sábado, 12 de abril de 2014

O pensamento... foi-se...

"Um pensamento, quando é escrito, é menos opressor, embora às vezes se comporte como um tumor maligno: mesmo se extirpado ou arrancado, volta a desenvolver-se, tornando-se pior do que antes." Vladimir Nabokov



"'O que fazer?', é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer;
 ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações."

Lev Tolstoi







A Praça Vermelha estava cinzenta, naquele dia pardo de Abril . Ameaçadoras nuvens  de chumbo tapavam o céu e a luz dos relâmpagos conferia à fortaleza ferrosa um  esbranquiçado e fantasmagórico tom que destoava na grandiosidade aparente do local. O som do trovão, esse estava tão distante como a memória das paradas do orgulho vermelho, apoteóticas e grandiosas, mas tão vazias como as ogivas de fachada, que desfilavam imponentes.
 Até St. Vasili, sempre tão animado e colorido, parecia um corroussel enferrujado largado a um canto,  projectando sombras de outrora já apagadas no tempo.
Saí dos Gum com um saco cheio de géneros, riqueza em forma de mantimentos, tão diferente daquele dia, já vinte anos passados, em que a fila na Beriozka para comprar quatro laranjas fora longa de mais de duas horas.
Passei pelo lugar do morto e não pude deixar de pensar no haj de milhares que adoraram uma imagem como se fosse um deus, naquela caaba de carrara cor de siena  que feria o espaço como uma peça defeituosa numa montagem bem elaborada.
 Agora adoram uma aberração ao melhor estilo dos freaks do Barnum Bailey Circus , que vai caçando vitórias, um tigre de cada vez, ou quiçá uma baleia, qual Teddy Roosevelt das estepes geladas.

Varykino estava fora de questão. O tempo não aquecera o suficiente e os Urais são belos mas traiçoeiramente álgidos. Yalta  deixou de ser opção por estar quente demais para  se ir a banhos.
Atravessei a cidade até ao parque do escritor, desejando ardentemente não dar de caras com faces sem rosto em corpos mortos , yankees sociopatas e interesseiros ou zibelinas protegidas,  e desci a abrupta ingremidade da boca escura que levava ao Metro, com os seus quilómetros de escadas rolantes e linhas cruzadas, rumo à Komsomolskaya . O Flecha Vermelha tornou-se cosmopolita, mais rápido, confortável e agradável ao olfacto. Devem arejá-lo entre viagens, pois os patibulares companheiros do reservado continuam a cheirar a queijo podre, couves cozidas, suor e anestesia alcoólica. Podem tirar o povo das comunas, mas as comunas continuam entranhadas no povo, desde os dedos dos pés até às pontas do cabelo gorduroso. Fazer o quê ? ... Fui lendo e sonhando .. Lara, Dolores, Anna, Natasha Romanov ...
Cheguei ! Continua a cheirar a agua choca e esgoto, mas o sol é radiante, as pessoas são alegres e a cidade tem cor, magia, mar e um céu sem noite. O Palácio de Inverno do Czar brilha como uma esmeralda na margem do Neva, que cintila na sua mansidão prateada. Diz-se que quando há noite  escura, o fantasma de Rasputin  se manifesta amaldiçoando os seus algozes, mas perdeu qualquer credibilidade depois da Sibéria... como diz Boca Dourada e muito bem, “Quando um adulto entra no mundo das fábulas não pode sair dele.”

Diz-se que nunca devemos voltar aos sítios onde já fomos felizes, mas não ligo muito ao que se diz e Pushkin é já ali a uns passos de corrida e é sublime.



                                 

13 comentários:

  1. A blogosfera tem grandes momentos (só não digo sublimes, porque devemos respeitar as palavras:). Este foi um deles.

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    1. Viva, Ricardo.
      Quem bom que gostou. Deixou-me sem palavras. ;););)

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  2. E eu que ainda não tinha descoberto por que razão gosto tanto deste blogue...

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    1. Então não é por eu ser uma cota simpática ???
      Beijoca, Jorge. :):):)

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  3. Mais terra a terra mas com uns pequenos retoques . Gostei tanto, que fui rever o Gorky Park :):):)..
    O William Hurt era tão engraçadinho :):):)

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    1. Filme giro, mas o WH nunca foi um gajo bom, só um bom actor. :):)

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  4. Sabes o que gosto mais neste post? É saber que na patê não ficção, tu estiveste realmente lá !

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    1. Voltar a St. Petersburg e Pushkin está na minha bucket List :):):):):), mas depois ponho-me a pensar naquela aforismo da Boca Dourada.....

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    2. patê !! ahahahahahahah
      Queria dizer parte, claro :):):)

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  5. Mais um excelente texto!...E Pushkin aproxima-se muito do sublime.
    Tudo ao som de Bécaud...:-)
    xx

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    1. Para mim alcançar o sublime com Pushkin é no 2 em 1, Laurinha. O bom e o maravilhoso numa fusão que se sorve vorazmente.
      Beijinho

      http://en.wikipedia.org/wiki/Pushkin,_Saint_Petersburg

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  6. Olá!

    Espero que esteja tudo bem por aqui.
    Sente-se tristeza neste post, desolação também...

    Tem um prémio no blog para ti! :)

    Beijos,

    Cris Henriques

    http://oqueomeucoracaodiz.blogspot.pt/2014/04/the-cracking-chrispmouse-bloggywog-award.html

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    1. Eu sou meio discreta, mas pelo G+ vou lendo os blogs que sigo. Já passei no teu blog e vi. Nunca é demais felicitar- te pelo teu prémio e agradecer a nomeação.
      Obrigada, Cris e um grande beijo.

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É aqui que me mandas dar uma curva