sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Da Noite

"A noite é mais pura do que o dia, é melhor para pensar, amar e sonhar. À noite tudo é mais intenso, mais verdadeiro. O eco das palavras que foram ditas durante o dia assume um significado novo e mais profundo."Elie Wiesel


A Noite Desce


Como pálpebras roxas que tombassem
 Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
 A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
 Que os meus olhos tristíssimos fechassem!
 Assim mãos de bondade me beijassem!
 Assim me adormecessem! Caridosas
 Em braçados de lírios, de mimosas,
 No crepúsculo que desce me enterrassem!
 A noite em sombra e fumo se desfaz...
 Perfume de baunilha ou de lilás,
 A noite põe embriagada, louca!
 E a noite vai descendo, sempre calma...
 Meu doce Amor tu beijas a minh'alma
 Beijando nesta hora a minha boca!



Florbela Espanca




Gosto da noite.
O silencio que trás consigo é um bálsamo para ouvidos transbordantes de barulhos, de vozes, de gritos.
Gosto da noite.
A noite faz-me leve e dissimulada, quase ubíqua, materializando-me aqui e ali como uma assombração por entre perplexas exclamações de susto.
Gosto da noite.
No xadrez da Minha Guerra, num tabuleiro sem Rei nem Rainha, á noite, eu sou o Bispo, sou o Cavalo, sou a Torre , sou também peão, porque afinal quem não é o peão do destino que traça, escravo do seu livre arbítrio, servo das suas vontades ?
Gosto da noite.
Os rumores de arrulho dos pássaros noturnos, os suaves bater de asas , os sussurros das folhas nos ramos das árvores, brandos, murmurantes, arrepiantes.
Gosto da noite
As cores que a cor da noite confere ao colorido, tão incolor, tão monocromático, tão cheio de promessas de descobertas, de dramas, de paixões.
Gosto da noite
A noite deixa-me ser eu, despida regras e de juízos, em paz com a eterna luta que travo com o meu intimo na qual nenhum dos contentores sairá vitorioso.
Gosto da noite.
O negrume liberta o meu lado mais escuro e deixa a besta sair , sentir o cheiro do breu, sentir a frescura do chão e realizar que afinal é uma quimera urbana, dócil e gasta pelo tempo que passou.

                             

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Sangue Oculto

"Enxugar uma só lágrima merece mais honesta fama, do que verter mares de sangue". Lord Byron





... A nossa vida é truculenta:

nasce-se com sangue

e com sangue corta-se a união

que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.

Clarice Lispector










Redacção



Diz-se que o sangue fala mais alto.
O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.
Diz-se que tudo é uma questão de sangue.
O meu é um banalíssimo ORh+,  nem sequer o  factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.
Diz-se que o sangue lava a honra.
Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida...
Diz-se que sonhar com sangue é desgosto
Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.
Diz-se "Sangue do meu sangue"
Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.

É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, semsaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte. 

Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que  exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da  imaginação que  irriga constantemente, incansável e diligente.

Há quem tenha sangue azul;  o Pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.
Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.  
Não faz mal, fica meu e  só meu e mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados neste corpo sem poder sair.


It Sucks....




                                     

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Da Idade Média


"Não mudamos com a idade na estrutura do que somos. Apenas, como na música, somo-lo noutro tom." Vergílio Ferreira


Toma lá Cinco!

 Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
 Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!
 Um dente que estava são e agora não,
 Um cabelo que ainda ontem preto era,
 Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração.
 E na cara uma ruga que não espera, que não espera...
 No andar de cima, uma nova criança
 Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
 Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
 Este ano talvez venhas a ser o que não és...
 Talvez sejas de enredos fácil presa,
 Eterno marido, amante de um só dia...
 Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
 Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...
 Talvez lances de amor um foguetão sincero
 Para algum coração a milhões de anos-dor
 Ou desesperado te resolvas por um mero
 Tiro na boca, mas de alcance maior...
 Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
 Errar a vida e não errar a pontaria...
 Talvez te deixes por uma vez de fitas,
 De versos de mau hálito e mau sestro,
 E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
 (Como mulheres são mais fiéis, de resto...)


Alexandre O'Neill







E se, de repente, um tipo que conheces há trinta e tal anos, inteligente, teimoso como uma mula, pacato, casado e pai de filhos, lhe der na cabeça de andar a armar aos cucos com as piquenas no serviço ? Isto é Impulse ou crise de meia idade ?
Passe a publicidade ao Impulse  (e ao comercial do meu tempo), mas dou por mim a ouvir dissertações filosóficas de como se pode falar das coisas da vida - abelhinhas, florzinhas , sei lá - com as piquenas mais novas, algumas delas universitárias e com alguma bagagem cultural, com todo o respeito e consideração pelas suas pessoas e individualidades,  e sem sequer beliscar o sagrado laço do matrimónio.... É que parece que dá à vida um sabor a novidade, a expectativa... faz a adrenalina pular que nem um cavalo selvagem, em suma, injecta um shot de juventude que flui rápida e  ardentemente até aos vasos capilares.
Eu que ando sempre a 1000 à hora e ainda as coisas vêm no ar, já eu as estou a agarrar, apanhei um ténue cheiro a esturro, que desejo ardentemente  que fique pelo que presentemente é , ou seja pouco mais do que nada. O mau é que pouco mais do que nada  é sempre alguma coisa, até pode ser só uma nano-coisa... Só o tempo, esse  tirano, esse carcereiro, esse malandro que nos acompanha vida fora e ajuda a tirar as ilações necessárias ao nosso progresso pelo caminho do porvir, só ele poderá mais tarde contar o desenlace final da novela rocambolesca que tece a sua teia pacientemente, fio a fio.

Não é propriamente um filme novo, é mais um remake, reescrito com estrutura melhorada e novos protagonistas que brilham como revelações em papeis feitos à medida. Pode até ser que a crítica lhes seja favorável...
Não estou a armar em Santinha do Pau Oco, ou chamar o sexo por um nome mirabolante, corar e fazer dele  tabu. Longe de mim, que sou a mais perversa brejeira que conheço e que falo tudo o que é português vernáculo com a mesma desenvoltura, pontuação , respirações e postura com que recito os clássicos.
Ainda hoje lhes falei n "O Perfume" do Patrick Suskind, e disse ao meu amigo, que desejo sinceramente que esta coisa não lhe traga fim idêntico ao do Jean-Baptiste Grenouille. 
Ah, a Primavera e as loucuras que põe na cabeça dos homens bons e  de boa vontade !


                         

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Milhentos

"Há a coragem física que se chama robustez, e há a coragem moral que se chama fortaleza. De uma a outra vai a distância de um homem." - Vergílio Ferreira


Aos Vencedores


 Visto que tudo passa e as épicas memorias
 Dos fortes, dos heroes, se vão cada vez mais,
 Que tudo é luto e pó! ó vós que triumphaes
 Não turbeis a razão nos vinhos das vãas glorias!
 Não ergais alto a taça, á hora dos gemidos,
 Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos;
 E não façaes jámais pastar vossos cavallos
 Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!
 Não celebreis jámais as festas dos noivados,
 Não encontreis na volta os lugubres cortejos!
 - E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos
 Não respondam da praça os ais dos fusilados!
 Sim! - se venceste emfim, folgae todas as horas,
 Mas deixae lastimar-se os orphãos, as amantes,
 Nem façaes, junto a nós, altivos, triumphantes,
 Pelas ruas demais tinir vossas esporas!
 Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã! -
 - E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,
 Regámos já demais a terra--ó gloriosos
 Vencedores! talvez, - vencidos d'amanhã!



António Gomes Leal






É tão aborrecido não conseguir posição para dormir quando se tem uma dor incómoda... as voltas e reviravoltas que já dei... o corpo que normalmente se defende descobrindo uma posição de conforto, hoje não fez ainda a devida pesquisa.
Tento sentar-me, espantada com a dureza do colchão que custou uma pequena fortuna para me proporcionar repouso e qualidade no sono, quando realizo  que estou deitada numa enxerga no chão, no meio do escuro, rodeada por panelas de ferro e pequenas elevações no terreno,  "-sepulturas"- pensei,  provavelmente pagãs, de onde sobressaíam paus com cabeças espetadas. Arrepiada de horror levantei-me e sem saber bem para onde me virar , tropeço num dos montes e caio estatelada no chão bem em cima do que estava ao lado. Depressa me apercebo de que aquilo que tomei por campas, eram homens deitados sobre um escudo redondo, embrulhados numa capa ,  uma espada pesada ao alcance da mão e uma lança cravada na terra, onde despontava pesado elmo de ferro. Junto á minha cara estavam uns pés que calçavam sandálias por onde subiam umas pernas fortes, musculadas, bronzeadas até onde a tanga e a luz fraca dos muitos borralhos de madeira deixavam ver. O meu olhar continuou a subir, deslizante, sinuoso e maroto até encontrar uns olhos escuros e brilhantes como duas estrelas só ofuscadas pela alvura do sorriso que me encantou e que revelavam uma face barbuda, tisnada e imensamente bela.
"Olha, pensei eu, aquela cara e aquele six-pack... só pode ser o Gerard Buttler, pah!"
Não podia estar mais enganada ! Naquele breu de Nix poderoso e belo como uma estátua grega ( ...) estava Leónidas, o real deal, e não um actor fanhoso de meia tigela com os abdominais pintados pelos técnicos dos FX. Sorriu, derreti-me. Ajudou-me a erguer e falou com a mais bela, modulada e quente voz que eu jamais ouvira : " Vá mulher, vai preparar o mata-bicho, porque esta noite jantaremos no Inferno"... ciente de que se não estava a referir ao Hell's Kitchen lá do sítio, olhei para os tachos resignada com a minha sorte. Acordo em Termopilae rodeada de gajos bons e mandam-me cozinhar... nem sei porque me espantei, é a história da minha vida.
Duas horas á volta dos tachos e já tinha preparado o suficiente para alimentar substancialmente os 300 assim que acordassem, quando Leónidas me interpela zangado e me pergunta se os quero matar à fome, que o seu exército não estava a seguir nenhuma dieta da moda.
 Retorqui ter mais do que suficiente para sustento dos 300... "Quais 300 ? Não sei que livros leste ou que versão te contaram, mas somos 300 Espartanos, 700 Téspios, 400 Tebanos e mais algumas centenas de soldados menores , por isso mexe lá as mãozinhas e faz mais comida que homens que vão para a guerra têm que estar nutridos e bem dispostos"  olhou para cima e continuou " Hemera vai oferecer-nos um bom dia para morrer. Olha o que Caos criou ao teu redor, pede inspiração e força a Ares e avança firme e convicta que depois do Tártaro subirás à glória do Éter e serás imortal"...  Não me convenceu nem um bocadinho. Isso de morrer para ser imortal é ideia que não se me afigura muito atraente, mas faz todo o sentido num contexto histórico e artístico, pois é certo e sabido que só somos realmente valorizados no nosso mester depois de privados do alento que é viver.
Abeirei-me do desfiladeiro e vi o formigueiro humano e negro do exército Persa, lá ao fundo, à espera que Efialtes, o traidor, os encaminhe na perfídia. Fiquei a magicar se Xerxes himself seria melhor que o Rodrigo Santoro... ná!... como é que pode ? um tipo que faz permanente na barba !?
 Dá muito que pensar, saber-me no meio da 2ª Guerra Médica e que mais de mil anos depois os médicos ainda andem em guerrinhas... Acenei-lhes conforme desciam o desfiladeiro, ao encontro do ponto sem retorno, belos como deuses gregos ( ando a repetir-me um bocado, mas enfim...).
Deixei rolar uma lágrima teimosa, lavei a loiça, enrolei-me na capa e deitei-me na enxerga. Sabia que iria acordar no meu conforto e senti uma pontinha de inveja daqueles homens bravos e encantadores que tratavam por tu o destino e caminhavam ao seu encontro com um  resplandecente sorriso nos  lábios. 

                                                                                                                                                                                                 
                                   

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Everybody Hurts...

"Em muitas pessoas a palavra antecede o pensamento, sabem apenas o que pensam depois de terem ouvido o que dizem." Gustave Le Bon


Exactidão

Levam as frases sentido 
que uma cadência lhes dá: 
sentido do não-vivido 
a que fica reduzido 
o que, escolhido, não há. 
Do imo do poder ser, 
onde o não-sido se arrasta, 
ouvi cadências crescer: 
vaga música de ter, 
na vida, quanto não basta - 
quanto um sentido se entenda, 
que nem verdade ou mentira. 
(Que o que dele se aprenda 
é como cobarde venda 
para que a luz nos não fira. 
Luz sem luz, brilho da treva 
que tudo no fundo é; 
e a certeza que se eleva 
do fundo da própria treva, 
de exacta que seja, é.) 
Levam justiça consigo 
as palavras que dissermos. 
Por quanto sentido antigo, 
nelas ficou por castigo 
o futuro que tivermos. 
Levam as frases sentido 
que uma cadência lhes dá. 
É justo, injusto - o escolhido? 
Como quereis que, vivido, 
ele não seja o que será? 

Jorge de Sena





                                                                         (Jezebel 1938)


Não há mágoa maior do que a de magoar alguém, alguém que sente como nós sentimos, alguém que nos quer como lhe queremos.
É a tragédia de quem não pensa no que fala, que fala só por falar, inflamado por um calor que não é seu, que ignóbil e traiçoeiro se insinua no momento certo e faz cair o véu da névoa cor de sangue, esse que depois de lhe tomado o acre odor, escancara as portas do inferno e verborreia  vil e desenfreado até se esgotar, até se esvair em veneno e infâmia, até ser tarde demais.
Os olhos então coruscantes e mortíferos, ensombram-se, apagam-se, pesam como o chumbo negro das vis palavras que ilustraram e não se despegam do chão. 
A boca abre e fecha, como peixe fora de água sem respiração nem som, porque sabe que falou de mais, que  não encontra panaceia nas palavras. O coração, esse parou na altura em que frio, cegou para a realidade.
O ar que alimentou entrecortado o fogo da loquacidade exagerada e abjecta, chega em pequenos sorvos, como a calmaria chega depois da tempestade. Tudo ao redor é normal, mas ao mesmo tempo diferente e distorcido pelo olhar da vergonha, pela humilhação que infligiste a ti próprio por culpa tua.
Nada mais te resta do que expiar os teus exageros e esperar. Chora se chorar te faz mais leve e menos vacilante em proferir a única palavra que calaste e era imperativo falar.


             

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

State of Wonder

"Não há, na arte, nem passado nem futuro. A arte que não estiver no presente jamais será arte." Pablo Picasso





Carta ao Mar


Deixa escrever-te, verde mar antigo, 
Largo Oceano, velho deus limoso, 
Coração sempre lyrico, choroso, 
E terno visionario, meu amigo! 

Das bandas do poente lamentoso 
Quando o vermelho sol vae ter comtigo, 
- Nada é mais grande, nobre e doloroso, 
Do que tu, - vasto e humido jazigo! 

Nada é mais triste, tragico e profundo! 
Ninguem te vence ou te venceu no mundo!... 
Mas tambem, quem te poude consollar?! 

Tu és Força, Arte, Amor, por excellencia! - 
E, comtudo, ouve-o aqui, em confidencia; 
- A Musica é mais triste inda que o Mar! 

António Gomes Leal












Chego ofegante  porque o tempo é escasso, e com uma mão seguro a capa fria do crepúsculo que tudo de cinzento cobre, tinge e  ensombra ; corro apressada para a pintura.
É sempre o mesmo quadro , exposto na galeria de luz que a Natureza abriu à minha porta, mas o artista é pródigo em minúcia, em pormenores de texturas e pinceladas de cor. Muda a cada golpe de vento, a cada queda de chuva, a cada dança do sol, a cada forma de nuvem,  a cada onda do mar. Muda a cada mirada minha, muda a cada segundo que passa.
Em dias como este, sinto-me feliz e privilegiada por me ser permitida a contemplação do mais puro encanto de todos, a beleza do momento em que o céu toca a terra e o mar, antes que o dia dê lugar à noite e as estrelas se coloquem como músicos numa orquestra e se  acendam fulgurantes, dirigidas com mestria por uma lua áurea, irradiante e misteriosa, tocando as mais bela sinfonia jamais ouvida, a música do silêncio, cantada pelo coro mudo da paz.
Perco-me na contemplação, fecho os olhos e sinto a calma em mim.

Assalta-me amiúde  o triste pensamento de  que, como todos os grandes artistas, a Natureza , o artista maior que a todos presenteia e eleva com subtil e maravilhoso talento, só terá verdadeiro reconhecimento quando deixar de existir, quando procurarmos em vão a sua dádiva, a que com ela perecerá. Só então, no dia em que todos os nossos sentidos deixarem de fazer qualquer sentido, a marabunta humana realizará a desdita que trouxe a si por mão própria.


E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo



                                   


                              (Pedaços de Insta-D-Ram e Fotos do Casulo em 16/02/2014, por MDRoque )

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Senhora Má

"Nada é bom ou mau se não for por comparação." Thomas Fuller




Génio do Mal


Gostavas de tragar o universo inteiro, 
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro, 
Para se exercitar no jogo singular, 
Por dia um coração precisa devorar. 
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras 
Das barracas de feira, e prendem como garras; 
Usam com insolência os filtros infernais, 
Levando a perdição às almas dos mortais. 

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo! 
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo 
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade? 
Nenhum espelho há que te mostre a verdade? 
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto. 
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto 
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado, 
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! — 
Vai recorrer a ti para um génio formar? 

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.


Charles Baudelaire





O que é realmente ser uma boa pessoa ?
Eu acredito no meu intimo que sou uma pessoa boa, o que indubitavelmente fará de mim uma boa pessoa.
Obviamente estabeleci a minha nemesis como termo de comparação e não tenho qualquer sombra de dúvida , por mais ínfima que seja, de que ganho "aos pontos" , se é que comparação possa ser feita.

Adaptando a velha frase de Lincoln, pode-se agradar a todos por algum tempo e a alguns o tempo todo, mas não é possível agradar  a todos todo o tempo. É nessa altura que se inicia a bestificação do indivíduo, outrora uma pessoa aceitável, até com laivos de boa pessoa, e se desconstrói na hidra de Lerna, na Medusa ou simplesmente na Senhora Má, que quando chega põe todos em sentido, pois qual guarda prisional de Buchenwald ou Auschwitz, acredita no Arbeit Macht Frei, e tem o poder de mandar queimar quem não lhe agrada, em suma a verdadeira essência de tudo quanto é o mais puro mal.
Convencendo-me de que Da Vinci tem razão quanto aos paus , às pedras e às palavras, preparo-me para fazer o meu trabalho o melhor que sei e posso, e porque afinal é disso que se trata e não dum concurso de popularidade, creio que não me vou sair mal.
Afinal Ulisses enfrentou Cila e Caribdis e foi sobre ele que o cego escreveu uma epopeia.



                              

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A Luz

"O sorriso é o arco-íris do rosto." Jean Commerson




Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas 
aves que são os segredos da vida 
o que quer que cantem é melhor do que conhecer 
e se os homens não as ouvem estão velhos 

que o meu pensamento caminhe pelo faminto 
e destemido e sedento e servil 
e mesmo que seja domingo que eu me engane 
pois sempre que os homens têm razão não são jovens 

e que eu não faça nada de útil 
e te ame muito mais do que verdadeiramente 
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse 
chamar a si todo o céu com um sorriso 


E. E. Cummings






Olhou para mim e sorriu. O sorriso veio do nada, espontâneo, maravilhoso. Tinha tantas saudades daquele sorriso ...  dentre os milhares de sorrisos com que me brinda todos os dias, aquele é diferente, único, deslumbrante e raro.
Não é apenas uma mera expressão de felicidade no rosto enrugado, é algo que lhe vem de dentro, que lhe transmite uma carga imensa de paz e ternura, que lhe confere aquele brilho colossal, aquela luz que só se  encontra em sóis que irradiam nas galáxias do infinito.
Fiquei apensa daquele sorriso, imóvel, como se quisesse guardá-lo  assim, sempre belo, a sorrir-me aquele sorriso de menino todos os dias do resto das nossas vidas.
Hoje pode chover, trovejar, ventar vendavais de ar em fúria, hoje pode até escurecer o céu de breu, que não vou temer a cólera das trevas, porque hoje eu vi a luz, a luz límpida e cintilante daquele sorriso que me acariciou e me fez serena e feliz. 


                               

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Voz és tu

"Tudo se torna um pouco diferente assim que é pronunciado em voz alta." Hermann Hesse




Voz Interior

Embebido n'um sonho doloroso, 
Que atravessam fantásticos clarões, 
Tropeçando n'um povo de visões, 
Se agita meu pensar tumultuoso... 

Com um bramir de mar tempestuoso 
Que até aos céus arroja os seus cachões, 
Através d'uma luz de exalações, 
Rodeia-me o Universo monstruoso... 

Um ai sem termo, um trágico gemido 
Ecoa sem cessar ao meu ouvido, 
Com horrível, monótono vaivém... 

Só no meu coração, que sondo e meço, 
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço, 
Em segredo protesta e afirma o Bem! 

Antero de Quental








Numa união já pluri- decagenária, nunca nos passou em branco este dia de Fevereiro , somente pela simbologia que acarreta. Sempre nos bastou um afago, um abraço, por vezes uma flor e o "Olá namorado" do costume, que sempre nos fez sorrir.
As pessoas antigas são difíceis na compreensão dos modernismos, é um facto... Talvez por isso não  compreenda toda a máquina comercial e publicitária, que se veio montando ao redor desta data, matando-lhe o simbolismo, envenenando-lhe o romantismo, destruindo-lhe o significado. Tornaram-no praticamente no dia do serviço militar obrigatório do romantismo mundial. O dia em que o homem demonstra materialmente o quanto bem quer à sua amásia, retribuindo obrigatoriamente a amásia com a melhor demonstração de amor e carinho que conseguir encontrar disponível no mercado.

 Um dia.

Acontece uma vez por ano. Nos restantes dias podem ser cão e gato, não tem importância, porque em Fevereiro remenda-se a paixão, conserta-se o desejo, repara-se o amor que não teve voz, que se calou o ano inteiro e que irrompe súbito e maravilhoso no dia de S. Valentim.
Se muitos não serão o caso, demasiadas serão a correspondência exacta.
A primeira manifestação do ser humano é o seu choro quando nasce. Quando sai do conforto das entranhas da mãe para o malestar do mundo que o recebe de braços abertos, grita de desconforto e desespero, protesta do único modo possível, faz ouvir bem alto a sua voz.
Então onde está a voz que gritou o advento do ser que nasceu ? Porque a guarda ? Porque a esconde ? Porque não murmura, não fala, não grita o que sente sempre que sente e não só uma vez por ano?
Porque não projecta a voz interior em sons, em fonemas em palavras que exprimem sentires ?
O medo, a vergonha, a intolerância, não podem aprisionar a voz, nem ameaças ou angustias emudecê-la.
Diz um velho ditado que "Falar é fácil" ... como pode ser fácil , se parece de extrema dificuldade duas pessoas que têm voz e falam a mesma língua, conseguirem entender-se ?

    Libera vox   



                                 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Rocket Cat

"O menor de todo os felinos é uma obra de arte." Leonardo da Vinci



The Naming Of Cats

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey--
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter--
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum-
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover--
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name

T.S. Elliot





Fez uma Semana. 
Passaram mais de 7 dias desde que saímos, debaixo dum céu desabado em água gélida, com um vento desconcertante e enganador, que não nos deixava adivinhar para que lado virar.
Tínhamos perdido o Sam num piscar de olhos, num pick a boo do maldito acaso que lhe tocou com mão funesta.O Dean tornara-se-se em horas numa sombra errante que miava desesperos de solidão e saudade.
Decidimos assim. Não substituir o insubstituível, mas amenizar a dor, todas as dores.
Ela viu-nos e quis-nos. Chamámos-lhe Sally, e trouxémo-la para casa, para o Dean, para nós, para readquirirmos alguma normalidade.
Tomou tudo de assalto. 
Como diria António Gedeão "Bichinho alacre e sedento... num perpétuo movimento", não para um segundo quieta, brinca, corre, espevita o anafado e pachorrento Dean, que já nem tempo tem para se lembrar das  recentes tristezas. É energia pura, parece alimentada a combustível de foguetão, cria um pé de vento em segundos de rebuliço.
 É a Sally e trouxe alguma agitação e um pouco de magia para dentro de casa. Se era imperativo reagir, mais reacção não encontraríamos !



                              


Mágicos, ambos





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Back to School


"A primeira fase do saber, é amar os nossos professores." Erasmo




Nurse's Song

When the voices of children are heard on the green,
And laughing is heard on the hill,
My heart is at rest within my breast,
And everything else is still.
"Then come home, my children, the sun is gone down,
And the dews of night arise;
Come, come, leave off play, and let us away,
Till the morning appears in the skies."
"No, no, let us play, for it is yet day,
And we cannot go to sleep;
Besides, in the sky the little birds fly,
And the hills are all covered with sheep."
"Well, well, go and play till the light fades away,
And then go home to bed."
The little ones leaped, and shouted, and laughed,
And all the hills echoed.

W.B.






Mais um dia que amanhece chuvoso e triste. Este Inverno tem chorado todas as mágoas da sua vida e da vida de outros invernos que antes dele se limitaram a ser cortantemente frios e ventosos.
Pela janela embaciada, aceno à minha mulherzinha que caminha debaixo de chuva apertando o passo, como se fosse possível com a sua aceleração escapar ao aguaceiro. Obrigações de estudante que toma sempre muito a sério. Este será o último ano, queira Deus e estude ela.
Lembro-me dos meus tempos de lente aplicada. Nunca fui uma estudante portentosa como o Mano, que era raro estudar muito, aprendia por osmose, ria eu. Bons resultados comigo era diferente, obrigava a muitas horas de estudo, muitos apontamentos, muitos livros. Só os estrangeirismos me pareciam  naturalmente fáceis , sendo  óbvia  a escolha de área.
 Confesso que fiquei desapontada quando vi a professora de Inglês. Baixa, magra e esquálida, com uma cabeça levemente desproporcionada onde pontuavam uns enormes e atentos olhos escuros, a Professora R não correspondia minimamente à minha ideia duma professora de línguas. Pior foi ouvir-lhe o tom tão pouco britânico com que fazia questão de se pronunciar , sempre em inglês. Detestei-a no momento em que nos "anglofonou" os nomes própriops e nos chamava aquelas coisas sem sentido algum.
Detestei a sua maneira de ensinar, os testes que deu, as dezenas de livros que nos obrigou a ler na língua materna do autor, a sua rigidez e intransigência, os poemas que tínhamos que decorar diariamente... francamente acho que detestei aqueles cinco anos de Inglês que tive com ela, tediosos, sufocantes, cargosos, exigentes.
Passadas décadas desde a minha última aula com a Professora R, olhando em retrospectiva tudo o que contrariada com ela aprendi, recordo a sua imagem com um sorriso e a imensa gratidão de alguém que ainda sabe de cor a Nurse's Song de William Blake e tantos outros poemas e citações de tantas dezenas de autores,  à força de os recitar vezes sem conta ( algumas a título de reprimenda por alguma impertinência - como conversar na durante a aula ). Agradeço-lhe tudo o que me ensinou sem eu ter consciência de que queria aprender,  porque diferentemente de outras matérias, de outras aulas, de outros mestres, esta foi luz que  nunca se apagou do meu conhecimento.



                               

domingo, 9 de fevereiro de 2014

As árvores morrem de pé


"O pinheiro mais alto é aquele que o vento agita com mais força." Horácio




Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas 
Do que as árvores novas, mais amigas: 
Tanto mais belas quanto mais antigas, 
Vencedoras da idade e das procelas... 

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas 
Vivem, livres de fomes e fadigas; 
E em seus galhos abrigam-se as cantigas 
E os amores das aves tagarelas. 

Não choremos, amigo, a mocidade! 
Envelheçamos rindo! envelheçamos 
Como as árvores fortes envelhecem: 

Na glória da alegria e da bondade, 
Agasalhando os pássaros nos ramos, 
Dando sombra e consolo aos que padecem! 

Olavo Bilac









No princípio, era a TV a preto e branco com um só canal, espremida numa caixa quadrada inestética e escura, com um pequeno cinescópio cheio de estática, que ligava aos fios que corriam até a uma antena em formato de espinha de peixe fixa no telhado,  que em dias bons nos permitia ver as notícias, alguns desenhos animados e as noites de teatro.
O Pai adorava as noites de teatro e posso dizer com sinceridade que foi dos poucos programas descontinuados, o que mais saudades me deixou.
O temporal que hoje sobre nós desabou, deixou as sequelas de destruição que os ventos largados em fúrias assassinas costumam deixar por onde passam.













Hoje vi e chorei. Chorei pela árvore que eu conheço desde que me conheço, aquela que soçobrou e com um gemido de dor não resistiu ao sopro forte do huno que a fustigou.
Chorei, porque me lembrei de estar com o Pai em frente à caixinha preta, a rever pela enésima vez "As árvores morrem de Pé",de Alejandro Casona,  uma soberba interpretação duma já muito idosa Palmira Bastos, onde brilhava o também saudoso Varela Silva. Chorei por me recordar de como o Pai , de olhos brilhantes, repetia as palavras finais com a protagonista "Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores"... Fico parada a olhar para dentro da recordação que me acarinha, enquanto tudo à minha volta rodopia num turbilhão tão violento como as emoções que me assaltam. 
Lá fora,  o  vento  que estridente sopra do mar,  continua a poderosa investida contra as muralhas da nossa incapacidade, numa batalha que sabe ganha à partida.



                                  

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O Perfume

"Podes cortar todas as flores mas não podes impedir a Primavera de aparecer." - Pablo Neruda





Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

Se às vezes digo que as flores sorriem 
E se eu disser que os rios cantam, 
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores 

Alberto Caeiro






Há quanto tempo não me cheira a Primavera ? 
A Primavera tem um cheiro que é só seu, único e doce, cálido e suave como a infância.
Lembro-me já vagamente da fragrância da estação que trazia a alegria de dias maiores, dum sol envergonhado que saltitava de trás das nuvens da manhã para nos oferecer uma tarde prazerosa no jardim.
A Primavera cheirava a verde. Principalmente a verde , mas em despontando as flores, tinha cheiro de arco íris e mel. As abelhas atarefavam-se, os passarinhos chilreavam uma cacofonia sinfónica de notas dispersas e o ar enchia-se duma poeira minúscula que ondulava ao sabor da brisa suave do fim de tarde  que tinha o cheiro da Primavera.
Íamos todas de mãos dadas, todas de igual,  a rir e a cantar, na outra mão o cestinho com a merenda e o ponto de cruz.
O jardim tinha fontes, lagos, árvores frondosas, grandes caramachões e pavões que pupilavam à nossa volta abrindo os seus leques majestosamente coloridos. 
Saltávamos à corda ao som da lengalenga da moda, cantávamos, merendávamos e sentávamo-nos a bordar, entoando alegremente o Domblai, sem ninguém perder a entrada, sentadas numa sombra que cheirava a seiva e a terra e sabia tão bem.
Lembro-me tão bem da minha recordação da Primavera, mas o perfume, volátil como o tempo, esse dissipou-se da minha memória.







                                 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Esse Lugar-Comum

"De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico.
 São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável.
 Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres." - Vergílio Ferreira




A Morte, esse Lugar-Comum


É trivial a morte e há muito se sabe 
fazer - e muito a tempo! - o trivial. 
Se não fui eu quem veio no jornal, 
foi uma tosse a menos na cidade... 

A caminho do verme, uma beldade 
— não dirias assim, Gomes Leal? — 
vai ser coberta pela mesma cal 
que tapa a mais intensa fealdade. 

Um crocitar de corvo fica bem 
neste anúncio de morte para alguém 
que não vê n'alheia sorte a própria sorte... 

Mas por que não dizer, com maior nojo, 
que um menino saiu do imenso bojo 
de sua mãe, para esperar a morte?... 

Alexandre O'Neill







Sinto-me agitada sem motivo, sorumbática e cinzenta,  como o temporal que faz lá fora, agoniada até...
Sei porque vivi, ser assaz normal o esmorecimento sempre  que experienciamos uma perda que nos toca fundo. 
Depois do choque, vem a incredibilidade, a negação, a raiva, a aceitação e a dor. Só o passar de muitas primaveras nos trará alguma paz e conformação, até nada mais restar do que memórias maravilhosas e uma interminável saudade. Foi assim com o Pai, com os Avós, com os Sogros, com os Amigos e com os Amores de 4 patas.
Sinto por eles que nos deixaram, que nos privaram do seu carinho, do seu amor, do seu apoio, da sua convivência. É um sentimento egoísta, porque penso mais em mim e na falta que me fazem, do que neles, que amavam viver e foram arrancados à vida, volvidos ao pó das estrelas que um dia criaram vida num charco lamacento, vida essa que nos criou a nós para a podermos amargar.
Olho para dentro de mim e encontro aquela tristeza de quem sabe que o que me espera, é um facto não uma possibilidade. Não quero pensar. Não quero. Eu sei, mas não quero. Também sei que esse querer não me pertence, mas não quero saber.
Eu que gosto de me considerar avisada, actualizada, informada, sobretudo prevenida , sou um nada como os demais no onde , como e quando, e honestamente dou graças por ser assim ignorante.




                              

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Cat People

"A melhor maneira de tornar as crianças boas, é torná-las felizes." Oscar Wilde



Menina e Moça

Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.
Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube.
Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi.
Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte.
Muito contente fui em aquela terra [...]

Bernardim Ribeiro





                                     O Grandalhão anda tolo comigo... Vou fazer-me difícil, difícil...


Contava vir aqui escrever duas ou três letras sobre outra noite mal dormida, em que os miados de tristeza do Dean faziam cânone com os de medo, angustia e saudade da Sally, outra noite em que me arrastei pervígil a pensar nas coisas da existência, qual alma penada e pesada, carregada  com os pecados da vida e com as monumentais cadeiras pélvicas, em busca incessante pelo graal do consolo terreno, só acessível aos lassos mortais no fundo duma chávena de chocolate quente com natas.
Mas não, nada tenho para relatar acerca duma noite que se previa tumultuosa e que passou calma, suave e dormida por todos os três felinos: os dois gatos e a velha onça.
Ainda o sol se não pôs de novo, nem outra madrugada rasgou o horizonte... podia dizer que o "Keep Calm, and Carry On...and Vigilant" se encaixaria aqui que nem uma peça de Lego, mas segundo parece foi expressão que entrou em desuso pelo abuso de uso... vou usá-la exactamente por ser coisa usada, gosto de coisas vintage.
As feras estão calmas e eu com fome... acho que ontem nem me lembrei de jantar...
Estou em crer que esta semana, vai ser a Semana Animal do "A Contar Geographical Blog".

 Onde estará aquela coisinha linda que me assusta ?


        Menina, eu sou um gato sério! Vamos lá sair debaixo da mesa que estão a olhar para nós...