sábado, 8 de março de 2014

Dos Pobres de Espírito

"Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida."António Lobo Antunes




Who killed Cock Robin?
I, said the Sparrow,
with my bow and arrow,
I killed Cock Robin.
Who saw him die?
I, said the Fly,
with my little eye,
I saw him die.
Who caught his blood?
I, said the Fish,
with my little dish,
I caught his blood.
Who'll make the shroud?
I, said the Beetle,
with my thread and needle,
I'll make the shroud.
Who'll dig his grave?
I, said the Owl,
with my pick and shovel,
I'll dig his grave.
Who'll be the parson?
I, said the Rook,
with my little book,
I'll be the parson.
Who'll be the clerk?
I, said the Lark,
if it's not in the dark,
I'll be the clerk.
Who'll carry the link?
I, said the Linnet,
I'll fetch it in a minute,
I'll carry the link.
Who'll be chief mourner?
I, said the Dove,
I mourn for my love,
I'll be chief mourner.
Who'll carry the coffin?
I, said the Kite,
if it's not through the night,
I'll carry the coffin.
Who'll bear the pall?
We, said the Wren,
both the cock and the hen,
We'll bear the pall.
Who'll sing a psalm?
I, said the Thrush,
as she sat on a bush,
I'll sing a psalm.
Who'll toll the bell?
I said the Bull,
because I can pull,
I'll toll the bell.
All the birds of the air
fell a-sighing and a-sobbing,
when they heard the bell toll
for poor Cock Robin.

( Nursery Rhyme)








Há muitas maneiras de morrer.
Há aquela, a mais conhecida, aquela de que todos ouvimos falar e da qual sabemos unicamente que acontecerá. Está escrito no passaporte que nos entregaram quando entrámos neste mundo, mas foram omissos na data e  por tal fazemos por não pensar na morte anunciada de que nada sabemos e apesar de vivermos toda a nossa vida nessa corda bamba, vivêmo-la todos os dias,dia após dia,  como se não houvesse amanhã.

Há outras mortes. Não é à toa que se diz morrer de mil e uma mortes matadas. Há mortes piores do que a própria morte, a real , a autêntica, a definitiva.
Há a morte intelectual, que acontece quando morremos para os valores morais que sempre nos guiaram, e renascemos um ser abjecto, uma sombra de nós próprios, um monstro de Frankenstein mal remendado com pedaços de personalidades castiças que apanhámos aqui e ali, e que no fundo não compõem nada, não formam ninguém com carácter nem vontade própria, apenas seres amorfos com o espírito envenenado de promessas carnais,  que perderam o rumo e não conseguem entender o seu lugar no mundo.
Vulneráveis e vorazes como  crianças famintas numa loja de doces, não conseguiremos parar, comeremos com loucura, lambuzando-nos e enchendo-nos alarvemente até rebentar.

Morreremos de novo, talvez, aquela morte que dói mais do que todas as mortes juntas, que é a morte do esquecimento, a do  abandono. Renasceremos seguramente conscientes que ultrapassámos os limites da nossa audacidade e que o preço que temos que pagar é o do descrédito, duro, pesado, solitário. Aí procuramos os amigos, aqueles que nos fizeram felizes na nossa loucura e constatamos que um a um foram saindo de mansinho, porque nos tornámos uma ambiguidade titubeante com a ideia megalómana duma coexistência pacífica entre deus e o diabo.
Ninguém abraça voluntariamente a loucura a não ser em bando, num culto de demência irreal, de devassidão colectiva que envolve os fracos e reprimidos naquele abraço de prazer tão difícil de abandonar.

Quando o engenho roda vertiginosamente, ferido de muitos golpes e nos tentamos apoiar nas paredes da fortaleza que construímos e  acreditamos inviolável, verificamos que desabam agora em nosso redor e ocorre-nos constatar que morremos  outra vez.




                                          

12 comentários:

  1. Sempre foi da índole do homem lançar-se à descoberta. É preciso é conhecer as suas limitações.
    Bom fim de semana, linda.

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    1. É certo... tanto pode sentir a glória da descoberta e o Adamastor ter pés de lama, como pode naufragar completamente em águas turvas e nunca mais vir à tona.
      Os meus últimos posts visam dois dos 3 macaquinhos sensoriais, e como tal acretito que escrevo para cegos e surdo, mas escrevo porque creio ser profilatico, em todos os sentidos e significados da palavra.
      Obrigada e BFS para ti também

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  2. Gostei do teu blogue, que não conhecia (ou não me lembrava...).
    O texto que escreveste sobre a morte é interessante. A morte é a coisa mais certa depois de termos nascido. Talvez por isso, penso muito mais nas outras mortes e prefiro, de longe, morrer de amor a qualquer outra delas... eheheh...
    Obrigado pela tua visita e tem um bom fim de semana.
    Beijo.

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    1. Oi Nilson. Morrer de amor é provavelmente a morte mais devastadora de todas as mortes. Mata a moral, mata a força, mata o animo, parte o coração... eu não quereria morrer de amor :):):):)
      Obrigada, beijo e BFS

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  3. Querida amiga
    A minha missão de hoje (nobre missão!) é apresentar parabéns e desejar um muito feliz DIA DA MULHER!
    Um beijo especial pelo dia de hoje.
    Miguel
    PS – Sou um grande amigo da Mariazita (eu me considero o seu melhor amigo…), e é através dela que estou aqui e me atrevi a invadir o seu espaço, pelo que peço perdão…

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    1. Mi casa es su casa, Miguel. A Mariazita é uma jóia. Beijo grande para ela !!
      Obrigada por me incluir na sua nobre missão. :):)
      Dia feliz e um beijo enorme da D.

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  4. A pior morte não é a morte natural, mas as grandes e profundas mortes que nos podem acontecer em vida, como passarmos da lucidez à loucura ou a um estado vegetativo, ou morrermos para alguém que nos era ou é querido, porque a indiferença é sempre uma espécie de morte.
    xx

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    1. Quantas vezes não será preferível deixar definitivamente de sentir, Laurinha...
      Há pessoas que vivem como almas penadas, mortas para os outros sem disso se aperceberem...
      Beijo Laurinha, BFS

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  5. Dizem que esquecer é morrer um pouco. :\

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    1. Tanto como ser esquecido...
      Beijinho e BFS

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  6. Subscrevo, na sua globalidade, o que escreveste.
    Não penso na morte e, felizmente, ainda nunca me aconteceu nada que eu sentisse como "morte". Talvez porque já é raro surpreender-me com o que vai acontecendo.
    Contudo, há algo em que penso bastante: a eutanásia. É que há mortes que eu temo, as que se prendem com a demência, a perda da memória; aí não se vive, pois a memória deixou de ser capaz de nos identificar ... (Foi um desabafo...)
    Bjo

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    1. Eu não me vejo privada das funções mais básicas, não consigo conceber-me enclausurada numa prisão de pele e osso... Se em mim uma réstia de força aníma existir que me deixe a dignidade que as deontológicas me negam, usá-la-ei.
      Beijo, querida Eu

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É aqui que me mandas dar uma curva