quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Everybody Hurts...

"Em muitas pessoas a palavra antecede o pensamento, sabem apenas o que pensam depois de terem ouvido o que dizem." Gustave Le Bon


Exactidão

Levam as frases sentido 
que uma cadência lhes dá: 
sentido do não-vivido 
a que fica reduzido 
o que, escolhido, não há. 
Do imo do poder ser, 
onde o não-sido se arrasta, 
ouvi cadências crescer: 
vaga música de ter, 
na vida, quanto não basta - 
quanto um sentido se entenda, 
que nem verdade ou mentira. 
(Que o que dele se aprenda 
é como cobarde venda 
para que a luz nos não fira. 
Luz sem luz, brilho da treva 
que tudo no fundo é; 
e a certeza que se eleva 
do fundo da própria treva, 
de exacta que seja, é.) 
Levam justiça consigo 
as palavras que dissermos. 
Por quanto sentido antigo, 
nelas ficou por castigo 
o futuro que tivermos. 
Levam as frases sentido 
que uma cadência lhes dá. 
É justo, injusto - o escolhido? 
Como quereis que, vivido, 
ele não seja o que será? 

Jorge de Sena





                                                                         (Jezebel 1938)


Não há mágoa maior do que a de magoar alguém, alguém que sente como nós sentimos, alguém que nos quer como lhe queremos.
É a tragédia de quem não pensa no que fala, que fala só por falar, inflamado por um calor que não é seu, que ignóbil e traiçoeiro se insinua no momento certo e faz cair o véu da névoa cor de sangue, esse que depois de lhe tomado o acre odor, escancara as portas do inferno e verborreia  vil e desenfreado até se esgotar, até se esvair em veneno e infâmia, até ser tarde demais.
Os olhos então coruscantes e mortíferos, ensombram-se, apagam-se, pesam como o chumbo negro das vis palavras que ilustraram e não se despegam do chão. 
A boca abre e fecha, como peixe fora de água sem respiração nem som, porque sabe que falou de mais, que  não encontra panaceia nas palavras. O coração, esse parou na altura em que frio, cegou para a realidade.
O ar que alimentou entrecortado o fogo da loquacidade exagerada e abjecta, chega em pequenos sorvos, como a calmaria chega depois da tempestade. Tudo ao redor é normal, mas ao mesmo tempo diferente e distorcido pelo olhar da vergonha, pela humilhação que infligiste a ti próprio por culpa tua.
Nada mais te resta do que expiar os teus exageros e esperar. Chora se chorar te faz mais leve e menos vacilante em proferir a única palavra que calaste e era imperativo falar.


             

18 comentários:

  1. Triste, lindo e verdadeiro. Não acredito que haja que seja sempre ponderado e meça as palavras. Infelizmente magoamos e magoamo-nos.
    Beijo. :(

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    1. Passa, Luisa, tudo passa. Passa por nós, passa por eles... Não havia mesmo necessidade... Porquê?
      Fica bem. Um beijo sem calor, mas com amizade.

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  2. A palavra é a coisa mais barata que existe e é geralmente mais rápida que o pensamento. Depois podemos arrepender-nos do que dissemos mas fica tarde para remediar. Resta voltar às palavras novamente e pedir desculpa.
    Bela música!
    xx

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    1. A palavra desculpa é a que queima e se enovela, a mais difícil de proferir, quando deveria estar sempre na ponta da língua.
      Querida Laurinha , um resto de boa semana, que o fim dela já se avizinha.
      Beijo. D

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  3. Falar sem pensar , só porque sim é o pão nosso de cada dia. Apanhar os pedaços que se partiram é que já é mais complicado.
    Como o sol não brilha hoje, desejo-te um bom dia na mesma ;)

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    1. Já fui buscar a Super-Cola 3... :):):)

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  4. Sou calado por natureza. Até para evitar que me saiam boca fora coisas que não sinto. Mas há momentos em que mesmo sabendo o mal que as palavras vão fazer, as pronuncio. O pior vem a seguir.

    Boa tarde, M D Roque :-)

    R.

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    1. Tal e qual, querido R., o pior vem a seguir, num infinitésimo de segundo em que podias calar os disparates e falar desculpa. Era o bastante.
      Beijos, querido.

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  5. Olá,MDRoque
    ...Boa tarde!
    Nem sempre é possível se colocar e falar de forma assertiva e leve, pois afinal, todos são humanos. Viver em paz e harmonia com os semelhantes, é algo as vezes desafiador, porque pessoas são diferentes, e estas se tornam em algumas circunstancias os elementos motivadores de discórdia.Mas é possível aprimorar e melhorar . Há ocasiões em que o silêncio de uma pessoa torna-se mais sábio do que qualquer palavra que poderia ser pronunciada.Então calamos, e descobrimos que apenas estar presente, pode tornar-se a melhor palavra, pois recuperar pode ser mais difícil do que pedir desculpas...
    Obrigado,belos dias, beijos!

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    1. É por isso que dizer que o silêncio é de ouro, é tão acertado, Felis.
      Obrigada e um grande beijo. D

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  6. Ciao, scusa il titardo, ma ho avuto problemi con il PC. Ora ne ho uno nuovo. Verrò a trovarti con più calma, ma mi piacerebbe sapere se vivi in Portogallo od in Brasile. Solo perché tengo una statistica dei miei follower. Puoi raggiungermi via e-mail cliccando sulla mia caricatura nel blog. Grazie ed a presto.

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    1. Ciao Elio . Io sono portoghese, e io sono una persona tranquilla . Grazie per il commento, sempre i benvenuti. Abbraccio D

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  7. Saludos y feliz fin de semana,

    Ale
    Costa Rica

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  8. A palavra quando desferida de forma precipitada, reveste-se de uma crueldade atroz.
    Nem o apagador do tempo cura a ferida exposta.
    Mesmo quando transformada em cicatriz, a marca fica para todo sempre.

    ABRAÇAÇO

    http://diogo-mar.blogspot.pt/

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    1. Reparar o estrago é tarefa sem igual. Ser ponderado, sem ferir susceptibilidades, passos pequenos, silenciosos...
      Abração, obrigada e BFS. D

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  9. Gostei muito do pensamento inicial e da continuação que lhe deste.

    A palavras pode ser fatal, mas nós temos o poder de a interpretar e contextualizar.

    beijinhos

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    1. Poder esse que nem sempre é fácil verbalizar, pois não é certo que da discussão nasça sempre a luz.
      Brigada, querida. Beijo.

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É aqui que me mandas dar uma curva