"Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém – é a isto que é preciso chegar."
Al Berto
[...]A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade.
Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade.
Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.[...]
Arthur Schopenhauer
Irrompem com a fúria da madrugada que se torna manhã, vêm às catervas, aos bandos, dezenas, centenas, milhares, turbas alacres numa arrazoada constante, numa babel de sons e tons, dialectos , cores e formas.
São a música de fundo da minha vida, a trilha sonora do filme no qual sou a actriz principal e eles, os actores secundários que todos os dias me invadem o olhar e o ouvir, são como anti-corpos batalhadores, travando constante e feroz combate contra o antígeno da calmaria, até o conseguirem erradicar por completo.
É neste mar revolto em ondas de caos organizado que passo os meus dias, é aqui que o tal tempo que me acompanha tem lugar cativo e sorri para mim, desdenhoso da minha azáfama, do meu cansaço, da minha confusão.
Despida a couraça que me cinge e avara de paz, busco o meu soldo para correr à locanda mais próxima e me embriagar com solidão. Tomo-a avidamente, encharco-me nela, em goles fartos, sequiosa, apressada, temerosa que não me chegue... quero mais e mais, até deixar de sentir, até me invadir aquela dormência sonolenta da inconsciência que chega. As pessoas são vultos borrados e escuros, as luzes, pequenos pontos que se desvanecem e o som, lento e desfasado, enrola-se na ressonância do silêncio e desliza num mutismo de acordes surdos até calar por completo a voz.
É no entorpecimento que me encontro ; oiço a minha voz e abraço-a com força, com aquela saudade de quem se sente distante e só no meio dum dilúvio de indivíduos ecléticos e cacofónicos, todos os minutos dum tempo que ainda é seu.
Como um naufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.
Como um naufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.

Brutal, este post...
ResponderEliminarBeijinho e bom fim-de-semana!
:):)
EliminarBom fim de semana, Jorge, obrigada e um beijinho
Gran Mensaje de Lo Que podria Ser Una experiencia de la vida real. Emoción honda, POR gracias compartir Rogue. Que tengan un buen fin de semana
ResponderEliminarA la luz de amor.
Merci Cindy, un chemin de lumière pour toi.
EliminarBon weekend.
Que encanto de leitura, minha Maria. Lindo.
ResponderEliminarComo parece que foi bem aceite, que sirva de testemunho que estafa também é inspiração, minha Luisa.
Eliminar:):):)
As palavras acendem os candelabros da solidão, fazendo cintilar os cristais do livro da memória!!!
ResponderEliminarhttp://diogo-mar.blogspot.pt/
Certo, belo e verdadeiro, Diogo. :)
EliminarEncontrares-te na tua solidão retempera-te para continuares o teu caminho e fortalece-te para enfrentares os obstáculos que obstruam o teu traçado.
Se procurares, achar-me-ás no meio da tua legião de seguidores. Leio- te muitas vezes. Sou parca em comentários, eu sei, normalmente partilho no G+1 , e assim partilhando, permito que mais pessoas leiam escritos bem escritos :):):)
BFS.
MD, sou professora . Posso não me rodear da sua babel de sons cores e formas, mas revejo-me tremendamente na sua necessidade, nesse quase vício de se encontrar e retemperar no vazio da sua solidão.
ResponderEliminarAdorei ler este texto.
Bom fim de semana
Viva , Céu. Como eu entendo o valor do silêncio e do vazio e da necessidade absoluta que deles tenho para ser um ser funcional...
EliminarObrigada, BFS para si também. Beijinho
Desculpa, não estava completo!
ResponderEliminarAgora sim!
As palavras acendem os candelabros da solidão, fazendo cintilar os cristais do livro da memória.
A solidão somos nós, agreste ou doce, ela sempre será o bálsamo do, e para o espirito!!!
http://diogo-mar.blogspot.pt/
Um ponto de encontro e reencontro contigo próprio, uma promessa de renovação.
EliminarGrande, Diogo, é isso, exactamente.
"Quem não gosta de estar sozinho, é uma péssima companhia" Gonçalo Tavares
ResponderEliminarBeijo
Não poderia estar mais de acordo, miúda. BFS. :) :)
EliminarSó através da solidão nos poderemos conhecer verdadeiramente, ouvir a nossa voz e o nosso próprio pensamento, alheados da cacofonia do dia a dia, e esse é a nossa única possibilidade de descanso. Porque sem ninguém a observar poderemos ter laivos de nua sinceridade.
ResponderEliminarGostei muito do teu texto, muito demonstrativo dessa necessidade de "fuga" para "reabastecer".
Um fim de semana descontraído!
xx
Nada parecido, querida Laura. Tenho estado numa laboriosa maratona non-stop, que principiou no dia 11 ( inclusive) e só acabará no dia 30, que será o dia em que reencontrarei finalmente a minha soledad no vácuo do meu desejo, so help me god.
EliminarBFS e beijinho.
As pessoas que se enchem de ruído para preencher a solidão, nunca sabem o que realmente vale para elas. Nem para elas nem para os outros, tornam-se insensíveis, desnorteadas.
ResponderEliminarA solidão é sem dúvida necessária para dar espaço à manifestação do essencial.
Belo texto, M D!
:):):) meeting with self.... Trendy, hum ? BFS , Susaninha e obrigada.
EliminarSempre preferi, desde muito jovem, momentos a sós do que estar com gente de conversa balofa (Cá para os meus lados costumavam apelidar-me de "imperial" :) ) - Nunca tinha descoberto estas reflexões, que bem me souberam...
ResponderEliminarDizer que o teu texto é belíssimo, seria apenas um lugar comum. Narras, com mestria, a chegada das ondas de um tsunami auditivo, aniquilando o teu direito a respirar, para, em seguida, a salvo, te vingares dele no silêncio do cimo da montanha... Afinal saíste vitoriosa...Entendo-te. Felizmente nunca cheguei a ter necessidade de "uma embriaguez de solidão", pois está naturalmente em mim instalada mas bem doseada. Questão de vivências e/ou personalidade.
(Vou começar a guardar os comentários pois, ultimamente, quando regresso ao blogue, vejo que não ficaram.)
Bjos, com sabor a silêncio de terras de (quase) ninguém...
Olá minha querida EU. :)
EliminarLido com muita gente todos os dias e sem sombra de dúvida que gosto muito do que faço. Alturas há, porém, que não são apenas algumas pessoas durante algum tempo, mas sim muita gente o tempo todo. Daí a minha necessidade de desligar, que consigo com sucesso algumas vezes, e essa ânsia viciante pelo isolamento que é a adrenalina e a lidocaína que me revivem depois da fibrilação provocada por aquela overdose tão absolutamente necessária de solidão.
As viajens na tua terra foram interrompidas, mas garanto que voltarei. Beijo.