quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Quando o Sonho comanda a vida...

" Nós somos do tecido de que são feitos os sonhos" - William Shakespeare









I have a dream


Can you IMAGINE ???





Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

 ( António Gedeão)



Hoje sonhei que a Síria era livre, as pessoas eram felizes e havia paz.

You may say I'm a dreamer, but I'm not the only one


"O Homem distingui-se dos homens. Nada se diz de essencial acerca da catedral se apenas falarmos das pedras. Nada se diz de essencial a respeito do Homem se procurarmos defini-lo pelas qualidades humanas." - Antoine de Saint-Exupéry





quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Minha Mão Esquerda

"A Mão que embala o berço, governa o Mundo " Abraham Lincoln



A minha mão esquerda não vale nada. 
Nunca quis ser ninguém na vida, nunca me quis ambidextra.
Nunca foi mais do que um animal de carga, uma besta de força; a esquerda punha e a direita dispunha... foi sempre assim...

Agora tornou-se uma coisa abjecta,  um apêndice sem qualquer utilidade dependurado do braço do mesmo lado.

Tem dias.... ontem foi seguramente dia não : não segurava nada. Não estava lá, não ligava qualquer importância aos impulsos com que o meu cérebro, já cansado de tanta fantochada, lhe comandava que fizesse e acontecesse.
A filha da mãe rebelou-se, tomou vontades próprias e agora só faz o que quer, ou seja, nada.



Não faz nada, não quer fazer nada, é uma inútil.

Qualquer pé esquerdo dum tipo com paralisia cerebral lhe dá grandes abadas, porque a vontade é uma força motriz impressionante, e a mandraça de vontades, não lhe conheço alguma.

Talvez seja a vingança, que sempre tarda mas não falha, dos enlevos , brios e apreços que sempre atribuí à minha mão direita, essa sim, minha grande amiga e companheira de muitos escritos, pinceladas, lavores e aventuras culinárias. Sempre dela me vali para todas as cosas importantes que tive que fazer ao longo da minha vida : Escrever as provas na escola com letra de mestre, colocar a aliança no anelar do Marido "naquele" dia, afagar os embrulhinhos chorões que me depositaram no regaço e que eram pessoas de mim, segurar a mão fria do meu pai durante o último adeus... 

Sempre desvalorizei a minha mão esquerda pelo que ela nunca conseguiu alcançar e por estar meramente no sítio em que Deus a pôs. 
Agora  continua no mesmo lugar, mas tão distante, tão dormente, tão insensível como se fosse decepada e exposta a público com a explicação " Eis quem nunca nada foi e hoje tudo revolve"

Quedo-me a pensar nas injustiças da justiça de cada um. Cada um advoga em sua causa e a minha mão esquerda sabe que me tem na mão e que me ganhou  de valor.
Porque é tão normal só darmos o verdadeiro valor às coisas, quando delas somos privados. E nós, os bichos humanos, somos exímios dispensadores de condescendências e indiferenças.



Mão morta, mão morta
Filhinhos à porta
Não tem que lhe dar
Dá-lhe com a tranca da porta
Mão morta, mão morta
Vai bater aquela porta

domingo, 18 de agosto de 2013

A Arder

"Jogo fogoso, jogo perigoso" - jogo e adágio popular





Continuando eu meio maneta  não podendo por isso dedicar-me de corpo e alma às actividades que mais me aprazem como a escrita, a culinária ou até a pirataria, não tenho deixado ultimamente quaisquer registos para a posteridade e não só, neste importante espaço de letras e outras sofias que é o Ditos & Escritos, para grande desalento dos meus assíduos leitores e seguidores, a quem eu peço coragem para atravessar estes tempos de grande míngua.


Escrever com uma só mão é muito chato, e se já com ambas me saíam aberrações ortoráficas de calibre de bradar aos céus, com uma só nem lhes conto a trabalheira que dou ao pobre corrector, que já me convocou para informar que em assim continuando, terei que repensar o seu mísero salário. 


Não fora a Minha Guerra, onde me apresento diariamente, maneta, tal qual um veterano da Grande Guerra com a manga vazia  do uniforme dobrada e presa por um alfinete de ama, nada teria que animasse os meus dias da modorra de Agosto. Na Minha Guerra, tédio é uma palavra que não existe, aliás o país devia de ir todo de visita guiada à Minha Guerra para aprender que tédio é uma palavra em desuso, só aplicável a coisas ou pessoas abjectas tipo Vitor Gaspar e outros homónimos, e que devia ser abolida do léxico da língua portuguesa.


Lamentavelmente, falar da Minha Guerra daria pano para mangas, e terá que ficar para uma altura em que possa usufruir de ambas as extremidades dos braços, ou tenha conseguido emprestada a mão biónica que o Luke Skywalker usou no capítulo final.


Em assim sendo, fico limitada às noticias que dominam o País: constituição e fogo.


Sobre a Constituição nem me pronuncio, porque o que é hoje, deixa de o ser amanhã e vice versa, e infelizmente há sempre dois pesos e duas medidas para quase todas avaliações de constitucionalidades. Sobre o fogo, mais uma vez o País está a arder; desde que tenho memória, que há fogos, grandes fogos a lavrar pelo país fora, e tantos anos passados, tantas descobertas merecedoras de Nobeis,  ninguém ainda cogitou como travar este  monstro calamitoso que rouba vidas a todos os seres que respiram e se atrevem a confrontá-lo.



Depois,  há outras ardências, menos tristes mas mais vergonhosas, a quem eu aconselho a leitura d ' O Fato Novo do Imperador de Hans Christian Andersen, e deixo no ar a pergunta,  se afinal the Wicked Witch of the West não terá morrido no fim,  para lá do arco íris,  e  estará por cá, alive and kicking, a apresentar o Jornal das 8 da TVI. Merece aquela expressão tão vulgar nos dias de hoje : "Eh Pah,Fogo !!!"


terça-feira, 13 de agosto de 2013

The Reader ... ou a melhor maneira de não me sentir maneta....


"Ver muito e ler muito aviva o engenho do homem." - Miguel Cervantes

... e da Mulher ainda mais, meu caro Miguel, porque afinal estas coisas são como são...



No rescaldo de mais um dia D, em que a minha pessoa " sugere" à família onde gastar os €€€ que à custa de tantos sacrifícios amealharam para me agraciar naquele "Dia de Festa" em que "cantam as nossas almas", e dada a minha recém adquirida condição de " maneta", qual nêmesis  dum qualquer fugitivo de 5ª categoria, aproveito os momentos pós- Guerra para tentar recuperar literalmente as forças, antes do próximo rescaldo.


Levantar cedo, cafézinho, iogurte e medicação, e do leito à leitura é um instante. Os chocolates da foto , bem, só lá estão para compor o ramalhete, claro...




Pena que a Guerra , a dor e o relógio estejam sempre presentes para me lembrar das minhas obrigações... mas é mais ou menos como diz o outro... " Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas"... Pena que não seja mesmo, nem um bocadinho , verdade...


sábado, 10 de agosto de 2013

Dia D... again...

"Life is like a box of chocolates you never know what you're gonna get" - Forrest Gump




E já é  dia D... again...

Mais um ano que voou nas asas dum beija flor... rápido demais...

Estou mais velha, mais sábia, mais cansada, mais sogra...

Dia D, a perseguir-me desde Mil e Novecentos e Cinquenta e    ... pois  





Hoje amanheci dolorida e prevejo um dia doloroso... vamos com calma...


E porque amanhã é outro dia, até lá !

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Se a minha cama voasse...

"A realidade é o funeral das ilusões." - Jean Cammerson



Ontem tive um dia/noite infernal na Minha Guerra. A maldita e insidiosa "dor nas costas", que não é a minha velha conhecida ciática de há muitos anos, atacou de novo, pérfida e traiçoeira, escolhendo criteriosamente os momentos da investida, cada vez com mais intensidade e de tal modo incapacitante, que me retirava todo o ar , entontecia e deixava a arfar.
Depois de dois ou três episódios mais bizarros, um dos meus soldados alvitrou que poderia até ser aquela "coisa dos alfinetes", o que me arrancou da modorra da dor e me tornou bem mais bem disposta, só à ideia de alguém me estar a supliciar com voodoo.

 Ó triste do que pensou ser Deus e poder construir uma D à  imagem e semelhança da original! Não terá seguramente a vida facilitada praticando tal ritual numa espécie de melancia elíptica, com cabelo num dos pólos, e onde encontrar a zona do pescoço seria uma aventura !


Tornada à minha morada tarde na noite, toda a casa dormia e até os mafarricos dos gatos que me costumam saudar assim que ouvem a chave no ferrolho, estavam certamente a preguiçar por algum canto, pois deles nem sombra.
Fiz o meu melhor número de contorcionismo para chegar bálsamo à zona cervical onde a medonha se acomodara, e com a ajuda dos suspeitos do costume, todos com nomes estranhos e princípios activos milagrosos, preparei-me para uma noite de sono e descanso.

Acordei estremunhada e corcunda, puxando e sacudindo vigorosamente cordas presas a campânulas do tamanho de casas, no meio dum barulho ensurdecedor.
"Ena", pensei para comigo, " se não fosse a marreca, até que não estava mal de todo ! Braços musculados, sem vertigens... panaceia desta, é para ter futuro chez moi !"

Mandando a deficiência para trás das costas, pus-me a observar o Mundo de onde me encontrava e gostei do que vi. Era alácre e colorido com espirais e cornucópias que desaguavam em brilhantes pontos de água límpida como lágrimas, que corriam para um imenso mar dum azul tão puro que se diluía no céu.





Era maravilhoso o Mundo visto lá de cima, donde eu estava. Fez-me sentir feliz. Fez-me querer sentir as coisas belas que via, fez-me querer tocar a felicidade com a ponta dos dedos e aspirar profundamente o seu aroma. Fez-me querer descer lá do alto de braços abertos para tudo poder abarcar enquanto abraço houvesse.

E desci balançando suavemente na brisa, sem perceber que à medida que o chão subia de encontro aos meus pés, se aproximavam nuvens cinzentas que ameaçavam embaçar a luz.

Quando pisei terra firme, a surpresa e o desencanto. A realidade não era um caleidoscópio de cor, era bem mais cinzenta, triste e suja. Ver o Mundo de cima é um embuste, um logro, uma deturpação do real.
A maior tristeza é que muito há quem olhe tudo de cima e nunca consiga abranger nem uma ínfima parte da verdadeira natureza da vida.

A bossa começou de novo a doer. Abri os olhos para o mostrador do relógio, eram 6 horas, já havia luz e o alarme dum carro estacionado no parque tocava incessantemente. "Assim não dá"... busquei novamente os suspeitos do costume e voltei a adormecer esperançosa de poder alcançar de novo aquele pináculo alternativo onde tudo era bom.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

MEL - A Mel Voltou para casa ou o regresso ao futuro !!!

Ser perseverante deu frutos, e a Mel voltou para casa !!!

A Sexo e a Idade vai contar esta desventura aventurosa da sua menina no Blog dela!

Obrigada a todo/as os que partilharam, não desistiram e ajudar a Mel a voltar para casa.





A Mel está em casa, com a sua família, feliz graças a quem nunca desistiu !.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A shot through the head, and you're to blame....


"Há quem prefira falar mal de si 


mesmo a não falar."- La Rochefoucauld



... you give patience a bad name...


Há já muitos anos fui com o meu pai ao cinema ver um filme espectacular com o Jacques Brel e o Lino Ventura, chamado "L'Emmerdeur ", traduzido ad lib como "O Chato".







  O filme contava as desventuras de M. Milan, um temido hitman low profile, depois de travar conhecimento com Pignon, um fatigante e inoportuno maçador da pior espécie, daqueles tipo cola, que não despegam nem se calam.


A fita vem-me à ideia bastas vezes, não só pela companhia do pai, por recordar o seu riso e por "M. Milan" ter ficado na família como private joke e sinónimo de chato, quando afinal o chato era o outro, mas também pela mensagem do filme de que no good deed goes unpunished.


Dias há, quando a paciência é posta à prova horas a fio e  é absolutamente necessário manter a calma porque é imperativo estar-se concentrado e atento, em que fecho os olhos e vejo o meu pai a sorrir e a dizer-me "M. Milan, M. Milan !! ", e eu respondo " Porra, este é mil vezes pior, pah", mas pronto, gaja que é gaja com pelo na venta, se não tem a capacidade de desligar, está desgraçada, por isso vou mentalmente aquele disjuntor que as mulheres possuem , baixo uma fase e continuo a minha vida, ciente que continuarei com o chato em música de fundo e que a opereta que interpreta dia após dia ainda vai só no primeiro acto, só que eu já desliguei.



   A todos os M. Milan's desta vida... e que são TANTOS...



sábado, 3 de agosto de 2013

Criança que fui e mulher que sou ... e nada mudou...


"É possível viver quase sem lembranças e viver feliz, como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer." - Friederich Nietzsche







Como leitora assídua que sou de bons blogs, encontrei num deles  um post giro, ilustrado com  um postal que me trouxe gratas recordações dos meus teens.

Revisitar a adolescência nem sempre é boa ideia, porque não foi seguramente a época mais feliz da minha vida, nem de tantas vidas de tantas gentes. Os adolescentes são difíceis, incompreendidos e muitas vezes incompreensíveis e só conseguem verdadeiramente interiorizar essa realidade através da travessia da juvenilidade dos seus filhos e dos seus netos.


Exorcizar os demónios e caminhar ao mesmo tempo é um excelente exercício físico e também mental, podem crer que é...
Hoje resolvemos caminhar ( bastante), fomos reviver o passado e fomos ver mais mar.


Nunca me canso de ver o mar. É uma daquelas paixões assolapadas, o mar. O cheiro da maresia dá-me força e alegria e o som da rebentação das ondas é uma sonata com ritmo e velocidade encantadores.
A cor é duma beleza sem igual cheia de cambiantes e nuances que quando tocam no céu se envolvem nas mais perfeita simbiose da natureza.

O que viste tu, D , por detrás dos teus óculos à aviador ???
















Foi um passeio magnífico pelo passado, pelo presente, pelas lembranças e pelo esquecimento. 


Foi lindo.


Recomendo