quinta-feira, 12 de junho de 2014

(in)Placa(vel)

"O perigo não está na multiplicação das máquinas e sim no número cada vez maior de pessoas habituadas, desde a infância, a só desejar o que as máquinas podem dar."                    Georges Bernanos





E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,

Álvaro de Campos









De todas as obras do universo da criação , o ser humano é seguramente a mais dependente de todas as criaturas.
Tomo-me como verdadeira prova provada da minha anterior citação, pois como racional que sou, não consegui racionalizar a complexa situação com que me deparei na manhã em que as máquinas pararam.
Não me considero lerda nem ignorante , nem incapaz... nem ao que parece muito humilde.
 Não trato por tu os computadores, servidores, bastidores e outros estupores mecanizados, mas sempre tivemos uma relação de reciprocidade tolerante. O meu conhecimento limitado é suficiente para podermos trocar galhardetes, eu e as máquinas chipadas. A sua memória é efectivamente mais poderosa do que a minha, mas eu tenho o poder de lha limpar, ou formatar, ou optimizar, até mesmo de a  recarregar , introduzindo novos objectivos e objectos que criarão  novas e poderosas memórias  numa memória que se resumirá a uma vaga recordação.
Dias há em que as hostilidades abrem cedo e a minha antiga massa cinzenta range de agonia, volteando na busca incessante pela solução, que normalmente tarda, mas não falha. É um feito davidiano suplantar uma máquina teimosa e isso torna-nos orgulhosos, de bem connosco, vaidosos, até.
Depois aconteceu hoje. Uma noite dormida a correr  despertada por uma aurora vermelha  e ardente num fundo de azul límpido, duas chalaças e um café duplo sem açúcar, a escada , a luz e o ritual dos botões.
Os monitores saudaram-me sorridentes na sua habitual simpatia. Os sistemas operativos operaram ao som da sua  opereta matinal, retribuíndo- me fundos azuis repletos de icons coloridos e os programas do arranque, a pensar no fim de semana prolongado, esses arrancaram sem dúvida , mas dali para fora, os torpes vilões não quiseram dar ar da sua graça, nem da minha, nem da de ninguém.
Seguiu-se o habitual liga e desliga, põe e tira, entra e sai, mas do azul redundou a escuridão total e eu, sempre tão sábia e ciente das minhas capacidades, parecia uma criança de meses a tentar gatinhar, balbuciando um jargão  incoerente e babado, sem conseguir acreditar que me encontrava com uma pulseira electrónica, um gadget que não me tolhia os movimentos, mas me deixava subjugada aos caprichos imPLACÁveis da mãe de todas as máquinas, a matriz que não me serve e  cujo servidor afinal sou eu.
Agastada e desorientada, aceitei a derrota com a raiva de quem sabe que se não morreu na batalha, nunca desistirá da guerra!
Hoje foi o dia em que o switch me apagou do sistema, a mim, a prodigiosa task manager.

Olhei de lado para uma esferográfica e uma resma de papel A5 e pensei que era boa ideia começar a preparar-me para os dias do fim. 




                                 

28 comentários:

  1. Como compreendo a tua angústia e frustração. Aprendemos a depender das máquinas e sem elas é catastrófico pensar na existência.
    Bom Feriado eheheheh

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    1. O grande mal, é a enorme incapacidade psicológica, até mesmo física que demonstramos para ultrapassar a avaria dum aparelho que faz parte do nosso quotidiano, como se dum membro amputado se tratasse.
      Posso afirmar com toda a convicção que hoje manifestei diversos sintomas vagais toda a manhã ):):):)
      Goza, goza. :):):)

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  2. Completamente de acordo com o teu texto e exasperação subjacente! De facto, somos mesmo dependentes de máquinas (é o progresso, já dizia Júlio Dinis a propósito da chegada do comboio). Quando falham e não conseguimos reparar a falha ficámos mesmo taciturnos! Então se há falhas elétricas, parece que já não sabemos como ocupar o tempo...
    Mas haverá sempre um técnico que nos vale!
    Em todo o caso, só desesperava se se tratasse de algo muito importante em termos profissionais. Por vezes até é bom que as máquinas deixem de funcionar para deixar fluir a nossa criatividade.
    Bjo, querida D :)
    (Não tenho podido vir como desejaria pois, além de tarefas inerentes às obras cá em casa, o stress quase me acamou.)

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    1. Na Minha Guerra, pelejar sem a maquinaria é pelejar nu.
      Quando há falhas é uma tremenda dor de cabeça e fica-se aparvalhado a olhar para as mãos...
      Beijinhos, boas melhoras e BFS.

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  3. Já não conseguimos mesmo viver sem estas geringonças.
    BFDS

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    1. E o pior é que nos sentimos perdidos... :):):)
      Bem, na Minha Guerra, as coisas sem os POS a funcionar , não são sequer possíveis de imaginar.
      Abraço, Pedro, BSF

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  4. Gostei do seu artigo e espero que as contrariedades tenham sido resolvidas.
    A pulseira eletrónica já todos nós usamos (os outros usam adereços).
    O nosso problema está na incapacidade de dominar a criança que cresceu desmesuradamente. Quando vivíamos na era da mecânica ainda a coisa ia, mais coisa menos coisa. Depois os feiticeiros fizeram os computadores, servidores, bastidores, cablagens e entrámos noutra era com a internete, na realidade virtual. E as pessoas, a maioria, ainda não perceberam o que é o mundo de hoje e que o homem é tendencialmente um autómato que está a ser formatado para se tornar em robot. Hoje já não interessa a duração a segredo está na velocidade, está na luz.
    BFS

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    1. Absolutamente! Onde antigamente a ostentação do tamanho era sinónimo de poder, hoje é precisamente o inverso.
      Acredito para breve dia em que o cérebro seja mais uma app no tablet ou no smartphone.
      Abraço, Agostinho.

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  5. Essa do cérebro ser uma App é boa ideia. Havis de ver os downloads da app!! ... :):):)
    BFS

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    1. Nisso tens toda a razão... compensava sem dúvida muita falta de cérebro :):):)
      Vai passear !!

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  6. Um texto muito bem construído e um alerta - síntese sobre o nosso quotidiano de seres vigiados...

    Beijo

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    1. Nunca o 1984 me pareceu tão real, Ana :):):):)
      BFS: Bj

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  7. Olá \o/
    Odeio admitir que sou dependente dessas máquinas!
    Quando apresentam algum problema, parece que falta algo...e na verdade falta!
    Mas pelo menos nos finais de semana, tenho conseguido me afastar um pouco delas...
    Excelente e reflexivo seu texto...
    Bjs :)

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    1. Oi Clau. Somos mesmo dependentes da tecnologia, quanto mais não seja, para falar no telefone, ou até tirar umas fotos. Quando avaria, parece que perdemos o pé num mar imenso, e não sabemos para que lado nadar.
      BFS e um beijo . D

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  8. Uma excelente postagem ..
    As maquinhas esta a algum tempo também
    já vem fazendo um estrago até com a família.
    A algum tempo atrás se desligava a TV
    quando chegava visita hoje a visita
    chega entra quase muda e sai calada.
    Na rua as pessoas até tromba uma nas outras
    de olho no celular.
    As crianças sabem dominar um computar
    só não domina nada nas salas de aula.
    Um abraço feliz final de semana.

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    1. É isso mesmo Evanir! . Sabe que só telefono para a minha mãe no intervalo da.novela, se quiser falar com ela ? :):):):) .. Hum..humhum..hum ... E até amanhã , quantas vezes :):):)
      Beijo e BFS. D

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  9. A forma como nos relata sua aventura frente à máquina é perfeita . Todos já passamos por situações similares e nos vimos retratados no seu bom texto . Obrigada . Beijos

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    1. Olá Marisa. E não é um desespero que envergonha? Eu depois de ter tudo a funcionar senti-me embaraçada pela crise de ansiedade, mas por aqui, sem as máquinas a funcionar é pior do que o inferno.
      Beijo e BFS

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  10. Oi Chegando aqui agora, Agradeço a sua visita. Parabéns pela postagem muito interessante.

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    1. Oi Nal, bem vinda! :)
      Obrigada pela presença e pela simpatia.
      BFS. Beijo. D

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  11. As ma´quinas são as mais belas criações do homem , não vivemos sem elas,
    Mas que elas estão estragando muitas coisas está sim.
    Abraços
    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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    1. Eu sempre me lembro dum aparelho nos serões em família. O rádio primeiro, a televisão depois, o VHS, os discos, os jogos....
      Enquanto nos juntávamos á volta do rádio e só havia uma TV... Agora é praticamente cada um para seu lado. Seremos mais felizes? Não creio.
      Obrigada, Simone, pela presença e pela simpatia.
      Beijos e BFS. D

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  12. Não sei seu nome. Mas visitou meu blog e me deu a oportunidade, boa oportunidade, de conhecer o seu.
    Já aviso que não volto em blog algum para vê resposta de comentários que eu tenha feito.
    Porque, penso que se não vou nas casas das pessoas buscar respostas de cartas minhas(pelos Correios) não há o menor sentido vim ler resposta aqui.
    Volto sim para ler seus textos que achei muito bom e bem escrito.

    Confesso que sou totalmente dependente das máquinas. E que enlouqueço se elas não funcionarem.
    Mas não enlouqueço de verdade. Canalizo(risos), para outras coisas, até voltarem. Ou até o técnico vir aqui resolver o problema. De uma delas. Porque, para conexões tenho mais de uma.
    Abraço,
    Liliane

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    1. Viva, Liliane. Eu volto muitas vezes aos blogs que comento,porque acredito que estou a deixar por escrito a minha opinião que pode até ser discordante das demais e dar origem a um debate. E se há coisa que me estimula é um bom debate.
      Em casa , se tenho avarias, nunca fico tão paranóica como no emprego, porque funcionamos na base da tecnologia e há momentos de verdadeiro desespero quando tenho 20 ou 30 pessoas paradas porque um servidor em baixo não permite conectar os postos. É caótico, acredite.
      Beijo e bom Domingo. :):)

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  13. Acho que a tecnologia abriu portas e deu oportunidades fantásticas a nós, mas antes de postar qualquer coisa através da máquina tenho tudo em cadernos de apontamentos que já se somam muitos. Não consigo me desfazer deles...
    Um abraço

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    1. Eu resolvo falta de TV com um livro, por exemplo. Tenho sempre velas para falha eléctrica e comida fria se não poder cozinhar.
      No trabalho é que é um caos, se as coisas começa, a falhar e é aí que eu fico completamente perdida, quando não consigo solucionar ( o que felizmente não é frequente) e sei que cada minuto que passa são 60 segundos de confusão.
      Obrigada Malu. Um beijo. D

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  14. Pelo menos, não nos podemos queixar de monotonia no trabalho... ;) Se bem que a "animação" não precisava de ser tanta... bjs

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    1. Ai Luci, em dia animado, chamar-lhe circo é pouco :)
      Boas Férias. Jinho !

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É aqui que me mandas dar uma curva