terça-feira, 5 de agosto de 2014

O País já está a arder ?

"É melhor um pequeno fogo para nos aquecer do que um grande fogo para nos queimar."
Thomas Fuller


25 de Agosto de 1944. No seu Quartel-General, Hitler, desesperado com as notícias da entrada dos aliados em Paris, enfurece-se e clama que quer ver Paris arrasada, feita "um campo de ruínas". Pergunta, na sua voz rouca:
- Jodl, Paris está a arder?
Um súbito silêncio invade o "bunker". Warlimont observa à sua volta os rostos petrificados dos outros generais.
- Jodl - insiste Hitler desferindo um murro sobre a secretária -, quero que me responda: Paris está ou não está a arder? "




Com o verão chega o calor, a secura, a inércia e o fogo.

Assim que o calor desponta, eclodem também focos de incêndio  de norte a sul, deixando o rectângulo português praticamente delineado  em alertas laranja.

Já não é estranho, nem surpreendente, nem sequer inaudito. O País está em alerta laranja desde 2011, vindo dum desastroso alerta vermelho claro, sequência de vários procedimentos inconsequentes em patchwork multicolor,  que se desenrolaram nas ultimas décadas do século passado e foram herdadas pelo novíssimo e promissor século XXI.

Perguntar se o País está a arder é uma ironia e um pleonasmo. É o mesmo que perguntar se está a chover no molhado ou a esbrasear o queimado.

Digamos que é  como falar de Dimas, o Bom e Simas , o Mau.

Eram ambos ladrões.

"Ah, é ladrão, mas é boa pessoa, o Dimas"... Ou " O ladrão do Simas é mau como as cobras"

Ficaste literalmente de tanga, mas ainda assim fazes juízos de valor...assaltaram-te e roubaram-te tudo, pelo amor da santa ! Só porque um te deu um estalo e o outro te sorriu enquanto te ia ao bolso, tornaste-te imediatamente mais tolerante...

Afinal o que é que define um ladrão? Será o  carácter ou a arte?
No Livro do Êxodo, onde estão enumerados os Dez Mandamentos da lei de Deus, a " não roubarás" foi atribuído o número 8 . Estou em crer que foi muito bem pensado pelo criador, esta atribuição numérica, pois sendo o oito o número que simboliza o infinito, o oitavo mandamento fica assim aberto a uma miríade de interpretações e uma infinidade de pressupostos.
Isto tudo a juntar às mil e uma paráfrases que do provérbio " ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão" se podem conjecturar.

E o rebanho continua a pastar, com os cães a rondar e ladrar-lhe às canelas, mas serena e tranquilamente, como se o alerta de fogo fosse apenas mais um, coisa sem importância, banal... 

O País já está a arder, não é a pergunta que se impõe. Creio que o importante é saber se no meio das cinzas do restolho queimado na terra árida de muitos fogos, ainda poderá germinar a semente da incerteza, uma débil raiz que poderá vingar num futuro distante se a quimera da incompetência der lugar a realidade.
Porque certezas, disso já não há faz muito tempo, foram extintas como os dinossauros e nem foi preciso aquilo do meteoro...

Para além disto pouco mais há para dizer.





                                     

30 comentários:

  1. As coisas que tu vais buscar. O País está ardido e quem está a arder agora somos nós :(
    Beijo

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    1. Cheira a chamusco... temos penas...
      Outro

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    2. É exatamente amparado pelo provérbio: "ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão" que eles roubam, isso porque o roubado não pode gritar, porque o produto do roubo já foi, também, roubado por ele. Rsrs. Aqui no Brasil temos diversas faculdades especializadas no ramo.

      Beijos,

      Furtado.

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    3. Nós por cá também estamos a aperfeiçoar doutoramentos, mestrados e pós-graduações, Rosemildo.
      Há-os até catedráticos na arte .
      Abraço e boa semana :)

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  2. Concordo inteiramente, amiga: mais importante do que os incêndios que nó semeemos ateamos ao nosso redor, é sermos capazes de renascer das cinzas! Belo texto, boa semana.

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    1. Viva , Árabe, obrigada, caríssimo. Temo que chegue o dia em que a cinza seja densa demais mesmo para as fénixes, quanto mais para nós.
      Boa semana e um grande abraço.

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  3. Estão fabricando o inferno aqui mesmo.

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    1. Sabe Marcos, eu nunca tive medo de ir para o Inferno quando morresse. Aliás todos vamos, já que a etimologia da palavra Inferno nos põe " debaixo da terra" . Sempre me assustou mais ser enterrada viva, mas mesmo sendo num sentido figurado, é praticamente o que estão a fazer ás pessoas, enterrá-las até ao pescoço em mentiras, vigarices, falsidade, nojo... Sei lá, Marcos, chega a ser obsceno mesmo...
      Abraço e boa semana.

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    2. Agora li no blogue da Laura Santos que teu nome é Dulce, eu havia te chamado de lusa, pois não sabia o que significavam as iniciais M. D..

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  4. É verdade Marcos. O M é de Maria e o D de Dulce. Mas olha que as aparências enganam e se o nome é doce eu posso não ser tanto. Eheheheh.
    Abraço.

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  5. O país continua a arder e não me parece que fique por aqui. Com a incompetência, falta de carácter e arte para a roubalheira, "qualidades" nas quais certos portugueses que falam de cátedra são exímios, talvez surjam mais incêndios e estes levem tempo a extinguir-se. E tudo já deixou de ser surpresa, tudo se tornou uma deprimente situação permanente, como se todos soubessemos que o país está e continuará a arder, e como se tudo fosse uma fatalidade. E todos sabemos que não é.
    E claro que numa situação destas, a única coisa que um 1º ministro tipicamente português pode fazer é ir a banhos.
    A verdade é que "more than this" ainda será possível.
    xx

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    1. Achas que sim, Laurinha? Eu estou convicta que o people hit rock bottom, mas posso estar enganada.
      E "Onde é que pára a polícia?" Ou foi tudo também a banhos, ou como habitualmente tudo isto é outra grande banhada, de proporções, cósmicas, bíblicas, sei lá... Só sei que nada se, porque as certezas entraram em ruptura de stock.
      Beijocas.

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    2. A questão é que com tanta incerteza nem sabemos se já batemos mesmo no fundo, e o povo parece ser muito acomodado. Eu sei lá!
      xx

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    3. Infelizmente , penso que por nunca termos vivido uma guerra a SÉRIO no território português, nunca sentimos na pele o que é a obscenidade de um conflito deflagrado. Estamos aqui no nosso cantinho, tivemos as escaramuças da República, do 28 de Maio e do 25 de Abil...
      Como diz Lampeduza "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude"... por isso diz o povo e bem, que o que tem mudado em todos estes anos, são as moscas...

      http://diario.iol.pt/503/economia---economia/pr-cavaco-silva-bes-banco-de-portugal-seul/1565242-6377.html

      Palavras para quê ? Mais do que isto Laurinha, é o quê afinal ? Eu não sei...

      Beijoca

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  6. O País está a arder à muito. É assim com diz o poeta. Um fogo que arde sem se ver, ateado por meia dúzia de sacripantas, e no qual se "aquecem " sempre os mesmos. Depois quando as labaredas aparecem e se torna incontrolável, lá vai o Zé Povinho, feito bombeiro à força, pagar as consequências.
    Um abraço

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    1. E paga, Elvira, se paga.
      Um destes dias estive e ver Lês Misérables ( gostei muito mais dos livros, mas no fundo vê-se bem). O Valjean foi preso porque roubou um pão de cêntimos. O que poderá acontecer a quem rouba milhões? Provavelmente nada, é um tipo simpático...
      Os miseráveis ao fim e ao cabo seremos nós ou eles?
      Beijinho e boa semana

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  7. umas matas a arder davam jeito para virar as atenções, deve ser o que alguns pensam neste momento...

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    1. Diabo seja surdo, que até ver este ano a política da terra queimada, parece que ficou só pela política mesmo. Noc Noc Noc, não nas heavens's doors, porque já levámos com elas na cara, mas em madeira, pra ver se os medeireiros este ano vão "mazé" comprar acções do BES, Tétisq. :):)
      Boa semana

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  8. O outro dizia: deixa arder, o meu pai é bombeiro.
    É o nosso triste fado. Se foi sempre assim alguém no seu perfeito juízo acredita em milagres?
    Agora o bom e o mau. Vejam o que eles haviam de se lembrar!

    Muito bom trabalho MD, com uma fina ironia.

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    1. Agostinho, meu amigo, isto é água a mais até para um auto- tanque top notch.
      Também já não temos muito que apagar, a não ser as memórias da vergonha desta corja de maus bons ladrões.
      Abraço amigo.

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  9. A ironia é mesmo a melhor arma para combater este bando de malfeitores, M D Roque.

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    1. Ah quem me dera que a ironia tivesse grilhetas e grades , Pedro... A justiça tem uma venda para não ter crises de consciência nem vontade de se suicidar... O que se faz nesta terra em nome da justiça é inominável.
      Boa semana

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  10. Um texto para ler meditar. Infeliz-mente o país via de mal a pior em todos os sentidos... Mas é como escreves: "E o rebanho continua a pastar, com os cães a rondar e ladrar-lhe às canelas, mas serena e tranquilamente, como se o alerta de fogo fosse apenas mais um, coisa sem importância, banal... "
    Abraço.

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    1. O tal, o das trevas, o da outra senhora, o que dizia "O Povo é sereno" é que sabia das coisas, Graça.
      "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude"... parece que sim.
      Boa semana.

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  11. Tal como você, acho que o país está a arder, e nós, há muito que estamos em brasa.
    Obrigada pelo texto.
    :-*

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    1. Sabe Tita, penso que já nem brasa temos, consumidos pelas chamas de tantos fogos..
      Eu é que agradeço.
      Beijo. :)

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  12. Bom dia,
    O país arde diariamente com a submissão do poder politico ao financeiro. os que dizem que estão a governar portugal, não passam de uns lacaios dos exploradores do povo que querem acabar com os serviços públicos essências como a educação e saúde em beneficio de privado.
    A economia especulativa é cada vez maior, esta enfraquece a economia mas favorece os lucros dos exploradores, cada vez mais são mais ricos, quem sabe se o Salgado abre a boca e denuncia aqueles que estiveram ligados ao Monte Branco, pode ser que um dia prendam o Loureiro, ex conselheiro do estado e protegido pelo meu conterrâneo Algarvio.
    Dia feliz
    AG
    http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

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    1. O Salgado é um Capo, um mafioso... se canta muito la famiglia põe-no na Comporta de vez, com os peixes...
      Estamos todos a aguardar o desenvolvimento desta palhaçada e que como o Madoff e outros cumpra o tempo que lhe é devido atrás das grades... para que é que estou a escrever isto se nem eu propria acredito no que digo ?
      Abraço António, obrigada.

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  13. Olá, Dulce!

    "O mal de uns é o bem de outros", diz um ditado já muito antigo.E que é uma grande verdade.Tal como o ser verdade que as leis básicas que regem este mundo nunca mudarem:apenas na aparência...E é nessa aparência que vamos vivendo, sob a forma de "democracia".Onde os mesmos, agora em maior número, sempre têm feito o que antigamente faziam,e agora com mais facilidade.A coberto da "legitimidade" que eles próprios instituíram, quando por decreto converteram a imoralidade em lei...

    E como pôr fim a triste estado de coisas, não sei; mas adivinho que não será fácil...

    Belo texto!

    Um abraço
    Vitor

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    1. Viva Vitor. As coisas inomináveis que se fazem a coberto do manto da democracia e da legitimidade...
      Só pode acabar no momento em que o povo acordar e deixar de ser sereno. E não vai ser bonito. Nem bom.
      Abraço Vitor.

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É aqui que me mandas dar uma curva