quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sonho duma noite de Verão


"Mais vale sonharmos a nossa vida do que vivê-la, embora vivê-la seja também sonhar." 
Marcel Proust





Porém 
Em frente do teu rosto 
Medita o adolescente à noite no seu quarto 
Quando procura emergir de um mundo que apodrece 

(Sophia )





Hoje acordei ainda era noite cerrada. Para quem se deitou era já noite mais do que cerrada, isto  é uma incongruência, uma necessidade, ou reflecte alguma irregularidade passada durante o estado de repouso a que chamamos sono. 
Renegando de imediato as primeiras premissas, num repente afastei os lençóis e saltei da cama em direcção à janela aberta, onde ofegante constatei que ainda tinha País e que tudo afinal não passara dum sonho.

Este ano tem sido o ano de todos os sonhos: uns mais amenos e agradáveis, os outros sempre atribulados, com muito mar , muitas casas, muita gente e muita confusão.




Este de hoje foi particularmente insano:






Estava eu a gritar ao Gregório no convés do Black Pearl e a perguntar-me porque raio insisto em fazer coisas que me metem nojo e me fazem vomitar. Eu enjoo no mar. Enjoo num barco de cruzeiro, num Cacilheiro, num barco a remos... enjoo e pronto, mas isso agora não interessa nada, até porque não estava a golfar borda fora devido à ondulação marítima... dizia eu que que bofejava e olhava a lua que rompera as nuvens qual grande rodela de queijo Emmenthal , disparando raios de luar em todas as direcções. Quando a luz atingiu o barco e incidiu  na curva do meu cotovelo subindo lentamente do braço até ao ombro,   verifiquei que estava em osso !!! Fiquei petrificada ! Finalmente ! Tantos anos a tentar fazer dieta e finalmente estava pele e osso... ou só osso mesmo, mas isso agora não interessa nada. Passaram-me mil ideias fantásticas pelo pensamento: bikinis, tamanhos 40, escrever livros ordinários, ir ao parlamento, sei lá, aquelas coisas que as mulheres esqueléticas sabem fazer tão bem... fui abruptamente afastada dos meus devaneios por uma série de ruidosos estampidos e abanões.
... O que é que se passa agora ?  E voltei a debruçar-me na amurada para constatar que o rombo que o Black Pearl tinha abaixo da linha de água tinha aumentado consideravelmente, e, como é comum nos casos de naufrágio a rataria debandava barco fora, saltando à vez do buraco negro para os salva-vidas que o Capitão Edward Smith tinha emprestado, just in case.


Entretanto junto ao leme, o Coelho Branco tendo atirado borda fora o Technicolor Dreamcoat de cores macilentas e defuntas deixado pelo Casper, segurava na mão direita o relógio avariado dos atrasos e incumprimentos , balançando-se perigosamente na perna de pau do Long John Silver  , enquanto berrava em plenos pulmões :


"You'll feel me coming
A new vibration
From afar you'll see me
I'm a sensation, I'm a sensation !!"


 "- vai cair, pensei eu para comigo" ... Com o Black Pearl a convulsionar como um epiléptico, magotes de gente cujas caras patibulares me eram familiares agarravam-se com unhas e dentes a caixotes com trens de cozinha marca Continente, que cheiravam a manjerico, sardinhas assadas,  coiratos e bosta de porco.

Um tipo com ar frágil de Pitonisa de Delphos que se tinha amarrado a um bloco central para se sentir seguro,  brandia o facalhão do Machete e gritava qual Rainha de Copas :"Cortem-lhe a cabeça, cortem-lhe a cabeça". Deu-me vontade de lhe calar a boca com uma mancheia de vermes e parasitas que passavam a bombordo e de o mandar ir pintar rosas de encarnado...

O Cheshire Cat olhou para mim ! Epah afinal era o Tareco! Mas o Tareco já não morreu ? Não era o pai do Sousa Tavares ?   Queres ver que já passámos o Equador e que ninguém deu por isso ? ... 

Mais um estrondo e um abanão. O Black Pearl tinha encalhado!! Mas isso não pode ser , pah ! Está escrito na maldição que é para andar à deriva... não fala cá em encalhamentos! Oh pah, pergunta lá à Múmia como é que se tira isto do banco ???

Mas a Múmia não sabe responder, é areia a mais para a sua laranjeira.... está confuso e aborrecido porque não recebeu o subsídio de férias ! O Algarve em Novembro não tem graça nenhuma ...

Tento descer à galé, e cheira-me a relvas acabadas de cortar e o perfume é tão repulsivo que desatei a  gritar pelo Jean-Baptiste Grenouille.

Foi então que acordei, que fui á janela, que confirmei que tinha País e que tudo não passara dum sonho mau.
É que a  realidade, aquela que é mesmo REAL,  não tem nada a ver... é  só mil vezes pior...



                             

8 comentários:

  1. Ahahahah MDRoque, o que me ri a ler o seu post. Já lhe passou a melancolia ?
    Mia

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  2. A melancolia é como as estações do ano, bate com força, vai melhorando, fica abananada e não chateia, começa outra vez a despontar, e ciclo recomeça. De vez em quando dá- vê um vaie e escrevo mais do que 3 ou 4 linhas... Eu acho que o final das histórias da carochinha ainda está por escrever.... :):):)

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  3. Que grande sonho.

    Quanto às esqueléticas:meço 1,55m e 46 kg. Sempre fui assim, trinca-espinhas, mas a culpa não é minha, a genética tem palavra a dizer. Por outro lado não me sinto bem quando aumento o peso.

    Será que o ser gordinho ou magrinho fará realmente diferença?

    Noites mais calmas...

    beijinho

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  4. Oh Pérola querida, tamanho não é documento ! nem na vertical, nem na horizontal... apesar de eu pensar que se tivesse para aí 6cm a menos era mais feliz e mais levezinha... com este calor, dava jeito... Beijinho :):)

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  5. Espero que isso não seja uma premonição de naufrágio no meu navio Pirata. Será difícil roubar outro tão luxuoso.

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  6. Oh, não deve preocupar-se, temível Cuca Pirata... Há anos que sonho com Leperchauns, arcos íris e potes de ouro... Premunir não é o meu forte...

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É aqui que me mandas dar uma curva