sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Counting Out Time ...

"Apesar de tudo, a loucura não é assim uma coisa tão feia como muita gente julga. Há tantas loucas felizes!"

Florbela Espanca



Já que não tenho, tal como preciso, 
A felicidade que esse doido tem 
De ver no purgatório um paraíso... 
Direi, ao contemplar o seu sorriso, 
Ai quem me dera ser doido também 
P'ra suportar melhor quem tem juízo

António Aleixo




( buçozinho e tudo, olaré !)


Atravessar a adolescência na década de 70, foi uma corrida, um susto , um espanto , um pavor e uma das mais belas e loucas recordações da minha vida.
Foi como atravessar um deserto de intolerância, repressão e medo, e desembocar num oásis luxuriante pleno de cor, ritmo, palavras soltas e êxtase desmedido. 
Abraçar a liberdade sem limites nem imposições, embebedar-se nela , mergulhar de cabeça até perder o pé ... foi a época de todas as loucuras, de todos os excessos e de todos os desencantos.

Gratas são as recordações de ver pela primeira vez um concerto ao vivo : Os Genesis , no Dramático de Cascais , a arte cénica do Peter Gabriel , os back vocals do Phil Collins, tão colocados, colados, indistintos, mágicos, como todos aqueles minutos que terminaram cedo demais, no meio de uma multidão ululante que não conhecia bem "The lamb Lies Down on Broadway" , mas a quem a música falava mundos de entusiasmo e vocalizava em unissonãncia tudo que fazia sentido na vida de quem era jovem.

Gratas são as minhas recordações politico-partidárias, que depois dos percalços do PREC, abracei com ímpeto voraz, como se não houvesse amanhã. Como naquele sonho juvenil em que somos sempre o herói no seu alazão de pau, eu fiel às minhas convicções, quando as palavras se envolviam, revolviam e por fim pisavam e feriam, não desejava nada mais do que abarcar uma boa escaramuça, dar o corpo ao manifesto,arranhar, morder,  rasgar um par de camisas, por gelo num olho azul... valia tudo para fazer valer um credo, um valor , um dogma, uma religião.

A memória mais acalentada, a de encontrar a alma gémea, experimentar pecados loucos, sentir os sentidos a revolver as entranhas enquanto o coração martelava nos ouvidos e saía pela boca em suspiros de perdição. A pele em pelo ansiava pela frescura da lama onde deslizava como veio ao mundo, aquela felicidade que brotava no cabelo em flor daquele Woodstock passado, que só então pudemos visionar.

Depois retornaram os que viviam além mar. trouxeram outra alegria, outros ritmos,  despiram convenções, ofereceram ilusões em forma de verde , que rapidamente inundaram as ideias e os ideais. Depois foi o princípio do fim do conto dos heróis e ninguém viveu feliz para sempre.

Mas foi bom enquanto durou

Às portas de um novo ano que se prevê radical em  promessas de vida, registo esta confissão de lembranças felizes, para que o meu futuro possa um dia saber sobre o meu passado e sorria com a lembrança de que os velhinhos já foram, numa época distante, aquele pequeno ser desarticulado que cabe na cova de um braço e que revela em nós a maior emoção que algum dia poderemos sentir.






                          

32 comentários:

  1. Disse Neruda: "Confesso que he vivido". Aqui, no texto acima, encontro o presente, o "confesso que vivo". E nada há nada melhor que tal confissão.

    Boa noite, cara MD.

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    1. O furação de vez em quando ainda arma pé de vento, mas o grau 5 esmoreceu para um degrau de cada vez, querido X. Mas vivi. Vivi uma vida preenchida e continuo vivendo, num ritmo muito meu, muito mais tranquilo, ponderado e sábio... vivi sim, X. :)
      Bom fim de semana

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  2. Um dos teus posts que mais prazer me deu ler...E acho que tudo tem a ver com uma questão de marcar uma identidade; ver-te ali, mais jovem e linda , e depois falares como se fosses uma velha, que não és, só significa que a vida foi intensa. E de certeza que continuas linda ainda hoje.
    E que inveja eu senti, inveja boa, diga-se, porque embora sendo um pouco mais jovem do que tu, na altura da revolução eu tinha 11 anos, depois, nunca assisti a esses concertos ao vivo, não percebi nada do que se estava passar, embora percebesse que tinha de ser bom, e toda essa década foi de uma forma ou de outra importante para toda a gente.
    Guardo lembranças boas dos projectos culturais, como teatro, canto coral, aprendizagem de música, e o que mais me marcou acho que foi o facto de começarem a haver turmas mistas....Eu própria aprendi a tocar viola nessa altura...:-) E o melhor de tudo foi ter participado tão jovem num projecto de alfabetização de adultos, do qual a minha muito jovem mãe foi aluna, porque nunca tinha antes ido à escola.
    As grandes mulheres também se vêem no que escrevem.
    xx
    xx

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    1. Ainda hoje me disseram que poderia ter tido um futuro brilhante na política, se tivesse querido. E querer, significava vergar-me e obedecer cegamente às directrizes do partido... só quem não me conhece MESMO poderia sequer ponderar a possibilidade. Naquele tempo... naquele tempo o idealismo imperava sobre o individualismo, queríamos mudar o mundo, instituir uma paridade universal. Eramos uns tansos, crédulos e despertar para a realidade foi até doloroso. mas não me arrependo de nada. Nem considero uma perda de tempo, o muito que passei a trabalhar para a igualdade social... :) :) :) ... que miúda palerma que eu era...
      Beijoq«ca, Laurinha.

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    2. Não eras palerma, o mundo é que esta sempre cru e parece nunca querer amadurecer.
      xx

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  3. Lovely post ! :)

    NEW POST ON MY BLOG:
    FantasyFashioned
    xoxo ♥

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  4. Há memórias que nunca se desprendem de nós

    Beijinhos*

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    1. Verdade, Andréa, e ainda bem :)
      Beijinho e bom fim de semana

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  5. Porra!!!
    Isto mexeu comigo, caramba.
    Sinto que estou a recuar no tempo, "chavalo" de dezoito anos (beirao das bercas), cavalgando na desbunda do pavilhao de Cascais, la no alto, Motors, Tubes e outros...
    Vinte contos, quatro camaradas compramos um carro. Quatro a cada e alto, era um Opel Kapitan, seis cilindros, velho, claro. No final do concerto dos Motors, praia de Carcavelos e fomos presos...por ditar foguetes na praia pelas cinco da manha...
    Ja nem uma pessoa podia festejar...
    Um dia, no estadio do Restelo, chamei um nome feio a um Dr Feelgood e deu me um abraco.
    Tempos loucos em que nao se precisava de soprar no balao.
    Quase nem me lembrava!
    Bem haja.

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    1. Erro meu, cinco contos cada.
      Desculpe a inflacao...

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    2. Lembro-me de ter ficado desolada por não ter ido no 2º dia, quando tentaram tomar o pavilhão de assalto e caiu parte do telhado... teenager inconsequente era o que era :) :)
      Também adorei Cheat Trick :) Grandes memórias, felizes lembranças.
      Abraço Xico.

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  6. Muito poucas miúdas da nossa idade conseguiam inflamar um anfiteatro como tu. Mas garanto-te que não perdeste nada em não teres continuado a filiação partidária. Penas teres deixado os louros de tanto trabalho de mão beijada para quem não merecia.

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    1. Vê lá bem isso da inflamação, não vão pensar que andei para aí a pegar DSTs às pessoas :D:D:D:D:D:D . Nuca se deve chorar sobre o leite derramado... é limpar o chão e partir para outra.

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  7. "Juventude divino Tesouro"... Que bom é poder recordar...
    Um beijo.

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    1. Apesar dos altos e baixos, Graça, se me deixassem escolher e recomeçar, creio que não mudava nada. É a minha história de vida, a que eu escolhi escrever no livro das minhas memórias. Ah , a juventude, bem precioso que não se volta a adquirir... :)
      Beijo e BFS. :)

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    2. Tenho que referir que gosto muito de Ingmar Bergman, e vi o filme há... sei lá, 30 e tal anos ? ... com o meu pai... :') :') :')

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  8. Eu assumo todas as minhas escolhas, embora tenha errado em algumas, mas tenho a coragem de assumir , e não me envergonho de dizer que erro porque sou humana!
    Os jovens são impulsivos e isso nunca mudará!
    bjus e bom final de semana,amiga!
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Ah Elyane, bota impulsivo nisso, querida! Mas também nunca escolheria fazer diferente. São as nossas escolhas que nos definem como indíviduos, e eu assumo as minhas, sempre. :) :) :)
      Beijo e bFS

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  9. Ainda só tinha lido o título da tua publicação e, obviamente, adivinhei a composição que irias pôr :)) Também estive em Cascais, nesse longínquo ano de 1975 (acho !?) para a apresentação em Portugal desse magnífico álbum que o foi/é "The Lamb Lies Down on Broadway", no "Pavilhão do Dramático".
    Soberbo concerto, com toda a excepcional encenação do grande Peter Gabriel.
    Tempos tão salutarmente loucos !!!

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    1. Foi mesmo em 75 :) ... e claro está, do meu ponto de vista, foi inesquecível e inigualável. Nada que tivesse visto até então, o génio do Peter Gabriel e toda a espectacular mise en scène. Fui no primeiro dia, mas creio que foi o segundo dia que fez história. Falava-se em entradas forçadas, assalto pelos telhados, pequenas derrocadas, disparos de G3... claro que ficámos desolados de não estar no centro de todo aquele alvoroço, mas o concerto ainda é a jóia da minha coroa.
      Abraço Ricardo, bom Domingo :) :)

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  10. Inesquecível porque me faz recordar a minha juventude. Nessa altura eu ia fazer 22 anos e estava na tropa, já em Lisboa e fui vê-lo, ao concerto, porque os "Genesis" eram uma Grande Banda que me marcou/marca. Um grupo com muita qualidade e bem acima da média, na qual Peter Gabriel se destacava, para além de Phil Collins, Steve Hacket, Mike Rutherford e o grande teclista Tony Banks. Sei os nomes de cor e salteado e ainda algumas (muitas!) letras de alguns álbuns.

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    1. Ah, eu também. :D :D :D :D Por exemplo primeiro LP, do Lamb , sei-o de cor do princípio ao fim eheheheh. Depois foram tantas bandas, algumas muito boas, mas não as vi todas. Vi os Cheap Trick em Alvalade, os Classix Noveaux no Restelo e os Roxy Music, também no Restelo... mas nenhum deles me deu aquele click do meu primeiro concerto ao vivo, Ricardo :)

      ( Tenho que abrir aqui um parêntesis, para falar no maestro José Atalaia, cujo empenho em educar mentes jovens no sentido de apreciarem o encanto da musica clássica, nos deu a conhecer a tetralogia de Wagner no Coliseu e no S. Carlos e foi divinal )

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    2. Velhos tempos, belas recordações !!!

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  11. Uma postagem em que nos deu a conhecer um pouco daquilo que era e é. Fisicamente era muito bonita. Eu não vivi nada disso. Nessa década eu já era casada há uns anos. Vivia em África onde a vida era muito mais aberta, e exceptuando a censura e o medo da P.I.D.E. a vida tinha outra cor. Nessa época eu vivia numa grande batalha com o meu ventre seco, e com toda uma parafernália de tratamentos que não resultavam nunca. Depois veio o 25 de Abril, com a guerra a entrar pela cidade, o recolher obrigatório e o medo. Nessa época eu pertencia à Caritas, estava empregada no colégio Cristo-Rei, para onde foram levados os desalojados dos musseques, que esperava uma oportunidade para regressarem a Portugal. Foi tanto trabalho e tão intenso que me esqueci de mim mesma.
    Mais tarde em Portugal, voltaram os tratamentos infrutíferos, a desilusão, e finalmente a espera por uma adoção.
    Um abraço e bom Domingo.

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    1. Outras memórias, igualmente belas, que só quem viveu em África pode entender. Não vivi em África. Conheço a realidade Angolana, porque falo diariamente como o meu irmão mais novo que vive em Luanda.
      Uma vida que marcou pela diferença, e pode acreditar que fez realmente diferença na vida daqueles que ajudou.
      Um enorme beijinho, minha querida Elvira e um bom Domingo.

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  12. Dulce,

    Gostei foi da foto, muito bonita.

    :)

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    1. Pré-histórica e nostálgica... o tempo é um diabo, Marcos. :)
      Abraço

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  13. Estive aqui de manhã e comentei; na hora de entrar o comentário, falhou a net; vou tentar reproduzir.
    Identifiquei-me neste teu excelente texto memorial, excetuando algumas vivências que, por viver num interior esquecido, não tive oportunidade de viver. No que por cá havia, também fui uma ativista convicta e, tal como tu, não me arrependo de nada. Arrepender-me-ia se tivesse passado ao lado. foram anos de sadias "loucuras".
    Ainda faço política ativa, sendo já há alguns anos, membro da Assembleia Municipal, como independente, mas integrando uma bancada partidária.
    Pesam-me estes tempos e o tempo, sem futuro, de milhares de jovens. Mas, no fundo, ainda acredito que a palavra esperança não será postergada.
    Gostei de ver esta "moçoila" cativante com olhos sonhadores :)
    Bjo, querida D :)

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    1. Acredito que a experiência politico-partidária fora da alienação que é Lisboa possa ser agradável e engrandecedora. Aqui, como se tem visto, impera o NIM e e salve-se quem puder ( ou enche-te enquanto podes). Não aponto ninguém em particular, pois acredito que a corrupção consegue chegar até aos núcleos duros da rectidão.
      De 74 a 80 vivi intensamente. Gostava de poder revisitar um dia, ponderadamente esses anos loucos. Talvez consiga transpor as emoções para o papel, mas há sentimentos que não se conseguem descrever por palavras.
      Beijos, querida e obrigada :) :)

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  14. Gostei imenso desta partilha, muito bem esgalhada e escrita. Até se conseguem ouvir os Genesis (e outros).
    É coisa de comover. Afinal, a história também me (nos) toca/tocou. Cabelo e barba grande e muitos etc.s. Foi bonito, sim senhora! A Espanca e o Aleixo foram muito bem metidos neste barulho.
    Qual buçozinho, qual carapuça... bem linda!
    E agora... felicidades para os filhotes e netos é o que está na ordem do dia.
    Obrigado!

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    1. Sou eu quem agradece, Agostinho.
      Grande abraço amigo :) :)

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É aqui que me mandas dar uma curva