quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O Cochicho e a Menina.

"Rostos animados...Tomar duche, nadar... Sapatos cómodos ...Música nova, escrever, plantar, Viajar,  cantar,  ser amável." 
Bertolt Brecht






Viemos do fundapique 

passámos no tudasaque 
não há mal que mal nos fique 
nem há cu que não dê traque 
mal a gente vem ao mundo 
logo a gente vai ao fundo 



[refrão] 

Natação obrigatória 
na introdução à instrução primária 
natação obrigatória 
para a salvação é condição necessária 
não há cu que não dê traque 
não há cu que não dê traque 
mal a gente vem ao mundo 
logo a gente vai ao fundo 






Encontrei uma colega de escola. É uma espécie em extinção, essa das colegas de escola, especialmente quando somos pessoas algo antigas, não clássicas peças de museu, claro está, mas peças daquelas que ainda se adquirem por um valor considerável numa reconhecida loja de antiguidades,  em S. Bento, por exemplo.
Falámos de coisas que tinham tanto pó e teias de aranha, que foi uma risota conseguir dar-lhes o antigo brilho. 

Como crianças de 7 anos se divertiam com ...nada... é uma verdade prodigiosa !

Lembrámo-nos da natação, que como diz a letra da música, era obrigatória, na instrução primária, isto nos externatos particulares. Uma piscina na altura era o expoente máximo da riqueza e do estatuto social de alguém. 
Os afortunados de Belém /Restelo que podiam pagar, tinham acesso a um lago, tina, qualquer coisa com água e peixes, que devido à sua densidade e cor, era carinhosamente apelidado de "Caldo Verde" 


Foi lá que aprendi a nadar primeiro a bater pés agarrada a um varão, depois com uma tábua, com um cinto... 
O professor de natação era um rapagão bem constituído que fazia as delícias das sopeiras e das amas e que dava pela alcunha de "Cochicho".Tinha um ponteiro de bambu comprido com que nos batia nos braços, nas pernas e na cabeça, quando não conseguíamos sincronizar os movimentos com as respirações.

Nos padrões de hoje o Cochicho era um espectáculo... pessoalmente, sempre o achei feínho, como qualquer menina de 9/10 anos, para quem os padrões de beleza masculina eram os ternurentos e bochechudos querubins de olhos azuis que revestiam as pinturas religiosas espalhadas por todos os recantos de todas as igrejas modernas para aquela altura.

Como já tive ocasião de contar num post anterior, todos os Domingos de manhã, em jejum e de cabeça coberta, tínhamos aulas de catequese que culminavam com a confissão a um padre, depois a missa e a comunhão.

Num desses dias depois da aula, diriji-me ao  genuflexório bafiento e gasto que tinha ficado livre, e depois do "Padre , perdoe-me porque pequei", lá comecei a contar a minha semana ao indvíduo para lá das ripas de madeira. Acabada a confissão, soa uma voz aterradora, profunda e trovejante que me diz, " E o Cochicho, Menina, o que é que tem a dizer sobre o Cochicho ?" Morri.

O "Drama , o horror" ... a vergonha, o medo. ... não sei explicar... só podia ser Deus, porque nunca vira um padre na natação !!! ... e eu que até nem achava grande piada ao Chochicho !
 Aterrorizada, desatei num pranto, e foi necessária a intervenção da catequista para me tirar dali, levar para casa e entregar-me aos meus pais, informando-os da penitência em Padre Nossos, Ave Marias, Salve Rainhas, e que falassem comigo sobre os pecados mortais.

Assim que terminei os catecismos e as comunhões obrigatórios para completar a escolaridade imposta pelo regime, excepto em ocasiões de casamentos e baptizados, não voltei à igreja. Terminei com o jugo do medo, mas as cicatrizes morais, essas acho que nunca desapareceram.

A colega foi embora em abraços e lágrimas de saudade, e eu quedei-me em pensamentos a cogitar no Cochicho, de quem nunca soube o verdadeiro nome.


 

14 comentários:

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    1. É absolutamente verdade, Diana. Temos memórias de momentos sublimes, outras menos boas, outras ainda, muito muito más. Mas umas sem as outras não conseguem completar o todo, o conjunto de experiências a que chamamos existência. Um a boa noite Diana, um beijinho e obrigada.

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  2. Adorei este post. Que delícia de memória ! Verdadeira a história do lago/tanque verde e com peixes feito piscina?

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    1. Absolutamente! Era explorado pelo Clube de Futebol Os Belenenses até há cerca de 20 anos, até as piscinas do Estádio do Restelo ficarem prontas :D:D

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  3. Que delicia de recordações!
    Pois eu foi também num tanque que aprendi a nadar; nos bombeiros da Graça.
    Às vezes ficava esverdeado mas não tinha peixes; tinhamos uma prancha de mergulhos e vários monitores. Dos meus favoritos eram o Galvão e o Caramelo (um o mais bem disposto e o outro o mais permissivo - as meninas mais crescidas suspiravam por eles), mas o meu coração pertencia ao CMT Bastos, esse sim, bastante mais velho, exigente e rispido até, mas uma palavra dele (é assim mesmo miúda; bate os pés, bate os pés) e eu subia aos céus (acho que o via como um avô querido)!

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    1. Hoje tive um dia giro :):) As memórias são do caraças... :D:D Beijinho

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  4. Acredite que há muito não me ria assim. Vi-me a fazer quase tudo e ver quase as mesmas coisas (risos).

    Gosto de ter chegado aqui!

    Beijo

    Laura

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    1. Viva Laura. Obrigada e um grande beijinho . :D:D:D

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  5. E imagina-se o senhor prior com um livro de deve e haver onde anotava, como na alfândega, quem tinha, ou não "cochichado." Belíssima história -- com os detalhes de cor e ambiente como os do "caldo verde" e o genuflexório bafiento -- que nos iluminam imediatamente a memória. E para quem conheceu as músicas da Banda do Casaco, a natação é, de facto, obrigatória.

    Boa noite, M D :)

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    1. Obrigada Señor X. Beijinho e uma boa noite para si também :):)

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  6. Recordações que marcaram! : )

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    1. Viva Catarina !Foram realmente marcantes, umas mais gratas do que outras, mas todas compondo o grande ramalhete da minha história de vida. Beijinho, obrigada e uma boa noite

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  7. Mas que recordação interessante de ler... as marcas que te deixaram e o reencontro com a colega... que texto incrível!!

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    1. Olá Fernanda e bem vida à minha girândola ! Com as ideias em constante movimento, nem eu sei o que vem a seguir. Gosto muito de escrever sobre a infância, porque por algum tempo regresso à época em que fui verdadeiramente feliz. Tenho vários contos de antigamente aqui pelo arquivo da lembrança. Obrigada e espero- a na próxima memória !! Beijinho . D

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É aqui que me mandas dar uma curva