quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sombras na noite

"Não há sol sem sombra, e é essencial conhecer a noite " Albert Camus




Luz entre Sombras

É noite medonha e escura, 
Muda como o passamento 
Uma só no firmamento 
Trémula estrela fulgura. 

Fala aos ecos da espessura 
A chorosa harpa do vento, 
E num canto sonolento 
Entre as árvores murmura. 

Noite que assombra a memória, 
Noite que os medos convida, 
Erma, triste, merencória. 

No entanto...minha alma olvida 
Dor que se transforma em glória, 
Morte que se rompe em vida

Machado de Assis







Canta o galo no toque do telefone que me desperta de um passeio de charrete conduzida por um cocheiro escuro que resfolgava ruidosamente uma névoa esverdeada e  chicoteava incessantemente uma pileca esquelética, de grandes olhos apavorados, obrigando-a a arrastar penosamente o engatado por uma rua de basaltos irregulares e esburacados em gigantescas poças de água, que reflectiam um luar pálido e frio. Nunca cheguei a saber o destino da viagem. É o mal dos sonhos, serem levianos,  boémios e inconstantes,  tantas as vezes que chegam e partem sem hora nem memória.
O elevador fede a fumo de cigarro. Mais um que acredita na imortalidade e procura introspectivamente respostas reconfortantes, quando tudo o que encontrará é um bofe negro e quase petrificado de apostemas.
Está frio e a luz dos candeeiros projecta sombras ilusórias e assustadoras. Os meus passos ecoam a tropéis de muitos cascos e eu rio, rio para afastar o medo que me invade, medo da noite, medo das sombras... o medo. O medo é poderoso ou paralisa-te ou desvela-te uma força desconhecida e rara que faz de ti um ser superior. Sem tempo para escolhas existenciais, acelerei arvoada para o autocarro parado,  que tinha dentro um punhado  pessoas tristes e frias, embrulhadas, amarfanhadas e sonolentas que, como eu, esperavam poder chegar ao seu destino ao mesmo tempo que o sol.



                                   

13 comentários:

  1. Dicen que la risa espanta al miedo y nos hace valientes pero entre las sombras siempre descubriremos de su mano nuestra luz y valentía

    Me ha gustado y me gusta la foto
    Un beso

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    1. Hola 40añera y gracias por tu gentil comentário.
      Saludos :):):):)

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  2. Querida M
    Não estou aqui para uma "troca de galhardetes", acredita, mas a verdade é para ser dita (olha que giro! rimei:))) estou mesmo numa fase de poesia :))) . Não me esqueci do que ia dizer, não. A verdade é que tenho um imenso prazer em ler-te, ou "ver-te" discorrer sobre seja o que for.
    Não digo mais nada para não parecer bajulação - que NÃO é!

    Um bom fim de semana.
    Beijinhos

    Ah! As tuas palavras, lá, são um must!

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    1. Fico muito contente com o que me dizes. A minha resolução de ano novo em relação ao blog, foi a de publicar todos os 31 dias de Janeiro um post , tentando não fugir ao estilo, mas diversificar. Fiz o melhor que pude, mas Fevereiro vai ser mais calmo em termos de escrita.
      Obrigada pelo apoio.
      Beijos. D

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  3. Continuas diabólica, desta feita a matar vizinhos. :):):):):)
    Mas a sério que gostei muito
    Bom fim de fim de semana :D

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    1. Feliz de si, cara Luisa, que talvez nunca tenha tido a "felicidade" de falar com alguém que sabe que já morreu, só que lhe deram mais uns meses até ao funeral...
      Beijo

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  4. Desde miúda que sinto medo do escuro. Andar na rua de noite, sozinha, está fora de questão.
    Bom post, Maria D.
    Beijinhos

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    1. Danke schön, liebsche. Hoje estou poliglota que me farto
      Bis morgen
      Küss

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  5. Só tenho um reparo a fazer : Na maior parte dos textos que li e reli cuidadosamente, nota-se um extremo cuidado no arranque, digamos assim, seguido duma pressa tremenda em finalizar.
    Peço- lhe que cuide deste pequeno grande detalhe.
    Respeitosamente e sempre ao dispor. JC

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    1. Está absolutamente certo, caro Anónimo. As ideias vêm, organizo-as, escolho o aforismo, escolho o poema, o que por vezes é muito demorado, escolho a foto, escolho a música, faço a "montagem", olho o resultado, fecho os olhos e deixo os dedos baterem nas teclas, conforme as palavras se formam nas suas pontas. A certa altura é quase mecânico olhar o relógio, e ficar sinceramente surpreendida com o tempo que passou, porque é um luxo de que não sou abastada. Penso num remate elegante, ato as pontas soltas e finalizo.
      Meã culpa, porque concordo consigo, e prometo mais atenção.
      Obrigada e um abraço. D

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  6. Juro que tinha aqui um comentário em inglês, dum piqueno que assinou em árabe !!!

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  7. Olá! Obrigada pelo comentário já sigo o blog :)
    Muito bom o texto ;)

    http://retromaggie.blogspot.pt/

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    1. Olá Magda, Obrigada pela presença e pela simpatia.
      Beijo :)

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É aqui que me mandas dar uma curva