quarta-feira, 4 de setembro de 2013

The Roque


Music was my first love, and it will be my last.
Music of the future, and music of the past.  - John Miles



Quando eu era miuda, queria ser cantora de rock.

Como tantos milhares da minha geração, eu queria ser o Robert Plant,  o Ian Gillan, ou o Mick Box, ou até mesmo o Marc Bolan.




Imitava-os nos maneirismos que eu imaginava próprios dum rocker dos anos 70, quando nem discos havia por cá. Quem tinha parentes imigrados no estrangeiro era top notch, porque traziam na bagagem das férias um vinil encomendado duma banda de cabeludos que berravam coisas medonhas e cujo aspecto era de meter medo ao susto. 

Eu tinha o cabelo mais lindo deste mundo, sedoso e comprido até abaixo da linha de cintura, que a Mãe "acertava" meticulosamente com uma fita métrica e uma tesoura de pontas afiadas. Eu era rocker, YEAH!

Nunca me consegui perdoar quando me apercebi que tinha percorrido meia Europa ( 1  2  3  4 ) em 1970, e que podia ser Big Kahuna no Liceu e ter uma disco-teca brutal de 45rpm, 33rpm  e até 78 rpm, e que na inocência e ignorância dos meus 12 anos, não tinha comprado Nada, Népia, Pevas, ZERO !!!!!

Lá me iam deixando participar nos inner circles da popularidade, porque dizia de vez em quando umas coisas giras e tinha ideias brilhantes, e também porque era esforçada e trabalhadora, tinha boas notas, os professores gostavam de mim, participava em seminários, ia à opera... era assim um tipo de miúda que dava para os dois lados, mas fazer o quê ??? Todo o adolescente conhece o preço da aceitação.

Depois de 74 ouvia-se tudo, e o que até então era tabu  passou a ser vulgar. Quando com 16 anos fui a Londres, trouxe o que podia, mas ainda não conhecia grande coisa, para além dos mestres supra citados.

Trouxe o meu primeiro single dos Black Sabbath. "Changes" era uma belíssima balada.

Trouxe o LP do Jesus Christ Superstar.



Consegui decorar todas as "falas" de TODOS os intérpretes e já estava pronta para o meu one-girl-show onde eu me acariciava, ofendia, criticava, retorquía,  flagelava, chicoteava e crucificava a mim própria... Lembro-me que fui um fim de Semana com a minha Madrinha a Badajoz , e fui e vim TODO o caminho (que sem auto-estradas era longo e entediante) a cantar a minha produção musical. Penso que por falta de posteriores convites, a minha Madrinha, o Tio Jacinto e a Ratolas ( nome carinhoso da minha prima Cristina) ficaram em choque, e se não pararam para vomitar, foi porque não queriam prolongar por mais tempo aquele sofrimento atroz, a agonia que ia sentada no bando de trás, e não viam a hora de me largar na porta de casa. 

Quando tinha 15 anos, tive um namorado (que durou praí quase 2 anos)... daqueles dos 15 anos que se tem só porque é moda e que me desgostou tanto, que não tive outro até aos 18... e aí acabou-se o namoro.

Eu também não entendia o piqueno, que achava que me fazia um grande favor em namorar comigo, e quem sabe até fazia... não era para qualquer um levar a namorada a ver (Finalmente) o Jesus Christ Superstar ao cinema e aguentar que a dita cantasse o filme todo... mas TODO, com vários "chiu!'s" duma sala apinhada.

No fim, saiu de trombas e disse que eu desafinava que era uma coisa impressionante. 
E pronto: Adio, adieu, aufwiedersehen, goodbye...já foste. Com que então eu desafinava. Eu havia de lhe mostrar quem é que desafinava !!!  Eu, a Roque, a diva do rock a desafinar !!

Com a ajuda dum microfone e do gravador portátil de cassetes ( coisa inovadora), cantei o meu melhor repertório, fazendo as partes só musicadas tipo beatbox. Depois ouvi.

A música mudou através dos tempos, grandes grupos, sons notáveis, géneros fantásticos.
Eu continuei a adorar música. Todo o tipo de música, com preferêcias, claro, mas sem ódios de estimação.

Aprendi muito com a música. Aprendi principalmente a conhecer-me melhor, a ouvir-me primeiro e a tentar não tomar decisões ou dizer o que penso de cabeça quente ( ainda continuo a trabalhar nesse ponto).

É que agora gostava de poder deixar que as melodias me embalassem e trauteá-las baixinho, suavemente, sem desafinar.

( Hoje dei comigo a cantar baixinho o "Child in Time" ... só para mim, sem perigo de alguém destruir o momento, chamando-me à razão , perguntando-me qual era a música que eu estava a assassinar...)

6 comentários:

  1. Ahahahahah É o que se chama uma cana rachada ?

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  2. Provavelmente. As profs de música gostavam de mim. Escolheram- me para primeira voz no coro do Liceu. Fui convidada para assistir à Tetralogia de Wagner no Coliseu e em S. Carlos, adorava música e já me estava a ver uma Julie Andrews rodeada de putos Von Trapp nos Alpes austríacos a rodopiar e a entoar Stairway to Heaven.... Duros despertares ... :):):):)

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  3. Eu também fui jovem por essa altura, creio. Falta-lhe mencionar os Genesis

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  4. Esses já vêm depois, com os Supertramp, os Pink Floyd... ( suspiro de velha com saudades) :D

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  5. Os sonhos devem ser calentados.

    Tanto cantor que não sabe cantar.
    Olha o Abrunhosa (que eu adoro), mas não sabe cantar...interpreta as músicas que me arrepiam, por exemplo.

    Nada de desistir.

    Ainda vais a tempo...

    beijos

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  6. Oh Pérola, és uma querida, mas acredita que DESTE sonho já acordei faz muito tempo. Agora só se quisesse fazer qualquer coisa parada e ter um nome tipo "Os Azeitonas"... neste caso seria muito mais eficaz "A Bola de Berlim" ou só "A Bola", não fossem os "Berlim" sentir-se ameaçados and "take my breath away"... mas daí o jornal desportivo em particular não havia de ficar muito feliz, já para não falar das bolas em geral. Mas foi uma época engraçada da minha vida, que lembro com um sorriso.

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É aqui que me mandas dar uma curva