sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Viver a Fábula - Parte 5 - Navegamos ?

"As paixões são como ventanias que enfunam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveria viagens nem aventuras nem novas descobertas."
Voltaire



Eu hontem passei o dia 
Ouvindo o que o mar dizia. 
Chorámos, rimos, cantámos. 
Fallou-me do seu destino, 
Do seu fado... 
Depois, para se alegrar, 
Ergueu-se, e bailando, e rindo, 
Poz-se a cantar 
Um canto molhádo e lindo. 


António Botto


Não nasci com costela de mareante.

Adoro o mar, a sua força, a sua cor, a sua beleza, a bipolaridade do seu carácter, o embalo do seu marulhar... O sal, as marés e as maresias são filhos adoptivos do meu código genético e coabitam pacificamente com os restantes segmentos do meu genoma.

Adolescente, larguei amarras de Lisboa na véspera de completar 16 primaveras, a bordo de um navio de cruzeiro com destino a Southampton. Nessa noite vivi mil vidas e morri mil mortes.
A meio do Golfo de Viscaya, uma inesperada  e violenta tempestade jogou o paquete como a pequena bola prateada de uma máquina de flippers e abriu de par em par as portas do Inferno a todas as personificações marítimas do medo.
Diz-se que o terror pode ser belo; é a mais pura das verdades. O negrume das vagas pontuadas por alvos picos como lâminas de prata contrastava com um céu antracite-arroxeado, rasgado incessantemente por raios que bailavam ao som violento do ribombar e da chuva que fustigava violentamente  a embarcação. O pesadelo durou infinitamente e, num instante, como num passe de magia,  um brilhante e radioso sol nascente saúda-nos, risonho e límpido, como se nada se tivesse passado.

A minha relação com barcos, até então aventureira, sinbadesca e sonhadora,  nunca mais foi a mesma. Até o ronhoso cacilheiro me dá calafrios.

Mas alturas há em que we have to do what we have to do, e pronto.
Ao som duma voz forte que interpretava muito convenientemente "Volare", partimos à descoberta do mar, numa verdadeira casca de noz.

As ondas saudaram a minha decisão, resolvemos as nossas diferenças e ficámos em paz, o mar e eu.


Navegar é preciso...
























                                

24 comentários:

  1. Tantas e belas imagens e nem uma da bela e temerária marinheira?
    Excelente reflexão (e escolha de banda sonora, já gora).
    Beijinhos
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Viva, Ruthia. A minha intenção sempre foi ilustrar a beleza... :) :) :)
      Obrigada e um beijinho

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  2. Adorei o texto, faz-nos viajar! E as fotografias lindíssimas só nos aguçam ainda mais essa vontade :)

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    1. Sabes querida Andreia, se tivesse menos 30 anos, juro que fazia um Interrail - on - a - budget, Europa fora. Com um planeamento consciente, seria fantástico para um mês, vá lá, 20 dias de férias.
      Já pensaste nisso :):):)
      Beijoca.

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  3. Que fotos lindas!
    Amei o texto, muito lindo!
    O mar nos inspira e nos solta, creio que quando ficamos perto dele, percebemos o quanto somos pequenos e passamos a valorizar mais as pequenas coisas...
    Navegar é preciso!!!!!!
    bjus
    Obrigada pela visita ao meu blog!
    Voltarei sempre!
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Olha, Elyane,muito obrigada, sim?
      Fico muito feliz com o seu comentário.
      Voltarei seguramente ao seu espaço!
      Um beijo :):):)

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  4. Oi querida
    Que texto lindo! Nos envolveu e nos levou a viajar principalmente quando nos ofereceu paisagens tão belas
    Beijos no coração

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    1. Que bom que gostou, Gracita. As suas palavras enchem-me de alegria-
      Obrigada e mil beijos :):)

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  5. Boa tarde amiga
    que lindo post!
    Eu gosto muito mar, só tenho receio de entrar o mar, porque não sei nadar! Mas adoro o som das ondas, e a brisa que vem bater em nosso rosto!
    abraço amigo
    Maria Alice

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    1. Viva, Maria Alice. Eu adoro o mar. Agora já me conciliei com barcos, mas o mar é o meu primeiro bom dia, ao despertar.
      Obrigada e um grande beijo. :):):)

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  6. Dulce,

    As gôndolas estão nos trinques.

    :)
    Marcos

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    1. Lindas, mas frágeis, Marcos... foi bom... aliás, foi um encanto :):):)

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  7. Ah Dulce essa viagem marítima na adolescência deve ter sido um susto!!...No entanto o que
    sinto em ti é um grande fascínio pelo mar, e pelo "ir".
    As fotos são maravilhosas que tenho que olhar e voltar a olhar.
    OMG só eu é estou sempre no mesmo sítio, quando "navegar é preciso"..::-)
    Obrigada sobretudo pelas fotos, de uma beleza ímpar, e a música excelente!
    xx

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    1. Minha querida, quem agradece sou eu. Estás sempre presente, com a palavra certa em cada momento. Ler-te é fantástico- És genial e bem disposta. Que mais se pode pedir numa amiga ?
      Mil beijos daqueles, cheios de ternura por ti. :) :) :)

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  8. Sempre me questionei se irias fazer o tour de Gondola. Ainda bem que foste. Cada foto mais linda do que a outra.
    Bejinho

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    1. Querida Lu, do aeroporto Marco Polo até S. Marco . é UMA HORA e picos no waterbus. Depois em Veneza, tens dois meios de locomoção: de vaporetto ou a pé... tinha MESMO que me conciliar com as minhas fobias marítimas. Correu bem.
      Jocas :):)

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  9. OI DULCE!
    NOTA-SE TUA PAIXÃO PELO MAR, EMBORA DEPOIS DE UM SUSTO ASSIM, ACHO QUE PASSASTE A TEME-LO TAMBÉM. COMIGO SERIA ASSIM, POIS EU O AMO, MAS CHEGANDO NO MÁXIMO AOS JOELHOS.
    UM BELO POST COM ILUSTRAÇÕES TAMBÉM LINMFDAS.]ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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    1. Viva, Lani. Penso que eu e o mar já fizemos as pazes :):)
      Eu gosto de mergulhar, de nadar, não consigo estar na praia sem ir nadar, posso até perder o pé, sempre paralelo à rebentação, mas sempre com consciência das minhas limitações.
      Beijoca :):):):)

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  10. Parece que teve uma má experiência. Eu tenho uma grande paixão por ele, mas nunca fiz nenhuma viagem digna desse nome de barco.
    Belas imagens. Veneza é um paraíso para quem tem paixão pelas fotografias. Continuação de boas férias
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Obrigada, querida Elvira. Fotografia é uma paixão de longa data. Sou uma amadora aceitável, creio. :):):)
      Beijinho grande, grande :)

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  11. Viver a fábula? Confesso que me escapa a razão de ser "fábula" esta "saga" maravilhosa pela recolha de poemas, textos, fotografias... um deslumbramento. Estará na diferença de dimensão entre a pessoa e o palco que pisa, o ambiente que respira?
    Parabéns por este trabalho que já vai no quinto capítulo. E continuação de boas férias.

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  12. Viva, Agostinho. Fábula tem a sua razão de ser. Sairá um post ainda esta semana qu explica o título da série. Obrigada pela simpatia e B F S. Abraço. :)

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  13. Só podia ser neste lugar idílico a tua reconciliação com memórias terríficas...
    Pode-se amar o mar (eu amo-o e estou perto dele poucas vezes) e toda a sua magnificência e recear navegá-lo, numa travessia de longo curso (apesar de fazer um cruzeiro seja um daqueles meus sonhos românticos...). Já fiz a travessei do Tejo e mais umas coisitas, mas pisar terra firme é sempre um alívio. No caso em apreço, nunca te perdoarias se não fizesses esta experiência!
    Das fotos...Que mais dizer...Acompanhei-te!
    Excelente a narração da "aventura" em adolescente. Nada fica a dever ao episódio do "Adamastor".
    Bjo, querida D :)

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    1. O importante é ir vencendo is nossos Adamastores e ficar bem com a vida. Lá, na ilha mágica da lagoa prateada, o encantamento ajudou.
      Beijos, queria EU. Bom Domingo :)

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É aqui que me mandas dar uma curva