quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

As Luzes e o Escuro


"De noite os defeitos se ocultam." - Ovídio


A Noite É Muito Escura


É noite. A noite é muito escura.
 Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.

Que me importa que o homem continue a existir?

(Alberto Caeiro)






Andar à noite, a pé pela cidade vazia, sem gente apressada, zangada, suada, que corre, que bufa, que grita, que cheira a cansaço e naftalina.

Há quanto tempo ? 

Passeios a pé à noite são  mitos urbanos do meu ponto de vista: é do que se fala que existe, mas eu nunca experienciei.

Época natalícia com mais cor que agrada à vista e à visão da perspectiva de quem é quase virgem nestas novidades de caminhadas nocturnas.


A escuridão não existe ali, no centro do luxo e da alta finança. As montras são apelativas, faustosas, magnificentes. Reina a opulência do bom gosto, ali onde a escuridão não existe. 
Não existe nem  para quem passa, para quem faz caminhadas nocturnas por pura diversão.



Mas está lá, debaixo das arcadas, debaixo dos cobertores rotos, dos sacos de plástico atados com nós, debaixo do papelão, a escuridão gelada não aquece a noite nos que dormem na rua da elegância e da sumptuosidade. Enrolados nos seus casulos, são a vergonha de quem por eles passa e vira a cara. Passo e baixo os olhos para as folhas do chão que se enrolam debaixo dos meus pás.

                São a minha vergonha também .



16 comentários:

  1. São a vergonha de qualquer pessoa, de qualquer governo, de qualquer país. Só podemos ajudar com voluntariado e contribuições, e só alguns de nós. Beijinhos D.

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    1. Querida Luisa, se nem o Rabi da Galileia conseguiu o milagre, não tenho a veleidade de me achar o paradigma da Salvação. Mas custa. É um sentimento de culpa que oprime todas as vontades, culpa, da minha vida trabalhosa mas confortável e de tantas vezes me sentir indiferente perante as injustiças do Mundo. Obrigada e um resto de boa tarde.

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  2. Uma vergonha sofrida.
    Os contrastes da humanidade.

    De repente até fiquei sem vontade das luzes natalícias.

    beijinhos luminosos.

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    1. As luzes já foram iluminações de Natal, agora são produtos de designer, e uma coisa estranha de se ver. As festividades natalícias vão chegar ao fim, mas a vergonha, não. Beijinho Pérola, reto de Bos tarde. :):):)

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  3. São a vergonha do país insensível em que vivemos, pois aumentam dia a dia...e nem as luzes natalícias os "aquecem"!!!

    Beijinhos.

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    1. Se é diro que Natal é quando um homem quise, afinal um homem quer, ou não quer? É que se quiser, tem apoio de milhares....basta querer. Obrigada e um beijinho, Mona Lisa.

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  4. Olá !! isso é para refletirmos,desejo uma noite de paz pra você.
    Com carinho.
    Passa lá.
    http://reginalayddepaz.blogspot.com.br

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    1. Obrigada Layd! Uma noite santa também para si. Beijinho

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  5. Gostei de passar por aqui.
    Li e reli esta publicação que achei interessante.
    Cumprimentos
    http://umraiodeluzefezseluz.blogspot.com

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    1. Olá Tómanel, bem-vindo. Infelizmente é a dura realidade. É quase ver para crer, e sentir como nos toca no fundo. Obrigada e um abraço !

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  6. É de noite que vimos como é a nossa cidade é uma vergonha, obrigada pela visita lá no meu blog também já estou seguindo também aqui, beijos.
    http://www.lucimarestreladamanha.blogspot.com.br

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  7. Viva Lucimar, Bem vinda. Costumava dizer-se que de noite todos os gatos são pardos, mas há locais em que o contraste é gritante demais para um gato pardo passar despercebido. Beijinho e obrigada. D

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  8. Uma magistral relação entre o poema de A. Caeiro e o teu texto.
    Luzes e escuridão, celebração, consumismo e indiferença. No fundo, os que dormem na rua da sumptuosidade são uma vergonha para todos nós. Uma realidade que continuará a existir independentemente de ser natal ou não.
    xx

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    1. Olá Laurinha, obrigada. Beijinho !

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  9. Olá. Venho retribuir a sua amável visita lá no meu cantinho. Já me registei, como Berço do Mundo (sem avatar). Virei visitá-lo mais vezes.

    Um abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo
    http://bercodomundo.blogspot.pt/

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    1. Viva Ruthia e bem vinda. Eu sou Uma D :), e obrigada pela visita !! Beijinho :)

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É aqui que me mandas dar uma curva