segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Cai neve em Nova Iork, - versão Cai chuva em Belém e arredores

"Chuva civil não molha militares" - Adágio Popular


Vou até à Minha Guerra, para fugir à aguada
Com chuva de molha Tolos
Não sei se acabo molhada





No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,

e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor

(H.Helder)

10 comentários:

  1. Pois a chuva molha tolos já me molhou imenso hoje.

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  2. E a mim! ... perdi um tempão com o cabelo e agora pareço um rata de esgoto...

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  3. Herberto, as mães, a chuva, Vivaldi: porque o Inverno é uma estação perfeita -- nas suas agruras: afinal, que melhor metáfora para a nossa existência que a diversidade do Inverno?

    Boas Festas cara M D :)

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    1. Pode parecer estranho, mas prefiro um Inverno de rachar a um Verão de abafar. Obrigada X . Retribuo.. Um beijinho. :):)

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  4. Oi, tudo bem?
    Que belo poema! A chuva é redentora mas costuma nos fazer umas surpresinhas nada agradáveis. Muito bonito seu espaço. Vim retribuir e agradecer tua visita.
    Um feliz e abençoado natal para vocês e seus familiares.
    Beijos
    Gracita

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    1. Viva Gracita, bem-vinda e muito obrigada pela visita . Que bom que gostou !!
      Faço meus os seus melhores votos de Bom Natal. Saúde, Paz e um grande beijo da. D.

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  5. "E por dentro do amor, até somente ser possível
    amar tudo,

    e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor"

    Porque o amor, se é amor, tudo contém.

    Boas Festas, MD! Beijinhos Marianos Natalícios! :)

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    1. “Mas penso que tudo isto é uma interminável preparação, uma aproximação. Porque o prestígio da poesia é menos ela não acabar nunca do que começar. É um início perene, nunca uma chegada seja ao que for.”


      Montanhas de votos de Bom Natal, com muita saúde e paz, Maria. Um beijo grande da D.

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  6. Respostas
    1. Minha Gaja querida , retribuo votos de bom Natal. Saúde e Paz. Obrigada e um grande beijinho. D

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É aqui que me mandas dar uma curva