sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Voz és tu

"Tudo se torna um pouco diferente assim que é pronunciado em voz alta." Hermann Hesse




Voz Interior

Embebido n'um sonho doloroso, 
Que atravessam fantásticos clarões, 
Tropeçando n'um povo de visões, 
Se agita meu pensar tumultuoso... 

Com um bramir de mar tempestuoso 
Que até aos céus arroja os seus cachões, 
Através d'uma luz de exalações, 
Rodeia-me o Universo monstruoso... 

Um ai sem termo, um trágico gemido 
Ecoa sem cessar ao meu ouvido, 
Com horrível, monótono vaivém... 

Só no meu coração, que sondo e meço, 
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço, 
Em segredo protesta e afirma o Bem! 

Antero de Quental








Numa união já pluri- decagenária, nunca nos passou em branco este dia de Fevereiro , somente pela simbologia que acarreta. Sempre nos bastou um afago, um abraço, por vezes uma flor e o "Olá namorado" do costume, que sempre nos fez sorrir.
As pessoas antigas são difíceis na compreensão dos modernismos, é um facto... Talvez por isso não  compreenda toda a máquina comercial e publicitária, que se veio montando ao redor desta data, matando-lhe o simbolismo, envenenando-lhe o romantismo, destruindo-lhe o significado. Tornaram-no praticamente no dia do serviço militar obrigatório do romantismo mundial. O dia em que o homem demonstra materialmente o quanto bem quer à sua amásia, retribuindo obrigatoriamente a amásia com a melhor demonstração de amor e carinho que conseguir encontrar disponível no mercado.

 Um dia.

Acontece uma vez por ano. Nos restantes dias podem ser cão e gato, não tem importância, porque em Fevereiro remenda-se a paixão, conserta-se o desejo, repara-se o amor que não teve voz, que se calou o ano inteiro e que irrompe súbito e maravilhoso no dia de S. Valentim.
Se muitos não serão o caso, demasiadas serão a correspondência exacta.
A primeira manifestação do ser humano é o seu choro quando nasce. Quando sai do conforto das entranhas da mãe para o malestar do mundo que o recebe de braços abertos, grita de desconforto e desespero, protesta do único modo possível, faz ouvir bem alto a sua voz.
Então onde está a voz que gritou o advento do ser que nasceu ? Porque a guarda ? Porque a esconde ? Porque não murmura, não fala, não grita o que sente sempre que sente e não só uma vez por ano?
Porque não projecta a voz interior em sons, em fonemas em palavras que exprimem sentires ?
O medo, a vergonha, a intolerância, não podem aprisionar a voz, nem ameaças ou angustias emudecê-la.
Diz um velho ditado que "Falar é fácil" ... como pode ser fácil , se parece de extrema dificuldade duas pessoas que têm voz e falam a mesma língua, conseguirem entender-se ?

    Libera vox   



                                 

14 comentários:

  1. Tens razão, sabes que tens. Mas casais que passam a vida desencontrados, encontrarem-se em Fevereiro não é bom ? Um dia para namorar. :):)

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  2. Se passam a vida desencontrados, talvez não tenham ponto de encontro, sabes ? Pouco romântico, mas pragmático qb. Costuma dizer-se que "Um dia não são dias", mas sabes ? Devia ser! Devia de ser todos os dias e não um só dia de faz-de-conta, para tanta gente !!!
    "Olha o que eu recebi no dia dos namorados"... amanhã provavelmente receberá um par de estalos ou pior, por algo que disse ou fez, e cala-se... isso sim, é que é de ter em atenção.
    Vá,juventude, ide gastar euros em futilidades, ide !!! Um dia feliz e muitos beijinhos !

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  3. Pois nós vamos cear à luz de velas. Merecemos, depois de trabalharmos todos os dias e só conseguirmos trocar meia dúzia de palavras à noite .
    Velha rabugenta ! :D :D

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    1. Boa ceia, pequenada !
      Repara que vós pareceis o cãozinho do Pavlov, condicionado a arranjar tempo para amar no dia de S. Valentim ! O que organizaste para hoje, podes organizar quando quiseres, basta quereres, sabes ?
      Divirtam-se muito.

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  4. Às vezes nem o S. Valentim lhes vale.
    Há casais de toda a,espécie, reflexo da sociedade vigente e deles próprios.

    Se for para o bem que se celebre. Cada segundo desperdiçado é ofensa divina.

    Beijinhos em voz alta

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    1. É isso mesmo Pérola. Cada dia é um dia bom , se for de vontade fazer o bem.
      Bom fim de semana e beijinho

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  5. Boa noite MD . Como li o perfil e já posso avançar para A congratular pelo blog. Gosto muito do que escreve e de como escreve. Estou a construir o meu próprio blog, que gostava que visitasse. Vou dando notícias.
    Entretanto, não podia deixar de referir que concordo plenamente com o seu ponto de vista.
    Abraço. Marta

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    1. Olá Marta, bem-vinda e obrigada pela simpatia.
      Infelizmente o mercantilismo das pessoas não permite ver mais longe...
      Aguardo novas do blog, que seguramente visitarei !
      Bom fim de semana. :X D

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  6. Aqui por casa, como já deves de ter percebido ama-se todos os dias; não só eu e o MQT, mas o filho, os gatos o cão, as mães e os sogros; cuidamos uns dos outros todos os dias e todos os dias são bons para lembrarmos uns aos outros o bem que nos sabe estar juntos e termo-nos. No dia de S. Valentim mimamo-nos como nos outros dias e acrescentamos a brincadeira de nos chamarmos "namorados". Hoje o dia foi normal com o mimo do costume. Não fomos jantar fora, nem ao cinema, nem nada disso (mas hoje de manhã ele descobriu as primeiras frésias à venda e sabendo o quanto as adoro e o quanto espero por Fevereiro para que apareçam, apareceu-me em casa com elas). No entanto, ontem, dia que ninguém mandou ser especial como o de S. Valentim, porque me pareceu que o verde dos olhos dele estava um bocadinho ensombrado (burocracias que nunca mais se resolvem), fiz uma reserva num sitio lindo, lindo, convidei-o para irmos jantar e no fim do jantar mostrei-lhe os bilhetes que havia comprado para irmos ao teatro. Foi tão bom Maria!
    P.S. - desculpa o testamento mas apeteceu-me partilhar isto contigo :)

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    1. Minha querida, adoro os teus testamentos. Como deves calcular, na Guerra não se namora, e quando chegar a casa o meu príncipe grisalho já repousa das canseiras da jornada. Falámo-nos divertidos, ´"Olá Namorado !", eu contei-lhe de mim, ele dele me contou, disse que os gatos também estão lovelies e foi assim que aconteceu mais um S. Valentim chez moi. Vou entrar pé-ante-pé para não o acordar e tenho seguramente uma rosa à minha espera... e é assim que acontece todos os dias ( tirando o pormenor da flor) e é assim que deveria acontecer sempre.
      E tu fizeste tão bonito! Aposto que o verde dos olhos do teu MQT brilhou tanto que meteu muitos mares num chinelo.
      Beijos, minha querida ! És um doce de menina!

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  7. O que pode esperar-se de uma sociedade tão materialista?...Parece que gostar significa presentear com data marcada.Acontece entre casais, mas também entre pais e filhos. Tenta compensar-se a falta de tempo, a desatenção ou até a indiferença com um presente que se veja.
    Há casais que falam mas não conversam. Falar banalidades é fácil, dizer alguma coisa que tenha a ver com sentimentos é difícil para muita gente.
    xx

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    1. Falar é fácil, conversar é difícil... O meu trabalho nunca me permitiu ser uma mãe muito presente e sei que nem sempre supri a falta do modo mais correcto, o que não impediu que as pequenas interiorizassem que o esforço dos pais para lhes facultarem estudos e transmitirem valores sólidos era muito mais importante do que vestir as marcas da moda, por exemplo. Este mercantilismo dos sentimentos ainda há-de acabar por reduzi-los a artigos de compra e venda.
      Beijinho, Laurinha e bom fim de semana.

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  8. Olá M D, é tarde, mas penso ainda vir a tempo de felicitá-la pela sua história de amor e desejar-lhe a continuação de muitas felicidades! :-)
    E que bom ter ido buscar Hermann Hesse, gosto tanto dele!
    Bom fim de semana.
    Susana

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    1. Viva Susana, sempre gentil :)
      Obrigada e um bom FIM‑DE‑SEMANA, finalmente com sol
      (Esperemos que sim)
      Beijinho. D

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É aqui que me mandas dar uma curva