quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pim,Pam,Pum...

Dou valor as coisas, não por aquilo que valem, mas por aquilo que significam - Gabriel Garcia Marquez


É engraçado verificar o número crescente de Baby-Blogs, Mummy-Blogs e Daddy-Blogs que proliferam  na blogosfera .

 São como cogumelos, nascem espontaneamente e multiplicam-se com uma rapidez fantástica. Atenção que não estou a criticar ou tentar demolir o conceito, até porque respeito demasiado muitos dos autores como escritores para me atrever a tal ignomínia. Só me surpreende as reviravoltas que as irreverências da vida trazem...

É normalíssimo que as pessoas queiram compartilhar as recém adquiridas experiências, alegrias e deslumbres da maternidade e da paternidade. 
Os "batidos" nestas andanças não podem deixar de ler as publicações com um sorriso condescendente  e  pensar para consigo "... ainda a procissão vai no adro, pah...espera pela pancada..."

Toda a gente escreve sobre as alegrias de se ser pai ou mãe, mas é raro encontrar-se um post sobre as alegrias de se ser filho ou filha.


Os nossos pais são aquelas pessoas que nos fizeram e  puseram no mundo,  embalaram , mudaram as fraldas, alimentaram e ampararam nos primeiros passos. Foram eles que nos ensinaram a ir ao bacio, a lavar a cara e o corpo, a escovar os dentes... mostraram-nos como vestir,  abotoar os botões,  atar os sapatos... explicaram as palavras, as letras, os números, as coisas da vida... 

Os nossos pais são aquelas pessoas que nos trataram as maleitas, afastaram os  medos, limparam as feridas, enxugaram as lágrimas,   consolaram as dores de corações partidos.

Os nossos pais são os velhotes,  aquelas pessoas demodées que não nos compreendem, nem fazem por nos compreender... têm a mania que entendem das coisas, mas não percebem puto do que a malta gosta de ouvir, vestir ou curtir, massacram-nos a pachorra com sermões que entram a 100 e saem a 200, OMG... como são chatos e que vergonhas nos fazem passar...
É por isso que não há blogs sobre os pais... que seca...

É naquele no minuto primordial  em que, passado o choque e o sofrimento, seguramos nos braços pela primeira vez a cria por nós gerada, que realizamos que somos pais, e que o ciclo recomeça ali, naquele momento.

... E seguramente que as aventuras dos nossos pais no Banco de Jardim, no Centro de Saúde, na Casa de Repouso, no Hospital, irão continuar a não ser tidas nem achadas nos nossos blogs vanguardistas.


Filho és, pai serás

Nos velhos tempos havia uma terra onde os filhos costumavam levar os pais velhos, que já não podiam trabalhar, para cima dum monte, onde ficavam sozinhos, para morrer a mingua. Certa vez ia um moço do lugar levando o velho pai às costas, para abandoná-lo. Chegando ao ponto em que ia deixar o ancião, colocou-o no chão e deu-lhe uma manta para que se abrigasse do frio até a hora da morte. E o velho perguntou:



- Tens por acaso uma faca contigo?



- Tenho, sim, senhor. Para que a quer?



- Para que cortes à meio esta manta que me estás dando.

Guarda a outra para ti, quando teu filho te trouxer para este lugar.

O moço ficou pensativo. Tomou de novo o pai às costas e voltou com ele para casa, fazendo, assim, com que o horrível costume desaparecesse para sempre.

Moral da fábula: Filho és pai serás; como fizeres, assim acharás



                              Fábula de tradição portuguesa
                            do livro Fábulas do Mundo Inteiro






7 comentários:

  1. Este é dos melhores 'posts' que já li até hoje. Dizes tudo o que eu queria dizer - mas melhor. Sabes, eu gosto de vez em quando de brincar aos "mummy-blogs" por ter aquele pirralho de 2 anos lá por casa. Mas quantas vezes não penso: "És querido és, mas não me enganas!" É que eu, tal como tu, já passei e sobrevivi (mal) à outra fase - a da adolescência dos filhos (tenho uma de 20 anos) - e não me ficaram quaisquer ilusões. E, depois, ainda me lembro das que fui fazendo aos meus pais...

    Por outro lado, muito me rio também com as bloggers que, do alto da sua juventude e arrogância própria, nos vêm com os "maridões" e os "maridaços"... Penso: ai, ai, que um dia destes o maridão sai porta fora para ir ter com outra e lá se acaba a perfeição... Enfim, tenho que travar estes impulsos, senão fico (mesmo) velha, ahahah!

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  2. Pim, Pam, Pum...Cada Bola, mata um...

    Sabes Miú, só sabemos dar o devido valor ao que possuímos, quando se acaba... E eu ando numa onda de desânimo e não ajudo nada.... Obrigada

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  3. Olha Maria, cheguei aqui por acaso e fiquei, tive de ler este teu post fantástico, de tão simples espelha uma brutal realidade, adorei!
    Um beijinho grande e olha dias não são dias, sorri e verás que tudo ficará melhor!

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  4. A moral da fábula é muito boa:
    Mas acho que só um filho que não conhece o verdadeiro significado do amor é capaz de abandonar um pai na velhice.

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  5. Isso de andar por aí a apontar o dedo é muito feio... Mas o texto está maravilhoso. Este e o anterior. Parabéns!

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É aqui que me mandas dar uma curva