sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Duetos improváveis - Um conto de amizade .


"A amizade é uma alma com dois corpos."
Aristóteles






 Feather




Ela era uma Menina: sempre com as boas maneiras de senhorinha que lhe ensinaram mal começou a andar,  comportava-se como os outros adolescentes da sua geração, estudava com afinco, tinha notas razoáveis, era elegante, vistosa, engraçada e espirituosa. Falava umas poucas de línguas estrangeiras, adorava ler, ouvir música, viajar e...cantar. Tinha na família a sua rocha o seu porto seguro; era o seu primeiro mandamento, o seu maior valor.Teve uma infância feliz, uma juventude sem agruras, sempre tratada com desvelos pela Avó que adorava, sempre habituada a lutar pelo que queria, permanentemente inundada pelo fogo das grandes causas, que tantas vezes era apenas uma pequena e fugaz chama. Tinha grandes sonhos e como todos o sonhadores , esperava um dia conseguir lá chegar , aquele lugar mítico onde os sonhos se tornam realidade.




Ele era um rapaz sofrido, trabalhador, sem mais instrução do que aquela que conseguiu estudando à noite com vontade e afinco, quando chegado à grande cidade, só e assustado, na inocência dos seu 12 anos, arrancado ás saias da mãe, aos mandos do pai, à lavoura e aos ensinamentos dos padres. Era o trabalho ou o seminário. Era Deus ou fazer-se homem para encher o rol dos que iriam servir no Ultramar, combater numa guerra contra os "Terroristas", devoradores de juventude e destruidores de famílias,  que conheciam tão bem como ao demo, o ladrão de almas. Embarcavam carne para canhão que mantinha o império das megalomanias loucas de homens insanos. A sua noção de família era correr pelos campos imensos, mungir as vacas, comer parcamente depois da reza e ir à missa com as melhore socas, porque sapatos só soube o que era quando veio quase de cueiros trabalhar de marçano.
Deu-lhe Deus ou a natureza feições delicadas de adónis e voz calorosa e baixa, o que tornou a sua adaptação à vida nova menos penosa. Teve a sorte de encontrar patrões que lhe quiseram bem e que o ajudaram a suprir a  adolescência que não teve, porque era o seu próprio provedor, o seu único sustento com a idade de 13 anos, quatro anos de escolaridade e zero de conhecimento do mundo.


Foi em 1977, três anos após a reviravolta, que se conheceram. Ele já não era um triste bicho do mato, envergonhado e sempre metido consigo. Desabrochara, expandira os horizonte, valorizara-se, conseguira sozinho aquele H maiúsculo que todos os homens perseguem , mas poucos conseguem alcançar. Ela estava mais calma, mais triste, mais desiludida. Tinha guardado os sonhos na prateleira de cima à espera de melhores dias. Muros tinham-se erguido, ídolos tinham caído, ideias e ideais tinham morrido. A paciência nunca foi uma das suas virtudes, mas sempre fora uma boa aluna e aprender a ser paciente foi uma arte que foi gradualmente desenvolvendo e creio que a aprendizagem  contínua se manteve até aos dias de hoje.
Duas pessoas mais diferente, seria difícil encontrar. Ele era verde, ela era azul. Ela era de direita, ele de esquerda. Ela gostava de teatro, filmes, livros e banda desenhada, ele não tinha paciência para essas coisas: gostava de ar livre, de desporto, de bricolage, de toda a actualidade a nível mundial, sorvia as notícias avidamente, e como em qualquer esponja seca, o conhecimento encorpava e ganhava volume; dava cartas em qualquer debate sobre qualquer matéria que se propusesse.

Casaram em 1980, numa igreja linda, com uma música linda, cheia de gente linda, tiveram 2 filhas lindas, e uma vida linda ? Bem vistas as coisas, pode dizer-se que sim ... Não moravam na Ilha da Fantasia, trabalhavam de sol a sol, sobreviveram a todos os tsunamis sociais, pessoais e familiares, construíram pedrinha a pedrinha a sólida e anti sísmica base em que alicerçaram a sua família moldando valores seguros, deixaram-se de paixões explosivas e criaram a mais profunda e sólida amizade do mundo, daquele seu mundo muito especial onde cada um deles é uma força motriz e em que só a união de ambos cria a força conjunta em que, como diz o poeta, "o Mundo pula e avança, como bola colorida, entre as mãos duma criança."





Faz hoje às 12:30h  33 Anos. Parabéns, meu querido, meu velho, meu amigo, quero-te comigo sempre, e feliz, muito feliz.






10 comentários:

  1. Um conto que no século XXI pode ser considerado ficção fantástica. Muitas felicidades MD, durante muitos anos, sempre em boa companhia :)

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    1. E eu sei que sou uma pessoa difícil e rabugenta. Obrigada Luísa. :):)

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  2. Que emoção e comoção.

    Uma história digna de livro.

    Parabéns e que a amizade persista como a mais perfeita e linda forma de Amor!

    Beijinhos a ambos!

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    1. Versão soft e cut. Uma história daquelas ao melhor estilo Neverending. Beijinho Pérola e obrigada :):)

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  3. A minha História é tão banal mas também é linda. Felicidades.

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  4. Histórias de vida nunca são banais, porque são as nossas próprias histórias. Podem parecer trivialidades para muitos, para para quem as viveu foram tremendamente importantes. Escreveram capítulos dum livro que ainda não termjnou. Beijinho :)

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  5. A história de duas pessoas que decidiram escrever a sua história, sem que ninguém a escrevesse por eles. E na escrita mútua, escreveram felicidade.

    Muitos parabéns M D :)

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  6. A felicidade constrói-se pedaço a pedaço, e até a alcançarmos ainda teremos uma longa estrada a percorrer, mas creio que vamos no bom caminho. Obrigada, Señor X, boa noite e BFS.

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É aqui que me mandas dar uma curva