terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Da Concha

"A semente do conselho guarda-se na casca do silêncio." Textos hindus


A CONCHA        ¯

     
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.      
        
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.      

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.         
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.  

Vitorino Nemésio







O ruído era harmonioso, agradável , ameno,   calmo. Afinal fora ela quem o escolhera dentro de uma infinitude de belas peças clássicas para a despertar da letargia do sono. Mas não, era um barulho que trazia o mau estar e a raiva que a arrancavam da concha.
Largar a concha é doloroso , aflitivo, angustiante. Diz-se que uma criança sofre em triplo no nascimento o sofrimento da mãe. O útero materno é a concha da humanidade e toda a origem é cruel.
  Assim se sentia ela ao sair da concha.
 Lá fora a chuva martelava o vidro da janela como a carga a galope de uma manada de cascos selvagens, indomável e ensurdecedora.
Veste o hábito que não despe há anos e sai para a borrasca. É  noite cerrada e o vento sopra forte, frio e caprichoso. Sente os pingos grossos no rosto e rosna colérica um impropério contra tudo e contra todos. Há dias sim, mas hoje não.
Passa a manhã e resmungar que passe. Já não reza, só resmunga, rosna e sussurra saturação. Sempre gente, tanta gente, tanta cara pardacenta, tanto fragor, tanto enfado, tanto desalento.
Olha para o pulso vezes demais, como se o olhar acelerasse o passar da chuva, que caía ininterruptamente há horas até chegar o sufixo da sua agonia.
Torna célere à concha. Chove copiosamente, pingos grossos e pesados correm livremente pelo cabelo, pela face. Sorri . A concha espera-a a dois passos rápidos. Que importa que venha o dilúvio se a concha está ali para a proteger e lhe trazer paz ?





                                            

10 comentários:

  1. Ah... a minha história! Sou eu cada vez que saio de casa!

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    1. E eu, querida Palavras... Tantas vezes. :):):):). Beinjinho. D

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  2. Fantástica a tua descrição do meu dia de trabalho? Querem ver que somos colegas ? Ahahahahah.
    Beijos.
    Ana Maria

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    1. Hummmm hei-de descobrir-te, espia. :):):):):):):):). Grande beijinho. D

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  3. por vezes a concha não resiste e quebra,
    por vezes a concha não nos protege e verga.
    por vezes chora-se um amor perdido,
    por vezes ganha-se a oferta de um gemido.
    por vezes, a nota solta um ai sostenido,
    por vezes, não faço ideia como rimar isto.
    paz!

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    1. Viva Perfect Stranger ! Olhe que rimou perfeitamente comigo, principalmente nos "ais" sustenidos, que são uma constante :). Ficou óptimo. Paz e obrigada.
      Beijinho da D.

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  4. Saber-me a concha do meu filho enche-me de ternura por ele. Falta pouco para nos conhecermos .
    Beijos. Mia.

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    1. No momento em que o segurares fora da concha onde viveu desde que foi gerado, vais aconchegá-lo na concha dos teus braços e vai ser amor à primeira vista. Tumbs up ! Jinhos. D

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  5. Olá,

    Obrigada pela visita e amável comentário. Vi que você havia se integrado ao meu recanto, mas não consegui encontrar seu blog para retornar. Não havia observado que o endereço do seu blog estava em seu perfil. Ainda bem que entrou, assim pude chegar até aqui e detectar a minha distração-rs.

    Belos versos de Vitorino Nemésio.
    O texto é lindo e muito bem escrito. É bom sentir-se seguro dentro da própria concha, mas é preciso viver e para isto temos que sair e enfrentar o sol ou as tempestades. Ouvi dizer que as pessoas do signo de caranguejo adoram se esconderem em suas conchas.

    Volte mais vezes. Será um prazer revê-la em meu recanto.

    Beijo.

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    1. Olá Vera Lúcia, seja muito bem vinda.A concha é um refúgio , um escape, aquela necessidade de estar sozinho e que raramente acontece. 2013 foi trabalhoso. 2014 começou diabólico. Tudo que necessito é regressar para o meu aconchego para retemperar. Eu sou de Agosto e Leão vai à luta, mas também tem que parar um pouco num canto sossegado para lamber as feridas.
      Obrigada pela companhia. Seguramente que nos vamos encontrando cá e lá.
      Bom 2014. Um beijo da D.

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É aqui que me mandas dar uma curva