sábado, 8 de março de 2014

Zíp- A-Dee-Doo-Dah, Zip-A-Dee-A

"Toda a beleza é alegria que permanece." Keats



À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
 Não te curvas ao jugo dos tiranos.
 Não tens preço na terra dos humanos,
 Nem o tempo te rói.
 És a essência dos anos,
 O que vem e o que foi.
  És a carne dos deuses,
 O sorriso das pedras,
 E a candura do instinto.
 És aquele alimento
 De quem, farto de pão, anda faminto.
 És a graça da vida em toda a parte,
 Ou em arte,
 Ou em simples verdade.
 És o cravo vermelho,
 Ou a moça no espelho,
 Que depois de te ver se persuade.
 És um verso perfeito
 Que traz consigo a força do que diz.
 És o jeito
 Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
 És a beleza, enfim. És o teu nome.
 Um milagre, uma luz, uma harmonia,
 Uma linha sem traço...
 Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
 Tudo repousa em paz no teu regaço.



Miguel Torga




Ouvi-me cantar, baixinho e desafinada como só eu sei cantar. Sorri um sorriso rasgado, um daqueles que raramente uso e que guardo fechado a sete chaves, só para usar nos dias de sol. Caminhava bamboleando-me ao ritmo da melodia que trauteava, aos saltinhos como uma tonta, alheia e indiferente ao que pudesse pensar quem me visse passar naquele desalinho.
O pequeno rectângulo verde do tamanho dum guardanapo bordado a ponto de cruz cheirava a relva cortada onde despontavam pequenas orbes douradas, promessas de belas flores, que as abelhas rodeavam, cortejavam e sugavam num frenesi de zumbidos , num encantador bailado sensual.

O sol brilhava, com aquele brilho brilhante que só o sol tem e os jactos cortavam o azul límpido do céu com as suas imensas caudas brancas traçando uma teia de filamentos alvos, que fulgiam como prata sob a luz intensa  da tarde.

Ao fundo, serpenteando por entre os arbustos dos jardins via o Rio e mais além o mar, que reflectia aquele sol esplendoroso numa cor garça , surpreendentemente bela e sempre diferente.

A beleza , respirava-a doce e morna como os raios cintilantes que ternamente me acariciavam o rosto, quis gritar de prazer, mas o som não saiu, só um profundo suspiro de satisfação, por me sentir tão feliz.

Como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, foi sol de pouca dura, mas perdurou o suficiente para me aquecer o coração com o brilho da alegria que deixou para trás.


                             

6 comentários:

  1. Garanto-te, minha amiga, que hoje quando acordei nem queria acreditar. Lá se foram os planos do piquenique. :(:(:(

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    1. Ainda considerei mudar a musica do post para o "I'm Walking in the Rain"...
      Como está a chover por aqui, não te vou desejar um bom piquenique, porque seria um arremedo brutal.
      Beijos

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  2. Olá! Acabei de chegar dum fds fantástico para dar com um tempinho de caca por aqui. Eu aproveitei bem. :):)

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    1. Boa, piquena, fico contente por ti.
      Beijinho

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  3. 1 - Subscrevo Keats;
    2 - Destaco este verso de MT "És a essência dos anos," para a espantosa definição de "Beleza", um nome abstracto e que tornou concreto no poema; fantástico!;
    3 - Excelentes escolhas, assim como a imagem, como intróitos para o teu texto;
    4 - O texto: a expressão do que pode ser beleza - um gesto, um olhar, um não sei quê...Neste caso o sol que, depois de tanto tempo com dias cinzentos, nos faz dançar a alma. Senti algo muito idêntico ontem e hoje. Vamos ver até quando "esta primavera" dura;
    5 - Prosa poética de um sentir cativante.
    :) :)

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    1. Querida Eu, hoje arrefeci um pouco, mas não o suficiente para apagar o calor da beleza fulva da nossa estrela. Obrigada, uma boa semana e um grande beijo. :):):)

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É aqui que me mandas dar uma curva