segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Torn Curtain

"Cresce junto o que foi criado para estar junto"

Willy Brandt



“Havia uma palavra no escuro. Minúscula. Ignorada. Martelava no escuro. Martelava no chão da água. Do fundo do tempo, martelava. contra o Muro. Uma palavra. No escuro. Que me chamava.” 


Eugénio de Andrade







Nasci em ti
Vivi para ti
Respirei a tua voz
Bebi cada mandamento com a sede da convicção.
Dei-me a ti
Dei-me a mim
Dei-te os frutos da minha árvore
Pensei os teus pensamentos
Foi sempre tua a minha vontade
Obedeço-te porque te pertenço
Porque me enclausuras ?
Porque me amordaças com as farpas do arame que me cerca?
Porque me agrilhoas ao betão que me empareda?
Porque não me amas como sempre a ti  amei?




O Braço de Ferro que mantinha firme a cortina psicológica, a mesma que serpenteava abjecta, infame e obscena por mais de 65 quilómetros de agonia, como um corte pútrido, uma fissura longa e inflamada que dividia a alma de um povo, começou a ceder.
Foi Schabowski, sinónimo de a partir de agora, quem sem querer abriu um rasgo, uma pequena fresta que  alargou pela força do perfume a liberdade que a aragem fresca transportava do lado de lá. 
E as asas presas em décadas de opressão , encontraram espaço e voaram exultantes e libertas.
Foi ontem, há 25 anos atrás



                               

30 comentários:

  1. Respostas
    1. Foi sim. Lembro-me tão bem de me deixar chorar com as imagens de felicidade dos que respiraram liberdade, alguns pela primeira vez, outros a tentarem relembrar o sabor de outrora. :):)

      Eliminar
  2. Infelizmente, parece que 25 anos depois há coisas que pouco mudaram

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito mudou para a Alemanha, claro. depois a Glasnost e a Perestroika desmembraram a CCCP...pelo menos, fisicamente, porque o núcleo duro, esse deve ser insolúvel, Andreia.
      Beijinho.

      Eliminar
  3. Fatos da história que nunca deveriam ter acontecido.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Verdade Élys. Mas o Muro continua a simbolizar todos os muros que se ergueram por aí, física e psicologicamente falando.
      Abraço :):)

      Eliminar
  4. "Cresce junto o que foi criado para estar junto", e tudo o que é apartado de forma injusta e inconcebível, voltará a unir-se mas com um preço muito elevado pelo caminho.
    Parece que foi ontem, para nós...não para quem tinha família e amigos de um lado e de outro.
    Gostei da forma contundente e poética, Dulce. Muito bom! E não ouvia Sting há que tempos!
    Boa semana!
    xx

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah, minha piquena, eu de poeta, só tenho as penas... penas de o não ser, claro :):):)
      Mil beijinhos, Laurinha.

      Eliminar
  5. Sem dúvida um dos grandes momentos do século
    Boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um marco de memória Pedro, um símbolo de libertação. Tantos são os muros, tantos...
      Abraço a Oriente :):)

      Eliminar
  6. Lembras-te quando éramos todas socialistas puristas ? Bons tempos em que se acreditava em algo e no sentido que faziam as palavras de ordem, mas não queria voltar lá.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Lu, minha cara, essa vacina foi uma das mais caras que tive que apanhar, mas fiquei estanque, imune, sei lá... :)
      Lembras-te no Liceu, do Franquelim, da UEC do Octávio Pato ( Quá-Quá) e das guerras diárias por território e almas ? Como sabíamos tÂo bem dar lavagens ao cérebro? Como é que raio pudemos nós ser assim alguma vez ????
      Mas olha que a saudade bate forte... :):):)

      Eliminar
  7. E viva a Liberdade entre todos nós e, também não nos podemos esquecer da responsabilidade em fazer perdurar este Planeta que há muitos muitos anos nos "atura" !!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Grande verdade Ricardo. É fantástico não sentir a vontade restringida, poder falar, poder ir , poder ser... mas para tudo isso é necessário o onde, o local da acção, o espaço comum aos homens, e esse é aquele que nos "finalmentes" acaba por vir sempre em último, mesmo no fim, quando deveria ser sempre a nossa primeira preocupação.
      De que serve lutar para viver em paz, liberdade e harmonia se não tivermos onde?
      Abraço amigo.

      Eliminar
  8. Precisamos de um Willy Brandt que venha derrubar as divisões que continuam. Divisões que deixaram de ser um inestético muro e passaram a cenários enganadores levantados arbitrariamente pelos donos do mundo para perpetuarem a sua posição dominante. Deem liberdade e justiça de verdade ao homem.
    Parece que ainda foi ontem que assisti na tv ao concerto que marcou o derrube do muro da vergonha.
    Uma boa noite, MD.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Agostinho, meu amigo, o muro da Intolerância e do preconceito, a maior construção do homem não visível a olho nu, tem vindo a cimentar-se em pleno sec: XXI, com mais força do que na idade das trevas. É uma daquelas tristezas da condição humana que não se consegue perceber.
      Abraço amigo e uma boa 5ª Feira

      Eliminar
  9. Toda a postagem está muito bem encadeada, em torno da sua mensagem fulcral: muros e a comemoração da queda do muro de Berlim...
    É o título, as citações, os textos, fechando, inteligentemente, com a escolha desta canção que diz tudo (nunca faço, mas desta vez tinha um feeling e fui ver a letra da canção). Por tal deixo-te os meus parabéns.

    Também vivi, emocionada, a sua queda e o que se seguiu. Era uma época de deslumbramento e nele andei durante um bom par de décadas.
    Contudo, os muros continuam, em muitos locais, quer material quer imaterialmente. Também nas e entre as pessoas. Lamentavelmente... Parece que este mundo é como os governos: vive em alternância sem alternativa.
    Amiga D, um bjo :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Como referi acima, o muro da intolerância e do preconceito, saidinho da idade das trevas, fortificado e acrescentado tijolo a tijolo todos os dias, é a maior construção do homem, aquela que define a sua condição humana, lamentavelmente um tanto indefinida nos dias que correm. Esses muros, os invisíveis a olho nu, são sempre os piores de derrubar e os mais incapacitantes e limitadores.
      Beijo, querida e obrigada. :)

      Eliminar
  10. Sempre que aqui passo fico à nora: ou trucida os social democratas, ou os socialistas, ou os comunistas , ou os capitalistas, ou os monárquicos. Cogito se a MD Roque é uma pessoa genuína ou um artigo indefinido.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Porque seria "normal" seguir uma linha de pensamento, uma ideologia política estabelecida, certo?
      Eu sei o que quero, e ao que eu quero nenhum dos supra mencionados responde. Todos têm excelentes propostas e uma prática de m*rda, se me permite o caro Anónimo.
      Uma excelente 5ª Feira.

      Eliminar
  11. Caiu o muro de pedra, mas atualmente outros muros se levantam. Que nem por serem invisíveis causam menos estragos.
    Um abraço e bom fim de semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E que são muito mais complicados de demolir do que os muros físicos, Elvira, como já acima referimos.
      Beijinho e bom fim de semana

      Eliminar
  12. era a Alemanha de Leste, e o mundo ocidental. Era a Alemanha da Stasi, Berlim o cenário ideal para todas as deserções, de cientistas, espiões, de que, algumas vezes ouvíamos falar. Havia uma ponte onde se faziam "trocas". Havia relatos de fugas épicas de famílias que não queriam viver na chamada "cortina de ferro" . Depois caiu a muralha física, mas ainda ficou muito da psicológica. A Ucrânia e a Rússia estão a construir outra.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Era o tempo da guerra fria, como bem o descreve John Le Carré :)
      Os muros, aqueles invisíveis, construidos sobre a intolerância e o preconceito, esses estão e estarão para durar.
      É triste, tão triste, DER, minha amiga...

      Eliminar
  13. Ainda existem muitos muros a serem destruídos!
    Aqui mesmo em nosso país, o muro que separa a favela da sociedade e muitos outros.....
    Vamos analisar e questionar!!!!!
    bjus e bom final de semana!
    http://www.elianedelacerda.com

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Realmente é flagrante, mesmo sem barreira física propriamente dita, entrar numa favela Elyane.
      Sair de S. Conrado para a Rocinha é entrar num mundo à parte. A diferença é gritante e o medo deixa cheiro no ar. O muro aí é social e psicológico, como do dia para a noite. E eu estive lá pela última vez há 25 anos...

      Eliminar
  14. Momento que marcou mais um passo para a liberdade.

    Cara D, também vim saber da cegonha. Já chegou? :)

    Bj

    Olinda

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viva Olinda
      A cegonha só chega lá para os idos de Janeiro, o que parecendo ainda um tanto distante, vai chegar num instantinho , minha amiga. Estou mortinha que seja Janeiro :) :) :)

      Eliminar
  15. Bonita homenagem a um dos momentos em que a liberdade ganhou a força de derrubar um muro. Mas há tantos ainda por derrubar... há tantos que se vão erguendo...
    Um beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Verdade Graça. Não é necessário betão nem arame farpado para erguer um barreira intransponível, quando as mordaças não se vêm mas manietam e ferem por dentro.
      Bom Domingo. :)

      Eliminar

É aqui que me mandas dar uma curva