"Leva muito tempo tornarmo-nos jovens." Pablo Picasso
Estar Assim, Assente na Saudade
Estar assim, assente na saudade,
com todo o peso repousando em si,
a prende à luz da sua antiguidade
parando na de aqui.
Fernando Echevarría
Estou cansada e o desalento começa a apoderar-se insidiosamente do pensamento, minando o alicerce inabalável onde fundamento as minhas convicções.
Depois de tantos milénios de buscas incessantes, de estudo e investigação, de leituras de tábuas, papiros, livros, cartas, clipping até... compilando apontamentos ditos pistas, escrevinhados em tudo em que letra pudesse prantar, ordenando febrilmente por uma ordem de importância e cronologia vital e codificada, que pulsava como um coração latejante e me falava e me convencia que sim , que era agora, que estava quase, que iria ser bem sucedida , que o mundo iria ouvir falar de mim e do feito que consagraria à humanidade.
Tantos anos em que sob o pretexto da busca pelo conhecimento supremo, segui safaris exploratórios,pelo ar, sobre a terra e sobre o mar, Batesda, Al- Khadir, terras de Prestes João, Artico junto ao círculo Polar, banhando-me em poços de géisers vulcânicos, mornos e sensuais no toque, veludo macio sobre minha pele encarquilhada que adquiria um tom precioso de esmeralda sob aquele luar mandingador de sedução.
Muitas vezes disfarçada, outras tantas escondida, a maior parte vendendo o que tinha e o que não tinha para poder financiar e acompanhar as campanhas, vigorosa, corajosa, enfraquecida, ansiosa, febril, feita ruina numa enxerga imunda onde só vultos e ruídos sem nexo me recordavam de mim...
Mas desta vez foi diferente em Bimini. De Leon estava certo, era ali.
Fui pela calada da noite, como um animal de presa, com um fino estilete cruamente dissimulado junto ao peito. O homem que montava guarda dormia, mas insana e ansiosa, não quis arriscar. Senti o sangue quente borrifar-me nos olhos e escorrer-me viscoso pela face ardente, mas nem a ignomínia me parou. A fonte estava ali à vista, cristalina e borbulhante e eu bebi e bebi quase até rebentar. Passei água no rosto e no corpo e vi a pele tornar-se alva e acetinada. O meu reflexo no espelho de água clara era maravilhoso, era o eu que fui e que pensava perdido para sempre ... Finalmente conseguira!
A exultação de ter mergulhado na alegria da felicidade e parado o tempo, não me deixou realizar que afinal Cronos dera uns passos atrás e que, divertido, ria da minha catastrófica regressão. O tempo não parara para mim, só regredira e tão intensa e rapidamente como sede eu tinha de juventude.
O meu ser corpóreo desvanecera-se na involução e ali estava eu, uma incrédula intenção de algo ou alguém sem vida, consciente de si , mas encarcerada num limbo imutável para toda a eternidade.

Nossa...que coisa linda!!!!
ResponderEliminarFiquei encantada com seu estilo, gosto de escrever desta forma....sutil,mas profundamente, sentir meu ser tremer na alma....
Bjus e parabéns!
http://www.elianedelacerda.com
Viva Elyane , Obrigada pela presença e pela simpatia.
EliminarUm grande beijo
Bom, Tia, bom, voltaste bem :)
ResponderEliminarQuem ler isto, pensará seguramente que fui para algum lado, não... essa do voltaste, quando nunca cheguei a partir, tem que se lhe diga e muito.
EliminarBeijos, piquena
Então perdeste-te para sempre ? Ohhhhhh :):):)
ResponderEliminarA menina dança ? ... Perdão, a menina já ouviu falar do Renascimento ?... pois , é quase ali ao lado do limbo, 3ª à esquerda...
EliminarComplicado para eu entender. Não entendi.
ResponderEliminarA eterna busca da juventude, fazer parar o tempo ou mesmo fazê-lo voltar atrás.
EliminarO desejo é mais forte do que o bom senso e sempre que assim é , não se medem as consequências e é raro ter um final feliz, Marcos.
Abraço.
Talvez o maior benefício da imortalidade seja a de dar infinitas histórias para contar:
ResponderEliminar"Recorrí nuevos reinos, nuevos imperios. En el otoño de 1066 milité en el puente de Stamford, ya no recuerdo si en las filas de Harold, que no tardó en hallar su destino, o en las de aquel infausto Harald Hardrada que conquistó seis pies de tierra inglesa, o un poco más. En el séptimo siglo de la Héjira, en el arrabal de Bulaq, transcribí con pausada caligrafía, en un idioma que he olvidado, en un alfabeto que ignoro, los siete viajes de Simbad y la historia de la Ciudad de Bronce. En un patio de la cárcel de Samarcanda he jugado muchísimo al ajedrez. En Bikanir he profesado la astrología y también en Bohemia. En 1683 estuve en Kolozsvár y después en Leipzig. En Aberdeen, en 1714, me suscribí a los seis volúmenes de la Ilíada de Pope; sé que los frecuenté con deleite. Hacia 1729 discutí el origen de ese poema con un profesor de retórica, llamado, creo, Giambattista; sus razones me parecieron irrefutables. El 4 de octubre de 1921, el Patna, que me conducía a Bombay, tuvo que fondear en un puerto de la costa eritrea."
Borges, em El Inmortal
Boa noite, M D :)
Trecho fabuloso, do género que o meu "bom senso e bom gosto" me espevitam a devorar.
EliminarDe que serve ser-se imortal e só ?
Beijo, querido X
Muito, muito bom! E essa música é fantástica
ResponderEliminar:) Gosto quando gostas. :):)
EliminarBeijo.. D
Será que a eterna juventude, fazer parar o tempo ou fazê-lo andar para trás será aquilo que julgamos ser? Ficará a questão...
ResponderEliminarA imortalidade ou a juventude eterna trazem apensa uma solidão imensa, que não vale sequer a pena experimentar.
EliminarXi Gaja, gracias :):)
Chega a uma altura em que melhor será não tentar avançar mais, melhor ficarmos jovens o quanto pudermos, e não nos levarmos muito a sério enquanto ávidos buscadores de sabedoria. E esse desejo chega geralmente quando já tentámos, porque necessitámos ser tão adultos.
ResponderEliminarPor teres referido esse "luar mandigador", fizeste-me lembrar o filme O Mandingo que vi na minha juventude, e que me marcou no bom sentido...;-)
Que bom que essa viagem imaginária e o banho nessa fonte fez parar Cronos, que geralmente nunca se detém.
Uma música muito apropriada, e a verdade é que se quisermos poderemos ser jovens, mesmo que o corpo teime em mostrar-se uma carcaça do que já foi...:-))
Adorei o texto!
xx
Laurinha, é uma inspiração e um privilégio ( e nem penses que é cliché) ler os teus comentários. :):)
EliminarUma viagem apetecível por dominios do tempo, esse imparável andador.
ResponderEliminarBeijinhos
Mais parador e caranguejo, desta vez, querida Pérola :):):).
EliminarBeijinho.
Olá, seu rico texto me fez dar mil voltas ao passado, porém como saber se posso voltar no tempo e que tempo é este? Pois o tempo tem seu tempo que não se assemelha ao nosso" tempo".Portanto o que temos que lembrar é que não somos donos do tempo.Tenha uma linda semana!
ResponderEliminarMuito pelo contrário Marli, é o tempo, esse tirano quem completamente nos domina.
EliminarObrigada pela presença e pela simpatia.
Beijo.
O texto em si: esta trama que engendras a partir de pedaços da tuas vivências/conhecimentos culturais, ficou uma excelente narrativa, um micro conto (aliás, acho que serias "BOA" no género...:)
ResponderEliminarA mensagem: sorrio sempre que leio alguma coisa (prosa ou poesia) sobre a qual já me debrucei, acontecendo ter escrito, por vezes, no dia anterior ou no próprio. Penso que advém do mesmo princípio: irmandades literárias...:)
Na verdade, já os alquimistas procuravam o elixir da juventude, tornando-se a Pedra Filosofal, a metáfora do sonho, já para não falar da demanda do Santo Graal e do Quinto Império... Em suma, o Homem tem buscado sempre o que será intangível. Ainda bem que não encontra, a mim basta-me que as palavras possam ser eternamente jovens...:)
Ainda que haja algumas técnicas para retardar o envelhecimento (da maior parte nem sequer sou adepta), a verdade é que o tempo é mesmo implacável e igualitário (ou quase): as marcas vão-se tornando visíveis. A questão de se sentir jovem, já é diferente, pois tem a ver com a personalidade e circunstâncias da vida.
Em suma: mesmo tendo conseguido o seu objetivo, a felicidade não foi proporcional. Logo, aceite-se as regras que o Sr Tempo dita (já escrevi em poema algo do género - ele ganha sempre e ri sempre por último)
Gostei imenso de (te) ler, Parabéns!
Bjo, D
E só me sinto velha, quando penso que Maria das Dores seria um nome que me serviria como uma luva. Creio que a nossa fonte de juventude reside nas pequenas células cinzentas e enquanto elas forem activas e saudáveis, nós seremos eternamente jovens.
EliminarAdoro ler os teus comentários.
Beijos. D
Na busca da eterna juventude perde-se a vivência da mesma, já que se olha a vida com um foco obscuro. Implacável é o tempo nas marcas que deixa. Por outro lado, é maravilhoso no que nos proporciona em crescimento e conhecimento. Bjs.
ResponderEliminarSabe Marilene, eu acredito na juventude do espírito. Enquanto for activo e são... e o embrulho permitir.. seremos sempre jovens :):)
EliminarBeijo
O texto é interessante, criativo e muito bem escrito.
ResponderEliminarA eterna juventude nunca levaria à felicidade. Prefiro envelhecer preservando a jovialidade do espírito.
Parabéns!
Beijo.
É a maneira correcta de jogar com o tempo: ele leva o viço, mas só o exterior.
EliminarObrigada pela presença e pela simpatia, Vera Lúcia.
Um beijo grande.
Vim aqui a convite e agradeço. Li alguns textos muito bonitos e muitíssimo bem escritos.
ResponderEliminarPara além disso encontrei aqui citações muito belas e muito bem escolhidas e até o «meu querido» Álvaro de Campos.
Gostei.
Beijinhos
Viva, Graça
EliminarAgradeço a presença e a simpatia. Gosto muito de escrever, é catártico. Fico muito feliz quando sinto que me compreendem.
Beijo.
Dulce, minha doçura
ResponderEliminarO elixir da juventude, procurado desde tempos imemoriais, (sem resultados aparentes...) parece que, afinal, está no sangue :) - pelo menos no sangue dos ratos -:)))
Se conseguissem travar a degeneração dos órgãos, que forçosamente ocorre com o avançar da idade, seria óptimo. Mas eu penso que isso só acontece no mundo da utopia.
Entretanto, nada nos impede de sonhar, e como no sonho tudo é possível, olha aqui p'ra mim tão jovem e "sarada" :)))
Nunca me tinha ocorrido essa cena do ícone do G+ para assinalar a passagem pelos blogs. Aliás, confesso que nem reparo nisso, apesar de saber que essas sinalefas aparecem no final das postagens.
Apesar deste mau tempo com que nos mimoseia a primavera... tenta ser feliz.
Beijinhos
Olá Linda. Sabes, envelhecer graciosamente é uma virtude, se o comando tiver as pilhas a funcionar bem e a carcaça for mexendo. Adoro o teu espírito renovado de menina e moça.
EliminarPor aqui, choveu demais para um Maio, por mais maduro que esteja.
Beijos mil
Que lindas palavras!
ResponderEliminarhttp://resenhaeoutrascoisas.blogspot.com.br/
Viva, Karoline. Bem vinda, Que bom que gostou :):):)
EliminarObrigda pela presença e pela simpatia.
BJ. D
OI!
ResponderEliminarA BUSCA DA JUVENTUDE ETERNA, A QUALQUER PREÇO, NÃO PODERIA RESULTAR EM NADA DE BOM, ATÉ PORQUE, DE QUE ADIANTA FICAR NOVAMENTE JOVEM, FISICAMENTE SE O ESPÍRITO NÃO O FOR E SE NOSSO CORPO É MORTAL?
MAS, TEU TEXTO É TÃO INSTIGANTE QUE NOS LEVA A CONJECTURAR, TENTANDO UMA DEFINIÇÃO EXATA PARA ALGO QUE FOGE A NOSSA VÃ COMPREENSÃO.
INTERESSANTÍSSIMO, GRAÇAS A TEU TALENTO.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/
Olá Zilani, bom Domingo e obrigada pelo comentário.
EliminarO nosso espírito é a nossa fonte de juventude enquanto lhe for permitido não envelhecer. O corpo é o habitáculo que usamos e a quem o tempo castiga todos os dias. É nossa missão conjugar ambos da melhor maneira para obtermos um conjunto funcional, ainda que passe longe da perfeição.
Beijos da D
Ficar jovens para sempre...é abrir a mente e procurar novas palavras, novas cores que a desafiem...Se continuarmos a voar, a apaixonarmo-nos...envelhecemos com sabedoria...
ResponderEliminarObrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta
Creio que deverá ser por aí o caminho para a eterna juventude, Marta.
EliminarObrigada e bom fim de Domingo.
Um beijo. D
OI !
ResponderEliminarRELI, GOSTEI E TE DEIXO MEU ABRAÇO DE DOMINGO.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/
Viva Lani, obrigada!
EliminarUm bom fim de Domingo também para você e um grande beijo. :):)