sábado, 25 de janeiro de 2014

The Stranger in me

A coisa mais difícil para o homem é o conhecer-se a si próprio. - Provérbio Árabe 




Narciso

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, 
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... 
Ah, que terrível face e que arcabouço 
Este meu corpo lânguido escondia! 

Ó boca tumular, cerrada e fria, 
Cujo silêncio esfíngico bem ouço! 
Ó lindos olhos sôfregos, de moço, 
Numa fronte a suar melancolia! 

Assim me desejei nestas imagens. 
Meus poemas requintados e selvagens, 
O meu Desejo os sulca de vermelho: 

Que eu vivo à espera dessa noite estranha, 
Noite de amor em que me goze e tenha, 
...Lá no fundo do poço em que me espelho!

José Régio







Olhei para mim e não me vi. Aquela imagem disforme que me olha não sou eu. Eu tenho um rosto antigo, balofo e simples, de quem já passou o amadurecer da vida e agora colhe os últimos frutos antes que árvore seque. Os olhos castanhos, vivos e despertos não estão lá. Metamorfosearam-se em luas de pele fendida que choram duas bicas de um líquido salobro  que corre incessantemente num fio garço e desbotado de lágrimas opacas;  sem tristeza,  choram simplesmente o infecto desalento do mal que os aflige.
 A  boca rasgada , sagaz e rápida, que nunca deixou sem troco um interpelo, não está lá, somente uma fenda retorcida entre aglomerados flácidos de pele túrgida. Nada diz, seca e amargosa, aguarda impaciente que o som venha de dentro, que o âmago ressuscite a voz e a faça elevar; ela que nunca se calou é quem mais sofre.
O nariz aquilino e colossal não está lá, sepultado em tumefacções de carne e pele, quase não respira, lá onde o ar chega com dificuldade e dor.
O pensamento, esse está lá, mas não se encontra. Divaga por um purgatório ardente numa balsa de madeira podre, constantemente investido por seres estranhos, hediondos e ruidosos : é onde Hefesto tem a forja e o martelar constante enlouquece e flagela  até ao limite do suportável. Cansa, cansa demais.
Quero-me de volta. Quero olhar para mim e ver-me, e reconhecer em mim a velha amiga que nunca me abandonou. 
Quero ser eu outra vez.



                

16 comentários:

  1. Isto lá é coisa que me apresentes para ler na véspera do meu aniversário (só te digo que não me faz bem nenhum acrescentar estes pensamentos a todos os outros que de per si me assaltam por estes dias)

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  2. Então se me visses , dava-te uma sulipampa. Isto é a mais pura realidade: Pareço prima do John Merrick.
    Um febrão daqueles e só porcaria (SIC) dentro da cabeça. Sinusite daquelas más. Normalmente tenho uma crise por ano, mas esta é a mãe de todas as crises. Kôrrore, como é que pode uma pessoa aguentar a cabeça nos ombros ?
    A ver se amanhã não me esqueço de te dar os parabéns.
    Beijinho e Bom Sábado-a-chover-e-com-um-frio-do-caraças.

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  3. Narcisista parece que não és...e o espelho pode estar embaciado. Tens que o limpar bem, tratá-lo bem que ele também te tratará bem a ti :))

    Bla escolha musical.

    Beijinhos

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    1. Olá JP. Narciso é um poema lindo, o eu sobre mim com amor. Eu nem me quero ver ao espelho, não agora. Verdade que ele nunca me tratou mal e que só me devolve o que lhe entrego, mas estou cansada de maleitas e deformações.
      Bom-Sábado-com-chuva. Beijinho

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  4. Está visto que ainda estás febril , mas o texto apesar das criaturas hediondas que te atacam o pensamento doente está muito bom. O teu Mano tem que estar orgulhoso de ti, e ao mesmo tempo inquieto que lhe tomes a dianteira, eheheheh.
    Melhoras e beijinho
    AM

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    1. O meu Mano não é Blogger, para grande infelicidade da Blogosfera, porque nunca o poderá ler online. Mas também não estamos em competição , nunca estivemos. Eu sou mais bonita e ele é mais inteligente. Ponto. :):):):)
      Bom Sábado e obrigada pela opinião.

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  5. Os árabes têm provérbios muito simples, como todos os provérbios, aliás, mas é na simplicidade que reside o fulcro da questão; quem somos e que andamos para aqui a fazer. Belo poema sobre o mito de Narciso que espelha no verdadeiro sentido da palavra esse desejo de entrarmos por nós a dentro.
    O teu texto é tão profundo e típico de uma identidade que se deseja voltara a encontrar...Parece que que o tempo decide roubar-nos sempre um pouco do que já fomos, ainda por cima sem nos avisar. Ou seja, morremos um bocadinho todos os dias, nunca voltaremos a ser o que já fomos.
    Estamos condenados a ser esses estranhos para nós próprios, e nada como um espelho para nos atirar isso à cara todos os dias.
    As melhoras, D.
    xx

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    1. Obrigada Laurinha. Nada como uma boa palmadinha na costas para levantar a moral, quando se está saturado e em baixo :):)
      Se é certo que vou melhorar, mais certo ainda é que estou farta de estar doente, mas as coisas são como são...
      Bom- quase-fim-de-Sábado e um beijinho.

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  6. Cara M D,
    Mesmo quando há grandes alterações o original é invariável. E esse é que importa.
    Aqui deixo, para ouvir num dia com mais tempo, a recomposição que Max Richter fez das Quatro Estações, uma obra de encantamento, em que se nota sempre a presença tutelar e sorridente do Padre Vermelho. O original lá se mantém -- mesmo que transformado, neste caso por mão de mestre:

    http://www.youtube.com/watch?v=g3fOVDTg9pU

    Boa tarde (e boas melhoras).

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  7. Boa tarde maestro das sílabas. Obrigada pelas palavras e pela música que irei seguramente ouvir quando tiver os meus ouvidos de volta e a audição desembotar da malfadada estática. É seguramente uma composição para apreciar e não para ouvir de passagem, estando eu somente familiarizada com a obra do ruivo.
    Um resto um um bom Sábado, que nem por isso o foi. Beijo . D

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  8. Debaixo da máscara estás tu, a mesma de sempre. Vais ter mais trabalho em recolocar a pele desinchada no lugar, mas querida MD, crises destas tiveste muitas, e sempre deste a volta por cima e acabaste listinha como o rabo dum bebé. Já sei que te estás nas tintas para isso, ou assim dizes, mas isso passa e tu ficas, boa ?
    Trata-te bem, porque a seguir vem a tossezinha e as fragilidades bronco- pneumónicas.
    Põe-te boa. BFS

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    1. Não ralhes comigo, que estou doentinha- assim mesmo, à Vasco Santana.
      Sei disso tudo, mas obrigada pela preocupação.
      Ciao. Bacci

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  9. Tu estás lá. A pele e todas as transformações associadas ao inimigo tempo só te levam a melhor se assim o permitires.

    Entendo esses diálogos com o reflexo.

    Tu estás aí e bem ou não escreverias desta forma.

    Beijinhos

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    1. O eu que sou tem travado uma luta desigual com o eu que me fiz nestes últimos dias. Em os céus querendo, terei o meu eu antigo e gasto pela erosão dos dias que passam céleres, de volta rápido rápido.
      Um grande beijinho e BFS. D

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  10. O que mostra o espelho não sei (que maldade, o Arcimboldo!...), mas gostava; agora o que o texto revela, topa-se à légua: beleza pura. Cuidado com essas letras ;)

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    1. Bom dia Ricardo, e obrigada pelo comentário tão agradável.
      O eu de cá e o eu de lá hoje vão unir forças para vencer o mostrengo.
      Bom Domingo e um grande, grande abraço. D

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É aqui que me mandas dar uma curva