segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Carrossel

"A  coisa  mais impressionante  que existe são os olhos dos cavalos  de carrossel , olhos  que parecem estar gritando  " avante ! " -  enquanto  eles ,nos  altibaixos  do galope , jamais podem sair  do mesmo círculo ." 
Mário Quintana




Todos os dias os encontro. Evito-os.
 Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles.
 Já não me confrangem.
 Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer.
 Vençam lá, à vontade.
 Sobretudo, vençam sem me chatear. 

Alexandre O'Neill










A música não é sequer musical, não é melodiosa, não flui no ar como bolhas de sabão que reflectem rostos contentes e arco-íris de satisfação. É mais um som de ruidoso contentamento, misturado com tinir de vidros e porcelanas, risos e choros de crianças, gargalhadas e reclamações de indignação.
A luz é doce e difusa, entrecortada permanentemente pelas sombras dos que sobem e dos que descem, sombras grandes, pequenas, largas, estreitas, amargas ou confortadas. 
É a magia do carrossel, no seu esplendor centenário, que atrai as idades como insectos para luz , em filas intermináveis e ordeiras, todos expectantes e entusiasmados, todos contando os minutos ao segundo, todos desejando chegar rápido a sua vez de subir no carrossel.

A velha que carrega no botão olha-os a todos já sem os ver. São tantos, tantos anos, , tantas caras, tantas vozes, tantas e tão diferentes auras de emoção. Vão entrando e ocupando os lugares , a cavalo num alazão de madeira, numa girafa ou num leão, numa carruagem sem corcel, numa chávena de chá que rodopia incessante. A velha faz soar a buzina e começa mais uma volta. São minutos de deleite em que a realidade fica à porta e a fantasia se segura pelas rédeas daquela crina de palha. São momentos para saborear, para degustar com a sensibilidade e a pureza da infância, que se intromete por um instante e abafa a acrimónia da soberba e a alienação da existência.

A velha não precisa de ver para saber. O carrossel é antigo , mas é sólido. Como qualquer carrossel que se preze, ondula pelos altos e baixos do seu percurso fixo naquele mastro central, transportando os seus passageiros num arrebatamento de doçura e emoção, com pequenos objectos espelhados,  reflectindo trejeitos mélicos de bulício colorido e adocicado.
A velha sabe que os tempos são outros e que todos querem a atenção dispensada a monarcas, sentar-se em tronos de reis,  que as vénias não demorem e que se lhes afague o ego com aquele unto repelente que segregam e os torna semi-deuses no seu feudo particular.

A velha sabe que não há tronos no carrossel. É para todos, para todas as bolsas, para todas as cores, para todas as greis. Mas a velha também sabe que a ilusão da felicidade se obtém em dando a todos o que cada um pensa que o faz feliz. É por isso que a velha murmura, sorri e inventa tronos em montes de pedras.

Dias há em que os auto-reis se crêem sentados no carrossel em cadeirões magistrais de veludo bordado a ouro. Então a velha sabe que esteve bem,  apesar de não poder deixar de pensar no quão ocas e tristes de viver serão aquelas  vidas arrogantes.



                                   

42 comentários:

  1. Se bem entendi o texto, a velha será a vida, o carrocel o poder, onde todos querem entrar. Na fila em eterna espera o povo, que nunca entrará no carrocel, do poder, mas que gira e roda sem cessar no carrocel da vida, tentando equilibrar-se o melhor possível, que ela, a vida, não está nada fácil, e o povo é quem sempre sofre as consequências dos desiquilíbrios dos que vivem no carrocel do poder. Falando de outros carroceis, aqueles que andam de feira em feira, sabe que a primeira e única vez que andei num, foi na festa da Senhora do Rosário, no dia seguinte ao meu casamento? Verdade. Meus pais eram muito pobres. Nunca havia dinheiro para "luxos", era assim que minha mãe classificava o carrocel. Casei a 16 de Agosto época das festas no Barreiro, e sem lua de mel, quis experimentar a sensação do carrocel. O pior é que aquilo que seria para mim uma alegria quando menina, foi uma desilusão naquela época e nunca mais andei.
    Outra coisa, no Sexta está o princípio de um conto que retrata uma realidade que conheci bem, e que talvez gostasse de ler. Se lhe sobrar uns minutinhos,,,
    Um abraço e uma boa semana

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    1. Viva Elvira. O Carrossel pode ser entendido assim, como uma metáfora para o poder, mas neste caso significa algo que muitos querem alcaçar, cada um à sua maneira.
      Nunca gostei de carrosséis :(.
      Assim que chegar à noite do trabalho, vou seguramente dar um pulinho ao seu sexta.
      Beijinho. :):)

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    2. Eu não acredito que escrevi carrocel em vez de carrossel. E por mais de uma vez o que é mais grave. Me desculpe. Eu não tenho grandes estudos e por isso costumo policiar-me na escrita. Mas às vezes a pressa faz com que me descuide.
      Um abraço

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    3. Não é de todo errado Elvira! Ambas as formas existem nos dicionários da língua portuguesa. É certo que carrossel é tida como a forma mais correcta, mas não é um atentado à língua dizer carrocel, porque está também no dicionário. Além do mais, a Elvira é uma excelente escritora!
      Beijinho :) :)

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  2. Espero que este lunes este lleno de grandes cosas, Ale-Costa Rica.

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    1. Hola, Ale !!
      Igual para ti, mi querida !!!
      Besos.

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  3. Tão antigo e continua a atrair miúdos e graúdos

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    1. É o fascínio pela imutabilidade das coisas bonitas, Andreia.
      Beijinhos :) :)

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  4. Oi amiga,meu neto adora ir ao parque de diversões somente para andar no Carrossel.

    Bjs e uma ótima semana.
    Carmen Lúcia.

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    1. Eu não sou fã de carroceis, Carmem Lúcia, nunca fui, mas quem sabe a minha netinha goste de viagens encantadas e me ensine a gostar também um pouco :) :)
      Beijo e semana feliz para vocªe também :)

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  5. Tenho um fascínio por esses carrosséis!

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    1. Querida Cuca, eu sempre os achei um tanto ou quanto tétricos... fascinantes, de acordo, mas um fascínio obscuro :)
      :X

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  6. "A vida é como um carrossel. Gira sempre pro mesmo lado. Mas há inúmeras entradas e saídas.".
    Pensamento de adultos, mas naquelas feiras do interior, pura magia...
    Quando vim a Lisboa, fiquei deslumbrado. A Feira Popular de Lisboa era o tal mundo sonhado, pena que depois a seguir acabaram com ela. Com ela a magia do carrossel.

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    1. A Feira Popular era para mim um fascinante pavor... A montanha russa contorcia-se serpenteante e medonha. O comboio fantasma com aquelas figuras aterradoras à entrada, faziam dos meus 7 anos um pesadelo, não fora o algodão doce. O que sempre me marcou nas idas à Feira, foram os cheiros, aquela mistura de doce, salgado, alegria e medo...
      Mas era fã incondicional do Carrossel Mágico , do Franjinhas e do Saltitão, do Tommy e da Anica e dos torrõezinhos de açúcar :) :) :) :)
      Abraço, Xico, boa semana :)

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  7. O carrocel de Feira, perdição das crianças e também de alguns adultos.
    Gosto de Alexandre O'Neill, do teu texto e da tua publicação.

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    1. Viva, Ricardo, Obrigada. :)
      Uma boa semana e um grande abraço.

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  8. Apesar das modernices de cangurus, carrinhos de choque, montanhas russas e etc. e tal, que não passam de tentativas arriscadas de criatividade e inovação, é sempre a velha que impera.

    Nesta feira tudo é uma roda de rodar, não só aos dias da dita, os sábados e domingos também contam. A velha mesmo velha apita que se farta porque o carrossel não pode parar.

    Numa trajetória circular, de subidas e descidas, a gente continua a rodar: indefinidamente, eternamente, enquanto houver vida.
    Mas, parece-me, há uns quantos meliantes que se alaparam ao lugar, quer subindo quer descendo. Não há quem os convença a sair.

    Um boa semanada, MD.

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    1. Faz parte das nossas atribulações fazer rodar o nosso próprio carrossel, Agostinho. Nem sempre gostamos de que entra, mas são os ossos do ofício.
      Um abraço e boa semana:)

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  9. Bom dia, os olhos dos cavalos que nos fazem viver num carrossel com mais baixos do que altos, assustam quem os olha e quem sente o despreze, mostrado diariamente ás vitimas (povo comum) com a ganancia sem escrúpulos.
    AG
    http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

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    1. A minha avó Júlia ( a Bisavó) tinha sempre ditos engraçados para todas as ocasiões, que se provaram muito sábios. Um deles, lembro-me bem, dizia que se um corvo chega ao poleiro, transforma-se num pavão, mas a alma do corvo não.
      Abraço António, e boa semana :)

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  10. A Velha, metáfora da vida, olha complacente quem julga ter direito a tronos e privilégios... É que, no fundo, todos vão na mesma direcção. Não é, Dulce?
    Um abraço para ti

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  11. Absolutamente verdade Miú. Independentemente dos caminhos escolhidos, o fim, por muito diferente que possa ser, acaba por ser igual para todos.
    Beijoca :) :)

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  12. Tal e qual o carrossel da vida, velho, repetitivo, ilusório, mas sempre apelativo!
    Um abraço.

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    1. Faz-nos voltar uns bons tempos no tempo :):)
      Abraço

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  13. Querida Dulce

    É verdade, cheguei de férias, e tenho andado, aos poucos, a agradecer as visitas recebidas na minha ausência.
    Para não ser injusta com ninguém... faço-o seguindo as datas em que os comentários foram feitos lá na minha «CASA».
    E não tem sido tão rápido quanto eu gostaria... mas tanto quanto é possível.

    A velha, apenas porque é velha, sabe muito!
    Mas eu, não tão velha... :) também sei do que falas - refiro-me apenas ao carrocel - e digo-te, desde já, que te vás preparando... Eu, com 9 netos, passei horassssssssssssss, junto a carrocéis :)))

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos, querida.

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    1. Ai, Mariazita ... e eu que estou tÃo destreinada... há 23 anos que não trato de um bebé... :) :) :)
      Beijinho, minha querida

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  14. Curiosamente, sem saber explicar porquê, nunca foi um entusiasta do carrosel
    Gostava de carrinhos de choque.
    Do carrosel, não.

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    1. Pode parecer mal ( claro que parece!!!) mas o que eu mais gostava nas feiras e parques de diversões era a comida... farturas, malacuecos, sumos de frutas, algodão doce e mais tarde as pipocas :)
      Abraço a oriente , Pedro!

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  15. No carrossel como na vida todos somos iguais, embora alguns achem que não...
    Gostei muito do texto.
    Um beijo.

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    1. Absolutamente de acordo com o comentário, Graça :)
      Obrigada, um beijinho e um bom fim de semana.

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  16. O Carrocel representa a vida.....
    Seu texto está perfeito,amiga!
    Estamos todos na mesma caminhada e não há final diferente para ninguém, onde realmente o ser humano percebe que ninguém é diferente, as oportunidades muitas vezes são distintas!
    Bjus e bom domingo!
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Viva querida Elyane. Muitos caminhos, muita diversidade de meios, um fim comum. Nem mais.
      Bom Domingo e um beijinho

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  17. Dulce , quando menina , sempre medrosa , só o carrossel me fascinava . Sua música e a pouca velocidade imprimida no brinquedo , me faziam pedir bis nos parques de diversão . A felicidade vem de diferentes formas , aprendi desde este tempo . Seu brilhante texto , faz cada leitor interpretá-lo conforme seu olhar . Obrigada pela partilha . Beijos e boa semana .

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    1. Viva Marisa. É realmente excelente a sua leitura sobre as diversas interpretações. Obrigada !!!
      Beijo e boa semana para si também :) :)

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  18. Pasamos a saludarte, a dejarte un besazo enorme y a invitarte a participar en nuestro reto de halloween, queremos hacer un libro como hemos realizado otros años y esperamos que tus letras puedan formar parte de sus páginas.

    ♥ . .))(
    ♫ .(ړײ) ♫.
    ♥ .«▓» ♥.
    ♫ ..╝╚.. ♫
    Esperamos que tengas una buena semana.

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    1. Gracias! me quedaré com vosotros pronto.
      Bezos. :) :)

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  19. Gostei imenso do texto, querida D., e apreciei o facto de teres posto em evidência a "figura" da velha, metáfora de sabedoria, apesar do cansaço da monotonia e dos gestos autómatos. Na verdade, é a diversão mais "democrática".
    Num relance, recordei as minhas voltas no carrossel. Há um tempo para tudo. Gostava de andar em algumas diversões mas, de todas, era no carrossel que "viajava". Vá-se lá saber porquê! E gostava bastante da escolha musical.
    Já adulta e sem ser com o filhote, ainda gostava de dar uma ou duas voltas. Agora, já faz um tempo que nem entro no recinto das diversões. Mas sei que, pelas crianças, voltamos a gostar do que elas gostam...
    Meu beijo :)

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    1. Faz muito tempo que não ando num carrossel a sério, só no carrossel da vida. Nunca fui fã, mas é como dizes, pelas crianças aprendemos a ter gostos diferentes. Beijinho :)

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  20. Cheguei! LI e entendi. Estás cansada. Compreendo. Força, velhota.
    Beijos grandes

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  21. passando pra desejar um ótimo final de semana,querida!
    Avise quando tiver post novo!
    Bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Oi Elyane. Obrigada, querida. Vou tentando não deixar o blog ao abandono, mas creio que só consiga recuperar bem a partir de 2 ou 3 de Dezembro.
      O que vale é que amigos estão sempre presentes.
      Beijoca :):)

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É aqui que me mandas dar uma curva