domingo, 30 de setembro de 2012

Branca e radiante

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Falar da Mãe é falar de arte.

 A Mãe é uma artista. Eu digo é porque ainda a procuram  para que as suas enrugadas mãos de fada transformem trapos em verdadeiras obras de arte.

A Mãe tem 77 anos, tem artrite, e lentes implantadas nos vivos olhos azuis, para que consiga enxergar mais do que sombras, mas é independente, tem a sua casa, o seu gato, a sua máquina de costura, os seus tecidos e as suas senhoras, tão ou mais velhas do que ela, mas sempre fiéis, que a procuram regularmente para novas obras,  pequenos ajustes , tea & cookies e uma amena cavaqueira.

 Muitas conhece-as desde que foram noivas, e a amizade perdurou através dos tempos.
Este é um registo fotográfico das obras da Mãe  e da evolução do vestido de noiva à  medida que your's truely crescia também, e acompanhava as nubentes protagonizando um  ring bearer no feminino, ou flower girl.





























A última, a mais colorida, é certamente a mais importante : Eu e o Marido, no nosso Dia D.

A mãe também executou brilhantemente todos os meus vestidos. Era exímia em reproduzir qualquer peça representada em figurino. Ganhou prémios com fatos de máscara, tendo começado a experiência com  sua primeiro e única modelo : EU



 Vão seguramente ouvir falar muito mais sobre a Mãe

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Pensar em não pensar





Não há machado que corte a raiz ao pensamento



Cogito ergo sum… Existo porque penso, ou penso porque existo ??  Pensar, pensar… pensar cansa.


E ultimamente tudo dá tanto que pensar…


Pensar na família, no país e no estado a que isto chegou … na vida … Ninguém está a caminhar para mais novo, e isso é algo que matuta sempre no nosso íntimo.




 Não sei porquê, nunca me pensei velhinha, e se por um lado é um pensamento reconfortante o de atingir uma vetusta idade , por outro é aterrador pensar em como se estará de corpo e mente, se e quando lá chegar.


Penso em ter paz, em ter netos, em lhes ensinar a viver com dignidade, em lhes incutir o gosto pelo cinema, pelos livros , pela culinária, pelas línguas, pela cultura , pelo respeito… o amor pelos animais 
... em lhes dar a mão e guiá-los através dum mundo bom, justo e feliz...Penso que gostava que pensassem em mim como uma pessoa boa; como uma boa pessoa, uma pessoa empreendedora, diligente e capaz, inteligente e divertida.


Penso no que pensava, quando era criança, quando era menina, quando fui senhora, quando me fiz mulher, quando casei, quando fui mãe… O tempo muda tanto o pensamento…


Tive muitos pensamentos maus, outros tantos paradoxais, centenas deles tenebrosos, alguns lascivos, outros brejeiros, mas na grande maioria das vezes cogitei positivo, luminoso e feliz.


O meu pensamento não pára de pintar quadros de antecipação, mas o futuro continuará  envolto no seu véu de incerteza. Quero pensar hoje só no agora, e deixar  o amanhã para pensar noutro dia, mas o pensamento não pára, provavelmente nem sequer para pensar.


Estou a pensar neste momento que estou cansada de pensar, e se não há machado que corte a raiz ao pensamento, talvez tenha que pensar em tomar decisões mais drásticas e falar com um especialista em cortes… infelizmente  é praga  que pulula por aí aos magotes.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Aqui há gato !!!


Aqui há gato !!!


Pois há, não um, mas dois, os mariolas do costume, que me fazem maluca, e ainda me hão-de matar de susto !!!

A família, mãe pai, irmãs e avó da gataria tem andado preocupada com o Sam, desde que há cerca de 2 meses desenvolveu um episódio gastroentérico  que se previa de tratamento simples e de pouca duração, mas se revelou bem mais complicado do que as primeiras impressões mostravam.


Foi-lhe diagnosticado estômago sensível, propenso à formação de tricobezoares, e tem sido um cabo dos trabalhos conseguir desfazer as meadas, e ajudar o bicho a comer, não obstante os 150000 medicamentos e produtos que já se introduziram na sua dieta diária, incluindo a ração XPTO que trata este tipo de complicações.

O problema é que o Dean, vulgo Bola de Pelo, não está doente,  é um comilão crónico,  e apesar da dieta só lhe poder fazer bem, está sempre a pedir mais… tantas vezes o fechei no chuveiro com um miminho, com o outro a miar cá fora…

Lembro-me duma  altura em que, depois  do Sam miar estranhos e  aflitivos sons  guturais quando tentava expelir  o pelo, o Marido me ter chamado aflito, porque o bichinho tinha regurgitado uma sardinha !!! … bem… só se o Sam tivesse ido à pesca na véspera, porque eu não tinha sardinhas em casa… nem carapaus… nem sequer em lata.  A realidade é que assim de repente parecia mesmo um nojento peixe cabeçudo, e ainda custa  a crer que o pobre animal tivesse aquela coisa asquerosa no estômago.


Já melhor e recomposto, é um maluco, e ainda hoje, ajudado pelo parceiro no crime, abriram o roupeiro dos casacos e provavelmente porque encontraram  lá dentro um bichito de prata,  toca de andar aos pinotes arremessando para fora do armário tudo o que estava no caminho da sua caçada, o que eu, acabadinha de sair do banho, confundi com um poltergeist ou coisa parecida, porque ele eram mochilas, cabides, sombrinhas, secadores de cabelo, sei lá mais o quê a saltarem porta fora sem razão aparente.


Depois duma valente descompostura e de eu ter posto tudo no sítio, voltaram ao seu desporto favorito: estarem-se nas tintas para mim e preguiçarem a dormir por qualquer lado.




Pois é, por aqui há gato, ou melhor, há gatos, mas se não houvesse, seria muito mais triste…

sábado, 22 de setembro de 2012

Esquizofrenia Paranoide


Esquizofrenia Paranoide



… I wonder…


Foi dia de madrugar e começar a labutar cedo na minha guerra. A minha guerra é um sítio fixe, cheio de personagens coloridas e castiças (aqui), tem dias "daqueles", como todas as guerras, mas salvo um ou outro estafermo que possa ter  o condão de me tirar do sério, a peleja diária é revigorante e uma fonte inesgotável de preciosa adrenalina.


Continuando… estando eu concentrada naquilo que sei fazer melhor, e a que chamo “ andar para trás e para a frente, para cima e para baixo”, sempre com os meus sentidos de cão de caça a funcionar em pleno e o olhinho de lince a varrer o perímetro, sou interrompida na minha deambulação pelo irritante toque do telefone.


 Convém explicar que o telefone é o Anticristo!  O Coisa Ruim, criado exclusivamente para desestabilizar, azucrinar e chatear, porque – e porque tenho mais do que um – me deixa amiúde sem mãos, sem fala, e principalmente sem paciência.


Prosseguindo… oiço soar o instrumento do Demo, e preparo-me para a chatice apensa, porque é uma associação lamentavelmente comum. Engano meu. Só pediam a minha presença, porque necessitavam dum opinião abalizada      ( hãããã ?!?!?!).
  A curiosidade sempre foi o meu maior motor de propulsão, e qual Mercúrio estuguei o passo ( claro que não fui a voar… asas nos MEUS pés , só se fossem de condor…), e dirigi-me ao local onde a minha presença se tornara imperativa.


(Abro um pequeno parêntesis para esclarecer que a  população da minha guerra é maioritariamente constituída por bravos soldados do sexo masculino, empiricamente formados, bravateiros, barulhentos, mas boa gente).


Avançando…  haverá algo mais banal do que uma chusma de gajos a discutir futebol  no trabalho ?? Claro que não, e nada me teria espantado se a algazarra fosse sobre o desporto mais alienante de todos, e não sobre TELENOVELAS…. Isso mesmo, telenovelas, nomeadamente a “Gabriela”, que a SIC passa cerca das 22 horas, e que segundo os meus homens é… despudorada !!!!!


O mais estranho ainda, é estarem  quase todos a favor desta classificação, exigindo mesmo, que fosse apresentada com bolinha vermelha no canto superior direito e informação prévia sobre conteúdos passíveis de ferir susceptibilidades ! 

… e porque é a hora, e porque são os nus, e porque é a linguagem… 



Aguardavam que EU, acérrima defensora da moral e dos bons costumes (J) abraçasse esta causa, e ajudasse a criar uma petição a nível das redes sociais para que o teor softcore  do enredo fosse informado ao público antes   da novela ir para o ar,  evitando assim constrangimentos e embaraços familiares.


Fiquei pasma, incrédula, embasbacada… tipos que se babam a cada rabo de saia ou decote mais ousado  !!!  … um houve, que falando meio acanhadamente duma cena sobre virgens e traseiros, afirmou peremptoriamente ter ficado  confrangidíssimo por ter a seu lado a filha… que tem 20 anos, e que provavelmente se fartou de rir.


Isto é tudo MUITO estranho. É certo e sabido que a manifestação popular ontem em Belém ajudou a mudar a mentalidade da classe governante, mas NUNCA na minha vida pensei que tivesse um efeito tão abrangente…



… ou então eu sofro de esquizofrenia paranoide, e isto tudo, de tão irreal, só pode ter sido um produto fantástico das minhas alucinações…


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Noticiários... again and again...





Estou a ficar um bocado farta disto tudo outra vez.





Houve aqui uma altura em que me desinteressei completamente pelos noticiários; eram o que antigamente se chamava “vira o disco, e toca o mesmo”. Sempre com alguma fatalidade de proporções bíblicas como notícia de abertura para cativar a audiência, ou à falta de melhor, a promessa do desvendar dum mistério, duma fofoca , de algo apelativo à nossa inata curiosidade, qualquer coisa que prendesse o espectador  ao écran até ao fim, enquanto o/a ancora enchia chouriços durante quase uma hora.

Pontualmente assisto a comunicações ao País e conferências de imprensa, para não ficar completamente descontextualizada da conjuntura, mas não sou espectadora muito atenta ou pertinaz. Para além disso, o Marido, fonte de inesgotável sabedoria sobre a actualidade nacional, costuma pôr-me sempre ao corrente dos últimos desenvolvimentos.

Há umas semanas, depois do frio comunicado ao País do tipo que eu ajudei a eleger para um dos cargos máximos da nação, o mesmo que imediatamente após informar todos nós que íamos ter que ir fazer um Tour pelas Ruas da Amargura durante uns dois ou três anos, foi cantar a Nini para o Tivoli, deu-se-me um vaipe, um daqueles que a revolta vai buscar ao fundo da nossa consciência, e comecei a devorar notícia atrás de notícia, a comentar declarações online, a participar activamente em demonstrações da vontade popular, a subscrever petições, a entrar em debates polémicos, enfim a revolucionar o meu modus vivendi, se bem que quem me conhece, sabe que eu sempre concordei em discordar, mas em coexistência continuamente  pacífica J

Como não podia deixar de ser, depois da corrente telúrica de Sábado 15 de Setembro, as placas tectónicas da governação que se consideravam intransigentemente consolidadas, ficaram estruturalmente abaladas e um bocado à deriva, não encontrando qualquer apoio para se firmarem.

E então choveram os comentários , os  comentadores, as reuniões de emergência, os ditos por não ditos, as sacanices, as convocações de todos os Conselhos possíveis e imaginários,  os avanços, os recuos, e com isto tudo a exploração da notícia até à exaustão, de tal modo massacrante e violenta, que não há noticiário que não debite todos os dias e vezes sem conta no período de pouco mais duma hora,  a mesma informação, só que pintada de cor diferente, e vista de vários ângulos, mas sempre igual a si própria.

Cansei !! 

  Ainda ontem tornaram a passar (again) as imagens de Sábado passado , tão fresquinhas no contexto (again), como se a galinha as tivesse acabado de pôr…  Cansei !!!
Vou voltar  à minha condição de news hater , pegar no meu livrinho a seguir ao jantar, e deixar o Marido entregue aos noticiários e ao desporto do zapping, porque palavra de honra,  a falta de imaginação dos redactores, ou a sua pretensão de que somos todos mentecaptos e verbos de encher já enjoa por demais.


Com música ainda é melhor

terça-feira, 18 de setembro de 2012

True Bleed


True Bleed


Deixem que vos conte dos vampiros.



Contrariamente ao que reza o populário, os vampiros não são seres mitológicos que deambulam pelas sombras, alimentando-se da energia dos vivos, lambuzando-se abundantemente em hemoglobina, até saciarem a fome e exaurirem a vítima.

 À primeira vista, nem são criaturas aterradoras  como o Nosferatu, apesar de partilharem toda a sua essência destrutiva e parasitária.


O conceito de vampiro existe desde tempos imemoriais. Em quase todas as culturas clássicas e pré-clássicas, existem lendas de demónios e monstros, antepassados doutros mais contemporâneos que assolaram o Leste da Europa nos primórdios do século XVIII, e cujas hediondas carnificinas deram origem ao actual vampiro e a famosos romances de terror nele fundamentados,  desde
  Varney the Vampire de James Malcolm Rymer  ou Carmilla  de Sheridan Le Fanu,
 passando pelo  Drácula de Bram Stoker, 
e chegando ao presente, onde pontuam coisas engraçadas como Vampire Chronicles, de Anne Rice ou mesmo The Southern Vampire Mysteries de Charlaine Harris,

   e claro, a inenarrável saga Twilight de Stephenie Meyer, cujos nauseantes Best Sellers em  4 tomos foram adaptados ao cinema, 4 filmes considerados também Blockbusters, e criando toda uma subcultura vampírica  a nível global.



Em Portugal , desde meados do século XIX o termo vampiro é politicamente correlacionado .

O Abade de Medrões utiliza-o para designar os corruptores da constituição, os anti fascistas para caracterizar o Estado Novo, e é  imortalizado em Portugal e além fronteiras após o 25 de Abril pela música intervencionista “Os Vampiros” de José “Zeca” Afonso.





Actualmente, o Vampiro Português é outro. É uma mutação, uma aberração mais desvairada do que o monstro itself. Não é bonito, não é charmoso, nem sequer inteligente.




É entediante, arrogante, relapso e contumaz, descendente de uma cultura que vem assolando há anos o extremo ocidente da Europa,numa onda de promiscuidade por demais evidente e comprovada.



 Não faz muito tempo em que, e segundo a tradição,  conseguiu encantar o  incauto e imprudente plebeu, que o convidou a entrar em sua casa, onde se banqueteou até esgotar toda a sua essência vital . Desfigurou e transmudou tudo o que era legítimo numa amálgama acachapante que corta a respiração, tolda a visão e embota a razão.

Sugou-nos o sangue, deixou-nos o suor, e as lágrimas ainda estarão para vir, mas acredito que vai chegar um dia em que o sol brilhará.


…. Ou então precisamos urgentemente dum Van Helsing, mas uma pessoa de carne e osso e com capacidades comprovadas, e não uma figura de (pouca) acção de fabrico em série…

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Carta Aberta



O texto que abaixo transcrevo, é da exclusiva autoria do escritor e ensaísta Eugénio Lisboa 




Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro




"Exmo. Senhor Primeiro Ministro

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.

Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito — todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.

Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”… A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.

 A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela… Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.

Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles… — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.

De V. Exa., atentamente,"

sábado, 15 de setembro de 2012

Desde a Praça do Começo



♫...E o Povo saiu à rua

Sem a alegria
Que costumava ter... ♫


Na Praça do Começo








    




  Na Avenida da República











Na Avenida de Berna









Na Praça de Espanha












Foi um movimento popular, ordeiro, pacífico,gente de todas as idades, famílias inteiras de todos os extractos sociais. Não houve perturbações da ordem pública, nem mesmo quando,   os agents provocateurs jogaram petardos, very lights acesos, tomates podres e ovos contra a porta da sede do FMI na Av. da República.

Cerca das 20 horas, a maior parte dos que se propuseram comparecer no protesto, começaram a desmobilizar. Soube-se já no Metro que uma facção mais radical se dirigia para S. Bento.
Demos por terminada a nossa participação, e regressámos a casa onde passámos  a acompanhar via televisão a anarquia que se instaurou na escadaria da Assembleia da República.

A mensagem foi enviada. Nunca antes a população portuguesa se mobilizou tão numerosa e rapidamente de Norte a Sul do País e Ilhas .Conta-se que em Lisboa os aderentes ultrapassaram o meio milhão !!! Chegou a altura dos governantes OUVIREM, mas ouvirem MESMO.


"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!" - Capitão Salgueiro Maia - Madrugada de 25 de Abril de 74, parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém