Em horas inda, louras lindas
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas,
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna !
E o tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos....
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
Fernando Pessoa in Cancioneiro
Os seres humanos em geral, e eu
em particular, somos estranhos animais de rotinas.
Consciente das minhas
fraquezas, relego o diabinho que abelhuda no meu ombro esquerdo e que repete
incessantemente “mais cinco minutos, mais cinco minutos” e sigo o conselho do anjinho
que se dependura do meu ombro direito e que sabiamente me mostra que mais cinco
minutos de prazer morfínico redundarão numa correria stressante e num mau
começo de dia.
As Quartas e as Quintas Feiras,
são dias santos : não tenho que ir trabalhar e consequentemente posso parasitar
por casa em pijama, sem sapatos, nem soutien, nem qualquer outra artificialidade
a que a minha aparência humanóide me obriga diariamente. Seriam óptimos dias
para “dormir até partir”… seriam… mas não são.
Não sei se é o raio do Morfeu a
gozar comigo, porque de quando em vez lhe espeto com uma benzodiazepina em cima
para o espevitar a ver se chega mais depressa, ou se são as idiossincrasias dos
meus hábitos matinais a marcar posição, o certo é que, por mais que eu queira e
tente, às 8 da manhã a minha cama ganha subitamente um colchão de faquir, e
acabou-se o descanso.
Deambulo silenciosamente, como
uma sombra, um borrão, qual entidade fantasmagórica sem força
anímica, pejorando as horas que não dormi, até que o aroma e o sabor do café me
despertam os sentidos , reconfortam os
pesares e animam os humores.
Puxo as orelhas ao estaminé,
trato dos gatos, adianto o almoço, pego no meu livro de autor-fora-de-moda-para-intelectuais, embrulho-me num polar e respiro fundo. O tip-tap na janela e a cor plúmbea no céu
confirmam as minhas suspeitas : vai estar de chuva… e eu ralada !

O poder das horas é brutal! Estamos de tal maneira "obedientes" ao trabalhar do relógio, que mesmo nos dias em que podemos por o maldito relógio de lado, ele permanece no nosso subconsciente a fazer das suas!
ResponderEliminarO tempo é impiedoso e se não estivermos atentas a vida passa e nós nem reparamos...
ResponderEliminarPode ser trágico!
Um grande beijinho
P.S. Adoro a tua forma de abordaros temas e da tua escrita que cativa.
Isso é tudo muito interessante, mas afinal de contas, quem é que fez os bonecos?
ResponderEliminarsão giros, não são ? são digitalizados duma BD . Afinal escrevo umas tretas, mas de Bourgeon tenho só livros....
ResponderEliminarAs malvadas das horas!
ResponderEliminarTanto se arrastam quando queremos que passem depressa como voam quando queremos prendê-las...
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Breathe !!! Música que dá asas !!!!
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Os tons pastel de Lisboa...
ResponderEliminarBoa, nada como ficar em casa a dar largas à nossa aparência humanóide-sem-soutien-nem-make-up-nem-artifíco-de-espécie-alguma!