sábado, 16 de agosto de 2014

Solace

Cansa sentir quando se pensa.  No ar da

 noite a madrugar . 

Há uma solidão imensa . Que tem por 

corpo o frio do ar.

Fernando pessoa



A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita[...]
[...]Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão

António Ramos Rosa





Já não há cavernas nem buracos no chão.
Não há gente enclausurada que analisa o mundo através de sombras projectadas por uma fogueira, na solidão imensa duma caverna escura e silenciosa.

As pessoas vivem enclausuradas dentro de si próprias. É imperativo fecharem-se, isolarem-se do que as rodeia, se mentalmente lúcidas, ambicionarem manter a sanidade e encontrar alguma paz.

Vive-se à mercê de um cata-vento enferrujado, que gira ruidosamente sem quietude nem trégua, a uma velocidade assustadora, vertiginosa, fulminante, que nos arremete contra nós próprios com uma violência inaudita e aterradora.

Abre-se a janela a mais um dia, e a histeria e a loucura colectiva que se colam à pele das gentes em forma de calor e cheiro a mar e transpiração, entram de sopetão e atordoam como bombas de vogais e consoantes ásperas, rudes e de sílabas mal colocadas, que rebentam sem lógica nem ordem por todo o lado, num espaço onde o tempo teima em não passar, e  o vislumbre de uma caverna ou um buraco no chão onde o efeito da onda de choque possa ser mitigado é apenas mais uma miragem, ou o delírio duma mente torturada.

A luta é interminável e desesperante, principalmente aquela que se desenrola dentro de nós e nos transforma em coisas, em bichos, em seres sem qualquer razoabilidade,  actores secundários de  um genérico, numa  série de ficção de quinta categoria, que de tão eclético é totalmente incompreendido.


                                   

28 comentários:

  1. Deixo um texto de Krishanmurti -- um autor que admiro particularmente:

    You know, in the case of most of us, the mind is noisy, everlastingly chattering to itself , soliloquizing or chattering about something, or trying to talk to itself, to convince itself of something; it is always moving, noisy. And from that noise, we act. Any action born of noise produces more noise, more confusion. But if you have observed and learnt what it means to communicate, the difficulty of communication, the non-verbalization of the mind - that is, that communicates and receives communication - , then, as life is a movement, you will, in your action, move on naturally, freely, easily, without any effort, to that state of communion. And in that state of communion, if you enquire more deeply, you will find that you are not only in communion with nature, with the world, with everything about you, but also in communion with yourself.

    Varanasi 2nd Public Talk 22nd November 1964

    Bom dia, cara M D.

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    1. Queridíssimo X. Alturas há em que toda a observação, aprendizagem e vontade de as por em prática, não são suficientes, falta o tal " bocadinho assim", que bem vistas as coisas é quase um oceano de separação. E não é por falha de tentativas.
      Beijo.e BFS :)

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  2. Dulce,

    Acho que há duas maneiras de ver as coisas: a maneira otimista e a maneira pessimista. Eu fui pessimista na adolescência, agora sou otimista. Acho que Voltaire estava errado, e Pangloss estava certo.
    Fatalidade teológica: céus e terra passarão. Mas a palavra do Cristo não passará. Confiemos na Divina Providência, que tudo se encaminha para o bem, ainda que para isso o mundo tenha que ir para o caralho.

    =D
    Marcos

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    1. Sabe Marcos, se há alguém que não é de todo pessimista, esse alguém sou eu. Acontece que alturas há, em que todo o optimismo e boa vontade que conseguimos produzir na ínfima partícula do universo, que somos nós enquanto indivíduos, não é o suficiente para enfrentar a confusão. São choques atrás de choques de individualidades distintas e, parecendo que não, abala-nos até aos alicerces da alma.
      BFS. Abraço amigo. :):)

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  3. Se vc tem Deus no coração então só tem alegrias. Eu já tive depressão sei como é não querer nem levantar da cama, mas venci graças a Deus. Não se deixe abalar. Siga em frente.

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    1. Amiga Juliana, agradeço o conforto que as suas palavras me proporcionaram, mas não estou em estado depressivo. Creio que todos os anos por esta altura, talvez devido ao cansaço, apercebo-me duma realidade mais crua e cortante, em que os protagonistas me violentam os sentidos.
      Nada que não se resolva com uns dias de descanso :)
      BFS e beijinho

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  4. Querida M D, tempestade dentro de si?
    Mas sabe, ler que estamos enclausurados dentro de nós é tão reconfortante. Eu acho que as pessoas que saem muito para fora delas e portanto invadem os outros são horríveis, peganhentas, desrespeitadoras.

    Eu tento tornar-me um pouco autista para ficar mais imune a esses monstros do exterior. Resulta.
    Um beijinho. :-)

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    1. Querida Susaninha. A clausura é uma opção, um escape, um interruptor.
      Eu gosto de não ter sons amargos que me firam a vista.
      Esta altura do ano, para além de extenuante, é propícia às invasões alienígenas, mens e corpore, e o anseio por um buraco no chão toma contornos de obsessão.
      Nada que não se resolva com um passe de mágica, algo como Now you see me, Now you don´t :):):)
      Bejinho e bom fim de semana

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  5. Excelente texto de reflexão, de desabafo, de irritação...Em suma: de desconforto (ou do desconforto).
    Sinais dos tempos. É preciso algum distanciamento para manter a sanidade, já o tenho dito e/ou escrito.
    Pensar, ir ao fundo das coisas, cansa mesmo! O meu médico de medicina interna medica-me com uns comprimidos que inicialmente não queria tomar, pois tinham a ver com o coração. Ele explicou-me que devia fazer a medicação devido à minha atividade mental. Confio nele e vou tomando.
    Querida D, entendo muito bem o alcance deste texto...E eu que não era nada, mesmo nada passiva, obrigo-me a ter orelhas moucas, muitas vezes... Para onde caminhamos? Eis a questão...
    Bjo

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    1. É isso mesmo... desabafo, irritação, reacção ao estupro que diariamente me violenta com vocalizos pintados aos borrões por turbas sem rei nem roque, que não me enxergam como pessoa nem se enxergam como gente. Depois de afivelar o smiley e ligar a K7 zen, é deixar passar o tempo, inspirar profundamente e dar graças porque ainda não faz muito calor.
      Bejo, minha querida e bom Domingo

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  6. Pensar no porquê das coisas cansa, pois é.
    Gostei do seu texto.
    Bom domingo

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    1. A quem o diz, querida Elisabete. É extenuante :) :) :)
      Obrigada e bom Domingo também

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  7. Se pensamos demais na confusão desesperamos e não resolvemos nada. Se apenas sentimos de forma amorfa, não entendemos o o encadeamento das coisas e a sua razão de ser.
    De uma forma ou de outra a confusão continua, e mais do que perdidos em relação ao que nos rodeia o pior é mesmo quando nos sentimos perdidos dentro de nós, sem conseguir encontrar esse consolo que precisamos.
    Gostei do texto, um pouco pintado de cansaço. Estás a precisar de férias a sério! Às vezes precisamos mesmo de tempo só para nós. De um buraco.
    Não conhecia a música...:-)
    xx

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    1. Mind reader, Miss Laura... Completamente .
      No dia 28 vou entrar de Férias. Uns dias para as antiguidades cortarem o cordão do hábito e ficarem entregues a si próprios. Depois é que vou MESMO de férias e de férias das primeiras férias, para onde eu gosto de estar e nunca me canso de voltar. Eu, os meus Plenos, 6 livros o télélé e o portátil.
      Provavelmente ente 28 e 31 é a minha sabática da Blogosfera , ou farei dois ou três foto-posts, mas seja como for, hei-de relatar até á exaustão como foi viver a fábula.
      A música é do genérico de True Blood, que por sinal é muitíssimo estranho. :):):)
      Obrigada, querida e um beijo daqueles. :):):)

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  8. Escreves muito bem, gostei do post e do blog!

    Espreita o meu blog : soignesoul.blogspot.com

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    1. Viva , Carolina, bem-vinda e obrigada.
      Irei seguramente fazer-te uma visita :)
      Boa semana

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  9. A humanidade evoluiu. A toda a hora, em algum ponto do mundo alguém inventa alguma coisa. Umas vezes para o bem, outras para o mal, A humanidade não tem capacidade para absorver tudo o que ela própria produz. E sente-se frustrada. E toma decisões erradas. E sente que o mundo lhe cai em cima. Cansa-se. E fecha-se em si mesma como uma ostra. Depois em qualquer altura soa um big ben dentro dela e abre-se de novo à vida, olha de novo para a vida com outros olhos. E nós fazemos parte da humanidade. Por isso de vez em quando nos sentimos cansadas, frustradas. às vezes bastam umas boas férias para que tudo entre nos eixos.
    Um abraço e uma boa semana

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    1. É isso mesmo Elvira. É imperativo deixarmo-nos dentro da gaveta, respirar fundo e seguir em frente, rumo à renovação. :)
      Beijinho e boa semana

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  10. Não descanses que a vida é só correr...
    Tu que dizes que és redactora de obituários estás á espera que o teu querido mês de Agosto, seja o princípio e o fim?
    Desculpa a franqueza mas se te acontecer alguma coisinha má, ninguém se vai importar nem um bocadinho se te matavas a trabalhar ou não. Pelo amor da santa, Maria Dulce!

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  11. Nem vale a pena contradizer-te. Estás certíssima e eu sei que quando fizer pum! ... Fiz.

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  12. E no entanto há uma coisinha crescendo... que é esperança, não é? Então calma, respire fundo e mande bugiar os trastes que a atormentam.
    Os poetas que evocou vêm mesmo a propósito. Muito bem. Além da "receita" atrás referida desabafar alivia a pressão.
    Boas férias! (?)

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    1. Pois claro, Agostinho, só falta uma semaninha... Diz o povo que é sábio, que o rabo é o pior de esfolar, por isso tenho que me preparar para o rollerball dos últimos dias... Algo me diz que vai ser a doer... É kryptonite por todos os lados, mas como nunca fui super-coisa-nenhuma, espero não ficar grandemente afectada.
      Boa semana, obrigada, e um abraço amigo:):):)

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  13. Um texto que li e reli com todo o interesse. Excelente! Não podemos pensar tanto naquilo que magoa, mas também não podemos ignorar... E há que ter esperança.
    Um abraço.

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    1. Sabe, Graça, por vezes a exaustão leva-nos a melhor, e as nossas emoções mais desesperadas escrevem o nosso lado lado mais negro e ao mesmo tempo mais frágil. Alturas há em que acção e informação são demasiadas para processar convenientemente..
      Temos forçosamente que abrandar, não para descansar, que ainda não é possível, mas para impor um ritmo que consigamos acompanhar sem danos irreparáveis.
      Obrigada pela compreensão. Boa semana e um beijinho.

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  14. Olá,
    Passei para lhe desejar um excelente resto de semana.
    Abraço.

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  15. Minha querida

    Por vezes temos que nos alhear um pouco, porque a vida é tão complicada e o cansaço toma conta de nós, mas temos que esperar que o amanhã seja melhor.
    Um texto que dava pano para mangas.

    Um beijinho
    Sonhadora

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    1. Alhear, é difícil, Sonhadora querida. Mesmo que não vivamos na confusão, a confusão vive, manifesta-se em tudo e tanta gente, que fugir-lhe é impossível. Impor um ritmo mais brando e ir um bocado com a maré, sem nunca perder o pé...
      Beijinho e obrigada.

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É aqui que me mandas dar uma curva