quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Lavagens com a minha tia

"Os avarentos não crêem numa vida por 

vir, para eles o presente é tudo.
Honoré de Balzac


Puxando um avarento de um pataco 
Para pagar a tampa de um buraco 
Que tinha já nas abas do casaco, 
Levanta os olhos, vê o céu opaco[...]

João de Deus


Quando Dickens escreveu o Conto de Natal, inspirou-se seguramente no modelo Tia Adelaide. A Tia Adelaide, irmã do Avô Américo e filha da Bisavó Júlia era uma mulher e pêras.  Não era uma beleza e sempre foi “adoentada”, recitando o seu rol de maleitas a todos os que com ela privassem, mas sobreviveu a dois maridos, a uma crise económica com consequências financeiras desastrosas , à tuberculose e ao tempo.

 Nasceu com a República em 1910 e cresceu com as dificuldades comuns às pequenas famílias das classes trabalhadoras de então. Foi servir para um palacete na Lapa com 9 anos de idade. Com 13 foi trabalhar para o Confeiteiro ( a Antiga Confeitaria de Belém) a embrulhar rebuçados. Aos 18 casou com o Tio João, dono de mercearias e bem na vida. Aos 22 era viúva, sem dinheiro e sem saúde, sobrevivente à consunção que lhe levou o marido.

Era prima direita da Rosalina e do querido Francisco Gomes, e as noitadas de fado com a Amália deram-lhe animo e forte determinação. Ganhou forças para seguir em frente e começou a vender frutas e legumes numa pequena banca do Mercado de Algés. O negócio depressa prosperou e a vida floresceu de novo, tendo contraído segundas núpcias com o Tio Marcelino, excelente pessoa mas mais dado ao descanso do que ao trabalho, o que tornou a Tia Adelaide num Scrooge de saias, que administrava a casa e os negócios com mão de ferro e unha de fome.

Como família tradicional,  passávamos os Natais sempre todos juntos, sempre às dezenas, sempre com muito barulho, sempre com muito comer e sempre com uma panóplia de aromas fantásticos.

Um Natal, há muitos, muitos anos, o Pai foi presenteado com um estupendo peru ,  que tinha tão somente o pequeno problema de estar vivo. Claro está que a Tia Adelaide - A Velha Máquina, como era carinhosamente apelidada - se propôs logo a tratar da saúde ao bicho. Munida duma garrafa de bagaço, alguns jornais, uma faca e um alguidar ( como nos romances eheheh ), fechou-se com a imensa ave na marquise da casa de Belém. Ainda a vi dispor os instrumentos de degola qual Dexter avicida, e literalmente montar o bicho. Depois só ouvi.  Ouvi o estrondo, o espalhafato, a gritaria, a tragédia, o horror… Então segundo rezam os anais, foi bem sucedida na decapitação e no sangramento da ave, mas não esperava que depois de morto, o peru se revoltasse e corresse pela varanda fora sem cabeça, aspergindo gotas vermelhas de vida por todo o lado e num último torpor vingativo, entornasse o alguidar do sangue que correu livremente pelo ralo para o quintal da vizinha, pintando um dripping digno de meter qualquer Pollock num chinelo. Aquele não foi com certeza um Natal Branco, mas foi bem lavadinho.

Mesmo com a família a diminuir, a tradição manteve-se e continuámos a passar Natais juntos, com peru na mesa , mas de preferência assado (um mimo de crustáceo cozinhado com muito amor e paciência ), bem acompanhado com Roupa Velha, Arroz de Miúdos, batatas novas com alho, alecrim e mel, castanhas e esparregado com puré de alho. 




A Tia Adelaide marcou presença enquanto a deixaram as suas 95 primaveras, levando-nos às lágrimas com as suas tiradas filosóficas enquanto ruminava vorazmente sem qualquer dente ( placa, só para a fotografia...) vários pratos de comida. Aceitava alegremente todas as partidas que lhe faziam (como a Mousse de chocolate com azeitonas, na qual achava os pinhões muito rijos…)… era uma personagem e tanto. Agora é mais uma linda recordação no Panteão das Memórias Felizes da nossa vida.


                                          

11 comentários:

  1. O perú de casa da minha tia, também traz atrelado a recordação da minha avó.

    O perú e a batata palha, fritada pelas tias, numa sessão que dura para aí duas horas, que é para dar para toda a gente., que por cá não se brinca

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  2. Agora somos só 8...já fomos mais de 30...saudades... pode ser que as piquenas me dêem praí 10 netos cada uma para repor os números... (assim à Puntin) :)

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  3. Esse perú com batata palha, assado no fogão de lenha também me lembra a casa da minha avó, mas nessa altura, reguila que já era, via que as reuniões de natal, embora para a pequenada fosse ótimo, notava que os adultos se pudessem, alguns, em vez de trincharem o perú, trinchavam~se uns aos outros.Jurei que quando fosse independente só passaria o natal com pessoas que gostassem verdadeiramnte umas das outras e durante todo o ano e sem as hipocrisias dessa noite.E assim faço agora. Não há perú mas há afetos sentidos.

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  4. Viva, Anónimo ! Só posso dizer que sou uma pessoa de sorte, porque na pequena multidão que se juntava para o Natal sempre senti muito amor e alegria. Festas Felizes para todos !

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  5. Que delicia de história, em tantos sentidos!

    Também já assisti a essas matanças e galinhas correrem sem cabeça.
    Coisas próprias da província.

    Pessoas únicas, que deixam saudades.

    Beijinho

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  6. Ai Maria, que não m´aguento!
    É que não consigo parar de rir!
    Que delicia de personagem essa Tia Adelaide!
    Ahahahahahahahahahahahahahah
    E o perú! Coitado! ahahahahahahahahah
    Que delicia!
    Temos na familia uma história semelhante mas com um coelho a quem a minha tia, convicta de que sabia o que fazia deu a cacetada que achou ser fatal, mas o bicho ao ser esfolado acordou e saltava pela casa com o pijama a meio, entre os gritos da familia e o choro das crianças! Nunca mais! Coelhos só os da Páscoa, e em chocolate!

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  7. :D:D São aquelas memórias felizes e divertidas que nos fazem a pessoa que somos... e temos tantas...

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  8. Oh, que maravilhosa "scrooge de saias"! E a comer vorazmente sem placa! Que risota pegada...
    (E que texto tão primorosamente escrito! Parabéns!
    Um beijinho
    PS - Ah, e muito obrigada pelo "adicionamento" blogostrúnfico ali na listinha lateral :D

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  9. O que é bom é para se ver na minha listinha lateral! Adorei a vossa casinha ! Beijinho.

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  10. Ah, e entretanto lembrei-me do tributo que este texto presta a Graham Greene... "Viagens com a minha tia", certo? ;)

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É aqui que me mandas dar uma curva