"Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana"
Alvaro de Campos
"No circo cheio de luz
Há tanto que ver!...
"Senhores!"
- Grita o palhaço da entrada,
Todo listrado de cores -
"Entrai, que não custa nada!
À saída é que se paga..."
José Régio
Tinha oito anos quando fui pela primeira vez ao circo "a sério" no Coliseu de Lisboa.
Não era a primeira vez que convivia com saltimbancos e gentes circenses que carregavam de terra em terra pequenas tendas em roulotes e atrelados, puxadas por carros antigos e garridos de pinceladas coloridas, que cobriam as manchas de ferrugem onde o esmalte da tinta brilhara um dia.
A Mãe, exímia artífice do estilo e elaboração de modelos , era sempre muito procurada para ajudar em confecções e retoques nas indumentárias dos vários artistas quando os circos se instalavam na vizinhança. Lembro-me dum casaco vermelho brilhante bordado a lantejoulas pretas, dos chiffons das bailarinas dos véus, garridos e esvoaçantes, rematados com cintos dourados cheios de pedrarias refulgentes e coloridas que materializavam mil Sheherazades na minha imaginação de criança, mas principalmente da capa de cetim negro forrada a dourado do grande Mandrake, que quando foi fazer a prova, me retirou um rebuçado do Dr. Bentes de uma orelha e uma moeda de cinco tostões da outra.
O número dos Mágicos e Ilusionistas passou a ser imediatamente o meu favorito, sempre na mira dos rebuçados e do vil metal que a inocência da minha tenra idade imaginava um delicioso, precioso e inesgotável filão.
Era fantástico como materializavam ramalhetes de flores com um toque de varinha, como colocavam a linda Mimi numa caixa multicolor, a cortavam ao meio e voltavam a colar ( a cola Cisne que não deveriam de gastar!!), e as pombinhas brancas que lhes nasciam das mãos em útero e esvoaçavam por cima das nossas cabeças delirantes e entusiasmadas, no meio duma chinfrineira de palmas e gritinhos de alegria e excitação, bocas sujas e dedos peganhentos de algodão doce e nougat.
Num rufo final de tambor, saía o coelhinho da cartola, branco e fofo como uma nuvem e o mágico passava com ele pela fila da frente onde todos o podiam afagar.
No Coliseu o Avô tinha amigos " lá atrás" e levou-me a ver os bastidores do circo. Não tinha muita luz, nem no espaço em si, nem nas pessoas. Cheirava a transpiração, a tabaco, a vinho e a urina.
Colossal é a diferença que a sugestão duma cortina encantada pode fazer como transição entre dois mundos, o da realidade e a ilusão criada na ribalta , onde a luz confere brilho à cor e tudo é alegre e transborda felicidade.
Colossal é a diferença que a sugestão duma cortina encantada pode fazer como transição entre dois mundos, o da realidade e a ilusão criada na ribalta , onde a luz confere brilho à cor e tudo é alegre e transborda felicidade.
Já não gosto de circo. Já não me diz nada. Deixou de me fascinar há tanto tempo quanto constatei que os coelhos que saiam das cartolas, estavam fechados numa gaiola suja e fedorenta debaixo duma mesa manca com um buraco no meio, tapada com um glamouroso pano azul pejado de estrelas prateadas como um magnífico céu nocturno, onde afinal só imperava o cinzento que antecede a escuridão.

Muito comovente o fascínio que o circo exerce em nós quando crianças, e à medida que crescemos tomamos consciência dos bastidores e das condições às quais os animais são sujeitos.
ResponderEliminarTambém fui ao circo pela primeira vez, por volta dessa idade e só me recordo bem do Marco Paulo a cantar...:-))
Felizmente acho que os circos com animais tenderão a desaparecer, o que a mim só me pode alegrar. Até já fiz um poema precisamente intitulado Circo.
http://escritacommusica.blogspot.pt/2013/09/circo.html
Gostei muito do texto e da escolha musical.
Tirei hoje um bocado da tarde para visitar "o pessoal"...:-)
xx
Olha a minha sorte, que calhei em dia sim !!! :):):)
EliminarBem, o Marco Paulo só ele já é um animal de palco, mas depois do deslumbramento, num espectáculo do Circo de Moscovo, em Moscovo, todos os espectadores puderam ver sem qualquer disfarce, como os animais eram brutalmente tratados, apesar de espécimenes fantásticos e de porte grandioso.
Lembrei-me da ideia que tinha arrumado no sótão das minhas lembranças, fui buscá-la e retomei daí e até hoje.
Beijos Laurinha, espero que estejas a ter um bom descanso.
Vou lá dar um pulinho ao teu poema.
Quando eu era criança queria ir ao circo. A minha mãe contava-nos que tínhamos ido uma vez, penso que ao Coliseu em Lisboa e havia um número no qual um homem entrava numa máquina de lavar e depois saía um anão com a mesma roupa. Não sei se me lembro disso ou do que imaginei pelo que a minha mãe contou. Era tão pequena que não me recordava de mais. Entretanto, surgiu a oportunidade de ir com o meu pai - veterinário -ao interior de um circo. Fomos lá no final da tarde, os animais estavam em jaulas pequenas e não cheirava bem. Já não me lembro de qual o animal que o meu pai foi ver, mas os que vimos lá tinham um ar triste. E a partir daí já não quis mais ir ao circo.
ResponderEliminarO circo é isso mesmo, sofrimento, brilho, lágrimas e não deixar o espectáculo parar nunca.
EliminarEsse número da máquina de lavar é muito bem imaginado :):):):):)
Beijo, redonda
O meu primeiro circo chamava-se circo Ribeiro, tinha 4 pessoas que se iam alternativamente passado por chinesas, russas e brasileiras, três caniches feiosos e, presumivelmente, algumas pulgas e piolhos entre as bancadas. Nunca mais pude ouvir em circos...
ResponderEliminarLembro-me do circo Torralvo estar montado por duas ou três vezes junto à igreja da Memória, mas agora que fala nisso, as trapezistas e as contorcionistas eram muito parecidas e lembro-me de a minha mãe me dizer que eram da mesma família. Provavelmente eram A mesma família que se desbrava nos números :):) Gostava muito mais delas quando iam provar os fatos eram coradas e alegres e ensinavam-me cantiguinhas :):)
EliminarMas
Lembro da minha primeira ida ao circo também, foi encantador!
ResponderEliminarÓtimas lembranças, bjs e boa semana =*
Quem não costa das cores, das músicas, das magias e sobretudo dos palhaços trapalhões ??
EliminarObrigada e bom feriado amanhã.
Beijo
Lembro-me mais das tripós de saltimbancos que animavam os arraias dos Santos Populares, nomeadamente o de Santo António. Ao circo, só tenho ideia do Colisu.
ResponderEliminarBom feriado (sarcasm rsrsrsrsr)
Também me lembro muito bem dos cuspidores de fogo e dos malabaristas e das monumentais fogueiras no Páteo da Ivone e depois no Largo do Carvoeiro... Ainda lhes sinto o cheiro e oiço a madeira a crepitar... Os bailaricos com música de acordeão e as farturas :):):):):):):):):)
EliminarJá não me lembro de ir ao circo, mas lembro-me das primeiras vezes que fui e o quanto isso foi encantador
ResponderEliminarMesmo que seja sempre igual, é sempre a mesma alegria e excitação infantil.
EliminarBeijinho Andreia, bom feriado :):):)
Estive para lhe fazer um bonito poema, mas preciso do seu email, mande-me para o meu se fizer o favor!
ResponderEliminarQuerida Arrumadinha, já seguiu no seu mail do blog. :):):)
EliminarObrigada!
Já fiz e foi enviado para si, espero que goste, acho que ficou engraçado!
EliminarMesmo sem ter lido, só a amabilidade e paciência da Pipoca Arrumadinha, já o tornou 5 estrelas.
EliminarEntão , vamos ao post ?
XX
Vamos lá!
EliminarVoilá ! Beijoka !
EliminarAdoro o circo, tudo que tem a ver com circo, a música, a animação... és uma corta, pá, a explicares os truques de magia.
ResponderEliminarBeijo
Tschhhh... que a piquena ainda acredita que é uma galinha ou coisa que o valha, sob o poder da sugestão !!!
EliminarAgora, como com a antiguidade se pia mais fino, só Cirque du Soleil. :):):)
á, distrai-te e passeia muito, para descansares bastante do trabalho de estar em casa ( eheheheheheheh)
Que lindo.Desde o início com a poesia até o conto maravilhoso, cheio de recordações lindas dos bons tempos do circo! abraços, linda semana,chica
ResponderEliminarObrigada Chica.
EliminarBeijos mil :)
Mas a essência é iludir com uma mão enquanto a outra efectua o verdadeiro truque -- e isso, cara M D é uma arte que vemos ser realizada a cada dia, sem falta. O circo é tão ubíquio quanto os descendentes de Adão.
ResponderEliminarBoa tarde :)
Nem mais, querido X, nem mais. Mais ou menos subliminarmente o truque está sempre presente. O triste é que nós até sabemos que estamos a ser completamente iludidos pelo jogo de mãos, mas somos pródigos em condescender...
EliminarBeijo e bom feriado.
gostei muito
ResponderEliminarsaudos a vocè
Viva Omar! Obrigada !
EliminarAbraço. D
Eu também não aprecio circos.
ResponderEliminarGostei de ler o seu texto.
Bjs
Já nos basta o circo da vida. Obrigada Elisabete.
EliminarBeijo e bom fim de feriado. D
Olá,
ResponderEliminarEu era uma moleca que corria entre as flores dos campinhos, andava a cavalo e furava por baixo do pano para entrar no circo. Um dia eu fui pega, um grandalhão agarrou-me pelas roupas nas costas e me ergueu. Eu, então berrei, tamanho foi o susto dele, quando viu dois broches: fiscal da Prefeitura: eu era filha do fiscal e não pagava ingresso no circo e nem nos parques.
Ele perguntou-me: por que passar por baixo do pano? Respondi-lhe: para sentir o gosto grandalhão, tá com medão, agora? kkk
Era terrível, era criança peralta e inocente.
Quantas saudades........
Obrigada pelo carinho
Lua Singular
O grandalhão não assustou a criancinha, bem pelo contrário ! :):):)
EliminarAs saudades são memórias que por vezes doem de felicidade...
Beijo Dorli. :)
Viajei no tempo diante de seu texto encantador e repleto de adoráveis lembranças.
ResponderEliminarNão me lembro exatamente quando fui ao circo pela primeira vez, mas não me esqueço do medo que tive dos palhaços-rsrs. Ficava agarrada à minha avó, que era minha acompanhante-rsrs
O circos provavelmente perderão parte de suas atrações, haja vista que se cogita de proibição legal de animais em circo. Endosso tal posicionamento.
Atualmente, também não iria a um circo, a não ser se fosse para levar meus sobrinhos para conhecerem.
Adorei ouvir a música. Gosto muito.
Beijo.
Creio que não vou ao circo vai para 20 anos. Não é verdade que não sinto saudade da alegria e de rir, rir como agora já não rio. Concordo com a proibição aos animais. Antigamente, os circos nómadas da minha infância só traziam aves, cães e chimpanzés, que conviviam com as famílias como se de gente se tratasse...
EliminarBeijos, Vera Lúcia
Grande admirador do Cirque du Soleil.
ResponderEliminarO circo, na sua imagem tradicional, já não me seduz minimamente.
O Cirque du Solei é a essência da magia do circo elevada à enésima potência no bailado da música ,da luz e da cor, Pedro.
EliminarOs circos tradicionais também já nada me dizem.
Abraço. D
Gostei tanto de ler o seu texto! A sua forma de contar as histórias prende-me.
ResponderEliminarEu nunca gostei de circo, nem quando era miúda e me levavam ao Coliseu. Tinha tanto medo que os trapezistas caíssem, que não conseguia descontrair (mesmo que estivesse lá a rede). :-)
Um beijinho, querida M D.
:) Ver um palhaço na pista e ver um palhaço ao perto, também não é agradável, isso eu garanto :):):)
EliminarBeijo, Susana
Bela história. Parabéns!
ResponderEliminarViva Agostinho, obrigada :):)
EliminarAbraço !
Bom dia, Dulce
ResponderEliminarTodos nós, mais tarde ou mais cedo, deixamos de gostar de circo :(
O último espectáculo a que assisti, no ano passado (depois de um longuíssimo interregno!) foi o Cirque du Soleil, em homenagem a Michael Jackson. Adorei... mas, este espectáculo, de "circo" tem apenas o nome...
Gostei de ler as tuas recordações. Fizeram-me reviver a infância.
Beijinhos
Olá Mariazita , minha querida, como estás, linda ? :):):)
EliminarPois é, o Cirque du Soleil é um conceito completamente diferente e muito mais dinâmico e imaginativo.
Beijos mil D
Um texto muito bom. A magia do circo quando se é criança, enquanto a inocência nos habita o olhar. Depois....
ResponderEliminarUm abraço.
Viva, Graça. Depois, depois é o circo da vida e os malabarismos que fazemos com ela.
EliminarBeijo e BFS. D
Viajei contigo... Tive idêntica experiência. Era uma festa quando um circo se instalava na vila, depois cidade. Acho que as últimas idas ao circo coincidem com o desligamento do meu filho em assistir a este género de divertimento. Gostava de tudo, mas os números ilusionistas eram também os preferidos. Ainda hoje me quedo pensativa sobre os truques, pois se alguns se podem quase deduzir, há outras que se me afiguram fantásticos!
ResponderEliminarO palco é sempre mágico; se soubermos o que se passa para lá do palco, o encantamento desaparece. E a vida anda tão desencantada!
Parabéns pelo texto, amiga D. Bjo :)
Quantas vezes o "não querer saber" não é uma tentativa desesperada para que a magia não acabe, querida EU.
ResponderEliminarBeijos
Linda história,que me fez lembrar uma época em férias,quando
ResponderEliminareu vi bem de perto o estender de uma lona de um circo,é lindo demais.
bjs e obrigada pela visita.
Carmen Lúcia.
Ora essa , Carmem Lúcia, é sempre um prazer.
EliminarObrigada pela simpatia. BFS. Beijo . D
Sou como vocë. Não tenho saudades de ir ao circo, mas de ir ao circo como ia quando menino. Daquelas impressões que tinha e já não tenho, enfim, tenho saudade de ser menino e da minha perdida inocëncia. As mais presentes lembranças de circo são os aromas, especialmente o de churros. Obrigado pela visita e o deleite e lembranças que a leitura propiciou.
ResponderEliminarOlá Benno, bem vindo!
EliminarO prazer infantil do circo vai desaparecendo na névoa que o tempo deixa para trás, mas os sentidos são poderosos e ao mais leve aroma a açúcar quente, já estou eu de novo, lambuzada, a bater com os pés freneticamente na bancada de madeira.
Abraço e BFS. :)
Eu sempre gostei muito do circo, na minha primeira cartilha da escola havia ilustrações sobre o circo, eu não cansava de admirar...dizia que eu iria embora com o circo, de tanto que gostava.
ResponderEliminarAlguns bons anos depois, eu morava em uma casa, que em frente montavam circo...eu amava ficar olhando o movimento, os ensaios...os bichos que por sinal eram muito bem tratados, pois eu fizera amizade com as meninas do circo, e então podia observar. Há exceções é claro! Pois já vi circo maltratar animais também.
Mas jamais me esquecerei as luzes e a alegria do circo...tenho até os aromas das pipocas, amendoins, maçã do amor encrustados em mim! Adorei a postagem!
Abraços!
Mariangela
Viva, Mariangela. O Circo é sempre fascinante quando somes pequenos. É pema festa de luz, cor e movimento que a todos encantou. Agora há mais regras para proteger os animais de Circo, que seriam impensáveis nos meus tempos de menina. Mas os aromas e a alegria hão-de fazer sempre parte do nosso imaginário.
EliminarBeijinho e BFS. :):)
Olá amiga, muito obrigada por me ter visitado no meu cantinho e pelas suas generosas palavras!
ResponderEliminarO seu adorável texto sobre o circo fez-me recuar ao tempo em que os "circos " andavam de terra em terra como refere e mais tarde já com os meus filhos no Coliseu de Lisboa e todos ficávamos fascinados!
Hoje também já não aprecio, aliás penso que nunca aprecei muito pelos motivos que expõe!
Um beijinho.
Ailime
Viva Ailime. A cor, os cheiros , os movimentos e a alegria hão-de sempre fazer parte do nosso imaginário. Teremos sempre lembranças felizes para contar aos NetInfo. :):):)
EliminarObrigada pela presença, Beijinho e BFS
Quando circo tínhamos fascinação pelas peripécias circences. Perdemos a inocência com ela o glamour. Hoje não conseguimos voltar naqueles tempos de fantasia onde tudo era mágico e encantador. Muito legal ler suas lembranças
ResponderEliminarum feliz domingo
Beijos
Olá Gracita, bem vinda. Quantas vezes não dou comigo a desejar voltar a ver o mundo pelos meus olhos de criança ?
EliminarObrigada pela presença. Beijos e bom Domingo. :):)