sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Wonderland

"A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível." - Lewis Carrol



A FADA DAS CRIANÇAS


Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia –
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas…

E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas…
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.


Fernando Pessoa





Vou percorrer o Vale do Indo, aspirar mil aromas, perder-me num mar de cor, sentada na garupa imaginária do Tornado negro da raposa de Veracruz. Ao lado, com uma cabeça de vantagem, galopa  Silver, alvo Appaloosa do heróico Ranger que não vai só, leva cingida a si a mais bela Geisha de Cipan Guó.
Kasachok ! Raz! Dva! Tri ! E rodopiam e saltam e cantam e dançam como incansáveis piões musicais, e os dias passam e as noites vão e cantam harmonias nas  cores do arco iris que cai das fitas da pandeireta que agito bem alto.
Tudo bem majestade ? " É o Delfim, é o Delfim", e todos se curvam em respeitosa vénia. E que lindo é o Delfim! Belo como um querubim de Rafael!
"-Mãe, mãe ! Sabes o que eu quero ser ?"
E eles vibram de excitação e falam e contam, e a Mãe com mãos de fada e olhos de amor,  pega a tesoura, a agulha, o dedal e a linha e transforma com a sua magia a fina seda da cândida imaginação. Veste-lhes o mundo de fantasia com roupagens de faz de conta, ajeita-lhes os sonhos doces nos chapéus e nos toucados, beija-os com ternura e vê-os afastar-se a correr , felizes e despreocupados, rumo à sua história de conto de fadas.





                                      

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sombras na noite

"Não há sol sem sombra, e é essencial conhecer a noite " Albert Camus




Luz entre Sombras

É noite medonha e escura, 
Muda como o passamento 
Uma só no firmamento 
Trémula estrela fulgura. 

Fala aos ecos da espessura 
A chorosa harpa do vento, 
E num canto sonolento 
Entre as árvores murmura. 

Noite que assombra a memória, 
Noite que os medos convida, 
Erma, triste, merencória. 

No entanto...minha alma olvida 
Dor que se transforma em glória, 
Morte que se rompe em vida

Machado de Assis







Canta o galo no toque do telefone que me desperta de um passeio de charrete conduzida por um cocheiro escuro que resfolgava ruidosamente uma névoa esverdeada e  chicoteava incessantemente uma pileca esquelética, de grandes olhos apavorados, obrigando-a a arrastar penosamente o engatado por uma rua de basaltos irregulares e esburacados em gigantescas poças de água, que reflectiam um luar pálido e frio. Nunca cheguei a saber o destino da viagem. É o mal dos sonhos, serem levianos,  boémios e inconstantes,  tantas as vezes que chegam e partem sem hora nem memória.
O elevador fede a fumo de cigarro. Mais um que acredita na imortalidade e procura introspectivamente respostas reconfortantes, quando tudo o que encontrará é um bofe negro e quase petrificado de apostemas.
Está frio e a luz dos candeeiros projecta sombras ilusórias e assustadoras. Os meus passos ecoam a tropéis de muitos cascos e eu rio, rio para afastar o medo que me invade, medo da noite, medo das sombras... o medo. O medo é poderoso ou paralisa-te ou desvela-te uma força desconhecida e rara que faz de ti um ser superior. Sem tempo para escolhas existenciais, acelerei arvoada para o autocarro parado,  que tinha dentro um punhado  pessoas tristes e frias, embrulhadas, amarfanhadas e sonolentas que, como eu, esperavam poder chegar ao seu destino ao mesmo tempo que o sol.



                                   

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sympathy For The Devil

"Diabo: o autor de todos os nossos infortúnios e proprietário de todas as coisas boas deste mundo." Ambrose Bierce




Não és Bom, nem és Mau

Não és bom, nem és mau: és triste e humano... 
Vives ansiando, em maldições e preces, 
Como se a arder no coração tivesses 
O tumulto e o clamor de um largo oceano. 
Pobre, no bem como no mal padeces; 
E rolando num vórtice insano, 
Oscilas entre a crença e o desengano, 
Entre esperanças e desinteresses. 
Capaz de horrores e de ações sublimes, 
Não ficas com as virtudes satisfeito, 
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes: 
E no perpétuo ideal que te devora, 
Residem juntamente no teu peito 
Um demônio que ruge e um deus que chora. 

Olavo Bilac







Não há ser mais inseguro do que este humano que somos. Os ditos irracionais que vivem condicionados à subsistência diurnal são tantas vezes mais ousados, mais resolutos  e expeditos do que os pensantes.
É certo que se vive num habitat social onde cumprir regras é fundamental para coabitarmos pacificamente, mas existe o livre arbítrio, aquilo que imprime em cada indivíduo a marca da sua personalidade. São as escolhas que fazemos que nos definem como pessoas. Somos nós que  transportamos o passado, criamos o presente e lançamos a pedra basilar do nosso futuro .
Não há prescrição para o advir, mas é normalíssimo atribuir-se os agravos da existência a outrem, principalmente aos nossos medos, insatisfações e negatividade a que normalmente chamamos diabo,  porque tudo o que corre mal é sem dúvida obra do diabo.
" São coisas do diabo" "Às vezes, atrás da cruz está o diabo escondido" "Quem com o diabo se deita, com o diabo amanhece" "Não vá o diabo tecê-las""O diabo a quatro" ... O mais característico de todos os dizeres "diabólicos", é sem dúvida " Que venha o diabo e escolha"... 
E nós, escolheremos nós assumir as nossas escolhas como próprias, e não imputá-las a um qualquer pobre diabo ? 
O orgulho é a raiz de todo o mal, e apesar de enraizado e ramificado na consciência dos homens não é robusto nem preciso como um relógio suíço, nem o relojoeiro é o diabo. O detentor da chave que lhe dá corda e alimenta somos todos, é cada um de nós.






              

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ser Poeta

"O que distingue um grande poeta é o facto dele nos dizer algo que ninguém ainda disse, mas que não é novo para nós."- José Ortega Y Gasset


Primeiro beijo

Recebi o teu bilhete
para ir ter ao jardim
a tua caixa de segredos
queres abri-la para mim
e tu nao vais fraquejar
ninguém vai saber de nada
juro nao me vou gabar
a minha boca é sagrada
Estar mesmo atrás de ti
ver-te da minha carteira
sei de cor o teu cabelo
sei o shampoo a que cheira
já não como, já não durmo
e eu caia se te minto
havera gente informada
se é amor isto que sinto
Quero o meu primeiro beijo
não quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais é o que nos une
que aquilo que nos separa
Promete lá outro encontro
foi tão fogaz que nem deu
para ver como era o fogo
que a tua boca prometeu
pensava que a tua língua
sabia a flôr do jasmim
sabe a chicla de mentol
e eu gosto dela assim
Quero o meu primeiro beijo
não quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais é o que nos une
que aquilo que nos separa

Carlos T






Nas palavras da ínclita Florbela Espanca,  Ser poeta é ser mais alto, é ser maior. Ler poesia é acariciar a alma, é ter a percepção duma realidade doce e sofrida, negra e tantas vezes trágica. É tomar como nossa a sensibilidade do que segura a pena e apoderar-mo-nos dos seus sentimentos, e nem que seja por breves instantes, entrar -lhe na pele, sentir-lhe o amargo da boca ou a doçura dos lábios. É viver naquele momento a ilusão daquela vida.
Tendo as nove musas a mesma filiação, dissociar a poesia da música é como amputar um membro, até porque todo o ritmo da poesia é musical. A música tem o dom de elevar a vida. Tudo o que respira reage e se rege pelo som.
Quantas vezes por dia, sem um livro na mão, conseguimos declamar um poema maravilhoso dum poeta maior, apenas em cantando uma canção? 
Homens e mulheres mais altos, maiores, esses quase desconhecidos que escreveram e escrevem palavras mágicas , que soberbamente musicadas são hinos inesquecíveis , homens e mulheres que escrevem poesia admiravelmente e que raramente são cantados como poetas.
Há-os aos milhares, brilhantes, geniais, mas sempre, sempre num plano secundário, porque para além da máquina social que nos vende a ideia do músico e da sua obra,  a poderosa audição   transmite-nos os acordes mais intensamente do que as palavras, muito embora sejam as palavras que movem o mundo.





                                  



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Da leveza do ser

"O pensamento é difícil de conter, leve, correndo para onde lhe agrada. Dominá-lo é uma coisa salutar, e depois de dominado ele procura a felicidade."Dhammapada




Um Vento Muito Leve Passa

Leve, leve, muito leve, 
Um vento muito leve passa, 
E vai-se, sempre muito leve. 
E eu não sei o que penso 
Nem procuro sabê-lo

Alberto Caeiro









Finalmente leve ! Trauteio o "We all Stand Together" baixinho, talvez para mangar com os sapos que regressaram aos pântanos fétidos e me deixaram livre. Livre e leve. Dou comigo a sorrir pelos cantos e penso "Tola, tola, ris de quê?" , de tudo e de nada... é só um sorriso que se rasga espontâneo só porque sabe que pode sorrir.
Azinha, arrumo o dia de hoje na mala à tiracolo e organizo as vitualhas necessárias à queima de energia.
Apesar dos ouvidos agigantarem as batidas fortes e rápidas do coração, não temo as horas que vêm. Sinto-me em paz. Sinto-me leve.
Até a rochosa musculatura que me sustenta, apesar de farta e pesada, esvoaça pela leveza quimérica das ideias, como uma pena com aparo de chumbo.



                                      

domingo, 26 de janeiro de 2014

Gaudium

"A alegria não está nas coisas, está em nós." Johann Goethe



Só se Pode Ser Feliz Simplificando

Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria em volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços, no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que se debate em vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol em reflexo de estrelas.
 E todos os astros moram lá no alto.

Florbela Espanca




... E o sol furou o negro e sorriu- me ... ( Foto do casulo MDRoque)


Um leve acordar depois duma noite sem memória. A tempestade acalmou e serenou o espírito e o corpo massacrado. Resta aguardar que a incansável mãe natureza dê por finda a sua obra de decesso e regeneração.
Resguardada no silêncio, espero ansiosa, quase feliz, deixando flutuar o júbilo nos meus humores até onde a luz toca o azul cinzento do mar.
Amanhã vai certamente haver sol, pois nem negrume nem borrasca ofuscarão a alegria que continuará a brilhar em mim como a mais fulgurante estrela do Caminho de Santiago



             

sábado, 25 de janeiro de 2014

The Stranger in me

A coisa mais difícil para o homem é o conhecer-se a si próprio. - Provérbio Árabe 




Narciso

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, 
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... 
Ah, que terrível face e que arcabouço 
Este meu corpo lânguido escondia! 

Ó boca tumular, cerrada e fria, 
Cujo silêncio esfíngico bem ouço! 
Ó lindos olhos sôfregos, de moço, 
Numa fronte a suar melancolia! 

Assim me desejei nestas imagens. 
Meus poemas requintados e selvagens, 
O meu Desejo os sulca de vermelho: 

Que eu vivo à espera dessa noite estranha, 
Noite de amor em que me goze e tenha, 
...Lá no fundo do poço em que me espelho!

José Régio







Olhei para mim e não me vi. Aquela imagem disforme que me olha não sou eu. Eu tenho um rosto antigo, balofo e simples, de quem já passou o amadurecer da vida e agora colhe os últimos frutos antes que árvore seque. Os olhos castanhos, vivos e despertos não estão lá. Metamorfosearam-se em luas de pele fendida que choram duas bicas de um líquido salobro  que corre incessantemente num fio garço e desbotado de lágrimas opacas;  sem tristeza,  choram simplesmente o infecto desalento do mal que os aflige.
 A  boca rasgada , sagaz e rápida, que nunca deixou sem troco um interpelo, não está lá, somente uma fenda retorcida entre aglomerados flácidos de pele túrgida. Nada diz, seca e amargosa, aguarda impaciente que o som venha de dentro, que o âmago ressuscite a voz e a faça elevar; ela que nunca se calou é quem mais sofre.
O nariz aquilino e colossal não está lá, sepultado em tumefacções de carne e pele, quase não respira, lá onde o ar chega com dificuldade e dor.
O pensamento, esse está lá, mas não se encontra. Divaga por um purgatório ardente numa balsa de madeira podre, constantemente investido por seres estranhos, hediondos e ruidosos : é onde Hefesto tem a forja e o martelar constante enlouquece e flagela  até ao limite do suportável. Cansa, cansa demais.
Quero-me de volta. Quero olhar para mim e ver-me, e reconhecer em mim a velha amiga que nunca me abandonou. 
Quero ser eu outra vez.



                

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Para lá do espelho

"A cara é o espelho da alma"      Provérbio





IGNOTO DEO 


Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.


Desisti de Te amar, por mais que a fome

Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.


Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano

Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,


Desisti de Te achar no quer que seja,

De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!

José Régio








Para lá do espelho existe a pessoa que aqui escreve,  alguém cujo rosto  não ilustra a sua fibra. Habita lá um espírito forte mas metódico, modesto até, que anseia pela simplicidade e descomplexidade das coisas da vida.
Para lá do espelho existe a pessoa que aqui escreve, cujo pensamento inquieto , icário e turbulento não tem sossego, porque parar é morrer e morrer não é opção enquanto a imaginação puder correr maratonas, desenfreada e rebelde como sempre a conheci.
Para lá do espelho existe a pessoa que aqui escreve, desiludida com a fraqueza da carne incapaz de nadar oceanos, escalar montanhas, velejar ventanias,  cingir-se num par de gentis braços e deslizar como uma pluma ao som duma doce valsa. Habita lá carne que amolece como um par de peúgas velhas cuja elasticidade se esvai, enfraquece, pui, fende, e por cujas fissuras se insidiam as moléstias da podridão dos anos e onde o cansaço é soberano absoluto e recorrente.
Para lá do espelho existe a pessoa que aqui escreve, alguém em cujo ADN um incógnito pai celeste escreveu os códigos de uma imensa força interior , de uma vontade hercúlea ,de uma teimosia titânica e de uma consciência têmisica.
Para lá do espelho existe a pessoa que aqui escreve, uma pessoa que eu conheço bem, uma pessoa que eu gostaria de conhecer ainda melhor, uma pessoa que gostava de vos poder apresentar, porque é diferente , porque é jovem e irreverente, expedita e alegre, espirituosa e inteligente. 
Para lá do espelho existe a pessoa que aqui escreve e que infelizmente vive do lado de cá, vive na realidade duma existência de agridoce clausura, mas que em olhando atentamente à sua volta, realiza que em substância é feliz e no seu reflexo encontra a sabedoria que lhe traz a  reflexão.



                                   

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

At War

"Cremos que a guerra é um mal, mesmo quando é uma necessidade, mas sabemos que há para os povos outros males maiores, porque os há que excedem a morte e a miséria - são a sua desonra e aniquilamento." - António O. Salazar




Poema da Terra Adubada

Por detrás das árvores não se escondem faunos, não. 
Por detrás das árvores escondem-se os soldados 
com granadas de mão. 

As árvores são belas com os troncos dourados. 
São boas e largas para esconder soldados. 

Não é o vento que rumoreja nas folhas, 
não é o vento, não. 
São os corpos dos soldados rastejando no chão. 

O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes. 
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes. 

As rubras flores vermelhas não são papoilas, não. 
É o sangue dos soldados que está vertido no chão. 

Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar. 
São os silvos das balas cortando a espessura do ar. 

Depois os lavradores 
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados, 
e a terra dará vinho e pão e flores 
adubada com os corpos dos soldados. 

António Gedeão






Ontem escrevi em resposta a um post num blog gratificante de se seguir, que se Portugal  tivesse participado activamente na   Segunda Grande Guerra, as coisas jamais seriam como são agora. O povo ter-se-ia forçosamente ajustado à penosa tarefa de se reerguer como raça e reconstruir como País, teria rastejado dos escombros da miséria, endurecido, trabalhado até ceder à exaustão e crescido. Todos cresceram depois do massacre que fustigou a Europa e dizimou as árvores da vida de tantos milhões de famílias. Todos menos os Portugueses, que "Orgulhosamente sós" regrediram. Regrediram miseravelmente até transbordar o ponto de ebulição de quem via que o País era Lisboa; o resto era mera paisagem por onde deambulavam pessoas incultas e sem asseio, vergadas de sol a sol sob o peso das suas labutas diárias, daquilo que as suas mãos faziam arduamente brotar de torrões secos e duros, pessoas de feições bestiais, metidas consigo, cujos pontos altos das suas vidas eram  a taberna à noite, e a missa ao Domingo.
Depois da reviravolta, veio a liberdade, a alegria, a música ... Há panaceias que, pela sua forte composição, devem ser tomadas com moderação, porque as overdoses se não matam, destroem, corroem e enfraquecem. e enfraquecem , principalmente a quem não tem por hábito sentir alívio das penas.
Com Portugal foi igual, sem tirar nem por.
Nem o País nem as pessoas têm a endurance necessária para suportar uma tragédia de grandes proporções. É certo que já há tempos que vimos tomando desgraça a conta-gotas, mas a minha pergunta é o meu medo, e uma Guerra ? Nada que se compare a produções de Holywood com tipos bem parecidos que enfarruscam a cara e coxeiam depois de rebentar com a Panzer Division, nada disso.
Uma guerra a sério, com racionamentos, bombas e mortos pelas ruas. Com os nossos maridos , filhos e filhas pulverizados numa qualquer terra cujo nome não conseguimos pronunciar, em nome duma qualquer tríade politico-económica que não entendemos, mas aceitamos, porque nos dizem que é assim. 
E nós vamos , como sempre fomos, carne para canhão, carneiros para o matadouro, tristes, calados e perfilados, porque não temos  nervo, nem  energia, nem preparação basilares para enfrentar a adversidade.
Seríamos seguramente mais um no rol dos pequenos países cuja identidade desapareceu no mapa do pós- guerra, depois de estabelecida a nova ordem mundial



                                     


PS.: Este fado foi uma das músicas mais tocadas durante a guerra Colonial Portuguesa.
Tenho um post antigo( da altura  que isto dos blogs era para mim  um mistério com 3 meses de idade ), de Agosto de 2012 na mesma linha deste e foi nele que me inspirei , ontem no comentário, hoje no post.
                      http://acontarvindodoceu.blogspot.pt/2012/08/rei-capitao-soldado-ladrao.html

Deixo-vos uma música que para mim diz muito de guerra, mais moderna, não tão moderna como os Drones assassinos, mas actual QB à luz desta actualidade...

     
                                       

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

If I Were Rich....

"Um rico é diferente daquele que não o é: tem mais dinheiro." Ernest Hemingway




Dona Abastança

«A caridade é amor» 
Proclama dona Abastança 
Esposa do comendador 
Senhor da alta finança. 
Família necessitada 
A boa senhora acode 
Pouco a uns a outros nada 
«Dar a todos não se pode.» 
Já se deixa ver 
Que não pode ser 
Quem 
O que tem 
Dá a pedir vem. 
O bem da bolsa lhes sai 
E sai caro fazer o bem 
Ela dá ele subtrai 
Fazem como lhes convém 
Ela aos pobres dá uns cobres 
Ele incansável lá vai 
Com o que tira a quem não tem 
Fazendo mais e mais pobres. 
Já se deixa ver 
Que não pode ser 
Dar 
Sem ter 
E ter sem tirar. 
Todo o que milhões furtou 
Sempre ao bem-fazer foi dado 
Pouco custa a quem roubou 
Dar pouco a quem foi roubado. 
Oh engano sempre novo 
De tão estranha caridade 
Feita com dinheiro do povo 
Ao povo desta cidade. 

Manuel da Fonseca







Com tantas e tão diferentes e cativantes formas de ganhar dinheiro fácil com que nos aliciam as misericórdias deste país, ele é Euromilhõe, Totoloto, Totobola, Raspadinhas e Lotarias... Espera !  Ainda há o Joker, com extracção ao Domingo, que penso que é o que melhor se enquadra na personalidade de quem joga.
Não quero de modo algum apelidar os que tentam a sorte de otários, aliás eu faço paço parte da mole humana que toda as semanas despende religiosamente pelo menos quatro Euros para poder ter a chance de a sorte lhe bater à porta e poder escancará-la para ela entrar.
As lotarias legais não são um logro e disso temos exemplo O Zé da Ribeira do Porto que ganhou grosso no Totobola, levou a vida que sempre sonhou, e agora velho, só e abandonado pelos que bem lhe queriam, ainda se arrasta para arrumar carros e assim ganhar para o tabaco, a bica e o bagacinho , que a sopa vai comê-la à  Casa-Porto. Que o diga também a Senhora de Marco de Canaveses com os seus 51 milhões e na bagagem uma vida sofrida de trabalho e filhos para criar sem ajuda de ninguém, a quem a vida sorriu e que se deixou levar pelos sorrisos todos...
Pela parte que me toca, com o aparte da anedota do judeu, porque muitas são as vezes que o esquecimento supera o ritual, também construo os meus castelos no ar com base no SE... naquele SE por quem todos anseiam, porque afinal "Elas andam lá todas" .
A família, está claro. Para as filhas tudo!  Casa nova, mas uma casa ou duas, que uma na praia ia bem, ou mesmo três, que o Marido é do Gerês e ter lá casa era de valor. E carro novo, e passear muito, e... e... e ajudar alguém ? Pois claro, se já ajudo, ajudarei a dobrar, mas como desconfio muito das instituições e do modo como distribuem os bens pelos necessitados, não seria melhor criar a minha própria instituição?   Bem, isso depois se vê... First things first.
Depois desço à terra e penso nas rendas, no preço dos imóveis e IMIs, nos impostos sobre prémios, em todos os outros impostos , que são inumeráveis e nos encargos,  e chega-me a imagem dum ser enrugado e roliço, com um hoodie dobrado no braço e um jornal enrolado na mala a tiracolo, a preparar-se para arrumar carros em Belém....


                                 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Repeat, please....

“Felicidade é o desejo pela repetição.” Milan Kundera



"Existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa.
 O homem só vive de detalhes e as manias têm uma força enorme: são elas que nos sustentam."Raul Brandão



Parágrafo três:
"As dos blogs que escrevem aquilo que os outros blogs escrevem, mas em pior, lá estão também, sempre à espreita, sempre atentas ao que fazem os mesmos de sempre, numa eterna espiral de ser o arremedo de sempre do post de sempre, o que resulta numa estranha constância, que nos tranquiliza e apazigua."





Como pessoa gregária que sou e que gosta de viver em paz e harmonia com o fellow man, procurei detalhada e cuidadosamente  na publicação de um dos meus bloggers favoritos e penso ter encontrado a minha  categoria de inserção social, que acima transcrevi com link ao post.
Vivendo este blog abaixo do rendimento mínimo garantido, por isso com um rating CCC ou inferior, não tenho a preocupação de escrever para agradar, espicaçar ou aplicar tensões seja em quem for.
Minto se disser que não escrevo sobre pessoas, porque escrevo, e se as visadas tiverem dois dedos de testa, o que muita dúvida me deixa, rever-se-ão  seguramente nos textos publicados , com parcimónia de falas esdrúxulas, cinismos e ironias implícitas, para que os  que me seguem  , porque  tal  como las brujas, puedes no creer, pero que las hay, las hay , possam entender o porquê daquele escrito.
Este texto não tem subentendidos nem entrelinhas. É uma mera constatação de factos. 
Tê-lo-ei escrito numa tentativa desesperada  de pertença, de enquadramento , de social climbing ? Eu sempre disse que sou uma pessoa estranha, até para mim própria, por isso nunca  saberei se me incomodou a exclusão, ao ponto de desesperadamente me tentar englobar na categoria três.

"frankly my dear i don't give a damn"




Como nota de rodapé, não podia deixar de referir que este ano e meio na Blogo , já me deu calo suficiente para ter algumas certezas sobre blogs e bloggers. Uma das certezas que tenho, é que este post vai ter ZERO comentários :):):)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Blind as a Bat

"-É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos."-José Saramago






-Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras.[...]



-Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.


José Saramago






                                                                                         Cego como um morcego...


Ver com olhos de ver é uma prática inexequível.  De todos os cinco sentidos conhecidos que estudamos em biologia humana, a vista é o mais usado e o mais falível, porque o que os olhos vêm, o cérebro interpreta à luz do seu próprio conhecimento. Duas pessoas a verem a mesma coisa , ao mesmo tempo, sob o mesmo ângulo, podem não ver igual, porque condicionantes sentimentais, clubísticas, politico-partidárias, religiosa, sei lá, N coisas que afectam o nosso dia a dia, transmitem pelo nervo óptico ao cérebro de cada um informações que este interpreta diferentemente. 
Mas isto toda a gente sabe. Aprende-se em Ciências no 5º Ano da escolaridade obrigatória. Toda a gente sabe que se ficarmos privados da visão, os outros quatro sentidos se desenvolverão e apurarão exponencialmente e concluiremos que o mundo da luz de que nos privamos não se provará imprescindível à nossa subsistência.
Poderemos então concluir que a cegueira já não é uma tragédia ? É sempre trágico não poder ver, mas mais trágico ainda é ter olhos funcionais e não querer ver, e disto temos exemplos todos os dias, pelas notícias que nos chegam nos meios de comunicação, pelo caminho até ao trabalho, pela interacção com colegas e superiores, até no seio da nossa família, dentro da nossa própria casa.
"Em terra de cego, quem tem olho é rei", resulta em que " O maior cego é o que não quer ver" que acarreta tantas vezes "Dois pesos e duas medidas" e "Longe da vista, longe do coração".
... e afinal o que comanda a vida senão o sonho que nos vai na alma ?

... e continuando a citar Saramago "-Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.", porque "Nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.”






                                

domingo, 19 de janeiro de 2014

Selfie - ish

"Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente torna-se mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes."- William Shakespeare




Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.
Fernando Pessoa




SELFIES !!


       



Não sou old fashioned no sentido literal da expressão, muito pelo contrário. Se a dissecarmos em "old"   e "fashioned" , obteremos algo ou   alguém que não é novo, mas está adaptado à moda ou aos modernismos.
É normalíssimo seguir as tendências. É muito mais fácil viver em, sociedade se seguirmos os padrões pelos quais a mesma sociedade se rege em todos os aspectos do quotidiano. Sempre ebulindo em transformações e renovando-se a cada milésimo de segundo, vai inventando,  reinventando e muitas vezes subvertendo as regras.
 Em 2013 a palavra do ano foi "selfie"...  O selfie é um auto retrato,  que se pretende  imaginativo em buscando  reconhecimento a nível planetário. 
Se o grémio dos humanos já pecava pelo egocentrismo, basta atentar quantas vezes cada um de nós pronuncia diariamente o pronome EU, agora para além do eu dialogado, majoramo-nos com o eu gráfico, alcançando o eu ao quadrado, um perfeito estado de graça para quem nunca se cansa de si próprio e se adora acima de todas as coisas.
Eu canso-me TANTO de ser eu - Engraçado, até um lamento, um simples desabafo, tem uma carga de egoísmo tão grande.





                 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Complexo de Gulliver

"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar." Friedrich Nietzsche 




Imagem Fabricada

Na competição em termos de prestígio apenas parece sensato tentarmos aperfeiçoar a nossa imagem em vez de nós próprios. Isso parece ser a forma mais económica e directa para produzirmos o resultado desejado. Acostumados a viver num mundo de pseudo-eventos, celebridades, formas dissolventes, e em imagens-sombra, nós confundimos as nossas sombras com nós próprios. A nós elas parecem mais reais que a realidade. Porque é que elas não deveriam parecer assim aos outros?

Daniel J. Boorsti







"Alto está alto mora todos o vêem ninguém o adora", dizia-me a avó para eu adivinhar que aquele gesto abaulado de mãos significava sino, naquele jogo de adivinhas com rima e senso a que tanto adorávamos brincar. Para mim esta era uma adivinha triste, porque morria de pena do sino, que todos viam e ninguém adorava, apesar de ele tocar para chamar os fiéis à celebração da Eucaristia Dominical, apesar de ele tocar quando alguém partia para a última morada,  apesar de ele tocar quando se anunciava uma efeméride, apesar de  dobrar a finados.
E depois a Avó recitava :

O sino dobra a finados.
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.

E eu condoía-me do imponente sino solitário a quem todos viam, ouviam e seguiam os  tinidos enquanto tocava,  mas quase imediatamente o som que nos emocionara, que nos avisara, que nos entristecera ou jubilara,  caía rapidamente no esquecimento e praticamente ninguém o apercebia lá no alto, até lhe voltar a ouvir a voz grave e metálica.
O mal de crescer é perder a inocência, a candura de acreditar, de aceitar a simplicidade duma palavra, a ternura dum gesto. O mal de crescer é entender, é cada um ter os seus pareceres e fazer os seus juízos.
Eu cresci e continuo a olhar o sino, agora à luz da experiência de vida que a minha condição de pessoa antiga me conferiu. Já não o olho com os olhos puros da minha infância, nem me condoi vê-lo só lá no alto donde nunca saiu. Provavelmente acha-se importante demais para descer do seu pináculo.
Também aconteceu assim  com Gulliver em Lilliput e ilustra na perfeição a ilusão da realidade inversa :

 
                   Vozes de burro chegam aos céus



                                    

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Da Pedra....

"Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral." - Antoine de Saint-Exupéry





Falo de Ti às Pedras das Estradas

Falo de ti às pedras das estradas, 
E ao sol que e louro como o teu olhar, 
Falo ao rio, que desdobra a faiscar, 
Vestidos de princesas e de fadas; 

Falo às gaivotas de asas desdobradas, 
Lembrando lenços brancos a acenar, 
E aos mastros que apunhalam o luar 
Na solidão das noites consteladas; 

Digo os anseios, os sonhos, os desejos 
Donde a tua alma, tonta de vitória, 
Levanta ao céu a torre dos meus beijos! 

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço, 
Sobre os brocados fúlgidos da glória, 
São astros que me tombam do regaço! 

Florbela Espanca






Provavelmente já tinha tomado alguns. Não sou de beber mas pélo-me por um bom Gin& Tonic e quando tomei por resolução um post no blog por dia, estava seguramente alienada, demente, insana, ou simplesmente um nadinha alterada.
A inspiração não é algo que se tenha na mala ou na carteira ou haja lá por casa  sempre uma nova,  bem arrumada e ainda por estrear com as etiquetas da marca numa gaveta do camiseiro. 
Ou se tem ou não se tem, tão simples como isto.
É como o cabelo, por exemplo. Se o tenho, posso cortá-lo, pintá-lo, enfeitá-lo, ondulá-lo... a infinitude de tratos que posso dar ao cabelo é imensa. Se não o tenho , sou careca, tento disfarçar com perucas, capachinhos, chapéus, mas como dizia o actor, desses, há muitos, os palermas,os falsos inspirados.
Saí da Guerra e olhei perplexa os montes de granizo já negro que se amontoam nas bermas das estradas e pensei para comigo, que o mundo me passa ao lado e eu só reparo que faz um barulho ensurdecedor.
Fui pelo caminho a contar as pedrinhas e a adivinhar em qual cairia cada pingo da chuva que se abatia de mansinho. Podia ser inspirador, quem sabe. Li não sei onde que o  Björn Ulvaeus escreveu o "Take a Chance on Me" quando chegou a casa depois de caminhar pela chuva e atentar na melodia que os seus passos tocavam nas pedras molhadas da calçada.
Quem sabe o mesmo não aconteceu a Beethoven quando cozinhava, ou a Bach quando polia com suavidade e perícia o seu orgão preferido , ou até mesmo a Wagner enquanto passava o espanador nos livros da biblioteca do tio Adolf.
Não, decididamente hoje não desceu em mim qualquer bafejo de Erato, Melpômene, Polínia  ou Talia, portanto e sem mais delongas, vou fazer uma lasanha, uma deliciosa e fantástica lasanha e ai de quem se atravesse no meu caminho e me difame a arte !






                                                

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Da Raiva

"Quando um sábio está com raiva, deixa de ser sábio." - Talmude



Com Fúria e Raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo 
E o seu capitalismo das palavras 

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada 
Que de longe muito longe um povo a trouxe 
E nela pôs sua alma confiada 

De longe muito longe desde o início 
O homem soube de si pela palavra 
E nomeou a pedra a flor a água 
E tudo emergiu porque ele disse 

Com fúria e raiva acuso o demagogo 
Que se promove à sombra da palavra 
E da palavra faz poder e jogo 
E transforma as palavras em moeda 
Como se fez com o trigo e com a terra


Sophia de Mello Breyner Andresen




                                                     (  Paolo Troilo: Pintura a dedo )


 Nasce contigo, visceral , repugnante, perversa...  permanece dormente nas entranhas como um gémeo parasita, pronta para sair, subir à garganta e transformar-te num monstro, numa gárgula aberrante e disforme que te corrompe, que te altera, que te faz vociferar dejectos incongruentes num tom estonteado e vil que faz tremer as paredes, que faz tremer as pessoas, que te agita de alto abaixo até sair por completo, projectada no ar com o efeito duma bomba avantajada, porque no fundo fez vitimas e os estragos são desmesurados e incontáveis... irreparáveis até.
Climax de segundos e regressa ao antro, deixando-te esmagada, desfeita, só.
Não consegues varrer os cacos , porque há coisas que depois de ditas e feitas, não têm retorno e tu sabes , porque durante toda a tua vida te debateste com a besta. Desta vez levou-te a melhor e tu tens que aprender a viver com isso... mais uma vez.






   
                                

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Oh Céus !

"Veja o mundo num grão de areia, veja o céu em um campo florido, guarde o infinito na palma da mão, e a eternidade em uma hora de vida!"- William Blake








Aceitação

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos nos oceanos
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mundo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

Cecília Meireles



Deito-me a olhar os céus e penso na criação.
Penso  na faúlha minúscula que viajou pelo vazio, ribombou com estrondo, criou este mundo que a nós nos fez, criou  os corpos celestes, criou os céus, criou as nuvens.
Criou tudo e todos e criou-me também a mim, para que eu possa criar fantasias, deitada a olhar para os céus.
As nuvens são um mundo encantado cheio de fadas e corcéis, de ogres e dragões, montanhas e vulcões. 
Onde tu vês uma nuvem, eu vejo Alcácer-Quibir levantar-se das patas das montarias, oiço os gritos dos valentes, o tinir do metal, o desespero, os gemidos de agonia e depois nada mais. Resta  a nuvem tinta do entardecer que leva consigo mistérios eternos e os deposita suavemente na beira do rio onde os das letras tiram a cor da inspiração que lhes corre nas penas. 
Onde tu vês uma nuvem, eu vejo o Chomolungma na glória de Hillary e Norgay, imponente e impotente ao extermínio que se desenrola a seus pés e que purpúrea  a alvura  das suas neves.
Onde tu vês uma nuvem, eu vejo um universo de formas, cores e texturas que amassam e levedam o pão que alimentam a imaginação infinita do pensamento dos homens. 





"Se não entendes que o céu deve estar dentro de ti, é inútil buscá-lo acima das nuvens e ao lado das estrelas."- Charles Chaplin





                                                                                                               ( Fotos do Casulo por MDRoque)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Man on the Moon

"Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém" - Mark Twain













Lua Adversa


Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 

Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 

E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 

Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu...

Cecília Meireles













Sou de luas. Desde tenra idade que o Homem na Lua me mirava com olhar reprovador sempre que fazia alguma traquinice, dizia a minha avó. De dia não havia lua, por isso podia fazer todas as maldades que ninguém via, mas a avó dizia que sim, que havia lua, que ela estava lá sempre, só que se escondida para me testar.
Sou de luas. Sempre me guiou no escuro da noite, quando os candeeiros eram esparsos, e os néons só nos filmes.
Sou de Luas. Quando a luz reflectida no mar guiava os barquinhos até à praia onde se puxava a rede e o peixe cintilava sob o luar como irrequietos pedaços de prata.
Sou de luas. Certinhas, contadas ao dia, acompanharam cada nascimento, cada brotar de vida que dei de mim.
Sou de Luas. Como me instruiu a Bisavó Júlia, que aprendera com a sua bisavó, o que a ela lhe ensinaram os que foram , ofereci os meus rebentos à bênção da lua entoando os dizeres pagãos cuja origem se perdeu na noite dos tempos :



  "Oh Lua, oh luar,
Aqui tens a minha menina,
Ajuda-me a criar.
Eu sou a mãe, tu és a ama,
Dá-lhe tu o colo,
Que eu lhe dou a mama"






Sou de Luas. Sei que me agita, que me altera, que me alvoroça . Comparsa de perenes noites insones,  é a ela que conto os meus segredos aqueles que nem eu própria conheço, que são reclusos da minha aresta lunar, aquela que nunca limei, a mais selvagem, a agreste, a bravia.




 Sou de Luas , tenho por ela o mesmo fascínio que encantou  escritores e poetas, embalou  doces paixões, belas e horrendas  metamorfoses e viu o homem crescer do nada e tornar-se humano à luz da Lua.



  Vês o Muad'Dib ?  Está lá, ali, vês ?



                              
                                                         ( Fotos do Casulo por MDRoque)