sábado, 26 de abril de 2014

Soledad...

"Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém – é a isto que é preciso chegar." 

Al Berto




[...]A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade.
 Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade.
 Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.[...]


Arthur Schopenhauer









Irrompem com a fúria da madrugada que se torna manhã,  vêm às catervas, aos  bandos,  dezenas,  centenas, milhares, turbas alacres  numa arrazoada  constante, numa babel de sons e tons, dialectos , cores e formas.
São a música de fundo da minha vida, a trilha sonora do filme no qual sou a actriz principal e eles, os actores secundários que todos os dias me invadem o olhar e o ouvir, são como anti-corpos  batalhadores,  travando constante e feroz combate contra o antígeno da calmaria, até o conseguirem erradicar por completo.
É neste mar revolto em ondas de caos organizado que passo os meus dias, é aqui que o tal tempo que me acompanha tem lugar cativo e sorri para mim, desdenhoso da minha azáfama, do meu cansaço, da minha confusão.
Despida a couraça que me cinge e avara de paz, busco  o meu soldo  para correr à locanda mais próxima e me embriagar com solidão. Tomo-a avidamente, encharco-me nela,  em goles fartos,  sequiosa, apressada, temerosa que não me chegue... quero mais e mais, até deixar de sentir, até me invadir aquela dormência sonolenta da inconsciência que chega. As pessoas são vultos borrados e escuros, as luzes, pequenos pontos que se desvanecem e o som, lento e desfasado,  enrola-se  na ressonância do silêncio e desliza num mutismo de acordes surdos até calar por completo a voz.
É no entorpecimento que me encontro ; oiço a minha voz e abraço-a com força, com aquela saudade de quem se sente distante e só no meio dum dilúvio de indivíduos ecléticos e cacofónicos,  todos os minutos dum tempo que ainda é seu.
Como um naufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.


                                   

20 comentários:

  1. Brutal, este post...
    Beijinho e bom fim-de-semana!

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    1. :):)
      Bom fim de semana, Jorge, obrigada e um beijinho

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  2. Gran Mensaje de Lo Que podria Ser Una experiencia de la vida real. Emoción honda, POR gracias compartir Rogue. Que tengan un buen fin de semana
    A la luz de amor.

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    1. Merci Cindy, un chemin de lumière pour toi.
      Bon weekend.

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  3. Que encanto de leitura, minha Maria. Lindo.

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    1. Como parece que foi bem aceite, que sirva de testemunho que estafa também é inspiração, minha Luisa.
      :):):)

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  4. As palavras acendem os candelabros da solidão, fazendo cintilar os cristais do livro da memória!!!

    http://diogo-mar.blogspot.pt/

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    1. Certo, belo e verdadeiro, Diogo. :)
      Encontrares-te na tua solidão retempera-te para continuares o teu caminho e fortalece-te para enfrentares os obstáculos que obstruam o teu traçado.

      Se procurares, achar-me-ás no meio da tua legião de seguidores. Leio- te muitas vezes. Sou parca em comentários, eu sei, normalmente partilho no G+1 , e assim partilhando, permito que mais pessoas leiam escritos bem escritos :):):)
      BFS.

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  5. Maria do Céuabril 26, 2014

    MD, sou professora . Posso não me rodear da sua babel de sons cores e formas, mas revejo-me tremendamente na sua necessidade, nesse quase vício de se encontrar e retemperar no vazio da sua solidão.
    Adorei ler este texto.
    Bom fim de semana

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    1. Viva , Céu. Como eu entendo o valor do silêncio e do vazio e da necessidade absoluta que deles tenho para ser um ser funcional...
      Obrigada, BFS para si também. Beijinho

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  6. Desculpa, não estava completo!
    Agora sim!

    As palavras acendem os candelabros da solidão, fazendo cintilar os cristais do livro da memória.
    A solidão somos nós, agreste ou doce, ela sempre será o bálsamo do, e para o espirito!!!

    http://diogo-mar.blogspot.pt/

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    1. Um ponto de encontro e reencontro contigo próprio, uma promessa de renovação.
      Grande, Diogo, é isso, exactamente.

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  7. "Quem não gosta de estar sozinho, é uma péssima companhia" Gonçalo Tavares
    Beijo

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    1. Não poderia estar mais de acordo, miúda. BFS. :) :)

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  8. Só através da solidão nos poderemos conhecer verdadeiramente, ouvir a nossa voz e o nosso próprio pensamento, alheados da cacofonia do dia a dia, e esse é a nossa única possibilidade de descanso. Porque sem ninguém a observar poderemos ter laivos de nua sinceridade.
    Gostei muito do teu texto, muito demonstrativo dessa necessidade de "fuga" para "reabastecer".
    Um fim de semana descontraído!
    xx

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    1. Nada parecido, querida Laura. Tenho estado numa laboriosa maratona non-stop, que principiou no dia 11 ( inclusive) e só acabará no dia 30, que será o dia em que reencontrarei finalmente a minha soledad no vácuo do meu desejo, so help me god.
      BFS e beijinho.

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  9. As pessoas que se enchem de ruído para preencher a solidão, nunca sabem o que realmente vale para elas. Nem para elas nem para os outros, tornam-se insensíveis, desnorteadas.
    A solidão é sem dúvida necessária para dar espaço à manifestação do essencial.
    Belo texto, M D!

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    1. :):):) meeting with self.... Trendy, hum ? BFS , Susaninha e obrigada.

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  10. Sempre preferi, desde muito jovem, momentos a sós do que estar com gente de conversa balofa (Cá para os meus lados costumavam apelidar-me de "imperial" :) ) - Nunca tinha descoberto estas reflexões, que bem me souberam...
    Dizer que o teu texto é belíssimo, seria apenas um lugar comum. Narras, com mestria, a chegada das ondas de um tsunami auditivo, aniquilando o teu direito a respirar, para, em seguida, a salvo, te vingares dele no silêncio do cimo da montanha... Afinal saíste vitoriosa...Entendo-te. Felizmente nunca cheguei a ter necessidade de "uma embriaguez de solidão", pois está naturalmente em mim instalada mas bem doseada. Questão de vivências e/ou personalidade.
    (Vou começar a guardar os comentários pois, ultimamente, quando regresso ao blogue, vejo que não ficaram.)
    Bjos, com sabor a silêncio de terras de (quase) ninguém...

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    1. Olá minha querida EU. :)
      Lido com muita gente todos os dias e sem sombra de dúvida que gosto muito do que faço. Alturas há, porém, que não são apenas algumas pessoas durante algum tempo, mas sim muita gente o tempo todo. Daí a minha necessidade de desligar, que consigo com sucesso algumas vezes, e essa ânsia viciante pelo isolamento que é a adrenalina e a lidocaína que me revivem depois da fibrilação provocada por aquela overdose tão absolutamente necessária de solidão.
      As viajens na tua terra foram interrompidas, mas garanto que voltarei. Beijo.

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É aqui que me mandas dar uma curva