sexta-feira, 28 de março de 2014

Daurat

"Cada momento é de ouro se o soubermos reconhecer como tal."
Henry Miller


Nothing Gold Can Stay


Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf,
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day
Nothing gold can stay. 



Robert Frost






Descer o Aconcágua  não é para meninos. Um desafio para onde se vai derrotado à partida, não é um desafio, é um suicídio de carácter, um apelo à depressão, o reconhecimento duma incapacidade de que se desconhece a deficiência. Partir com baixas expectativas e atingir o objectivo, é superar-se, é deixar o ego elevar-se até ao cume, lá onde a altitude te prega partidas e te leva a sobrevoar Titicaca no dorso da Grande a Serpente Emplumada  até Chichén Itzá aparecer imponente recortada  no  dourado e laranja do pôr do sol.
Três dias depois da ressaca da hipobaropatia, o gelo da Terra do Fogo quebrava-se sob os meus pés molhados e inchados, como cascas de amendoim numa tasca rançosa  na Route 66, onde depois de duas cervejas e um shot de tequilla o norte e o sul rodopiam agulhas sem magnetismo, dentro daquela bússola tresloucada a que chamamos cérebro e que norteia os nossos passos, quantas e quantas vezes rumo ao meridião.
Encontro-me amorfa e mole a seguir um tipo com uma lanterna,   embrulhado numa manta escura com a aura delimitada pelo vapor do próprio bafo na noite gelada. 
Deixou o sendeiro à entrada da casa baixa de pedra e lama de adobe, como o teria feito Paul Revere enquanto 39 homens à luz de muitas velas acesas pela discussão,  signavam a mudança num papel fibroso. 
Lá dentro o ar era quente e pesado,  saturado de Pisco e guano, mas o ceviche do grande peixe de Santiago que comi, sentada no chão junto ao lume crepitante enquanto Manolin contava histórias do mar, soube- me pela vida.
 Cá fora os diamantes do cruzeiro do sul brilhavam contra o veludo azul de um céu de paraíso, onde uma lua redonda como um imenso queijo disparava raios de luz em todas as direcções, conferindo aos gelos glaciares uma cor opalina e um brilho irreal. Lembrou-me Opar , onde as mulheres são belas e os homens simiescos e alguns elos inferiores, onde o mistério espreita em cada pedra e em cada folha e a água do Nilo cai azul em terra de homens sei lei nem alma. Lembro-me do bar que o Dr. Livinstone tinha na margem do Lago Vitória onde serviam os melhores Gins tónicos do mundo, perfumados com as neves do Kilimanjaro, que me deixavam de quatro na manhã da minha vida, como rezava o enigma. Mais um sonho que se tornou insolvente e faliu de tristeza e incompreensão.
Fui dormir, ou pelo menos tentei fechar os olhos, mas a ideia de Cibola bailava como um cisne de ouro não me dando paz. Estava tão perto ou longe demais, não fazia ideia. 
Sabia que o dourado sol nascente traria Esteban e o grande condor, e aí a aventura recomeçaria, exactamente no ponto onde a imaginação vibrante de alvoroço  a tinha deixado .


                                

18 comentários:

  1. é aqui que a mando dar uma curva ao rio, observar se a corrente amainou, levantar as redes a ver se há peixe e sobretudo olhar para o céu a oeste, pois se vier aquela nuvem podemos descer os rápidos amanhã e chegar por fim a little dawson, e só aí podemos trocar as malhas das peneiras e remendar bateias. estou com fé que é desta vez, com sorte, que vamos encontrar o teu coração de ouro.
    http://youtu.be/MkGOrIBCcg4

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    1. E eu vou, que no garimpo, não se podem descurar nem as poeiras do tempo.
      Neil Young... Aí aí...
      Beijo JL

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  2. A continuares assim, deixas- nos a cogitar no próximo enredo o fim de semana inteiro Eheheheheh.

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    1. A seguir vou ao espaço, não te digo é qual :):):):):):):)

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  3. OMG, os sítios por onde tu andas... Lembras-te de cada coisa que não lembraria ao diabo.
    BFS e escreve mais disto, que a gente gosta.

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    1. Se leres Tio Patinhas, dá no mesmo. :):):):):):)

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  4. Olá, já sigo o bloglovin não consigo seguir o blog assim que der sigo.
    Adorei a história :)
    http://retromaggie.blogspot.pt/

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    1. Viva , Magda, bem-vinda e obrigada !
      Aproveito para informar quem não sabe, que pelo browser da Apple , o Safari, conseguimos registar-nos nos blogs que queremos seguir.
      Posto isto, um beijo e BFS. :):)

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  5. Maria do Céumarço 29, 2014

    MD, estes seus contos de muitos contos, são fantásticos. Pesquisei Opar porque me era familiar e descobri que me lembro de Lá e sacerdotisa muito bem :). Obrigada pelas recordações.
    Maria do Céu

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    1. A receita é pegar nas memórias de locais, livros, filmes, pessoas e coisas, misturar com cor, som e todo o sentimento possível, levar ao liquidificador e tomar em pequenos sorvos, que nos deleitem e acariciem como um afago morno e delicioso.
      Beijo, Céu e BFS. Prometo continuar na senda da loucura.

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  6. Para ti "não há longe nem distância", nem corrente de rio ou espaço longínquo que te afaste dessa larga margem de criatividade e exuberante representação.
    Outro conto fantástico e desempoeirado, só possível com uma imaginação de ouro.
    Há que tempos não ouvia os Stranglers!...:-)
    xx

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    1. :):):)
      Quando me perguntaram um dia qual a música que de repente eu aconselharia, está estava logo lá, na ponta da língua.
      Beijinho e bom Domingo.

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  7. Gosto de um bom escrito, seja sob que género for...:)

    Bjinho :)

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    1. :):):):)
      Beijinho grande, querida EU. Boa semana.

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  8. Grande história, gostei de ler isso. Obrigado por compartilhar. Olhando para a frente para a aventura.
    No amor e na luz
    Cyn

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    1. Olá Cyn. Fico contente por teres gostado das minhas fantasias.
      Obrigada pela simpatia.
      Um beijo da D

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    2. Você é muito bem-vindo M D

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É aqui que me mandas dar uma curva