domingo, 9 de fevereiro de 2014

As árvores morrem de pé


"O pinheiro mais alto é aquele que o vento agita com mais força." Horácio




Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas 
Do que as árvores novas, mais amigas: 
Tanto mais belas quanto mais antigas, 
Vencedoras da idade e das procelas... 

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas 
Vivem, livres de fomes e fadigas; 
E em seus galhos abrigam-se as cantigas 
E os amores das aves tagarelas. 

Não choremos, amigo, a mocidade! 
Envelheçamos rindo! envelheçamos 
Como as árvores fortes envelhecem: 

Na glória da alegria e da bondade, 
Agasalhando os pássaros nos ramos, 
Dando sombra e consolo aos que padecem! 

Olavo Bilac









No princípio, era a TV a preto e branco com um só canal, espremida numa caixa quadrada inestética e escura, com um pequeno cinescópio cheio de estática, que ligava aos fios que corriam até a uma antena em formato de espinha de peixe fixa no telhado,  que em dias bons nos permitia ver as notícias, alguns desenhos animados e as noites de teatro.
O Pai adorava as noites de teatro e posso dizer com sinceridade que foi dos poucos programas descontinuados, o que mais saudades me deixou.
O temporal que hoje sobre nós desabou, deixou as sequelas de destruição que os ventos largados em fúrias assassinas costumam deixar por onde passam.













Hoje vi e chorei. Chorei pela árvore que eu conheço desde que me conheço, aquela que soçobrou e com um gemido de dor não resistiu ao sopro forte do huno que a fustigou.
Chorei, porque me lembrei de estar com o Pai em frente à caixinha preta, a rever pela enésima vez "As árvores morrem de Pé",de Alejandro Casona,  uma soberba interpretação duma já muito idosa Palmira Bastos, onde brilhava o também saudoso Varela Silva. Chorei por me recordar de como o Pai , de olhos brilhantes, repetia as palavras finais com a protagonista "Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores"... Fico parada a olhar para dentro da recordação que me acarinha, enquanto tudo à minha volta rodopia num turbilhão tão violento como as emoções que me assaltam. 
Lá fora,  o  vento  que estridente sopra do mar,  continua a poderosa investida contra as muralhas da nossa incapacidade, numa batalha que sabe ganha à partida.



                                  

22 comentários:

  1. Tenho estado a ver as notícias e pelo que posso ver, a fotografa amadora andou a cirandar no meio da agitação.
    Beijos

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    1. Mete respeito, piquena, muito. Estou mortinha que chegue a manhã, porque dizem que o pior não passou.

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  2. Momentos que se mantêm vivos no nosso baú de memórias.

    Lembro-me dessa peça de teatro e da célebre..."Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores"...

    Beijinhos.

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    1. O que é realmente bom, não esquece nunca. :):):)
      Beijinho, Mona Lisa

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  3. :(((

    tão triste. não gosto de ver árvores mortas :( que raio de tempo, raios partam a stephanie!!!

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    1. Já a do Mónaco batia um bocado mal...
      XX

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  4. Eu não me metia em sítios com árvores a cair á minha volta. Isso é coisa de gente maluca

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    1. Sabes piquena, há quem trabalhe ao Domingo e que seja cioso do seu local de trabalho, indo por isso verificar os estragos visíveis. Se isso é ser maluca, pois que sou, com muito orgulho.

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  5. Quando a saudade bate é difícil resistir...

    Beijinhos Marianos, MD! :)

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    1. E em dias assim, vem-nos tudo á ideia, tudo.
      Beijinho, querida Maria.

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  6. As árvores também caem e ficam por terra...é a gravidade.

    Fizeste-me recuar no tempo.

    Eu gostava das noites com teatro, das óperas e da patinagem artistica para além de algumas séries com quem me comprometia a certas horas em determinados dias.

    Outros tempos...

    Beijinhos e planta uma árvore na primavera que se aproxima.

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    1. Estás árvores em particular ainda poderiam duram mais de um século , quem sabe, mas não caíram pelo efeito da gravidade, foram brutalmente arrancadas pelo vento.
      O antigamente ... Podem chamar-me retrógrada, mas tirávamos tanto prazer e felicidade de coisas tão simples como uma boa peça de teatro na TV, ou ver o Festival da canção e ficar o resto da vida a cantarolar a Canção de Madrugar, um dos mais belos poemas do José Carlos Ary dos Santos.
      Beijo, Pérola querida

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  7. Olá M D, passei por aqui antes de ir dormir e vi a sua árvore no chão. Tenho muita pena.
    Também senti a força desse vento, o meu voo aterrou há uma hora em Lisboa e desta vez pensei que não ia continuar, eu, de pé. Mas cá estou para lhe desejar, e a todos que por cá passam, uma boa semana.
    Susana


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    1. Obrigada Susana.
      Felizmente correu bem e chegou só com um grande susto.
      Beijinho e boa semana

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  8. Ao passar pela net encontrei seu blog, aliás tenho encontrado o seu blog por tudo quanto é sitio, mas só hoje entrei para ver como era´dei com um belo poemas de Olavo e com um texto de alguém que ama a natureza, como fui criado no campo admiro a natureza e os sítios de recordações, quando estamos muito tempo sem passar por lá, e depois quando lá vamos, tudo mudou, ou pelo homem ou pela natureza, estive a ver e ler mais algumas coisas, é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
    Eu também tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita
    Ficarei radiante se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais, saiba que sempre retribuo seguido
    também o seu blog. Deixo os meus cumprimentos e saudações.
    Sou António Batalha.

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  9. Viva António, bem-vindo e obrigada pela simpatia.
    Eu gosto de escrever sobre tudo um pouco e adoro fotografia.
    Vou seguramente passar no seu cantinho e deixar um olá.
    Abraço. D

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  10. Um poema tão lindo.... e relatos de um acontecimento triste... Bonito de ver como vc é sutil com as palavras...

    Sinto-muito pelas árvores...

    Mas, olha... as lembranças.... ahh..essas nunca poderão ser arrancadas de vc!!! Um beijinho em seu coração!!!

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    1. Olá Susaninha, bem-vinda , e muito , muito obrigada pela simpatia.
      Retribuo um grande beijo.

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  11. Olá, gostei da forma como descreveste este quadro.
    Eu adoro árvores, pela sua imponência, pela importância vital que elas tem.
    Mas acima de tudo pelas excelentes confidentes que são.
    Elas morrem de pé em sinonimo de coragem, carater e personalidade.
    Aqui me deito aos teus pés, a ouvir o teu coração minha árvore!
    Abraço-te, minha cumplicie de tantos momentos!

    ABRAÇAÇO

    http://diogo-mar.blogspot.com/

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    1. Olá Diogo, bem-vindo..
      Obrigada pelas palavras bonitas e gentis
      Outro abraço daqui.

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    1. Hola Montse
      Gracias por tu smpatia.
      Cordiales saludos.
      D

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É aqui que me mandas dar uma curva