quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Insatisfação

"A arte do descanso é uma parte da arte de trabalhar."
John Steinbeck




Exausto

Eu quero uma licença de dormir, 
perdão pra descansar horas a fio, 
sem ao menos sonhar 
a leve palha de um pequeno sonho. 
Quero o que antes da vida 
foi o profundo sono das espécies, 
a graça de um estado. 
Semente. 
Muito mais que raízes.

Adélia Prado







Quem nunca deu de caras com o ponto G da ruptura emocional e psicológica, que atire a primeira pedra. 

Não me digam que se resolve com uma boa noite de sono. Desconheço o conceito há bastante tempo. Talvez nunca o tenha verdadeiramente conhecido. Muitos são aqueles cujo espírito sossega durante as horas de descanso, mesmo que poucas  sejam , vá. 
Eu sou da raça que passa esse mesmo tempo em bolandas e correrias, em diversos e estranhos lugares, sempre com muita gente e em situações bizarras, algumas tão reais que me empurram para um acordar desnatural , extravagante até. Creio que foi sempre assim. 

É claro que é absurdamente fácil alcançar o estado de oblívio total, mas tornamo-nos tantas vezes tão convencidos,  desleixados e auto  indulgentes  quanto à   habituação aos meios que nos conduzem aos fins, que criamos aquele ouroboros de continuidade : não descansamos enquanto não abraçarmos o descanso e  nunca alcançaremos o almejado descanso se não pudermos descansar.

Não há dia que passe, que num qualquer momento, a uma qualquer hora, um qualquer acontecimento não me leve a vegetar pelo delírio das improbabilidades. Olho para as mãos, conto os dedos pela enésima vez e tento convencer-me que afinal já não falta muito, falta é chegar lá.

Uma vez estabelecida a meta, o pódium de toda uma vida de trabalho, o tempo, que sempre correu célere sulcando profundamente o rosto com a marca da sua passagem, esse mesmo, sempre tão apressado em nos carregar a experiência com anos em cima  de anos, dá-se ao desfrute do remanso para nossa exasperação. 

Enquanto aguardo remetida à desvantagem e ao desfavor, cogito sobre os prodigiosos anos dourados ainda no reino do porvir, mas que suscitam ânsias e impaciências sem fim. Irei finalmente poder colher os pomos das hispérides plantadas e cuidadas por minhas mãos durante anos de labuta, e cujo néctar me libertará enfim para realizar os prodígios globais que sempre me motivaram a prosseguir com o meu caminho e a carregar a cruz dos meus dias maus.

Atentando bem na realidade,  todos os meus objectivos são simples, por serem fruto de uma mente simples e pragmática. Coisa para três, quatro anos... 
Cuida-me que em tendo realizado os meus propósitos, ainda me ouvirão lamuriar de insatisfação por não saber o que fazer com o tempo que me sobra e que qual saco sem fundo, nunca consigo preencher a meu contento... 

Não fazer nada é a felicidade das crianças e a infelicidade dos velhos.

V. Hugo

                                

16 comentários:

  1. As vezes também não consigo preencher o tempo como quero e isso é bem frustrante.

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    1. Ah, está condição humana do descontentamento.... Agora é porque não tenho, depois será porque me afogo num excesso de nada... Será que existe alguém que alguma vez tenha atingido um pleno ? :):)
      Beijinho , Juliana :):):

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  2. Nós queixamos da falta de tempo, mas quando chega a altura em que ele nos sobra, é um sentimento terrível de inoperância e insatisfação que nos assola.
    bj

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    1. Acredito que está absolutamente certa Carmem. Corremos uma vida de maratonas com a realização pessoal como corolário de todo os esforço e da luta contra o tempo que correu sempre muito mais veloz do que a nossas pernas cansadas. Extenuante, mas também gratificante para quem gosta de desafios. Atingir o K2 da nossa vida, olhar para trás, sorrir , colocar no cume a bandeira do dever cumprido e partir dali em busca da recompensa , é o orgasmo de toda uma existência. Tanto que ver, tanto que ler, tanto que ir, tanto que fazer.... Tanto tempo para tudo... Tanto tempo para nada... Cogito...
      Beijo Carmem

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  3. Já tivemos esta conversa, lembras-te? Tu não és o teu pai e parar não é morrer, é apenas respirar fundo e ganhar balanço para uma etapa em que o tempo precisa que o preenchas antes que te deixe vazia.
    Xi coração, velhota.

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    1. Lembro. Sabes que nunca fui fatalista, nem tenho medos ou superstições de estimação. O Pai morreu novo. Viveu uma vida riquíssima. Sempre fomos muito próximos em vida e é isso que nos meus momentos menos lúcidos, me levar a criar esta ligação afterlife, que, como eu costumo dizer, me atrai como uma mariposa cinzenta para a chama ardente duma vela numa noite quente e negra de Abril.
      Beijinhos Lu, nada como uma velha para decifrar a outra :):):)

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  4. Posso estar redondamente enganada, mas se tiver saúde que me permita ter qualidade de vida, quem amo por perto e condições para uma vida digna, não me imagino a aborrecer com o excesso de tempo. Posso ter medo de envelhecer, isso sim... mas a glorificação da ocupação é coisa que já não me assiste há muito tempo. Duvido é que aquelas "condições" lá de cima se sustentem harmoniosamente ao mesmo tempo. Há sempre alguma coisa que nos faz ter provações em todas as etapas da nossa vida, julgo eu.

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    1. Eu tenho sido imparável há quase 40 anos, Mãe. É normal sonhar acordada e ter muitas vezes o " quando" na boca. Tem dias em que a prolepse toma conta de tudo, ganha contornos fantásticos e é a antecipação que me move o leme da barca , que cruza cada vaga em busca da terra prometida, navegando pelas cartas que eu tracei . Tenho os planos embalados e prontos a partir na aventura da Terra do Tempo Para Mim. Temo só que o tempo me venha a sobrar, que me pare, me quebre e acabe por me vencer. Costumam os antigos dizer que " Não há fome que não dê em fartura"... s ver se não.... :) :) :)

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  5. Excesso de tempo?
    Isso não existe.
    O segredo é saber ocupar o tempo livre.
    Que, assim, nunca será excessivo.

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    1. Eu também penso isso agora, Pedro. Mas depois vem-me à ideia o meu Pai, que se reformou com 55 anos... No início fez tudo, foi a todo o lado, leu , correu, construiu, plantou, mobilou... teve três anos e pouco duma intensa , inédita e assustadora actividade. Foi parando. A minha mãe ia inventado e sugeria-lhe novas actividades até que parou. Acabou por parar de vez , antes de completar 59 anos.
      A falta de actividade não pode nunca acontecer na vida duma pessoa muito activa desde nova. O ritmo pode ser diferente , mas tem que haver ritmo, para não quebrar de vez. Esta foi a moral que retirei da minha dor.
      Abraços a Oriente e Festas Felizes

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  6. Acho que há pessoas que vivem numa correria constante e mesmo a dormir poucas horas por noite conseguem verdadeiramente abstrair-se do dia seguinte e verdadeiramente descansar (pelo menos é o que afirmam), e outras há que enleadas em tantos afazeres não conseguem dedicar-se tranquilamente ao descanso. Eu cá por mim, só se tiver grandes preocupações em mente, se tiver muitos problemas a resolver é que não consigo descansar. De forma geral, durmo que nem uma pedra e descanso.
    Quanto a um dia, eventualmente te sobejar tempo...não acredito nisso, acho que saberás sempre o que fazer com ele, só que terás então possibilidade para não andar a fugir. Poderás descansar da correria.
    Gostei muito do texto e do poema da Adélia Prado! Sobre Os Stones, nada a assinalar!...;-))
    xx

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    1. Quando tu tens ganas de ter tempo para poder fazer muito, o que acontecerá depois de teres feito tudo e já nada te restar por fazer ? - This is the question...
      Quanto à dificuldade que tenho para descansar MESMO, sempre tive. O estudo, as filhas, o trabalho, qualquer desculpa é boa para andar " a nove" e muitos vezes com super-hiper-mega stress.
      Agora estou de férias. Comecei hoje. Mas estou cá. A unidade de lugar permanece inalterável. Estou em permanente contacto telefónico com assuntos profissionais. A unidade de acção permanece inalterável. Só o tempo parece jogar um pouco mais a meu favor, senão estas ricas férias seriam o prelúdio mal cozinhado da tragédia grega do meu suposto descanso.
      Preciso de tempo, de mudar de espaço e variar a acção. Aí posso dizer que descansei.
      Beijinho, Laurinha. :) :)

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  7. Quando não há tempo é que a coisa vai bem.
    Se o tempo sobra há um sintoma de morte.
    A realidade do tempo para os outros que falta para nós próprios leva-me a concluir que o tempo é uma grande treta que nos pregam em meninos.
    Destruam os relógios, os horários, calendários e o mundo será mais feliz.
    O homem gosta de festas e boas.Estando o calendário acordado aproveitem-se as boas.
    Bom Natal!

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    1. Ainda um dia destes num blog, comentando um texto acerca do solstício, que dizia que os dias iriam começar a ser maiores, comentei que 26 horas por dia já seriam um melhoramento considerável nos meus afazeres... agora.
      Como digo na minha descrição de perfil, ando sempre a mil à hora... que bom que assim fosse sempre.
      Abraço, Agostinho :) :) :)

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  8. Antes de mais, dar-te os parabéns pela ótima e rica postagem (citações, texto, música). Ao ler, rememorava as tuas cogitações (correria, realização profissional, sonos agitados, etc.). E sempre antecipando o tempo de descanso. Resultado: o tempo não teve dó e parece que não fiz tudo o que queria. Engano. Faz-se sempre o que se pode mesmo sem poder... Isto no antes da aposentação (antecipada - mas penalizada - pois entendi que devia aproveitar as condições da altura). Eu, que não me via a não lecionar, não tenho saudades. Há um tempo para tudo. E, curiosamente, parece que ainda tenho menos tempo para as atividades de que gosto e alguns projetos até os tenho adiado. Pelo que vou "descobrindo" de ti, tenho a certeza que nunca terás tudo feito.
    Bjo, querida D :)

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    1. Quem não tem nada, nada mesmo para fazer, só pode estar morto. Sempre defendi que parar é morrer e é por isso que me estafo todos os dias. Uma das minhas "tiradas" de humor negro favoritas é que tenho tempo para descansar quando me deitar de vez... espero que o tempo não me sobre na medida que me tem faltado.
      Beijinho querida. :)

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É aqui que me mandas dar uma curva