilimanjaro, que me deixavam de quatro na manhã da minha vida, como rezava o enigma. Mais um sonho que se tornou insolvente e faliu de tristeza e incompreensão.
Fui dormir, ou pelo menos tentei fechar os olhos, mas a ideia de Cibola bailava como um cisne de ouro não me dando paz. Estava tão perto ou longe demais, não fazia ideia. 
Sabia que o dourado sol nascente traria Esteban e o grande condor, e aí a aventura recomeçaria, exactamente no ponto onde a imaginação vibrante de alvoroço  a tinha deixado .


                                

terça-feira, 25 de março de 2014

Mescalina

"Há pessoas que vêem as coisas como elas são e que perguntam a si mesmas: ''Porquê?'' e há pessoas que sonham as coisas como elas jamais foram e que perguntam a si mesmas: ''Por que não?''
 G. Bernard Shaw




O Tempo Torna Tudo Irreal


O tempo, propriamente dito, não existe (excepto o presente como limite), e, no entanto, estamos submetidos a ele. É esta a nossa condição. Estamos submetidos ao que não existe. Quer se trate da duração passivamente sofrida - dor física, esperança, desgosto, remorso, medo -, quer do tempo organizado - ordem, método, necessidade -, nos dois casos, aquilo a que estamos submetidos, não existe. Estamos, realmente, presos por correntes irreais. O tempo, irreal, cobre todas as coisas e até nós mesmos, de irrealidade.


Simone Weil







Embarquei no Karaboudjan numa tarde cinzenta de Junho. Quis fugir aos arraiais, ao cheiro a peixe assado à folia e aos autos de fé que emergiam das brasas  de cada fogueira, ao som da excomunhão pimba, esganiçada na voz de um qualquer debochado animador de 5ª categoria. Que local melhor para enterrar recordações do que a bordo dum pesqueiro enredado em mistério e vício, onde caras lúgubres desapareciam em cada canto de cada sombra, como enguias negras viscosas e escorregadias, deixando no ar promessas de aventuras ilícitas, tórridas e tão sujas como o chão do passadiço, que fedia ao negrume duma noite que se anunciava breve.
Não gosto de barcos. São prisões flutuantes repletas de enjoo e perversão, onde gritos e gemidos se confundem com o marulhar das ondas que fustigam  incessantes de bombordo a estibordo, entontecendo, agoniando, golfando espuma e vinagre sob aquele odor permanente a mofo e sal.
Dois dias sem largar a enxerga, sem noção da  irrealidade que se dependurava da parede  numa lâmpada fraca e suja, sem conter sustento nem reconhecer hálitos nas faces desfocadas que iam e vinham.
Ao terceiro dia avistámos a ilha Kirrin, encimada pelo triste e pequeno castelo em ruinas. Atracámos e vi-os olharem-me, fixos e vazios na escarpa mais alta. Contei-os. Eram cinco. A sua presença sobrepunha-se a todos e a tudo ao seu redor, enormes e assustadores gigantes de pedra. Estavam dois meses, quase três atrasados: a Páscoa fora em Abril.
Uma velha escura e enrugada de mãos postas e ancas bamboleantes, pôs-me um Katak ao pescoço e ofereceu-me um galo preto e um Cohiba, enquanto subíamos pelo trilho dos druidas, vereda estreita e frondosa, pontuada  com dolmens do tamanho de casas em que o musgo criara cabelo dançante à passagem das almas e onde por debaixo dos nossos pés se movimentavam exoesqueletos maiores do que punhos fechados.
Sob a sombra dum salgueiro ululante, serviram-me um gumbo de peixe quase em papa numa marmita amolgada que fedia a ranço e amarelo, acompanhado duma zurrapa alcoólica com sabor a cacto e a miragem.
Do promontório, o azul do mar era uma bênção. Lembrei-me das Célticas e de Puck, e deixei-me chorar as tristezas que correram pelo glaciar do fiorde maior e se transformaram imediatamente num gelo cinzento, tão cinzento como os meus dias.
O Delta via-se já ao longe, por dentre a folhagem e  o serpentear do rio. A chaminé fumegava e a grande roda girava, ruidosa . Era o Mary, orgulhoso e imponente, rodando as pás em volta do eixo, como a terra no seu periélio após cada solstício !  Espreitei para dentro da manga e vi lá o às de espadas. Apertei o passo, louca de alegria, como se tivesse 7 anos e um brinquedo novo. Estava quase lá.


                                    

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ontem já é hoje e passou tÃo rápido....

"Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida."- Sófocles



                                                                 
Morning Song



Love set you going like a fat gold watch.
The midwife slapped your footsoles, and your bald cry
Took its place among the elements.

Our voices echo, magnifying your arrival.  New statue.
In a drafty museum, your nakedness
Shadows our safety.  We stand round blankly as walls.

I'm no more your mother
Than the cloud that distills a mirror to reflect its own slow
Effacement at the wind's hand.

All night your moth-breath
Flickers among the flat pink roses.  I wake to listen:
A far sea moves in my ear.

One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral
In my Victorian nightgown.
Your mouth opens clean as a cat's.  The window square

Whitens and swallows its dull stars.  And now you try
Your handful of notes;
The clear vowels rise like balloons.


Sylvia Plath






Costuma dizer-se que todos os humanos que passam pela fugaz existência duma vida, deveriam deixar cumpridos três propósitos : Plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho.
Penso que cumpri bem parte dos meus desígnios. Apesar de deixar a parte do livro para quem sabe escrever, orgulho-me de ter plantado muitas árvores, de as ter visto crescer e frutificar, e orgulho-me ainda mais das crias que produzi nas minhas entranhas de mulher.
"Parece que foi ontem" é um cliché, uma frase batida, mas muito acertada, pois alturas há, em que regrido no tempo para a noite em que as dores dilacerantes enchiam aquele quarto frio de hospital, onde o calor e a doçura na voz da D. Adelina eram o único fio condutor da minha sanidade mental.
A D. Adelina foi a enfermeira-parteira que assistiu a Mãe nos seus três partos . Trouxe-me ao mundo e estava ali comigo, de mão dada a murmurar confortos e ternuras para me acalmar, para me sossegar, para me tranquilizar, para me ajudar a parir o primeiro rebento.
Demorou mais tempo do que o tempo se poderá lembrar.
Finalmente gritou. Gritou tanto que as dores se transformaram em sorrisos... "tal e qual a mãe", pensei.
Tinha dez dedos nas mãos, dez dedos nos pés, cheirava a amor e tinha um sinal no joelho em forma de mosca. Era linda. Era a mais linda de todas. Era minha.
Ainda é minha depois de 33 anos, mas parece que foi agora.
Um dia apeteceu-lhe dizer Mãe. Foi o dia em que me senti completa, o dia em que soube que ela sabia que nos pertencíamos mutuamente, presas pelo laço inquebrável que o amor criou.
Entrego a este raio de sol que brinca sobre o teclado , o maior beijo de Parabéns do Mundo para ti, filha. Quantos muitos. Quero que sejas sempre muito feliz e que voes para onde o teu sonho te levar.
A tua mãe terá sempre colo e braços para te aninar e boca para te soprar embalos e cobrir de beijos.


                

sábado, 15 de março de 2014

Marafona.

"A força não provém da capacidade física, e sim de uma vontade indomável.” - Mahatma Gandhi







Soneto de Onan


Chegando nu, cantei. Cantei, é certo,
Minha nudez ansiosa e lastimável.
Fez-se, em redor de mim, terror, deserto...
Que uma nudez assim é pouco amável.

"Esta gente esperava-me encoberto",
(Pensei) "mas eu nunca soube ser afável...",
E então vagueei cantando, em meu deserto,
Minha nudez ansiosa e lastimável.

Só, vagabundo, assim desci mais fundo:
Na Torre de Babel da minha ermida,
Já vivo mais do que a minha própria vida!

Já, repelido, em vós me continuo...
Sim!, só a mim me entrego e me possuo,
Porque eu me busco para achar o mundo!

( José Régio)





Dei comigo para ali nua... pois se nua não estava, para que serviriam os panos que me cobriam a nudez, se pelas pregas resvalavam carne e pele em abundância suficiente para encher a ânfora maior repousada à sombra seca duma árvore de folha perene, que resistia debaixo dum calor insuportável.
 Por todo o lado, belas e musculadas mulheres, morenas e sorridentes, seminuas naqueles panos parcos e finos,  se exercitavam debaixo dum abrasador sol de fogo, fazendo alongamentos ou envolvidas num abraço de força e destreza, dentro dum círculo desenhado no chão, com a pele gotejada de suor que lhes conferia um brilho adamantino, atraente e formidável.
" Anda, bacante, é a tua vez". Percebi que se dirigiam a mim e atrevi-me a perguntar "Bacante? Porquê?"
" Ora mulher, branca e gorda é certo e seguro que não pertences ao culto de Artémis. Crês tu porventura conseguir finalizar a Heraia ? ". Riram todas. Afinal era mesmo engraçado que alguém sem preparação física visível se imaginasse sequer nos primeiros pés da Heraia... Se se obrigasse a atingir um estádio poderia até ter fim idêntico ao do valoroso Feidípedes, que engrossa agora o panteão dos glorificados pela morte magnífica. 

Afinal estávamos em Marathónas, caramba !

Embalada pelo conhecimento adquirido em muitas horas de conversa/estudo com a filha historiadora, atrevi-me a contrapor que de onde eu vinha, as mulheres eram fortes e resistentes e não corriam só a Heraia, corriam todos os seis sextos, corriam a Maratona como os homens, taco a taco, lado a lado, com a mesma vontade, o mesmo vigor e muitas vezes melhor classificação no podium. 
Fizeram-me calar logo, não fosse homem de atalaia ouvir tamanho sacrilégio e condenarem-me sem apelo nem agravo ao monte Taigeto.  " Mas isso do Taigeto não é só para deficientes?", perguntei. Há olhares que valem mil palavras. Os delas disseram tudo.
  Ripostei:" Se eu vivesse numa terra onde os homens brutalizam as mulheres, que se calam por  respeito e medo e os da religião fossem feios , porcos e maus, permitissem incestos violações e consanguinidades, fugiria a sete pés ou torna-me-ia eremita!!". Parei de imediato para pensar na ironia das palavras que proferira, que transbordavam falsidade por todas as entrelinhas... eu , a pregoar sobre o meu mundo de telhados de vidro... 
Sorri tristemente, encolhi os ombros e dei o braço à top-model que estava a meu lado:
" Vá, vamos beber qualquer coisa fresca, que eu ensino-vos sobre  lingerie sensual, dores de cabeça e de como fazer os homens pensar que são os donos da vontade."
O sol pôs-se , caiu a noite, surgiram fogueiras mil, rimos bebemos e adormecemos abraçadas como irmãs, filhas dum sangue antigo, espesso e tão poderoso que perdurará pela eternidade.



                                        

quinta-feira, 13 de março de 2014

Queirosiana

"Não se descuide de ser alegre - só a alegria dá alma e luz à Ironia, à Santa Ironia - que sem ela não é mais que uma amargura vazia." Eça de Queiroz



"O coração tem os seus «elans», 
mas a vida tem também os seus cerimoniais."


A Paz Causa as Impaciências do Desejo




Jantar alegremente numa horta,debaixo das parreiras,
 vendo correr a água das regas - chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, alumiados a cera,
 eram contentamentos que bastavam à burguesia cautelosa. Além disso, os tempos eram confusos e revolucionários:
 e nada torna o homem recolhido, aconchegado à lareira, simples e facilmente feliz - como a guerra.
 É a paz que, dando os vagares da imaginação - causa as impaciências do desejo. 


Eça de Queirós,





Fiquei radiante por poder partilhar com o Mundo algumas linhas que me chegaram em mãos , que tratam de resumir a verdadeira essência de "Os Maias" e que poderão ser de extrema relevância para quem não comungue da otarisse de almas que, como eu,  já folhearam por mais de quantos dedos uma mão tem as seiscentas e setenta e quatro páginas e meia da obra capital de um dos maiores, senão mesmo o maior autor português contemporâneo. 

Tenho que confessar a minha adicção pelos livros de Eça; é o primeiro passo dos doze que percorro até , não direi à cura total, mas até conseguir algum controle na compulsão que me arrasta diariamente até velhas, obscuras, tortuosas e sombrias prateleiras onde há sempre um calhamaço que me tenta e onde a fraqueza da carne e do espírito acabam por sucumbir derrotadas , uma e outra vez.
No programa dos doze passos que se resume em experienciar um despertar espiritual, fazer um inventário pessoal e reparar danos cometidos sob a influência do viciante, é importante impor a distância necessária ao auto-controle:

"A distância actua sobre a emoção exactamente como actua sobre o som.
 A mesma dura lei física rege desgraçadamente a acústica e a sensibilidade.
 É sempre em ambas o idêntico e tão racional princípio das ondulações,
 que vão decrescendo à maneira que se afastam do seu centro,
até que docemente se imobilizam e morrem:
se elas traziam um som que vinha vibrando – o som cala quando elas param:
 se traziam um terror que vinha tremendo – o terror finda quando elas findam."


Por me encontrar já a meio do caminho da recuperação - que isto dos caminhos nunca tem fim, pois que por cada passo em frente sempre acabamos por retroceder dois -  e por já  me ser permitida alguma leitura supervisionada pelo sponsor, coisa leve como resumos, o Borda d'Agua, a revista Caras, a Maria e alguns blogs mais pictóricos, achei por bem quinhoar convosco o meu percurso, para que através dele me vejam como a pessoa que fui, má, destrutiva, egoísta, vegetando diariamente de e para o vício, e possam dar a mão à  pessoa que hoje sou, boa , empreendedora, altruísta, risonha - não fora "O riso é a mais antiga e mais terrível forma de crítica"-  talvez mais onagra, mas consciente da minha consciência:


"A consciência nem todos têm a honra de a conhecer; a consciência é o que quer que seja de vago e de impalpável, de que nós devemos falar como duma figura diáfana de legenda antiga."


Desconstruindo outro notório aforismo , não sou artista, mas sou crítica : tenho análise e emoção... possuo também pensamento próprio, que é livre como só as borboletas o conseguem ser.



                                )

Agradeço a todos os Lencastre Queiroz, Queiroz,  Queiroz da Silva, Eça da Costa , Eça de Melo, de Eça e Queiroz , a autorização para uso de fotos e aforismos, e liberação dos direitos de autor.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Steel Magnolias

"Os homens de teu planeta cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e não encontram o que procuram... "Antoine de Saint-Exupéry



Terra

Ó Terra, amável mãe da Natureza! 
Fecunda em produções de imensos entes, 
Criadora das próvidas sementes 
Que abastam toda a tua redondeza! 
...
Tu rasgas do teu corpo as grossas veias 
E as cristalinas fontes de água pura 
Tens, para a nossa sede, sempre cheias. 

Tu, na vida e na morte, com ternura 
Amas os filhos teus, tu te recreias 
Em lhes dar, no teu seio, a sepultura. 


Francisco Joaquim Bingre





Sou filha da terra, mulher e mãe , que nasceu do sangue e sangue deu para a continuidade. Trago na minha herança genética mil alegrias e sofrimentos, incontáveis prazeres e milhares de lutas travadas por quem antes de mim escreveu no código vermelho da minha linhagem.  Sou uma tempestade de calmaria, um atroar surdo de palavras soltas , sou o meu alef, o meu mem e o meu tav da antiguidade dos dias.
Carrego comigo a força de quem pariu, perdeu e arrepiou caminho, amassando o pó ázimo com as lágrimas que chorou , com a secura e o alento que Brecht enunciou: 


"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."



Não preciso de palmas pela minha actuação, nem de louvores nem de dias que me mostrem quem eu sou. Conheço-me bem, sou mulher. 
Aprendi os valores com desvelo, porque apenas relembrei o que já comigo nasceu.
Sou o cálice da criação, a força de toda a paixão e se prenúncio de ameaça se abate sobre o meu fruto, não tenho medo de avançar a mão, seguro a lança do meu Pai, e luto.


                                

sábado, 8 de março de 2014

Zíp- A-Dee-Doo-Dah, Zip-A-Dee-A

"Toda a beleza é alegria que permanece." Keats



À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
 Não te curvas ao jugo dos tiranos.
 Não tens preço na terra dos humanos,
 Nem o tempo te rói.
 És a essência dos anos,
 O que vem e o que foi.
  És a carne dos deuses,
 O sorriso das pedras,
 E a candura do instinto.
 És aquele alimento
 De quem, farto de pão, anda faminto.
 És a graça da vida em toda a parte,
 Ou em arte,
 Ou em simples verdade.
 És o cravo vermelho,
 Ou a moça no espelho,
 Que depois de te ver se persuade.
 És um verso perfeito
 Que traz consigo a força do que diz.
 És o jeito
 Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
 És a beleza, enfim. És o teu nome.
 Um milagre, uma luz, uma harmonia,
 Uma linha sem traço...
 Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
 Tudo repousa em paz no teu regaço.



Miguel Torga




Ouvi-me cantar, baixinho e desafinada como só eu sei cantar. Sorri um sorriso rasgado, um daqueles que raramente uso e que guardo fechado a sete chaves, só para usar nos dias de sol. Caminhava bamboleando-me ao ritmo da melodia que trauteava, aos saltinhos como uma tonta, alheia e indiferente ao que pudesse pensar quem me visse passar naquele desalinho.
O pequeno rectângulo verde do tamanho dum guardanapo bordado a ponto de cruz cheirava a relva cortada onde despontavam pequenas orbes douradas, promessas de belas flores, que as abelhas rodeavam, cortejavam e sugavam num frenesi de zumbidos , num encantador bailado sensual.

O sol brilhava, com aquele brilho brilhante que só o sol tem e os jactos cortavam o azul límpido do céu com as suas imensas caudas brancas traçando uma teia de filamentos alvos, que fulgiam como prata sob a luz intensa  da tarde.

Ao fundo, serpenteando por entre os arbustos dos jardins via o Rio e mais além o mar, que reflectia aquele sol esplendoroso numa cor garça , surpreendentemente bela e sempre diferente.

A beleza , respirava-a doce e morna como os raios cintilantes que ternamente me acariciavam o rosto, quis gritar de prazer, mas o som não saiu, só um profundo suspiro de satisfação, por me sentir tão feliz.

Como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, foi sol de pouca dura, mas perdurou o suficiente para me aquecer o coração com o brilho da alegria que deixou para trás.


                             

Dos Pobres de Espírito

"Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida."António Lobo Antunes




Who killed Cock Robin?
I, said the Sparrow,
with my bow and arrow,
I killed Cock Robin.
Who saw him die?
I, said the Fly,
with my little eye,
I saw him die.
Who caught his blood?
I, said the Fish,
with my little dish,
I caught his blood.
Who'll make the shroud?
I, said the Beetle,
with my thread and needle,
I'll make the shroud.
Who'll dig his grave?
I, said the Owl,
with my pick and shovel,
I'll dig his grave.
Who'll be the parson?
I, said the Rook,
with my little book,
I'll be the parson.
Who'll be the clerk?
I, said the Lark,
if it's not in the dark,
I'll be the clerk.
Who'll carry the link?
I, said the Linnet,
I'll fetch it in a minute,
I'll carry the link.
Who'll be chief mourner?
I, said the Dove,
I mourn for my love,
I'll be chief mourner.
Who'll carry the coffin?
I, said the Kite,
if it's not through the night,
I'll carry the coffin.
Who'll bear the pall?
We, said the Wren,
both the cock and the hen,
We'll bear the pall.
Who'll sing a psalm?
I, said the Thrush,
as she sat on a bush,
I'll sing a psalm.
Who'll toll the bell?
I said the Bull,
because I can pull,
I'll toll the bell.
All the birds of the air
fell a-sighing and a-sobbing,
when they heard the bell toll
for poor Cock Robin.

( Nursery Rhyme)








Há muitas maneiras de morrer.
Há aquela, a mais conhecida, aquela de que todos ouvimos falar e da qual sabemos unicamente que acontecerá. Está escrito no passaporte que nos entregaram quando entrámos neste mundo, mas foram omissos na data e  por tal fazemos por não pensar na morte anunciada de que nada sabemos e apesar de vivermos toda a nossa vida nessa corda bamba, vivêmo-la todos os dias,dia após dia,  como se não houvesse amanhã.

Há outras mortes. Não é à toa que se diz morrer de mil e uma mortes matadas. Há mortes piores do que a própria morte, a real , a autêntica, a definitiva.
Há a morte intelectual, que acontece quando morremos para os valores morais que sempre nos guiaram, e renascemos um ser abjecto, uma sombra de nós próprios, um monstro de Frankenstein mal remendado com pedaços de personalidades castiças que apanhámos aqui e ali, e que no fundo não compõem nada, não formam ninguém com carácter nem vontade própria, apenas seres amorfos com o espírito envenenado de promessas carnais,  que perderam o rumo e não conseguem entender o seu lugar no mundo.
Vulneráveis e vorazes como  crianças famintas numa loja de doces, não conseguiremos parar, comeremos com loucura, lambuzando-nos e enchendo-nos alarvemente até rebentar.

Morreremos de novo, talvez, aquela morte que dói mais do que todas as mortes juntas, que é a morte do esquecimento, a do  abandono. Renasceremos seguramente conscientes que ultrapassámos os limites da nossa audacidade e que o preço que temos que pagar é o do descrédito, duro, pesado, solitário. Aí procuramos os amigos, aqueles que nos fizeram felizes na nossa loucura e constatamos que um a um foram saindo de mansinho, porque nos tornámos uma ambiguidade titubeante com a ideia megalómana duma coexistência pacífica entre deus e o diabo.
Ninguém abraça voluntariamente a loucura a não ser em bando, num culto de demência irreal, de devassidão colectiva que envolve os fracos e reprimidos naquele abraço de prazer tão difícil de abandonar.

Quando o engenho roda vertiginosamente, ferido de muitos golpes e nos tentamos apoiar nas paredes da fortaleza que construímos e  acreditamos inviolável, verificamos que desabam agora em nosso redor e ocorre-nos constatar que morremos  outra vez.




                                          

quinta-feira, 6 de março de 2014

Where the truth ...lies...

“Vivemos numa sociedade de vitimização, onde as pessoas se sentem bem mais à vontade sendo vitimizadas do que erguendo-se sozinhas.” ―Marilyn Manson




A auto-vitimização e desculpabilização como reflexo da desresponsabilização individual 


 Uma pessoa simpática e afável, mas com uma deflação de auto-estima proporcional a uma autocentração e um egoísmo quase patológicos, elege sempre os outros como bodes expiatórios dos seus problemas, das suas próprias atitudes menos próprias, da sua irresponsabilidade pessoal, transformada, ulteriormente, em atitudes depressivas de auto-desculpabilização e vitimização. (…) Isabel Metello.









Tens a mocidade a teu favor, a beleza e o viço  que a acompanham. És inteligente, agradável e competente nas funções que realizas com inusitada responsabilidade. Falta-te carácter e humildade para aceitares as tuas escolhas e te afirmares como pessoa forte e independente que poderás vir a ser, se aceitares as tuas falhas.
É que sabes,  os líderes não se vitimizam, não procuram palavras de conforto nem de consolação para lhes acarinharem o ego, para chamarem a si atenção e simpatia. 
A vida é feita de alegrias e tristezas , que concorrem paralelamente no mesmo plano , tentando continuamente suplantar-se. É na força interior com que amorteces os embates duros e pertinazes que recorrentemente te poderão assaltar, que fundamentas a integridade da tua consciência.
Lembra-te que as horas correm, os dias passam e os anos veloz e inexoravelmente vão deixando as suas marcas. Agarra as oportunidades e constrói o teu futuro sobre pedra basilar em solo sólido. Nunca te esqueças que a mentira, a falsidade e a arrogância andam sempre de mãos dadas e que são as tuas escolhas que te definem. Escolhe bem. Pensa antes de escolheres. Reflecte enquanto pensas, pára para reflectires. Ajuda o teu ego a navegar pelo mar revolto da hierarquia e da autoridade; podes odiar a ondulação, mas terás que a navegar , por isso aprende a usar algo  que acredito não te seja familiar: chama-se bom senso e poderá ser o teu melhor amigo, se o deixares caminhar lado a lado com o teu ego, todos os dias, horas, minutos e segundos da tua vida.
E nunca te esqueças do importante axioma que diz que, por pior que te possas sentir, há com certeza alguém que estará  em piores circunstâncias, que encarará a vida com determinação e, quem sabe, a pegará pelos cornos e a dominará com  um sorriso nos lábios.


                              

terça-feira, 4 de março de 2014

Let's go fly a kite

"Os antigos tinham razão em pintar anjos nos tectos dos quartos. Parte da vida passa-se a olhar para eles."- Miguel Torga



"Early each day to the steps of St. Paul's, the little old bird woman comes...
 In her own special way to the people she calls, come buy my bags full of crumbs.
 Come feed the little birds, show them you care, and you'll be glad if you do.
 Their young ones are hungry, their nests are so bare; all it takes is tuppence from you.
 Feed the birds, tuppence a bag. Tuppence, tuppence, tuppence a bag...
 Feed the birds, that's what she cries, while overhead her birds fill the skies.
All around the cathedral the saints and apostles look down as she sells her wares.
 Although you can't see it, you know they are smiling each time someone shows that he cares.
Though her words are simple and few, listen, listen, she's calling to you.
 Feed the birds, tuppence a bag. Tuppence, tuppence, tuppence a bag.
 Though her words are simple and few, listen, listen she's calling to you.
Feed the birds, tuppence a bag. Tuppence, tuppence, tuppence a bag. "



 P.L. Travers







Aquela mão enorme, quente, carinhosa e gentil prende a minha, minúscula e vibrante de excitação, enquanto a voz  me fala, serena, e me sossega, me acalma o juízo alvoroçado , a ansiedade, a expectativa, a ilusão do deslumbramento.
Vou ao cinema ! Vou sonhar o sonho de quem contou uma história e saborear ávida a doçura da arte de quem  a gravou em celuloide.
Vou com o Pai! Tão novo, tão bonito... sorridente, com a poupa escura reluzente de brilhantina,  tão excitado e expectante quanto os meus quase 8 anos.
Vou ao Paris ! Vai ser fantástico ver a Mary Poppins! O Pai diz que mistura actores de carne e osso com desenhos animados e que eu tenho que estar muito quietinha e com muita atenção para perceber tudo. O senhor da lanterninha leva-nos aos nossos lugares e o Pai põe-lhe uma moeda na mão e agradece. Está escuro, mas ouvem-se os risos e as vozes excitadas de outras crianças que, como eu, não conseguem conter o frenesi do corpo que o espírito não conseguiu sossegar.
Assim que as cortinas abriram e a primeira imagem se materializou como que por encanto no ecrã prateado, deixei este mundo. Foram duas horas e meia de magia pelos telhados de Londres, pelas ruas pelos parques, foi  puro encantamento no trilho da ilusão criada pela fantástica fábrica de sonhos que nos deixa viver tantas outras vidas para além daquela que nos deram para viver.
Ontem vi os Oscars. Mais do que ver alta costura e gente bonita, mais do que ver as mesmas caras , as mesmas poses, a mesma mímica , ouvi.
 Ouvi a música que em plano de fundo brincou com a minha memória e me levou direitinha para aquela cadeira do Cinema Paris, onde me perdi na fantasia, sentada ao lado da pessoa mais importante da minha vida que sorria para mim do alto do seu metro e setenta, e que continua a sorrir lá do cimo, na atmosfera, lá, onde o ar é puro e onde voam os papagaios de papel daqueles dias felizes que deram asas à minha  infância.

                                 

sábado, 1 de março de 2014

Carne Vale

"A carne é cinza, a alma é chama." Victor Hugo


A Carne é Fraca

Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas acusações mais longe, contra o Celibato e a Igreja:
 porque proibia ela aos seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que até têm os animais? 
Quem imagina que desde que um velho bispo diz - serás casto - a um homem novo e forte, o seu sangue vai subitamente esfriar-se?
 E que uma palavra latina - accedo - dita a tremer pelo seminarista assustado, será o bastante para conter para sempre a rebelião formidável do corpo?

 E quem inventou isso? Um concílio de bispos decrépitos, vindos do fundo dos seus claustros, da paz das suas escolas, mirrados como pergaminhos, inúteis como eunucos! Que sabiam eles da Natureza e das suas tentações?
 Que viessem ali duas, três horas para o pé da Ameliazinha, e veriam, sob a sua capa de santidade, começar a revoltar-se-lhes o desejo! Tudo se ilude e se evita, menos o amor! E se ele é fatal, porque impediram então que o padre o sinta, o realize com pureza e com dignidade? 
É melhor talvez que o vá procurar pelas vielas obscenas! 
- Porque a carne é fraca!  

(Eça de Queiroz)








Desde que das trevas se fez luz e foram os homens designados  dominantes sobre todas as coisas da terra,  que  esses mesmos  seres perfeitos, concebidos à imagem e semelhança do criador, cometem todo o tipo de atrocidades às quais se convencionou chamar pecados.
 Não são os pecados dos homens fruto do fruto da macieira nem de vis tentações rastejantes, mas tão somente  produto dos desejos e caprichos da própria carne.
 A carne anseia, o homem age , o mundo expia.
Purgar a brutalidade animal que a carne encerra durante três sóis e três luas, era tradição bárbara, milenar e eficiente. Personificavas as bestas, como elas urravas e te movias e exudavas todas as secreções que o teu corpo selvagem de volúpia e crueldade tinha para dar. Esgotavas os sete pecados mortais em segundos e limpavas os humores, as ânsias, as vontades, renascias das cinzas das trevas, regressavas à luz puro e são.
 Depois era Carne Vale, o adeus à carne, o tempo de recolhimento e reflexão. Era assim a tradição pagã. Foi assim nos primórdios da cristandade. Não o é mais.
 O cheiro a sangue exacerba a criatividade e o homem moderno é criativo e não quer purgar o espírito com receio que a sua identidade se dissolva e escorra pútrida pelos poros, exorcizada e liberta do invólucro carnal de maldade que a prendera e ao qual a máscara não protege mais, e se mostre no esplendor cru do selvagem que sempre foi, feito osso e carne, que fraca e  vulnerável,  o subjugará até à perenidade.