"Feliz aquele que não se condena na decisão que toma."
Textos Bíblicos
"O verdadeiro herói é sempre herói por engano; sonhou ser um cobarde honesto como todos os outros."
Umberto Eco
Não, não vou falar de cavalo, pó, castanha, merda , H... ou de qualquer outro termo pelo qual é vulgarmente conhecida a heroína, um opiáceo viciante depressor do sistema nervoso, nem da excitação, euforia ou prazer a que eleva a psique de quem consome, tampouco do infortúnio , da miséria ou das fatalidades que lhe são associadas.
A propósito da morte confirmada por decisão da família da jovem Tugce, uma alemã de origem turca agredida com violência após ter interrompido uma situação de abuso e assédio a duas menores num restaurante de fast-food em Offenbach, donde resultou traumatismo irreparável, coma e morte cerebral, repenso a minha noção de heroína.
É certo que são as ocasiões que revelam o melhor e o pior que há em cada um de nós. São tantas as trivialidades do dia a dia que expõem as nossas forças e fraquezas, que nos passa praticamente despercebida a qualidade da nossa vertebração.
A minha profissão, stressante, enervante, gratificante, mirabolante, todos os dias diferente, não é isenta de risco. Passados mais de trinta anos e alguns milhões de pessoas, já vi muita coisa, ouvi demasiado e intervim algumas vezes. Mediei diversas situações de agressão física, muitas mais de agressão verbal, mas nada que possa sequer almejar alcançar o patamar do heroísmo.
Verdade seja dita, nunca registei qualquer acontecimento verdadeiramente dramático, em que fosse necessário uma decisão rápida, cirúrgica e eficaz. Mas penso nessa eventualidade. Penso muito, demasiado até.
Os tempos são conturbados e as pessoas imprevisíveis. O que é hoje , amanhã pode não ser. O que é agora, pode esfumar-se em segundos. Ninguém pode prever ninguém.
Penso principalmente no que eu faria se, ou no caso de... a avaliação, o discernimento, os reflexos, a capacidade de resposta... ou então a paralisia total, o medo, a incapacidade...
Assusta-me pensar que uma decisão tomada a quente possa ter consequências trágicas e nem estou a pensar na forma em como me atingiriam fisicamente, mas sim em como conseguiria conviver o resto da minha vida com quem me aconselha todos os dias e que conheço pelo nome de consciência desde que me entendo como gente.

Vi... li... gostei... te seguindo... me segues também!... BeijoooO
ResponderEliminarOlá Nidja, bem vinda. :):)
EliminarGostei do teu espaço . Beijinho. :)
E infeliz aquele que se condena para sempre numa decisão que tomou. Até agora as grandes decisões da minha vida foram curiosamente as mais impulsivas. Correram bem, foram instintivamente certas, mas também me pergunto como será viver com uma grande decisão errada, já que o instinto também falha. Não há preparação possível e se bem me conheço não superaria muito cedo essa irreversibilidade.
ResponderEliminarTer ponderação é uma arte que se vai adquirindo com os anos. Não creio que conheça nenhum " cinturão negro".
EliminarPensa-se, tenta-se e espera-se. Eu não sou de todo pessimista, mas prefiro não ter grandes expectativas para não ser trucidada pelas circunstâncias.
Beijo, Mãe que sabe muito mesmo. :)
Quando referes que as pessoas são imprevisíveis, acho que esse é mesmo o aspeto central. São as situações que nos moldam e nunca sabemos como vamos reagir quando algo de grave nos acontece
ResponderEliminarEu gosto de pensar que detenho conhecimento baseado no simulacro de N possibilidades e o sangue frio necessário para o poder aplicar.~
EliminarTambém sei que são fantasias de natal e o pragmatismo que me assiste ri-se a bandeiras despregadas desta minha presunção, Andreia, porque no fim é isso mesmo.
Beijinho :)
O mundo está cheio de loucos. É um bom pressuposto a considerar antes de qualquer intervenção.
ResponderEliminarCreio que é na realidade O pressuposto a considerar sempre. Nós conhecemo-nos a nós próprios vagamente, quanto mais aos outros.
EliminarGrande Xi-<3 ( muito pouco filibusteiro, isto do abraço, mas é sentido) Cuca, oh Captain, my Captain
Existem na realidade alturas da nossa vida que podemos ou temos de passar por medidas que podem ser decisivas na vida dos outros, no entanto, profissões há, onde todos os dias se têm de tomar posições e decisões que convém serem bem ponderadas porque delas poderá depender a própria vida de pessoas. Lembro-me de enfermeiros, médicos, polícias, e muitos outros que são as chamadas profissões de sacrifício, para serem levadas com humanidade. Infelizmente, nem sempre estão todos à altura de as desempenharem,
ResponderEliminarÉ verdade Ricardo. Que poderá haver de mais ingrato para quem não sofre do complexo de deus, do que ter que decidir numa base diária, sobre a vida ou morte de outro ser humano?
EliminarPessoas como eu, seguramente não nasceram para tal função, e creio que o que há mais por esse muno fora é gente como eu, que anseia pelo momento em que possa deitar a cabeça na almofada, fechar os olhos e sentir alguma paz.
Abraço amigo.:)
Um caso muito dramático esse da Tugce, e a tua reflexão tanto pode ser analisada em relação à atitude que tomou em defesa de duas adolescentes, como em relação à decisão dos pais ao autorizar que as máquinas fossem desligadas no dia do seu 23º aniversário, porque já não havia "volta", no entanto sempre uma decisão difícil. A decisão de Tugce decerto irreflectida, fazendo naquele momento o que achou certo e inevitável, a decisão dos pais decerto muito ponderada durante dias de agonia.
ResponderEliminarDe uma situação ou de outra não queremos alguma vez estar perto!.... A coragem cívica tem um preço às vezes tão elevado!...:-(
xx
Eu que defendo que somos nós quem faz o nosso futuro, vejo-me compelida a acrescentar, " se os outros deixarem". Podes ter tudo alinhavado, podes ter passado com nota máxima todos os simulacros de acção com que a consola do teu cérebro insiste em desafiar-te, mas no fundo, decisões extremas só são unilaterais na sua essência e na TUA essência, essa é que é essa.
EliminarBeijinho, Laurinha
Eu, que tomo decisões por impulso, chego a sentir medo....
ResponderEliminarEu já fui assim, Gaja Maria, e lá bem no fundo continuo a sê-lo, porque é sempre necessária um resposta pronta.
EliminarTento reflectir e ser ponderada sempre. Some you win, some you don't.
Beijinho. :)
Boa noite MD
ResponderEliminarGrande debate que põe na mesa. Este caso é daqueles que nos faz sentir medo, essa é a palavra.
Acredito que a decisão da jovem Tugce fosse fruto duma consciência social bem estruturada, pois quem toma atitudes de intervenção ao testemunhar uma agressão, tem um forte sentido de "obrigação na defesa do mais fraco". Não que não temesse, decerto o coração ia disparado quando interveio, mas o "dever" a que se obrigava falou mais alto. Certamente, se já tivesse tido experiências de retaliações de menor gravidade, isso, de certa forma refreasse sua atitude, que é o que acontece a muitos, ou a deixasse mais "alerta" às sombras, de maneira a proteger-se dum ataque posterior.
Facto é, que vivemos num mundo cão.
Por outro lado, no estacionamento onde foi agredida, havia um número considerável de pessoas, que "olharam para o lado oposto" e falharam no seu auxílio. E eram muitas, juntas, podiam com facilidade, intervir, e preferiram ignorar.
Podemos colocar em causa, se uma pessoa, como no caso dela, deva intervir, quando completamente só, contra os agressores (o que, confesso, hoje, com a experiência pessoal que tenho, desaconselho, embora reconheça que será motivo de sentimento de culpa inultrapassável), mas é inadmissível que um grupo de pessoas não tome atitude.
É horrendo.
Os nórdicos em geral e os alemães em particular tendem em ser condescendentes demais em relação aos não nacionais, tão condescendentes que os poderemos considerar xenófobos, racistas, mesmo.
EliminarQuanto aos agressores da Tugce, não sei se foi um crime de ódio racial, se uma demonstração de poder de misógino machismo. Quando aos espectadores, foram claramente homicidas por negligência e quase que garanto que se se tratasse de um indivíduo de "raça branca", o desfecho teria sido muito diferente.
Abraço Carmem e obrigada pelo excelente comentário.
Trágica infelicidade. Incomensurável número de vítimas numa era de assombro onde apesar de tudo as bestas continuam a caminhar em forma humana. É um mundo triste. Se olhássemos para os hospitais e para outras coisas que nem esse título merecem, para o medo confinado, e depois para o céu, para a promessa do infinito, quase já ali...
ResponderEliminarNão sei o que faria. Raramente presenciei violência mas recordo a impulsividade reflexa da resposta. Recordo bullying o medo do seu início, a ansiedade da ausência, e o seu fim abrupto na violência. Funcionou apenas por surpresa, por ter libertado tudo aquilo que mantenho cautelosamente agrilhoado. podia ter acabado no hospital ou na morgue com várias facadas no peito.
Nada decidi racionalmente. Depois restou apenas o confuso registo mental do evento.
De facto não sei responder, mártir ou cobarde numa ocasião dessas? Penso na minha família, e com pavor reconheço que nessas circunstâncias em nada pensarei, dirigido pelo inato e pelo adquirido e esperando contrariar um pouco a entropia mortal do nosso universo. Nunca saberemos exactamente quem somos antes de o teste chegar.
Abraço, querida M.
Nada Mais verdadeiro do que a sua última frase, querido Q " Nunca saberemos exactamente quem somos antes de o teste chegar".
EliminarO resto é conversa e conjecturas. Esperemos que nunca chegue, o tal teste, o que definirá tudo a partir daquele momento.
Beijo, Q, meu amigo
Uma pergunta que julgo todos colocamos a nós próprios.
ResponderEliminarMas para a qual poucos encontram resposta cabal e convincente.
Boa semana
Absolutamente Pedro. Pegando numa frase do Quiescente ali em cima "Nunca saberemos exactamente quem somos antes de o teste chegar". Podemos até pertencer àquele conjunto de gente feliz que nunca foi posta à prova...
EliminarAbraço a Oriente e obrigada. :)
Eu sou exatamente como a "gaja Maria" tomo-as eimpulso e, muitas vezes arrependo-me, mas não há volta a dar
ResponderEliminarKis:=)
E eu no fundo, debaixo de camadas de ponderação e reflexão, sou tal qual vós sois, Avó. Tanta vez me estala a prudência e rebenta como um foguete...
EliminarBeijo :) :) :)
Nem sempre pesar os prós e os contras funciona. Então se a resposta de pretende rápida, não poderá ser muito reflectida.
ResponderEliminarBeijo
Olha, Lu, se algum dia me acontecer " uma daquelas" estou bem tramada, porque requer uma capacidade de avaliação que muito pouca gente consegue ter sob pressão. Muito menos eu, que sei que, pragmatismos à parte, sou emocional como o raio que me parta.
EliminarBeijocas.
Ontem li, hoje vou tentar ser sucinta, pois o essencial já aqui ficou registado nos comentários, subscrevendo sobretudo o registo da Carmem Grinheiro.
ResponderEliminarHabituada a agir, frequentemente na hora, sem haver muito tempo para ponderação, entendo muito bem esta atitude. Há circunstâncias em que chega o papel de mediadora, mas outras há em que a impulsão, quase inata, leva a intervir. Contudo, em situações complexas, se estivesse sozinha, apelaria a uma intervenção conjunta e/ou contataria as autoridades competentes, sobretudo se vivesse em zonas de violência gratuita. Mas na idade desta jovem, desde que se tenha um apelo interior muito forte, age-se sem pensar no que pode acontecer. Infelizmente são desfechos destes que levam a um individualismo e indiferença cada vez maiores.
Bjo, querida D
(Excelente postagem)
Eu gostaria de acreditar que interviria e faria a diferença. Creio que tenho pelo na venta qb. Já interferi numa situação em que um conhecido desportista achou por bem agredir a esposa ao estalo, ali , publicamente, on my watch... Eu pura e simplesmente perguntei-lhe se achava bem o que estava a fazer e que se era para ter continuação, chamava a Polícia. Acatou e foram ambos embora , ficando eu sempre com a consciência em torvelinho, porque nunca me decidi se fiz muito, se fiz pouco... mas cá bem no fundo tenho a certeza de que não fiz nada.
EliminarBeijoca EU, minha amiga.
Vi cá em Espanha há pouco tempo uma reportagem na TV sobre violência de género, em que se falou de uma experiência levada a cabo na Suécia e depois replicada em Espanha. Consistia em pôr um casal de actores num elevador, a fingir que ele a agradia sem motivo, verbal e fisicamente, para avaliar as reacções - ou a falta delas - das pessoas que por acaso também se encontravam no elevador. Para espanto geral, de 50 situações representadas pelos actores, apenas 1 (UMA!) houve na Suécia em que a pessoa que ia no elevador se insurgiu contra o homem, dizendo-lhe que parasse. Todos os outros 49 casos foram de indiferença, medo ou cobardia. Já em Espanha, surpreendentemente ou não, dos 50 houve quase metade (45%) de pessoas que, sim, se insurgiram, ralhando, interpondo-se ou chamando a atenção do agressor. Isto mostra que, afinal, é também nos países ditos mais desenvolvidos que as pessoas se fecham na sua concha de egoísmo...
ResponderEliminarUm beijinho para ti, Dulce, e parabéns pelo excelente 'post'
É bem verdade que a maior parte das pessoas escolhe não interferir, porque desconhece a causa, porque não quer problemas ou porque se está a borrifar para a vida dos outros. Os nórdicos são muito mais civilizados porta fora e muito mais selvagens porta dentro, do que os povos mais a sul. Não é por acaso que detêm uma posição de destaque no ranking dos países com maior taxa de suicídios.
EliminarEsse estudo que viste ai, devia se passado em todo o mundo nos intervalos dos noticiários e das novelas, para acordar a pessoas que se dizem civilizadas.
Beijo Miú, obrigada :):):)
Lindo texto!
ResponderEliminarMuito informativo, realmente deveria passar na mídia para que todos soubessem e se informassem mais....
Bjus
http://www.elianedelacerda.com
Nem todas as pessoas tomam atitudes em defesa dos mais fracos!Difícil mesmo!
Sabe Elyane, agir não é difícil, difícil é decidir agir com justiça.
EliminarObrigada amiga. Beijinho
Um texto excelente a relatar o caso dramático e tão impressionante da jovem Tugce. Um caso que faz pensar nas atitudes que tomamos ou não tomamos, mas escolhas que fazemos, nos momentos das nossas forças ou fraquezas. Obrigada.
ResponderEliminarUm BOM NATAL e um beijo.
Agradeço, Graça. Retribuo os melhores votos de Boas Festas.
EliminarCom muita amizade e um grande, grande abraço da MD. :)
adorei teu texto, pq vc reflete uma inquietude e uma ânsia de acertar, que a meu ver são impossíveis,rsrs na realidade, podemos sim controlar algumas coisas, mas outras simplesmente acontecem ou não, e não tem como evitar, não dá pra prever como vamos reagir de cabeça quente, eu pelo menos penso assim. adorei teu blog, beijos :)
ResponderEliminarViva Jeanne :)
EliminarAgradeço a companhia e a leitura . É frustrante e ao mesmo tempo assustador para um control freak a quem o acaso raramente troca as voltas, ter consciência que afinal não tem poder para poder controlar seja o que for, :):):)
Beijos, :)
Está aqui um lençol de dimensão e qualidade notáveis. O tema é atualíssimo.
ResponderEliminarO homem, como sabemos, é potencialmente violento e, por isso, as comunidades por ele constituídas tendem a sê-lo, cada vez mais. Isso dever-se-á a mil e um fatores que, por facilitismo, presumimos serem-nos alheios. A maioria refugia-se em atitudes de neutralidade, de abstenção – não me diz respeito - perante a evidência de situações de conflito prontas as explodir. Há o hábito de passar a responsabilidade para as instituições que não passa de uma postura de comodismo e individualismo, doenças graves do nosso tempo. Se pusermos a mão na consciência poderemos sentir-nos culpados.
Dito isto tenho na ideia que cobardia e heroísmo são faces da mesma moeda, ambas indispensáveis na resolução dos desafios que se nos apresentam pela frente. O heroísmo que muitas vezes é determinado por sentimentos de medo, leva à tomada de posições irrefletidas que, ao invés de serem solução, multiplicam os problemas. Aliás, a "cobardia" é útil, se forem desencadeadas, depois, ações de ativismo cívico, com a participação voluntariosa de cada um na sua comunidade. Nesta participação voluntariosa é que poderá ser achado o verdadeiro heroísmo nos dias de hoje.
Tantas vezes me vem à ideia aquele antigo provérbio na língua de Shakespeare..."no good deed ever goes unpunished", Agostinho, mas tem razão, meu amigo.
EliminarAbraço amigo.