"A infância é como a água que desce da bica, e nunca mais sobe."
Arde-me nos olhos o aroma inconfundível das castanhas assadas no carvão. Tusso com o fumo e salivo ao mesmo tempo por gulosa antecipação. Sou louquinha por castanhas.
Camilo Castelo Branco
"E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós"
Alvaro de campos
Arde-me nos olhos o aroma inconfundível das castanhas assadas no carvão. Tusso com o fumo e salivo ao mesmo tempo por gulosa antecipação. Sou louquinha por castanhas.
O meu Avô , trajando um robe de chambre verde ervilha, sentava-se à mesa da cozinha com uma imensa malga cheia de castanhas fumegantes que tinha acabado de assar naquela ânfora de barro com buracos no fundo. Despia-as cuidadosamente, fazendo estalar a casca enfarruscada sob a suave pressão dos dedos , abria-as com desvelo pelo golpe transversal e colocava um pedaço loiro de manteiga, daquela quarta que a avó tinha trazido da leitaria embrulhada num papel vegetal. Repartíamos. "Toma" dizia, "Prova assim, é muito bom". E era, era delicioso e fantástico aparar na ponta da língua gotas divinais de manteiga derretida e apressar-me para que o calor da castanha a não dissolvesse por completo.
Depois, depois chegava a Bisavó Júlia a arfar de cansaço, com um enorme pão escuro dentro dum saco de pano que tinha um bordado a ponto de cruz e que ainda cheirava a quente. Cortava uma fatia que barrava com o doce de tomate que a Avó Adelaide tinha naquele armário escuro, o da enorme porta de madeira amarela, sempre cheio de frascos com letras, e então era um toca a lambuzar.
A Mãe era mestre em castanhas cozidas, com sal, açúcar e muita erva doce e costumava pô-las já sem casca na minha cestinha da merenda, dento de um saquinho de guardanapo com uma flor e a letra D bordadas a azul e amarelo. Adorava sentar-me num banquinho debaixo da pérgula grande no Jardim Botânico da Ajuda, com o fraco sol outonal a brincar-me com as pernas, a merendar o pãozinho com marmelada e as castanhas da minha Mãe. A água gelada no repuxo do bebedouro completava aquele festim sempre tão reconfortante.
Perdeu-se a mística dos magustos de S. Martinho onde o Pai era presença emblemática , sempre com a sua acompanhante preferida. Perdeu-se mesmo a tradição das castanhas no dia 11 de Novembro , acompanhadas pela prova do vinho novo, ou da água pé, ou até mesmo da jeropiga na qual que me deixavam por o dedo gordo e provar o ardor.
Provavelmente a minha cada vez mais próxima mudança de estado - sim, porque ser avó é seguramente o supremo estado de graça na vida de uma mulher resolvida- faz-me recuar no tempo e regressar aos dias mais felizes da minha vida. Recordo-os com muita frequência, muita saudade, nostalgia e alguma tristeza. Pelos que foram, pelo que eu fui, pelo que se perdeu.
Passei metade da minha vida num correr constante onde o tempo nunca me deixou tempo para parar.
Cadenciarei o passo. Impõe-se um abrandamento. Não posso deixar o tempo continuar a correr veloz como um pé de vento tornado furacão, que me desenraíze de vez . Quero poder mostrar à Alice que as coisas que são como são, nem sempre foram assim. Ja foram diferentes, e boas, e felizes.

Que bom amiga, que tem coisas tão boas de infância para recordar. E para contar à Alice. Eu infelizmente nada tenho para contar à Mariana que tem agora 5 anos. Quando o pai tinha a idade dela, levei-o ao sítio onde nasci, e falei-lhe da vida miserável que tive. Ele não acreditou. Até bem tarde pensou que era uma história que lhe tinha contado. No Rosa eu falo dessa vida, já que meus pais trabalhavam naquela Seca de Bacalhau, e viviam lá numa barraca de madeira, sem água, sem luz, e muitas vezes sem pão.
ResponderEliminarUm abraço e bom domingo.
O importante Elvira, é que a Mariana reconheça que a avó é uma mulher de fibra, que lutou contra a adversidade e venceu, ou provavelmente ela não estaria cá para ouvir as histórias que conta dos bisavós. Os meus pais e os meus avós nunca foram ricos. Tiveram visão, força de vontade e trabalharam como uns mouros, para poderem dar aos filhos o que nunca puderam ter, para os levarem onde nunca puderam ir... lembro-me da Mãe trabalhar noites a fio com um candeeiro pequeno aceso, agarrada à agulha e à linha, onde, sobre aquele brilho fraco, produzia maravilhas para que outras pudessem brilhar... Eu estudei, os meus irmãos também, mas os meus pais, depois de acabada a 4ª classe, foram ambos trabalhar... tinham 9 e 10 anos.
EliminarBeijinho, Elvira querida e boa semana
O valor dos teus pais é imenso, Dulce, e o teu orgulho justificadíssimo! Parabéns por teres essa vontade de os manteres vivos na tua neta, contando-lhe, fazendo-lhe ver, abrindo-lhe os olhos...
EliminarUm beijinho
Tenho tantos sonhos, tantos planos... Espero poder vir a estar à altura ... Assusta-me pensar nas incapacidades com que os anos nos vão presenteando... Há-de correr bem , Miú, há-de sim.
EliminarObrigada é um beijinho.
Nunca comi castanhas com manteiga!
ResponderEliminarTradições que se vão perdendo no tempo.
Bonito texto.
Experimente, que é muito bom, Catarina. Depois de assadas no carvão com sal... provar não faz mal :)
EliminarBeijoca. D
Sabe tão bem recordar!
ResponderEliminarBom domingo, beijinhos*
Sabe ainda melhor voltar a comer castanhas com manteiga, apesar de já não saberem nada parececido com as castanhas do meu Avô Américo, Andreia... então a manteiga é mesmo para esquecer. :)
EliminarBeijinho
Há uma teoria, em que creio, que o tempo corre mais depressa quando não existem os grandes marcos, aqueles que são os padrões de descoberta do tempo. Após o casamento, o nascimento dos filhos, a entrada na escola, os marcos passam a ser menores -- até que, dizem-me, não cheguei aí, ainda, a fase de avô/avó, passa a ter de novo todos os marcos, tudo são épocas para recordar, celebrar, aniversariar. E o tempo, passa novamente a ser aliado, a correr devagar, ao nosso lado. Dizem-me, acredito.
ResponderEliminarBoa tarde, cara MD :)
Não é preciso ver para crer, X, acredite, porque é verdade. Apesar de não ter ainda a Alice do "lado de cá", as memórias dos tempos passados com os meus avós, que foram seguramente os tempos mais felizes da minha infância, são recorrentes ultimamente, e é fantástico verificar que à volta de um pequeno nada se juntas as peças de um dia inesquecível, acabado de sair do baú das recordações.
EliminarEu sei que não é uma competição, mas tenho memórias tão boas e tão doces, que gostava de estar à altura de poder deixar o mesmo legado à minha neta, From Granny, with Love :):) ... duram para sempre.
Beijo, querido X, boa semana
Também adoro castanhas e lamento a perda dos costumes tradicionais. Tem-se perdido o bom e simples. da vida
ResponderEliminarQuando leccionei numa aldeia fazíamos o magusto com as crianças , assando as castanhas na caruma. Tinham um sabor especial.
Tenho saudades desse tempo e da minha infância e juventude...
Beijinhos.
Cada criança levava uma mancheia de castanhas, punham-se ao fogo e fazíamos uma roda de mãos dadas à volta da fogueira, a entoar cantigas infantis da época. Depois tirávamo-las com um pau, sentávamo-nos no chão com as castanhas quentes a saltar de mão em mão no meio de gritinhos de calor e excitação... acabávamos todos enfarruscados, mas felizes :) :)
EliminarBelas recordações, Mona Lisa :)
Beijinho, boa semana
Minha querida
ResponderEliminarTemos que ver o tempo como nosso aliado, o guardião das vivências e a memória o baú das lindas recordações que hoje partilhas conosco e que com certeza encantará a tua neta Alice. Lindas e emocionantes suas memórias minha querida. Uma semana de luz e muitas bênçãos
Beijos com carinho e estima
O tempo ajudou-nos a criar belas memórias e recordações, mas nós temos que combater a sua erosão para as poder manter sempre vivas... a algumas há já tão desbotadas, Gracita...
EliminarBeijos e boa semana, querida.
se o tempo, não deixa tempo para tudo abarcarmos e fazermos, vamos ter de encontrar formas de contornar. eu escrevo num caderno alguns registos que pretendo que a minha filha recorde mais tarde, caso me vá esquecendo deles no dia a dia. é que ela já está quase crescida...e nunca está tudo conversado. boa semana.
ResponderEliminarEu faço fotos. Muitas. Todos os dias. Imagens que me reflectem . Onde eu estou sempre, sem estar de verdade.
EliminarEspero que um dia, um tri-tri-neto as possa ver e falar de quem as fez com carinho.
Beijoca. D
Eu uso muito castanhas. Faço uma sopa de castanha de truz. É verdade que a tradição em si se perdeu um pouco, mas há mais receitas de castanhas, para além de assadas e cozidas. Gosto muito das histórias dos teus primeiros anos, porque lembro-me de ouvir da tua mãe que tudo o que contas sobre o avô e a avó se passou até aos teus 4 anos. Valha-nos a santa memória ! :)
ResponderEliminarAh, inovação e invenção ! Não há "piru" no Natal sem castanhas com azeite, sal , alho, mel e alecrim, douradinhas no forno, Lu.
EliminarBeicas, minha velha amiga.
Completamente fora do tema - http://ultimate75th.com/
ResponderEliminarBeijocas, M D Roque :-)
Fora do tema do Post, mas completamente por dentro dos temas da minha vida. Obrigada, querido/a.
EliminarBeijinhos!!! :):)
Ah, eu sei. Por isso o comentário :-)
EliminarBeijocas de um ex-blogger :-)
Com pena minha, R-edobrada. Beijocas, querido :)
EliminarNão há nada mais enternecedor que ver uma criança a escutar as histórias dos avós. Da boca dos avós.
ResponderEliminarAs memórias e também os hábitos devem ser perpetuados para que não se perca este património onde tantas gerações foram beber.
O ritual das castanhas, nesta época do ano, assadas no carvão, que é um momento marcante da nossa tradição não só pela degustação mas também, sobretudo, pelo convívio que proporciona. Insubstituível. (Felizmente Bruxelas ainda não veio exigir que sejam exclusivamente assadas em fornos elétricos).
Momentos felizes que são guardados no coração.
Boa semana, MD.
É bem verdade, Agostinhp. A minha infância com os meus avós, todos os quatro, foi recheada de momentos felizes, e é por isso que quero tanto poder dar o que recebi, de preferência em dobro :) :)
EliminarAbraço amiigo
A sua neta vai de certeza adorar viajar nessa máquina do tempo da sua vida, M D! Eu, que não sou sua neta :-), adoro fazê-lo!
ResponderEliminarBeijinhos, querida D! (o seu texto emocionou-me)
Querida Susaninha, eu fui uma criança feliz, muito mesmo. Vivi no mundo de amor que os meus avós criaram para mim e é por isso que sonho poder criar para a Alice um mundo mágico, onde o Amor possa ser rei, e a Felicidade a rainha. A mim basta-me o papel de bobo da corte, desde que ela possa ser feliz e eu a possa fazer sorrir, sempre.
EliminarUm grande, grande beijinho, minha querida.
Há quantos anos não bebo jeropiga e não como umas castanhas assadas quentinhas e estaladiças!!
ResponderEliminarBoa semana
Posso assegurar-lhe, Pedro, que a jeropiga que se vende"por aí" é uma surrapa comparada com a do meu Tio António, de Nandufe :) :) :)
EliminarNem as castanhas são "daquelas" , carnudas e sãs, que tinham aquele sabor inconfundível a...castanha. Só pedindo a quem nos traga directamente do produtor... é muito triste.
Acho que em vez de matar saudades iria seguramente ficar ainda mais saudoso :\
Abraços a Oriente, e uma boa semana, meu amigo.
As castanhas são um fruto que encerra histórias, dentro da sua casca, e misturadas com o seu miolo !... Gostei !
ResponderEliminarHistórias do folclore e da vida. Eu gostei e gosto, Ricardo... de castanhas, claro :):):)
EliminarAbraço amigo
Penso que tal como tu, a Alice vai deliciar-se com essas histórias. Lembro-me bem das histórias que adorava ouvir do meu pai e de ver os meus filhos de roda dele a ouvirem as mesmas histórias tão deliciados quanto eu estivera muitos anos antes. É delicioso :)
ResponderEliminarFazes-me sorrir contente, querida Maria. Espero que sim, espero mesmo.:):)
EliminarBeijocas !!
Que recordações fantásticas a pretexto de umas castanhas assadas. Ou cozidas. O avô, a mãe, os sabores da infância e da família que te rodeava. Que sortuda foste, a tua neta vai conseguir ainda ter uma avó à altura do tempo, do espaço, e dos sabores, sons e cheiros que nos ligam ao mundo.
ResponderEliminarLindo, Dulce!
xx
Espero poder acompanhá-la ainda por algum tempo, o suficiente para inscrever o meu nome no seu álbum de recordações com todas as cores do espectro solar e com algum brilho, também, se possível.
EliminarBeijinhos, linda, obrigada :)
O que mais me maravilha na blogosfera é encontrar amigos virtuais com os quais me identifico, sentindo-os como reais...Esta tua postagem é mais um exemplo...
ResponderEliminarO memorial dos avós é um legado sem preço. São também deles que as memórias me são mais queridas. Talvez fosse do tempo que parecia correr mais devagar. E da sabedoria e encantamento contidos nos relatos de vivências.
Do cheiro das castanhas, apraz-me dizer que me aflora um sorriso recordando os assadores à entrada da estação de S. Bento, no Porto. Tempo da faculdade e as viagens que fazia frequentemente para a mina terra.
Também o dos os magustos escolares.
Em casa, ainda se vai festejando...
Excelente texto, querida D. Bjo :)
O tempo não volta para trás, mas é tão fantástico e reconfortante um simples aroma nos conseguir fazer recuar décadas... fazia tanto tempo que não comia castanhas assadas com manteiga... verdade seja dita, não sabem como sabiam, mas souberam-me pela vida :) :)
EliminarBeijinhos, minha querida, e muito obrigada :) :) :)
Corrijo: minha / Também o dos magustos
ResponderEliminar:) :) Aye Aye !
EliminarBoa noite MD, que texto mais bonito de bom, como dizia uma pequenita que conheci, que hoje já é quase uma moça.
ResponderEliminarComo não havia de guardar memórias dum tempo em que era só "lambuzar"? Eram castanhas daqui, doce de tomate dali, pão quente dacolá, até a nós decerto apetece lá voltar, depois de tanto alarde às coisas boas. Doces memórias que ficam. Como a entendo. Mas olhe que castanhas com manteiga, não conhecia, não. Às próximas aqui de casa, não vai faltar a manteiguinha, que com certeza, não será como a que lá havia, então, quiçá, ainda caseira, ou pelo menos, não tão artificial e cheia disto e daquilo, de que mais vale nem saber...
Mas nós cá nos safamos com o que temos, e também vamos sabendo "construir os nossos momentos e criando nossas tradições", por vezes adaptadas das que nos marcaram, outras, fruto de aventuras da nossa imaginação e vontade de viver e fazer viver a felicidade dos momentos, que é o que ficará na memória, e passará adiante, quando já não estivermos para nos sentarmos à mesa.
É ou não é? Claro que é... Mais uma vez: como a entendo.
Adorei o texto. Adorei esse seu "retornar ao passado". Adorei aprender que castanha com manteiga é bom.
bj amg
Adorei ler o seu coment+ario! :) :) :)
EliminarBeijos grandes, grandes, Carmem
Uma castanha rechiada de história e tradição, que se perde pelas ameias da nossa vida.
ResponderEliminarNós, aqui ficamos sentados à soleira do tempo, saboreando esses momentos, num trago de jeropiga que nos embriaga de saudade.
O capítulo terminou, mas a história continua!
http://diogo-mar.blogspot.com/
É verdade Diogo, enquanto houver castanhas e memória. :):)
EliminarAbraço amigo