segunda-feira, 30 de setembro de 2013

E Depois do Adeus...

"Nem sempre sou da minha opinião." - Paul Valery


Acredito que por aí fora, por esse  universo monumental que é a blogosfera eu seja mais um grãozinho de areia na imensa praia de comentários sobre as  eleições autárquicas.



Não tenho muito a acrescentar a tudo o que já foi dito, até porque respeito a cor, credo e tendência clubística de cada um, posso não concordar, aliás, a maior parte das vezes discordo, mas, pessoa antiga que sou, a quem foi ensinado o conceito de Democracia-por-cassete, e que depois, autodidacta, aprendeu que a Verdade afinal não é só daquela cor, nada disso, tem nuances,  muitas nuances, o que torna até a cor da verdade complementar em relação à Verdade Original, acho fundamental o respeito, nem que seja em teoria.

Como já mencionei em escritos anteriores, e porque é certo e sabido que os extremos se tocam, no princípio , era a esquerda... mas curei-me.
O Marido não. Homem do Norte, arreigado a princípios, tradições e carácter alicerçado nos seus ideais democráticos, continua fiel ao casamento que fez há quase 40 anos e que nunca conseguiu trair. Faz-me um certo ciume esta amante que mantém há mais tempo que eu própria, mas compreendo e aceito ( claro que não concordo...). Alturas há, em que guardar para nós as nossas opiniões mais discordantes não é uma coisa má. É uma atitude amadurecida, pensada, pesada nas suas vantagens e desvantagens, tornada alicerce  da constituida e vetusta sociedade conjugal. 




As épocas de eleições fazem parte do tempo de guerrilhas maritais, onde cada um puxa para seu lado e expõe as suas razões. Tem sido sempre assim, há quase 35 anos.
Desta vez foi diferente, porque desta vez não tenho lado.

Não fui votar. Não estar fisicamente bem, é uma desculpa tão boa como outra qualquer, que justifica a minha apatia política, a minha crescente aversão por estas coisas da sociedade e pactos sociais.
Deveria ser presa ou no mínimo multada  e depois arrastada pelos cabelos até á secção de voto  - diz o Marido. Ele tem razão, mas nem quero saber. Estou dormente para  tudo isto, e é dormência antiga, muito anterior á profusão discal c6c7.

Interessam-me 3 resultados e 3 somente :
- A minha Cidade
- A minha terra
- O meu berço

E o resultado foi igual para as 3. Não fico feliz pelo Partido que ganhou. Não posso. Não vale sequer o esforço.

Mas alegra-me que Lisboa fique bem, que finalmente Belém tenha aberto os olhos e limpo as teias de aranha, e que Alfragide , apesar da mudança, tenha garantida a excelência da qualidade de vida a que nos habituou.





Nisto de eleições municipais não interessa nada cor, credo, raça , tendência sexual, religião, partido político, clube de futebol, sei lá. Não interessam para nada estes factores sócio-culturais que condicionam tantas vezes um individuo.
Interessa sim, se a pessoa é uma pessoa capaz . É o bastante.



Para o ano há mais, Até lá. 

PS.: As fotos foram  tiradas por mim, antes de manietada à esquerda


sábado, 28 de setembro de 2013

Num Setembro, há muitos, muitos anos... Ahhh!! que saudades !!


"No início você toma uma bebida, depois a bebida toma uma bebida, depois a bebida toma-o a si." - F. Scott Fitzgerald



Ahhh!!  Que saudades do pernil de porco estaladiço servido em cama de sauerkraut e batata assada, com que te lambuzaste até mais não, acompanhado de colossais litradas de cerveja, trazida para as grandes mesas corridas em potentes púcaras de vidro grosso com uma pega de lado, pesadas, douradas, brilhantes, prontas a serem erguidas sem esforço, qual martelo do Deus do trovão, e dentro da tua boca, deixar escorrer suavemente para a garganta  saboreando, contemplando mil prazeres...





 Ahhh! Que saudades das intermináveis filas paras os WCs ( a cerva assim o impunha) onde muita piquena e tanto homem de barba grossa não aguentavam a espera, e poças amarelas salpicavam o chão do recinto aqui e ali, secando ao ar frio e saturado de lúpulo,  um cheiro que misturado com o das Bratwurst e da couve azeda era acre, enjoativo, nauseabundo.


Ahhh !!! Que saudades de sentires o vomitado do vizinho de trás, quente , nojento, repugnante,atingir-te como um jacto de visco fétido  no teu cabelo, no teu pescoço, dentro da tua roupa, a escorrer pelas tuas costas.



Ahh!! Que saudades de teres finalmente  uma sanita só para ti e olhares para ela e teres vontade de fugir a 7 pés e de ir mijar atrás duma tenda qualquer.



Ahh!! Que saudades de gastares 2 pacotes de lenços de papel, e não deixares nem unzinho para o fim, e teres ficado naquele momento em que puxaste a cuequinha para cima com a clara ideia do que é ser-se incontinente.



Ahhh!! Que saudades, as de te sentires um odre de cerveja a rebentar pelas costuras e decidires ver a cidade do cimo da grande roda ! Qualquer perito forense teria um field day a colher infindas amostras de ADN de múltiplos dadores, anónimos mas com a característica comum de estarem todos a cair de bêbados.





Ahhh!! Que saudades, as de contribuires para a fluidez do chão da cabine que subia subia e rolava rolava, e de não teres qualquer tipo de lembrança da magnífica vista panorâmica sobre a cidade e o recinto.


Ahhh!! Que saudades de decidires "yodelar" como uma maluca "Ho-la-la-ee-ay-Ho-la-la-ee-ay", dares saltinhos ridículos e palmadas nas pernas, vá lá saber-se porquê... 



Ahhh!! Que saudades de desatares aos gritos feito uma histérica quando dois teutões, pesados e cabeçudos decidiram iniciar uma peleja com canecas vazias



Ahhh!! Que saudades de, tarde na noite, saíres do recinto e descobrires que te tinham rebocado o carro...


Ahhh!! Que saudades dos FDP dos Polizei que te obrigaram a ficar na esquadra enquanto os teus familiares foram levantar o carro ao parque dos rebocados ...


Ahhh!! Que saudades de os teres mandado para todos os lados que te lembraste com a certeza cobarde de que te não entendiam...


Ahhh!! Que saudades de poderes fazer estas merdas todas sem caíres para o lado logo a seguir....


Foi num Setembro, na festa de Outubro... Ahhh!! Que saudades !!



terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dar a volta... ao texto.

"Volta teu rosto sempre na direcção do sol, e então, as sombras ficarão para trás." - Provérbio oriental



Para trás, por trás, detrás, atrás....  tanto advérbio , tanta locução, tanta confusão.
Memofante ajuda mas não cura, e eu que ando meia esquecida, fico TÃO confusa.

Têm-me assaltado ideias paradoxais, desconchavadas, incoerentes, disparatadas....

Digam-me, por favor, porque do vosso parecer depende a manutenção da parca sanidade mental que me resta : 

- Sou só eu, ou a campanha para as autárquicas 2013 está um bocado ( um BOM bocado, até)  abichanada ???











 Pergunto : 

 Afinal quem é que está por detrás dum ( grande) homem ??


Vou "mazé" lá para dentro ouvir o Y.M.C.A.  para ver se me deixo de maluquices.

( Especialmente quando a última imagem me recorda a triste realidade da pedofilia e da padralhada)







segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Seguindo a Tendência...

"Dai-me um ponto de apoio e levantarei o mundo." - Arquimedes


Eu tenho os meus pés... não levantam o mundo, mas quase,  e são um excelente ponto de apoio.


Há cerca de um ano e tal perguntaram-me porque é que eu não escrevia. 
Assemelho-me constantemente a um personagem de uma telenovela mexicana : eu sou uma espécie stressada crónica,  de Floribella decrépita e meio caquéctica a quem tudo acontece, seja com doenças ( quais encomendas de catálogo) , seja no trabalho, seja em casa, às compras, em passeio, em caminho, durante as férias, sei lá... dia em que não aconteça nada é dia morto e tão raro como a queda dum meteoro em Lisboa.

 Bem que podia escrever sobre isso tudo ! Escrever é catártico! 

Eu , que não sou lá muito católica, não me confesso nem faço psico-terapia;  por vezes dou secas brutais aos interlocutores de ocasião, porque preciso de falar, de desabafar, de golfar as tensões acumuladas,traduzil-las em vocábulos e lançá-las borda fora, deixando a nave mais leve.

Escrevo sobretudo sobre nada em particular. Tenho bons escritos sobre viagens, férias, família, pouca ficção, alguma imaginação, uma pitada de humor.



 Nem sempre sou original mas, afinal o que é realmente a originalidade ? Até os deuses da blogosfera à falta de trunfo, jogam palha, palha produzida e enredada em locuções com inflexões linguísticas rebuscadas, mas ao fim e ao cabo, palha é sempre palha.

Escrevi este post para, como tantos outros  , explicar porque é que tenho um blog e o que é que me move, e para isso bastam apenas algumas linhas:

- Tenho o Blog porque me apetece ; tem dias em que sabe bem escrever e  há quem me leia e goste de ler. Pode parecer estranho, mas é a mais pura verdade. Recebo e-mails chocantes, de pessoas idiotas com palavras odiosas, mas recebo muitos mais, de gente que leu os quase 200 posts que escrevi , que gostou muito duma mancheia deles e que pede para contar mais .

- O que me move por enquanto ainda são os pés, que muito admiro, porque sendo eu estreita de tornozelo, asseguram a proeza de suportar este peso todo, dia após dia sem grandes lamentos.

E depois há a idade... e porque normalmente a antiguidade é um posto, eu, pessoa antiga POSTO !

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Long Life and Prosper


When I get older losing my hair,
Many years from now,
Will you still be sending me a valentine
Birthday greetings bottle of wine?

If I'd been out till quarter to three
Would you lock the door,
Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four?


(Lennon/McCartney)


A consciência da velhice é do caraças.
Não são só as rugas, os papos, as dores nas articulações, nas cruzes, nos intestinos insuflados como enormes balões de hélio... A perpétua irritabilidade, falta de vista, os esquecimentos, as brancas repentinas, a dislexia visual e verbal...
Todos os indicadores estão lá, bem à vista e temos que nos habituar a contorná-los, a conviver com eles, a levá-los para o trabalho, às compras, de férias, a passear. Faz parte do envelhecimento, faz parte da vida, faz parte de nós.

Se custa ? Então não custa ! A quantidade de coisas que temos que deixar de fazer, fazer de outro modo ou encontrar uma maneira soft de contornar, simplesmente porque o que é normal não funciona... normalmente.

Há uma coisa que é nós sabermos que algo não está bem, mas protelarmos indefinidamente a ver se passa ; há outra coisa outra que é  ouvirmos da boca de quem sabe das coisas , que não, que não passa e que há solução, mas não é a solução que nós queremos. Vade retro satanás !! Isso não !

E há ainda uma terceira coisa, que é ficarmos a saber que em vez dum problema, temos seguramente dois, eventualmente três, e que a solução a curto, médio ou longo prazo é a mesma;  que em vez de maldizermos a solução que não queremos, deveremos isso sim, dar graças a Deus por ela ainda existir e ter plena consciência que tratamos por tu o pior amigo de todas as soluções, um gajo chamado tempo.





A nós, as pessoas que estão vivas por dentro, cuja vontade é de ferro e a garra deveria ser de aço, resta-nos a consciência que a velhice não perdoa e agarrar com unhas e dentes a lucidez e o espírito que possuímos, ensinar-lhe a conviver com a  leprosidade do corpo e com todas os problemas e dificuldades that come with the territory.

Ontem olhava para a fonte dos meus tormentos, e com um sorriso cínico constatei que curiosamente adquiriu um trejeito de coisa de culto, muito próprio dum companheiro de muitas noites de Domingo, dos tempos em que tudo era são, em  não havia pacotes de TV com 200 canais e os computadores que faziam o mesmo que o meu faz agora, eram do tamanho do meu prédio. 


                       Long Life and Prosper

Assaltou-me a nostalgia, mas também constatei que, curiosamente,   já vem sendo um assaltante contumaz, tão recorrente como a saudade.

(Será que também acabarei por ficar com as orelhas em bico, devido a alguma gipose auditiva ou whatever, assim estilo elfa, que Vulcano faz-me lembrar o esquentador que também anda meio avariado....)



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Down the Memory Lane

Pobre memória, que só anda de marcha atrás - Lewis Carrol


Setembro sempre foi o meu mês de férias de eleição, assim como Portimão e Alvor os meus destinos de férias favoritos.

Naquele ano de 2001 tínhamos alugado um apartamento num condomínio fechado, com 2 piscinas, barbecue e relva verde e cheirosa all around,  à beira da Av. Comunidades Lusíadas, para podermos aceder à praia a pé.

Aquele dia amanheceu lindo, fomos para a praia como de costume, e como de costume, comigo sempre a lanzuar porque a Praia dos 3 Castelos era lá no fundo da falésia... descer era de somenos, mas depois subir no pico do calor... a minha índole de Drama Queen que não suporta escadarias fulgia logo pela manhã, bem cedo, mas já ninguém dava muita importância.




Quando eu digo bem cedo, refiro-me a uma hora compreendida entre as 8 e as 8:30h da manhã, horário mais tardio imaginável de chegada à praia, porque o Marido, qual senhor feudal das idas a banhos, mantinha-nos sob o seu jugo com mão de ferro. Quatro horas de manhã e 3 horas à tarde, ali ao minuto, ao segundo, tudo controladinho.

Maïtre de pequenos almoços como só ele, acordava-nos com um cheirinho maravilhoso de café acabado de fazer e pão acabado de torrar que nós, as damas, devorávamos acompanhados de tudo o que mais nos apetecesse, iogurtes, fruta, compotas, cereais... saíamos sempre bem dispostos e confortavelmente alimentados, apetrechados com tudo o que um banhista profissional deve levar e era fantástico, se não fosse toda aquela imensa escadaria , que até me fazia crer não ser, sem qualquer sombra de  dúvida, uma boa pessoa, pois se  até passava o tempo de férias a pagar promessas, arre !

Naquele dia voltámos a casa depois do meio dia, como era da constância diária. Os duches iniciaram-se por ordem  de etiqueta : Primeiro as senhoras - ou seja eu - que saltei para as saladas e grelhados e preparei a mesa para almoço, ao mesmo tempo que ligava a TV. 
Para além dos 4 canais generalistas, o apartamento estava ligado à rede satélite do edifício e tínhamos variadíssimas opções. 

Eu, para desespero do marido que adora ver as aberturas dos 4 Jornais Informativos nacionais, fazia alegremente zapping grelha fora.  

Parei na FOX News :" Olha, está a dar imagens em directo de Nova Iorque, do WTC a arder". Mudei para a RTP1 e não se falava em fogo algum. Voltei à FOX e aumentei o som da TV ( que era deplorável, diga-se de passagem) e continuámos a ver enquanto almoçava-mos, tentando perceber o que se estaria a passar. Falava-se num avião, mas não conseguiam ainda adiantar pormenores. Continuámos a olhar as imagens de helicóptero, do chão,de Jersey,  com a torre Norte a arder. " Foi um jacto" diz o Marido, pessoa entendida em aviões e no perigo de ter aeroportos quase dentro das grandes cidades com aviões a sobrevoá-las.



De repente, saído do nada, vê-se  outro avião e o embate na torre Sul. Ficámos parados a olhar as imagens, a olhar um para o outro, sem sequer mastigarmos. " Isto não foi por acaso, não pode ter sido acidente" diz o Marido. Telefonei de imediato para o Mano, mas as nossas FAPs não estavam ainda informadas qb para dar respostas... nem as deles, lá no outro lado do Atlântico no palco de toda a tragédia.

Claro está que nesse dia não houve mais praia para mim; ninguém me conseguiu arrancar de frente do monitor; tive medo, a sério que tive. Aquilo não era um filme; não tinha o Paul Newman nem o Steve Macqueen, por isso eu tinha a certeza que não ia acabar bem. 
E não acabou para tanta gente ! Pessoas que foram trabalhar alegres e bem dispostas, que não resmungavam com a família por causa de escadas ou de dá cá aquela palha, saíram e não tornaram a entrar. Tantos milhares... e nós vimos todo aquele horror, e o mudo não voltou a ser o mesmo.

O tempo passa, mas a memória não deixa esquecer.

Também sei exactamente onde estava no dia 25 de Abril de 1974 : às 8 horas da manhã estava a entrar para uma aula de Inglês no Liceu Rainha D. Amélia, completamente alheia ao que me rodeava. Não tive medo, mas o meu mundo não voltou a ser igual.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

The Roque


Music was my first love, and it will be my last.
Music of the future, and music of the past.  - John Miles



Quando eu era miuda, queria ser cantora de rock.

Como tantos milhares da minha geração, eu queria ser o Robert Plant,  o Ian Gillan, ou o Mick Box, ou até mesmo o Marc Bolan.




Imitava-os nos maneirismos que eu imaginava próprios dum rocker dos anos 70, quando nem discos havia por cá. Quem tinha parentes imigrados no estrangeiro era top notch, porque traziam na bagagem das férias um vinil encomendado duma banda de cabeludos que berravam coisas medonhas e cujo aspecto era de meter medo ao susto. 

Eu tinha o cabelo mais lindo deste mundo, sedoso e comprido até abaixo da linha de cintura, que a Mãe "acertava" meticulosamente com uma fita métrica e uma tesoura de pontas afiadas. Eu era rocker, YEAH!

Nunca me consegui perdoar quando me apercebi que tinha percorrido meia Europa ( 1  2  3  4 ) em 1970, e que podia ser Big Kahuna no Liceu e ter uma disco-teca brutal de 45rpm, 33rpm  e até 78 rpm, e que na inocência e ignorância dos meus 12 anos, não tinha comprado Nada, Népia, Pevas, ZERO !!!!!

Lá me iam deixando participar nos inner circles da popularidade, porque dizia de vez em quando umas coisas giras e tinha ideias brilhantes, e também porque era esforçada e trabalhadora, tinha boas notas, os professores gostavam de mim, participava em seminários, ia à opera... era assim um tipo de miúda que dava para os dois lados, mas fazer o quê ??? Todo o adolescente conhece o preço da aceitação.

Depois de 74 ouvia-se tudo, e o que até então era tabu  passou a ser vulgar. Quando com 16 anos fui a Londres, trouxe o que podia, mas ainda não conhecia grande coisa, para além dos mestres supra citados.

Trouxe o meu primeiro single dos Black Sabbath. "Changes" era uma belíssima balada.

Trouxe o LP do Jesus Christ Superstar.



Consegui decorar todas as "falas" de TODOS os intérpretes e já estava pronta para o meu one-girl-show onde eu me acariciava, ofendia, criticava, retorquía,  flagelava, chicoteava e crucificava a mim própria... Lembro-me que fui um fim de Semana com a minha Madrinha a Badajoz , e fui e vim TODO o caminho (que sem auto-estradas era longo e entediante) a cantar a minha produção musical. Penso que por falta de posteriores convites, a minha Madrinha, o Tio Jacinto e a Ratolas ( nome carinhoso da minha prima Cristina) ficaram em choque, e se não pararam para vomitar, foi porque não queriam prolongar por mais tempo aquele sofrimento atroz, a agonia que ia sentada no bando de trás, e não viam a hora de me largar na porta de casa. 

Quando tinha 15 anos, tive um namorado (que durou praí quase 2 anos)... daqueles dos 15 anos que se tem só porque é moda e que me desgostou tanto, que não tive outro até aos 18... e aí acabou-se o namoro.

Eu também não entendia o piqueno, que achava que me fazia um grande favor em namorar comigo, e quem sabe até fazia... não era para qualquer um levar a namorada a ver (Finalmente) o Jesus Christ Superstar ao cinema e aguentar que a dita cantasse o filme todo... mas TODO, com vários "chiu!'s" duma sala apinhada.

No fim, saiu de trombas e disse que eu desafinava que era uma coisa impressionante. 
E pronto: Adio, adieu, aufwiedersehen, goodbye...já foste. Com que então eu desafinava. Eu havia de lhe mostrar quem é que desafinava !!!  Eu, a Roque, a diva do rock a desafinar !!

Com a ajuda dum microfone e do gravador portátil de cassetes ( coisa inovadora), cantei o meu melhor repertório, fazendo as partes só musicadas tipo beatbox. Depois ouvi.

A música mudou através dos tempos, grandes grupos, sons notáveis, géneros fantásticos.
Eu continuei a adorar música. Todo o tipo de música, com preferêcias, claro, mas sem ódios de estimação.

Aprendi muito com a música. Aprendi principalmente a conhecer-me melhor, a ouvir-me primeiro e a tentar não tomar decisões ou dizer o que penso de cabeça quente ( ainda continuo a trabalhar nesse ponto).

É que agora gostava de poder deixar que as melodias me embalassem e trauteá-las baixinho, suavemente, sem desafinar.

( Hoje dei comigo a cantar baixinho o "Child in Time" ... só para mim, sem perigo de alguém destruir o momento, chamando-me à razão , perguntando-me qual era a música que eu estava a assassinar...)