sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Band of brothers

"A infância vive a realidade da única forma honesta, que é tomando-a como uma fantasia." - Agustina Bessa- Luis




Three blind mice. Three blind mice.
See how they run. See how they run.
They all ran after the farmer's wife,
Who cut off their tails with a carving knife,
Did you ever see such a sight in your life,
As three blind mice

( english nursery rhyme)


Noite tranquila, desconheço o que é há bastante tempo. Presumo que seja o que  acontece quando uma pessoa se deita, dorme mais do que 4 horas e acorda leve e saltitante.

O despertar da casa começa por volta das cinco e meia e leva-me com ele a reboque. A preguiça não me deixa levantar muitas vezes, mas outras tantas, o desconforto de me obrigar frustatoriamente a adormecer leva a melhor. O guinchar do moinho do café torna-se uma bela melodia, o aroma espalha-se languidamente pelo ar  e o sabor quente,  amargo e forte é uma secreta fonte de prazer.

Com a chávena fumegante na mão olho a rua pela janela.  É noite ainda, mas eles já lá vêm, a mãe com os três pequenos, que uma carrinha branca amolgada cheia de gente deixa ao fundo da praceta. O veículo segue e eles sobem a ladeira íngreme que dá acesso ao prédio. São três, os pequenos. Parecem uma escadinha. Vejo-os muitas vezes no hall do prédio quando saio para trabalhar cedo, mas não sei se os vejo realmente. Limito-me ao "Bom Dia" ao qual a mãe responde sempre com um alvo e escancarado sorriso, os mais pequenos com um resmungo ensonado e vamos à nossa vida.

Hoje olhei com olhos de pensar. O mais pequeno já anda pelo próprio pé, mas ainda há bem pouco tempo carregava-o a mãe e as irmãs ajudavam com os sacos. A mãe entra no prédio às seis e meia da manhã e sai muitas vezes já se pôs o sol; o pai está para França, a trabalhar na construção porque lá pagam pelo trabalho que faz. Cá, já por mais do que uma vez que o dono da empreitada abandona o país levando com ele o pão das famílias dos que deram ali o seu suor. Moram naqueles bairros projectados, espécie de ghetos de marginalidade, onde mesmo que sejas bom, tens que ser um artista da sobrevivência.

Oito e quinze e lá vão os três para a creche, de mão dada, o bebé no meio. A mais velha não tem mais que sete anos mas é ela quem manda. Hoje não chove e vai a cantar, alegre. Lê-se-lhe no olhar infantil a determinação de quem foi incumbido da tarefa mais ingrata que existe : proteger os mais novos dos males do mundo, das agruras que se escondem no caminho, em cada esquina, em cada sombra.




İSTEMEK İSTEMEMEK


Acenam à mãe que da janela os vê seguir ladeira abaixo, pequeninos e nervosos como três pequenos ratinhos.

Volto-me de novo para a máquina de café e carrego no botão. O som do moinho, tão musical há algumas horas atrás parece agora um horrível grasnar dum disco riscado, mas o café continua a saber pela vida e arranca-me aquele sorriso de satisfação que eu reconheço um tanto deslocado. Mentalmente desejo-lhes bem e vou à minha vida.




                

18 comentários:

  1. Dar uma curva?... Só se for para mais posts como este, esplêndido.

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    1. Olá Ricardo, seja muito bem vindo !
      Agradeço a sua gentileza e palavras de apoio! Conto consigo para me corrigir sempre que estiver errada !
      Bom 2014
      Obrigada e Xi-<3 . D

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  2. Ollá D!! Quanta delicadeza em suas palavras!!! :)

    Retribuindo sua visita, e dizer à você que virei mais uma fã!!

    Beijinhos!!!

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    1. Viva Suzaninha, bem vinda ao sítio da D!.
      Agradeço sua simpatia e conto que volte sempre, ok ?
      Bom 2014 e um grande beijinho
      D

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  3. Excelente seu texto!!! nossa infancia atual infelizmente marginalizada dentro de casa conforme a midia nos apresenta, toca meu coração e faz chorar, pois poderia seu meu neto ou uma de minhas filhas...
    Muito bem escolha a fotografia, linda mesmo.
    Fraterno abraço
    Nicinha

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    1. Oi Nicinha
      Mais uma vez obrigada pela sua simpatia e empatia com o que escrevo.
      Adorei o seu comentário. Bem haja.
      Um beijinho grande.
      D

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  4. Thanks for everything.
    You have a nice blog ... great words ... great photos.
    Have a nice evening and a great weekend.

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    1. Hello Pantherka, be very welcome chez moi !
      Thank you for being here and for the support.
      A great weekend to you too, and a very good 2014.
      Best regards
      D

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  5. Ora aí está um conto à MD Roque: bem escrito e a transpirar realidade.
    Muito Bom. Beijos
    Luisa

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    1. Olá Luisinha. Por vezes penso que o teu nome é Constância....

      Obrigada e um grande, grande beijinho da D

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  6. Gostei tanto, Mariazinha! Beijinho da Mia e do André

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    1. Mãezinha piquenina, és um doce. Beijinhos aos dois da Tia D

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  7. Obrigada pela visita M D Roque.

    Seu texto é muito emocionante.
    Fala de crianças que vivem uma realidade difícil.
    Infelizmente o mundo é cheio de contrastes.

    Um abraço.

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    1. Viva Lita, seja muito bem-vinda .
      As crianças de hoje, serão os homens de amanhã, mas que amanhã.
      Obrigada pela visita, que espero ser uma de muitas. Bom 2014.
      Xi<3. D

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  8. Para além de seres muito observadora, consegues escrever maravilhosamente os pequenos acontecimentos do dia a dia. Aquilo em que pouca gente repara. Todos nós temos de ir à nossa vida, mas ainda há felizmente pessoas que conseguem ter os olhos abertos e ver.
    O teu texto recordou-me a minha infância; duas meninas e um menino a irem para a escola sozinhos, sempre sozinhos porque a mãe tinha de trabalhar noutra ponta da cidade. Hoje olho para trás e acho que era muito feliz. As dificuldades deram-me um calo bestial para o que viria mais tarde.
    Gostei muito do teu texto.
    xx

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    1. Hoje como ontem há crianças cuja infância passou num piscar de olhos, como estes garotos e os teus três meninos. Uns retiram proveitos dos infortúnios e tornam-se homens e mulheres fortes, os outros só Deus sabe. Sabes, é raro encontrar quem nos saiba ler a nós, ao que nos vem de dentro. Obrigada.
      Beijinho. D

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  9. Olá!Boa noite,MD Roque
    Belo texto...vou "divagar" um pouco sobre o tema
    ...penso que o contexto de desenvolvimento das crianças , juntamente com a mudança social geral, além das necessidades econômicas que obrigam os pais a trabalhar fora, deixando justamente os mais velhos cuidando dos mais novos, vem se tornando mais acelerada conforme a passagem dos anos, em que cada geração esta diferente da outra. Hoje as crianças participam fluentemente do “universo dos adultos”, e devido a isso, essa juventude prematura mudou seus interesses diante da infinidade de coisas, que esta nova realidade pode proporcionar. E ao se deparar com isso, se vêem a frente de novas formas de se relacionar com o mundo, por vezes, marginalizados ... infelizmente, a inocência e pureza está se esvaindo precocemente, além do que , como dito, muitos são verdadeiros artistas "na" sobrevivência...
    Belo final de semana, beijos!

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    1. Olá Felis, que bom tê-lo de volta.
      Quando eu era pequena, a realidade não era muito diferente. O filho mais velho tomava conta dos mais novos porque ambos os progenitores trabalhavam. Não tão cedo , provavelmente, e não num mundo tão assustador.Hoje as crianças deixam de ser crianças muito cedo e em vez de irem para a rua jogar bola ou brincar aos cawboys ficam sentados num sofá , presos à TV ou à violência de um qualquer jogo de consola... Estes são os homens do futuro, aqueles cujas duas etapas mais importantes da vida ficaram por viver...
      Beijinho e bom fim de semana para ti também.
      D

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É aqui que me mandas dar uma curva