quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Se a minha cama voasse...

"A realidade é o funeral das ilusões." - Jean Cammerson



Ontem tive um dia/noite infernal na Minha Guerra. A maldita e insidiosa "dor nas costas", que não é a minha velha conhecida ciática de há muitos anos, atacou de novo, pérfida e traiçoeira, escolhendo criteriosamente os momentos da investida, cada vez com mais intensidade e de tal modo incapacitante, que me retirava todo o ar , entontecia e deixava a arfar.
Depois de dois ou três episódios mais bizarros, um dos meus soldados alvitrou que poderia até ser aquela "coisa dos alfinetes", o que me arrancou da modorra da dor e me tornou bem mais bem disposta, só à ideia de alguém me estar a supliciar com voodoo.

 Ó triste do que pensou ser Deus e poder construir uma D à  imagem e semelhança da original! Não terá seguramente a vida facilitada praticando tal ritual numa espécie de melancia elíptica, com cabelo num dos pólos, e onde encontrar a zona do pescoço seria uma aventura !


Tornada à minha morada tarde na noite, toda a casa dormia e até os mafarricos dos gatos que me costumam saudar assim que ouvem a chave no ferrolho, estavam certamente a preguiçar por algum canto, pois deles nem sombra.
Fiz o meu melhor número de contorcionismo para chegar bálsamo à zona cervical onde a medonha se acomodara, e com a ajuda dos suspeitos do costume, todos com nomes estranhos e princípios activos milagrosos, preparei-me para uma noite de sono e descanso.

Acordei estremunhada e corcunda, puxando e sacudindo vigorosamente cordas presas a campânulas do tamanho de casas, no meio dum barulho ensurdecedor.
"Ena", pensei para comigo, " se não fosse a marreca, até que não estava mal de todo ! Braços musculados, sem vertigens... panaceia desta, é para ter futuro chez moi !"

Mandando a deficiência para trás das costas, pus-me a observar o Mundo de onde me encontrava e gostei do que vi. Era alácre e colorido com espirais e cornucópias que desaguavam em brilhantes pontos de água límpida como lágrimas, que corriam para um imenso mar dum azul tão puro que se diluía no céu.





Era maravilhoso o Mundo visto lá de cima, donde eu estava. Fez-me sentir feliz. Fez-me querer sentir as coisas belas que via, fez-me querer tocar a felicidade com a ponta dos dedos e aspirar profundamente o seu aroma. Fez-me querer descer lá do alto de braços abertos para tudo poder abarcar enquanto abraço houvesse.

E desci balançando suavemente na brisa, sem perceber que à medida que o chão subia de encontro aos meus pés, se aproximavam nuvens cinzentas que ameaçavam embaçar a luz.

Quando pisei terra firme, a surpresa e o desencanto. A realidade não era um caleidoscópio de cor, era bem mais cinzenta, triste e suja. Ver o Mundo de cima é um embuste, um logro, uma deturpação do real.
A maior tristeza é que muito há quem olhe tudo de cima e nunca consiga abranger nem uma ínfima parte da verdadeira natureza da vida.

A bossa começou de novo a doer. Abri os olhos para o mostrador do relógio, eram 6 horas, já havia luz e o alarme dum carro estacionado no parque tocava incessantemente. "Assim não dá"... busquei novamente os suspeitos do costume e voltei a adormecer esperançosa de poder alcançar de novo aquele pináculo alternativo onde tudo era bom.

8 comentários:

  1. Pelo menos, no meio da dor tiveste um momento de felicidade colorida. Espero as próximas noites sejam de sono tranquilo.

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  2. Obrigada Vera. E principalmente sem " ajudas" para dormir sem dores.
    Provavelmente terei que recorrer à minha outra persona, o meu alter-ego de super Herói, Potato Woman, cuja ability é andar à batatada... faço exercício e chego a casa tão cansada, que nem me lembro das dores... :)

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  3. Se a minha cama voasse, mandava-a ir para o Tahiti :)

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  4. Anónima Boaagosto 12, 2013

    Quer dizer que sonhaste que eras o corcunda de Notre Dame ?? Bem me parecia que notava semelanças :):):)

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  5. Ena, Anónima Boa, obrigada ! Calculo qual o comentário se viesse duma Anónima Má !!!!!!

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  6. Sonho ou alucinação devias ter-te demorado um pouco mais por lá.
    Por acaso sonhos desses só mesmo acordada e como custaram quando senti a realidade a cair-me em cima.

    Beijos

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    1. Tem alturas em que acordar para a realidade é difícil :):). Beijinho Pérola

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É aqui que me mandas dar uma curva