segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Do Deserto

No deserto
acontece a aurora.
Alguém o sabe -  Jorge Luis Borges






 No deseto

A Morte Chega Cedo
A morte chega cedo, 
Pois breve é toda vida 
O instante é o arremedo 
De uma coisa perdida. 

O amor foi começado, 
O ideal não acabou, 
E quem tenha alcançado 
Não sabe o que alcançou. 

E tudo isto a morte 
Risca por não estar certo 
No caderno da sorte 
Que Deus deixou aberto. 













(Fernando Pessoa)

                                          I


Aos Jovens que pereceram no Meco, roubados à vida na flor da idade e que deixaram para trás um oceano de lágrimas mais profundo do que aquele que os colheu.



II

Cresci com um Pai que adorava cinema. Gostava tanto de Godard, como de John Houston, Truffaut e Fellini, como de Capra todos os Natais e Robert Wise nas férias da Páscoa no Tivoli, anos a fio, até ao advento do VHS.

Vi estoicamente as três horas e tal do Lawrence da Arábia, um filme políco-socialmente avançado uns degrausinhos a mais para os meus 14 anos, mas adorei. 
Gastei  quase 2 contos (!!) que juntei arduamente a pintar cabeças de cão e de cavalo em almofadas de cetim e entregar fatos às Madames do Restelo, a quem as mãos de fada da Mãe transformavam em verdadeiras senhoras de sociedade, num VHS original, e obriguei toda a família e amigos a ver o filme comigo... diversas vezes.
Metade do nome do  meu primeiro animal de estimação o Omar Lombrando, foi em homenagem a interpretações fabulosas de actores magistrais.
A limpidez de mar nos olhos de Aurens contrastava com a pele escura e o olhar cínico de Sherif Ali, naquele lugar onde tudo era tão dourado como o cabelo do Peter O'Toole.



Peter O'Toole deixou-nos hoje.
Mais um ícone da 7ª arte a quem o tempo acaba por vencer, porque afinal é assim que as coisas são: o ciclo é para completar desde o minuto em que inalamos a primeira golfada de ar.
E o Mundo como o conhecemos vai ficando mais deserto, uma vida de cada vez.


Farewell, old chap. Ta ta.


10 comentários:

  1. Como sempre uma muito adequada relação entre o poema, a citação de J.L.Borges, e o teu texto.
    Tudo tão bem relacionado para falar da debandada da vida destes jovens sorvidos pelo mar na idade de todas as promessas, e de um velho actor com uns olhos azuis incandescentes que tanto brilharam no deserto de "Lawrence da Arábia".
    Farewll para todos eles, que a nossa hora poderá estar sempre mais próxima do que imaginaríamos.
    Ah! Adorei essa do "Omar Lombrando"!!... Que bom gosto!...;-)
    xx

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    1. Viva Laura. Nem quero imaginar o Natal das famílias dos garotos. Há quem passe grandes necessidades para sobreviver sempre, é um facto, mas perder um filho, não quero sequer imaginar a amplitude da dor.
      O Peter era um castiço, um actor old school e o Omar Lombrando um bittersweet e insolúvel mistério.
      Boa semana e um beijinho. D

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  2. Estou consigo MD. Não dá para imaginar a dor de quem perde um filho, assim ou de modo for.
    Beijinhos.
    Ana Maria

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  3. A morte, visita tão natural como o nascimento.

    Embora sejam génese de sentimentos opostos são parentes bem chegadas.

    Chego a pensar que são mãe e filha.

    O Peter já tinha alguma idade sem ser velho.

    Os jovens foram vítimas das inconsciências próprias da idade.
    O mar é traiçoeiro e deve-se manter distância bem grande nesta altura do ano e na zona que foi.

    Tragédias irrecuperáveis.

    Beijinhos e que cada segundo conte.

    'Carpe Diem'.

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  4. Estás certa, Pérola, mas um pai não deve sobreviver a um filho, é a lei que os homens criaram para a vida.
    Vou esperar para ver o que a madrugada me trará... Ultimamente só pensamentos deprimentes. Beijinhos e obrigada. D

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  5. Realmente, um ícone se foi... mas a sua obra permanece. Bela homenagem! Boa semana, feliz Natal!

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    1. Viva Árabe, bem vindo. Quase sempre é difícil dissociar o homem da obra. Por muitos milhares de representações que tenha feito, será sempre lembrado como o Aurens. Está em paz. Retribuo votos de Festas Felizes. Obrigada. :):)

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É aqui que me mandas dar uma curva