terça-feira, 8 de abril de 2014

Jornada em Absurdia

"A vida está cheia de uma infinidade de absurdos que nem sequer precisam de parecer verosímeis porque são verdadeiros."L. Pirandello





"Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz.[...]

Charles Bukowski






Larguei as rédeas do tornado tornado brisa, e desci bem no fundo da escadaria da Cidade Proibida, deserta aquela hora crepuscular , onde a luz e a sombra se misturam num bailado grotesco de sede e cupidez, desmembrado pedaço a pedaço pelas trevas cuja chegada se previa para as horas mortas duma tarde que já passou.
Estava alerta e resoluta, com os humores flutuantes de excitação e expectativa, pronta para a luta , mãos nuas e o coração palpitante na garra do leão que nunca deixei de ser. A armadura de lata escudava-me do medo e os sapatos de rubi esmagavam os restolhos que teciam a rede de palhas que me envolvia com o desalento dos dias amargurados, intuidos em cada gota de orvalho, em cada onda do mar, em cada pingo de luar, em cada brasa de sol, em cada grão de poeira barrenta.
Procurava-os. Sabia que me esperavam.
A primeira regra do clube de combate, diz que não se fala no clube de combate; a segunda regra do clube de combate, diz que não se fala do clube de combate.  Parti na senda do oponente, com o poente nas minhas costas.
Virando à esquerda na primeira encruzilhada da saída Noroeste de Beijing, depois de dois dias de caminhada e passado  o grande desfiladeiro da lua crescente, vislumbrei Xian pela primeira vez.
Tremia. Acendi um dos charutos do faraó que o homem da marca amarela me tinha dado em troca de dois passos de tango, numa terreola sob o signo de Capricórnio nas fossas de Absurdia.
Dentro da minha cabeça, a mesma voz repetia incessante ,"chegou ao seu destino", "chegou ao seu destino". Maldito GPS! Resolveu reviver o passado ali, com Brideshead tão distante.
Rebusquei na mala e encontrei o saco de berlindes que tinha surripiado do sótão do velho Barrie, enquanto procurava pó mágico e nada encontrei a não ser bolor e teias de aranha. A Charlotte seguramente passara por lá.
Soberbos e enfileirados , como matéria viva e palpitante, os homens de terracota estavam prontos para o combate. Tiveram milhares de anos para planear estratégias, preparar, manobrar, antecipar e saborear a minha derrota.
Entrei, senti que a força estava comigo numa barra de cereais. Encarei-os,  mal encarados. A recompensa esperava-me debaixo do ídolo dourado. O homem da tatuagem da borboleta pisco-me o olho. Parei, peguei uma mancheia de berlindes coloridos,  respirei fundo e mergulhei convicta,  agarrada a uma saca cheia de cocos, nas águas revoltas que circundavam a Ilha do Diabo.





                                      

Genesis - Fly on a Windshield/Broadway Melody of 1974



[...]All that we see or seem

Is but a dream within a dream.

14 comentários:

  1. Demorou o seu tempo, mas valeu a pena.
    Eu e o Kidas já não passamos sem passar por aqui (estive bem?)
    BJ

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    1. Estiveste lindamente.
      Muito trabalho, pouca paciência e meia dúzia de rabiscos.
      O teu piqueno seguramente reconhece as referências. :):):)
      Jokas

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  2. Tão bom :)
    Revivi um Jeremy Irons ainda puto, uma série fabulosa.

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    1. Eu , claro está , fui a Colombe en Absurdie, como quando tinha 12 anos e praí menos 50 quilos :):):):):):):)

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  3. ai miúda, tanta referência deixou-me zonzo :)

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    1. Mareado, ou zonzo mesmo ? :):)

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    2. E a música, pelo menos a música não entontece, meu DJ favorito ??

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    3. esta não (boas memórias); a do dervixe a rodopiar sim ;)

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  4. Maria do Céuabril 09, 2014

    O título tem tudo a ver com o post. Mais um excelente conto que mistura tanta coisa que raia o absurdo. A última frase remata o texto na perfeição . Adorei .
    Não se espante se os seus leitores não entenderem, porque parece um problema de palavras cruzadas sobre filmes, livros e banda desenhada. Eu neste tive ajuda.
    Já não dispenso a visita

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    1. É da confusão que nasce a luz.
      Entendo que nem todos leram o que eu li, ou viram o que eu vi, mas a Céu chegou lá.
      Eu própria tenho alguma dificuldade em crochetar os retalhos e construir um patchwork que eu consiga visualizar com prazer.
      BJK, e obrigada.

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  5. Estás uma autêntica agente 009, diria eu.

    Que emoção e combate, com moinhos ou outra coisa qualquer na falta deles.

    Beijinhos

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    1. Nem por isso, não sou fã do Fleming e moinhos , só de pimenta, para além do meu moto ser make love, not war. Ler o Mundo de Aventuras dede que aprendi a juntar as letras, dá nestas coisas :):)

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  6. Sobre as citações, imagem e música, nada (ou tudo) a dizer: sempre excelentes e em sintonia.
    Sobre o texto, muito bem escrito e encadeado, direi que prende a atenção, exige concentração (mas gosto) e retrata uma série de vivências diversificadas, podendo ver-se a tua a riqueza cultural...
    Sorri ao fazeres referência a Brideshead ( Resolveu reviver o passado ali, com Brideshead tão distante.) - nunca esqueci esta brilhante série...
    Falo em texto mas reparo que, nos comentários, o apelidam de conto. Se o é, não é descabido pois um conto é uma narrativa breve , com uma densidade que deixa, frequentemente, o leitor a desenvolver, mentalmente, outros desfechos, não se enquadrando, nestes casos, os ditos contos tradicionais, que são redondos...
    Tenho demorado a vir aqui, pois preciso de perder, no bom sentido, algum tempo. Não esqueci os outros posts, cá virei :)
    Bjo, D
    (Já agora, explico: quando abri o blogue "criei" essa identidade "Eu"; assino OF nos poemas e Odete Ferreira - o meu nome - nos textos em prosa.). Quem me segue há muito tempo também sabe que sou de Mirandela, pois há muitas referências no blogue (fotos, por ex.) à minha cidade jardim.)
    Apaguei o anterior comentário porque dei conta de uma falha :)

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    1. Sabes que não conheço Mirandela ? ... imperdoável , eu sei, mas solucionável (a um prazo mais longo do que gostaria, mas enfim).
      Ao prncípio de escrever o blog, limitava-me a relatos ou opiniões. Sempre achei que estes pequenos contos não iriam ser entendidos nem bem aceites. São repentes transbordantes de palavras que para mim fazem todo o sentido, mas os meus instintos são sempre se confiar, e constato que a maior parte das vezes estou praticamente a escrever para mim.
      Daí forço-me a recordar a função primária deste espaço, quando o criei nem ainda há dois anos, que seria de fazer uma auto-psicanálise e exorcizar a bicharada.
      Agradeço-te por entenderes que dentro do tornado do meu pensamento está a miríade de acontecimentos que se juntam para formar uma vida, que misturados e batidos como um bolo, crescem, cozinham, tornam-se até agradáveis ao gosto.
      Beijo. D

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É aqui que me mandas dar uma curva