"Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros."- Nelson Mandela
Dizer Não
Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.
Vergílio Ferreira
Vergílio Ferreira
"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado.
Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos.
Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!
De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto.
Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui! "
Por onde andava MD Roque naquele dia, há quarenta anos
Não era a Nini, mas tinha quinze anos. Bonita e recatada que só eu, vivia num ambiente engraçado cheio de frases à boca pequena e segundos sentidos que eu nem sempre conseguia alcançar. O Pai e a Mãe trabalhavam e eu e os mais pequenos desempenhávamos o melhor que podíamos e sabíamos a nossa função na sociedade: éramos estudantes obedientes, lentes doutos e subordinados, nas nossas filas indianas aos pares, nas nossas canções com dezenas de bocas a uma só voz, com os nossos fatinhos onde despontava o emblema da mocidade que representávamos tão bem, a de Portugal, a patriótica, que enchia o concelho de ministros de orgulho, um bando de ditadores velhos carunchosos, manobrados pelo maior e mais inteligente de todos, que nos presenteavam com a sua visita nas escolas, onde os professores se desfaziam em gentilezas de ocasião, vazias e tristes, e éramos quase sempre agraciadas com uma festa na cabeça, ou em dias especiais, uma beijoca repenicada na bochecha. Lá íamos, cantado e rindo, tão indiferentes à realidade que nos rodeava, como nos encontramos ainda nos dias de hoje, mas isso agora não vem ao caso.
Naquele dia de Abril, o sol amanheceu fresco e um tanto envergonhado, comi a torrada com o Ovomaltine e fui para o Liceu a pé, para poder gastar os dois escudos dos transportes em guloseimas no Confeiteiro.
A aula das oito horas era de Ciências da Natureza e a professora não apareceu. Passámos meia hora num forrobodó daqueles inenarráveis, que só acontecem quando ninguém está a observar.
Uma contínua com olhos de choro veio à sala e mandou-nos ir para o ginásio, onde uma directora a tremer como varas verdes nos informou que não teríamos aulas, mas só poderíamos sair do Liceu se nos fossem buscar. A mãe foi buscar os mais pequenos e um vizinho foi buscar-me a mim.
Em casa, a mãe estava lívida e chorava sem parar. Não sabia do Pai, que era um pachola inconveniente e já tinha tido espírito santo de orelha por mais de que uma vez.
O Pai demorou a chegar; vinha vermelho e eufórico. Agarrou-nos aos quatro num abraço sentido e falou " agora já podemos falar à vontade ! Nem mais um soldado para o Ultramar"
O telefone fartou-se de tocar, juntou-se imensa gente lá em casa e eu fui ler para o quarto as "Viagens na Minha Terra " e o "Frei Luis de Sousa" que eram matéria do teste sobre Garrett marcado para o dia seguinte. Escusado será dizer que não acontecu.
Assim chegou o advento da democracia, da liberdade, do socialismo.
E foi lindo ver marés vermelhas agitadas pelos ventos da mudança, cantar em plenos pulmões músicas de intervenção que estavam acorrentadas a sons mudos , sentir asas e poder deixar a imaginação voar.
Que emoção indescritível, para uma miúda de 15 anos, rato de biblioteca e pouco habituada a cavalarias altas...
Durou pouco e como tudo o que se toma em demasia, causou uma ressaca bruta e brutal.
Embriagados pela liberdade, esquecemo-mos que só somos realmente livres se o nosso conceito de liberdade não colidir com os ideais dos demais.
Foi nessa altura que li Animal Farm e 1984 e tive o meu primeiro vislumbre do que é realmente a política.
O desencanto não demorou. Já o contei e cantei...
Na alvorada de uma nova realidade, madrugou-me o pensar, acordei para a vida e vi.

Lembras-te de descalçarmos uma colega e lhe escondermos os sapatos e as peúgas e ela a querer falar para pedir licença para para os ir buscar e ser mandada calar tantas e tantas vezes que acabou por ir embora descalça?
ResponderEliminarTudo dentro do maior respeito, claro :D:D:D:D:D:D
E eu passei o tempo todo a desenhar Demis Roussos porno para a Clara ...
Eliminar( o que vale é que ninguém lê isto) ehehehehehehehehehehehehehhe
Tudo respeitosa e recatadamente, pois claro ahahahahahahahahah
Muito bom!
ResponderEliminarGrande Capitã, muito me honra a sua leitura das minhas raízes de pirata.
EliminarBeijos mil, Cuca :):)
Olha que duas... quem diria, heim ?? :):):)
ResponderEliminarOh piquena, tu nem sabes da missa um décimo !! :):):):):):):):)
EliminarHá 40 anos, valmont era apenas um ideal de duas pessoas que agora são os seus pais. A tua descrição fez-me querer ser um pouco mais do que isso.
ResponderEliminarAcalenta um ideal teu a quém possas transmitir valores tão sólidos e fundamentais como a amizade e a liberdade feita pensamento em acção, é um bom princípio. :):):)
EliminarBeijo E.M.
O Orwell é um excelente antídoto. Antes desses, li o Soljenítsin. Fez-me bem.
ResponderEliminarNaquele tempo... O Soljenítsin era considerado reaccionário :):):)
EliminarEu tinha onze anos e na altura não entendi nada do que se estava a passar, mas o que achei mesmo interessante foi as turmas começarem a ser mistas, uma professora recém chegada de Trabalhos Manuais nos falar de relações sexuais e orgasmo, e de aos treze ou catorze anos participar nas aulas de alfabetização de adultos, e nisso participei por acompanhar a minha mãe, que era extremamente jovem mas nunca tinha ido à escola.
ResponderEliminarBelo post! Tu eras terrível!!...:-)
xx
Se antes falar de sexo era tabu, depois era tema recorrente em todas as aulas e os professores correspondiam com receio de engrossarem as listas dos saneados. Tive sim professores homens, o José Hermano Saraiva por três meses antes de ser considerado fascista, outros excelentes e alguns deploráveis que só se queriam aproveitar das alunas... Amor livre, chamavam-lhe...
EliminarComprei algumas lutas, tornei- me activista política, venci o que tinha para vencer, caí do meu pedestal e foi o desencanto. O resto já cantei , contei e vou contando.
Beijinho, Laurinha, da terrível ( e muito) D
Adorei a frase se Vergílio Ferreira...
ResponderEliminarBem, pela tua escrita não podia deixar de te escolher para o desafio de bloggers que anda por ai ;)
http://diariodeumalmaa.blogspot.pt/2014/04/desafio-aos-bloggers.html
Viva, Maria e obrigada pela deferência. Aceitei já este desafio do prémio, para o qual fui nomeada pela Cris Henriques há umas semanas, por isso vou ter que declinar a tua nomeação que muito me honrou.
ResponderEliminarFica para. Uma próxima vez ?
Obrigada e um grande beijo da D
hola quem sabem leer e estudar sabem aprovecer et comprender os sentidos dos ums e os otros
ResponderEliminarnao sao 40 anos de liberdade que devem se lembrar mas 50 anos de facismo que as lagrimas dos antigos come da juventude devem ajuntar pelo a chao!
as lagrimas sao par quem chura! os sentidos sao para que nao churarem demais!
las lagriams d'amor sao para quem ama nao para quem se arma!
santinho!
atchoummmmm!
De qual cor sao as lagrimas salgadas daqui 2 dias para quem sao os santINHOS,
para as lagrimas das maes de nossas maes!
parabems!
lindas linhas das ilas!
Jorge r.r
Merci Jorge. J'ai mentionné une expérience qui était la mienne et rien de plus.Tristes les années de la dictature. triste l'exagération aprés...
Eliminar:):)
Emocionaste-me e fizeste-me recordar.
ResponderEliminarUma narração na primeira pessoa com muito mais para contar, na certa.
Gosto muito desta definição de liberdade. Quase nunca é a escolhida pela maioria, infelizmente.
Um beijinho
Para mim, Pérola, é a única definição de Liberde possívrl.Quanto a muito mais para contar, podes crer... ;)
EliminarNo dia 25 de Abril, comemora-se o 40º aniversário da Revolução dos Cravos. A Democracia foi o alvo a atingir pelos capitães do Exército Português, nas principais vertentes da reposição das liberdades fundamentais como os da expressão e de reunião.
ResponderEliminarO regime mais cruel, mais obscuro de toda a história de Portugal - o chamado Estado Novo, liderado por uma oligarquia em que o seu chefe António de Oliveira Salazar era o lider sinistro,provinciano, apoiado pela Igreja Católica e por uma terrível polícia política que tinha a sigla de "PIDE" (Polícia Política e de Defesa do Estado") Foi a Revolução mais bonita da História dos últimos anos em que o povo veio para a rua, juntando-se, tal como eu no Largo do Carmo, apoiando os militares - os capitães de Abril - que estavam ali estacionados, com os seus carros de assalto, de canhões apontados para o último reduto onde estava entricheirado o chefe do governo que, entretanto, substituira Salazar,após a sua morte. Esse reduto era o quartel da Guarda Nacional Republicana. Aí ,nesse mesmo largo, onde estudei, na Escola Comercial Veiga Beirão, desenvolveram-se as cenas mais épicas de uma Revolução, que vinha a chamar-se, posteriormente, a "Revolução dos Cravos". Isto, porque, nesses momentos dramáticos de espera da rendição do último Ditador, as crianças que estavam às cavalitas dos pais,para melhor assistirem ao que se estava a passar, iam colocando espontaneamente, nos canos das espingardas, cravos de Abril, que lhes haviam sido distribuidos gratuitamente, pelas floristas de rua, numa homenagem a todos os militares alí presentes e num gesto eufórico da primeira sensação de liberdade - Estes episiodios fazem parte das melhores recordações da minha vida, dando-me a inspiração para escrever o meu livro "O REFÚGIO" Portanto, neste mês, no dia 25 de Abril estarei com os Democratas deste país, a lembrar em qualquer sítio com os artistas ainda vivos, a cantar Abril do grande Zeca Afonso e tantos outros que tornaram a revolução dos cravos, mais linda, dos tempos modernos. Portugal deve o seu avanço qualitativo em todas as áreas sociais a esses capitães patriotas que hoje são preteridos pelo governo de direita actual que, pela primeira vez,ironicamente, após a Revolução da reposição das liberdades fundamentais e do uso de expressão, proporcionadas a todos aqueles que estão sentados nas bancadas dos partidos representativos do Povo, não os deixam estar presentes, para discursarem no dia 25, na Assembleia da República - por isso eu grito : ABRIL SEMPRE!
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Viva Hélder
EliminarSabe que me comove até às lágrimas sempre que passam nas TVs reportagens não ficcionadas daquele dia e dos que se seguiram?
Foi lindo, para quem viveu intensamente. Eu vivi.
Depois há sempre o outro lado do espelho e cada um tem as suas experiências mais ou menos agradáveis.
Os ideais de 1974 foram-se esbatendo ao longo do tempo, até ao estado a que chegamos novamente.
Sou democrata, sem cassete, para quem a liberdade não é uma instituição, mas um valor.
Obrigada pelo seu testemunho. São as vivências de cada um que fazem a história de todos nós como país. Liberdade, sempre!
Velhota!
ResponderEliminarEu tinha catorze, não me lembro tão bem... :))
Nessa altura tinha já uma actividade "subversiva" de distribuição do "Avante" e de panfletos da "UEC" e tudo o que fosse oposição, muito por "culpa" do pai que era do contra e que a partir dos doze entendeu que eu podia ouvir a Rádio Moscovo.
Pena esta coisa se ter desvirtuado toda e os três D´s nunca se tivessem chegado a cumprir em pleno e estejamos, vítimas de corruptos e políticos de merda, numa situação de miséria franciscana, quase pior que no tempo da outra senhora (salvas as devidas proporções, obviamente).
;)
Antunes , meu caro,muito optimista da sua parte quanto aos 3 D's :):)
EliminarDescolonizar, foi o que se viu, desenvolver, bem... ok... democratizar, enfim, nem comento...
Devia ter havido mais D's... desancar e dejectar , por exemplo, davam jeito agora ...
Isto depois no liceu foi uma festa: com o PS a apoiar o Eanes e o resto da esquerda ( nomeadamente a UEC) , o Octávio Pato. Uns faziam bigodinhos à Hutler no general, nós escrevíamos em todos os quadros das salas de aula "UEC UEC, Abriu a caça aos Patos", mas no fim estudávamos juntas e havia uma coisa fundamental, que hoje se encontra em vias de extinção : RESPEITO.
Sei de cor o discurso do Salgueiro Maia, o único incorruptível dos capitães de Abril, e temo que , salvo a guerra ultramarina, tenhamos voltado " ao estado a que chegámos".
Obrigada pelo seu testemunho.
É fantástico trocar ideias com quem realmente as tem na memória.
Um abraço.
MDR, o optimismo era o de um adolescente, já com alguma (embora pequena) bagagem política e igual ao de milhões de portugueses; certamente a M também teve esperança, mesmo que eventualmente estivesse no outro lado da "barricada" (o meu pedido de desculpas se assim não foi), porque o regime estava mais que moribundo e de dentro havia muita gente que também queria dar a volta à coisa: Sá Carneiro, Balsemão, Spínola e acredito que estes também queriam mudança, sem dúvida!
EliminarConcordo consigo, faltou umas "porradinhas"; talvez isto hoje fosse diferente, mas não seria diferente também se estivesse outra gente, de direita ou de esquerda não importa, honesta e competente à frente disto?
Descontemos o PREC, por razões compreendidas certamente, e veremos que toda a gente que esteve no governo, "governou" em função do voto futuro e da perpetuação no poder, e nunca em função do mandato que obteve, desvirtuando completamente a Democracia, que em palavras simples será "o governo do Povo, para o Povo". "E chegámos ao estado em que estamos!"
Um abraço!
Do outro lado... talvez por ser rapariga e as coisas se falarem à boca pequena lá em casa , mas depois, penso que houve um curto espaço de tempo em que estivemos todos do mesmo lado acabando no fim por ter que escolher um lado, o que é normal num estado democrático.
EliminarQuanto às porradinhas, falta fazem e muito, nos dias de hoje, no estado em que estamos e a que precisamos de pôr um fim.
Abração
Recordar esse dia deve dar ainda um frio na barriga, imagino.
ResponderEliminarDepois de 40 anos, Verinha, dá uma imensa saudade de tudo e de todos... ;) ;):):)
EliminarVoltarei para ler este texto. Amanhã tenho Assembleia Municipal e ainda preciso ler uns documentos.
ResponderEliminarSe tiveres conta no FB, no meu blogue tenho o link para lá, mas também outra conta com o nome Odete Ferreira. Procura-me, se assim o desejares. Teria muito gosto em enviar-te a minha história que fará parte de uma Antologia "Onde estavas no 25 de Abril?" - são apenas 4 páginas.
Bjo, D, :)
Já te enviei um pedido de amizade pelo FB. :)
EliminarEstou a fazer divulgação de blogs no meu blog : http://beatrizduarteteixeira.blogspot.pt/, se quiseres que divulgue o teu é só comentares um post.
ResponderEliminarBeijinhos
;) ;) ;)
EliminarEu não tinha nascido ainda. Mas os meus pais já tinham dado o "salto" para longe deste país. Apesar de tudo oiço as histórias que eles contam e a pobreza sofrida na pele....
ResponderEliminarUm beijo :)
E assim foi, principalmente no interior do país, onde as pessoas que viviam de e para a terra eram "orgulhosamente" mantidas pobres e ignorantes, sob a alçada da condescendência da elite governante. Depois da queda da ditadura, a ignorância tornou-se uma esponja super absorvente e ávida de conhecimento, que foi tão mal ministrado como fora a sua total ausência... e depois de navegarmos por mares sempre agitados, acabámos como começámos em 74, ao "estado a que chegámos"...
EliminarBeijo Linda. Bom fim de semana
Apreciei imenso ler este teu relato e compreendo bem esse desencanto. Também o fui sentindo mas doutra forma. Hoje ando mais do que desencantada. Irritada, no mínimo, a partir do desmoronar de "ídolos" - acreditava que havia políticos sérios...Sei que me entendes.
ResponderEliminarAcrescento que me tem sabido bem ler os comentários e as tuas respostas. BJO
Eu tenho andado pelos teus lados sempre que tenho um tempinho.
EliminarParabéns EU. Excelente !!!
Bj.
Um texto que adorei ler...Eu já tinha 20 anos e foi um dia que não mais vou esquecer, mesmo que nos queiram tirar tudo, as minhas emoções são minhas para sempre.
ResponderEliminarUm beijinho com carinho
Sonhadora
Concordo em absoluto ! Do espanto, ao medo, á expectativa, ao nervosismo, á alegria... Foi um ouroboros de emoções, uma explosão contínua hora após hora. Fizemos parte da história, vivêmo-la todos naquele dia de primavera e isso é algo muito íntimo a cada um de de nós. Independentemente do depois, as lágrimas de alegria e os gritos de vitória ainda os sinto a cada ano que passa, como se fosse hoje.
EliminarBeijos, Sonhadora, e sonhos maravilhosos , sempre. :)
Descobri hoje o seu blog. Andava à procura de algo sobre "as árvores morrem de pé" e vim aqui parar. Sou uma pessoa muito interessada em contos tradicionais portugueses, e fiquei muito entusiasmada em ler os que pôs no blog, contudo, não consegui aceder a nenhum. Como posso fazer para ler os seus contos? Zuzu
ResponderEliminarOlá ZUzu
EliminarOs contos que eu conto, do presente, do passado, alguns futurísticos , outros fantásticos, são apenas os textos que público, aos quais pode aceder nos Ditos, Escritos e Desvarios. Não sei se será exactamente o que a Zuzu procura, mas tenho todo o gosto em que leia e diga de sua justiça.
Obrigada e um beijo. D