terça-feira, 25 de março de 2014

Mescalina

"Há pessoas que vêem as coisas como elas são e que perguntam a si mesmas: ''Porquê?'' e há pessoas que sonham as coisas como elas jamais foram e que perguntam a si mesmas: ''Por que não?''
 G. Bernard Shaw




O Tempo Torna Tudo Irreal


O tempo, propriamente dito, não existe (excepto o presente como limite), e, no entanto, estamos submetidos a ele. É esta a nossa condição. Estamos submetidos ao que não existe. Quer se trate da duração passivamente sofrida - dor física, esperança, desgosto, remorso, medo -, quer do tempo organizado - ordem, método, necessidade -, nos dois casos, aquilo a que estamos submetidos, não existe. Estamos, realmente, presos por correntes irreais. O tempo, irreal, cobre todas as coisas e até nós mesmos, de irrealidade.


Simone Weil







Embarquei no Karaboudjan numa tarde cinzenta de Junho. Quis fugir aos arraiais, ao cheiro a peixe assado à folia e aos autos de fé que emergiam das brasas  de cada fogueira, ao som da excomunhão pimba, esganiçada na voz de um qualquer debochado animador de 5ª categoria. Que local melhor para enterrar recordações do que a bordo dum pesqueiro enredado em mistério e vício, onde caras lúgubres desapareciam em cada canto de cada sombra, como enguias negras viscosas e escorregadias, deixando no ar promessas de aventuras ilícitas, tórridas e tão sujas como o chão do passadiço, que fedia ao negrume duma noite que se anunciava breve.
Não gosto de barcos. São prisões flutuantes repletas de enjoo e perversão, onde gritos e gemidos se confundem com o marulhar das ondas que fustigam  incessantes de bombordo a estibordo, entontecendo, agoniando, golfando espuma e vinagre sob aquele odor permanente a mofo e sal.
Dois dias sem largar a enxerga, sem noção da  irrealidade que se dependurava da parede  numa lâmpada fraca e suja, sem conter sustento nem reconhecer hálitos nas faces desfocadas que iam e vinham.
Ao terceiro dia avistámos a ilha Kirrin, encimada pelo triste e pequeno castelo em ruinas. Atracámos e vi-os olharem-me, fixos e vazios na escarpa mais alta. Contei-os. Eram cinco. A sua presença sobrepunha-se a todos e a tudo ao seu redor, enormes e assustadores gigantes de pedra. Estavam dois meses, quase três atrasados: a Páscoa fora em Abril.
Uma velha escura e enrugada de mãos postas e ancas bamboleantes, pôs-me um Katak ao pescoço e ofereceu-me um galo preto e um Cohiba, enquanto subíamos pelo trilho dos druidas, vereda estreita e frondosa, pontuada  com dolmens do tamanho de casas em que o musgo criara cabelo dançante à passagem das almas e onde por debaixo dos nossos pés se movimentavam exoesqueletos maiores do que punhos fechados.
Sob a sombra dum salgueiro ululante, serviram-me um gumbo de peixe quase em papa numa marmita amolgada que fedia a ranço e amarelo, acompanhado duma zurrapa alcoólica com sabor a cacto e a miragem.
Do promontório, o azul do mar era uma bênção. Lembrei-me das Célticas e de Puck, e deixei-me chorar as tristezas que correram pelo glaciar do fiorde maior e se transformaram imediatamente num gelo cinzento, tão cinzento como os meus dias.
O Delta via-se já ao longe, por dentre a folhagem e  o serpentear do rio. A chaminé fumegava e a grande roda girava, ruidosa . Era o Mary, orgulhoso e imponente, rodando as pás em volta do eixo, como a terra no seu periélio após cada solstício !  Espreitei para dentro da manga e vi lá o às de espadas. Apertei o passo, louca de alegria, como se tivesse 7 anos e um brinquedo novo. Estava quase lá.


                                    

36 comentários:

  1. Muito bom!!! Ao ler, sente-se esse cheiro de barco, de ondas e de peixe! Foi uma visita a um Junho cinzento vinda de um Março não menos cinzento, que me deixou agradavelmente mareada. :-)
    Um beijinho, MD!
    (li o seu post anterior às minhas filhas adolescentes e foi um sucesso!)

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    1. Deixa-me a sorrir. Obrigada, querida Susana, um beijinho :):):)

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  2. fantástica história! (espero que sem abuso de mescalina…) ;) 'proud mary' é uma das canções da minha vida e lembro-me perfeitamente onde e quando a ouvi pela primeira vez. engraçado que também pintei no meu muro uma outra canção da adolescência. e a frase do g.b. shaw sobre os sonhadores fez-me lembrar aquele aforismo do wilde (será por serem irlandeses?): "we are all in the gutter, but some of us are looking at the stars".

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    1. Mareei pelas suas cartas. A música é uma "daquelas". Ser celta- descendente diz muito :):):)
      Beijo José Luis e boa noite.

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  3. Não sei o que andaste a tomar, mas também quero e muito !
    Que delícia !

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    1. Eu só como a lagarta para ver se fico com borboletas no estômago :):):):):):):):):):)

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  4. Muito bem descrito. E se eu gosto desses barcos.

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    1. Sem leme nem bússola... :):):)
      Uma muito boa noite E.M.V.

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  5. Que loucura ! Adorei, adorei,adorei!
    Que temas mais malucos !

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    1. Não confundir com a Mixórdia de Temática, que eu não sou um génio, só uma piquena antiga que escreve umas coisinhas :):):):)

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  6. Este post parece ter sido feito de encomenda...para mim.

    A tua história é uma delicia, mas a interseção com o Tempo deixa-me 'nervosa'.

    Não sei como o tratar, se por tu,por você ou simplesmente ignorar.

    Não sei envelhecer, é um facto. Não me sinto velha. contudo o calendário não pára.

    Que devo fazer?

    Grandes pensamentos. Obrigado pela partilha.

    beijinhos

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    1. Nem tentes domesticá-lo, porque o tempo é selvagem e indomável. Acompanha-o livremente, com graciosidade, pois se o tratares com respeito, ele será generoso contigo e deixar-te-á envelhecer bem.
      Molhos de abraços, minha Pérola.

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  7. Muito bem escrita esta história, maravilha!

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    1. Querida Pipoquinha , fico deveras satisfeita por ter gostado do meu conto.
      Beijinho :):):):)

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  8. O tempo, mesmo que não palpável, é o nosso grande comandante e regente de vida; apenas mudamos porque ele existe. Passa por nós sem se deixar agarrar. ..Mas o tempo também pode inventar-se, em histórias fantásticas como esta.
    Tens uma imaginação sem limites. Muito bem escrito, como sempre, e uma música com muito significado.
    Gostei muito.
    xx

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    1. Se não consegues parar o tempo, junta-te ao tempo nas voltas que o tempo dá, porque o tempo tem sempre tempo para quem não trata o tempo como uma perda de tempo... Laurinha, obrigada e um grande beijo . :):)

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  9. Muito bom, como sempre. Aquela primeira frase ficou cá dentro, não conhecia.

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    1. Linda , não é ? Magia celta nas palavras.
      Beijo, loira, linda.

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    1. Hiolh, Ale, Gracias por leer.
      Saludos hasta Costa Rica !
      Besos. D

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  11. Kirrin!!!! O meu coração saltou, com o significado que tem para mim essa ilha - onde tanto escapei na minha mente - e a musica dos Credence. Lembra-me os meus 7 aninhos e o rádio a tocar de manhãzinha...
    http://bloglairdutemps.blogspot.pt

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    1. Os livros são intemporais. Qualquer criança que saiba ler tem que se deliciar com as histórias e os personagens. Ainda agora me vêm à memória com saudade os scones, as sanduíches, as compotas, os bolos que faziam parte das aventuras dos primos ciclistas e caminhantes. :):):):):)
      A música faz parte das músicas do tempo, aquelas que ele nunca vai conseguir apagar.
      Beijão Miranda

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  12. Olá MD,
    Viajei com você nesse barco.
    Bjo amigo

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    1. Foi uma viagem e pêras , Carmem :):):):):):)::)
      Beijinho D

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  13. Adorei seu blog, vc escreve deliciosamente bem,,,,bjão

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    1. Viva Sonica, bem-vinda e obrigada pela simpatia.
      Espero vê-la por cá mais vezes :):):):):
      BFS e um beijo da D

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  14. E a referência a Puck fez-me recordar a sua aparição algures num Corto Maltese :)

    Boa noite, M D :)

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    1. As Célticas, pois, claro :):):):):)
      Boa noite, querido X

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  15. Delicioso...

    (O tempo, eterna temática para produção de pensamentos/reflexões e escritos em prosa e verso...)

    A música, a que também marcou um tempo...

    Bjo, :)

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    1. Se "eles" estão correctos, não há tempo, só dimensões diferentes da mesma realidade. ;);)
      Bjo.

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  16. Um abraço bem forte, bem verdadeiro,
    abraço longo, cheio de sentimento.
    Venho deixar meu abraço pelo dia do abraço
    com muito carinho.
    Evanir.

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    1. Retribuo e acrescento um beijo. Obrigada Evanir. :):)

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  17. Essa foi uma aventura dentro de outro mundo. :-)

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    1. Eu tenho um microcosmos estranho dentro da cabeça, Marcos :):):)
      Abração e boa semana

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É aqui que me mandas dar uma curva