quarta-feira, 24 de outubro de 2012

As Horas

Em horas inda, louras lindas

Em horas inda louras, lindas 

Clorindas e Belindas, brandas, 
Brincam no tempo das berlindas, 
As vindas vendo das varandas, 
De onde ouvem vir a rir as vindas 
Fitam a fio as frias bandas. 
Mas em torno à tarde se entorna 
A atordoar o ar que arde 
Que a eterna tarde já não torna ! 
E o tom de atoarda todo o alarde 
Do adornado ardor transtorna 
No ar de torpor da tarda tarde. 

E há nevoentos desencantos 
Dos encantos dos pensamentos 
Nos santos lentos dos recantos 
Dos bentos cantos dos conventos.... 
Prantos de intentos, lentos, tantos 
Que encantam os atentos ventos.


Fernando Pessoa  in Cancioneiro


Os seres humanos em geral, e eu em particular, somos estranhos animais de rotinas.
 Quando canta o galo (curiosamente é o meu  toque de despertar) às 5:45h da manhã , eu, como já tive oportunidade de referir , levanto-me ensonada e mal humorada, maldizendo o mundo que me faz levar esta vida de morcego contra a minha vontade, pois que ainda dormiria de bom grado o sono dos inocentes por mais meia dúzia de horas,  pois que anseio que seja dia santo para poder ficar na cama até quando me apetecer e dormir as horas que me der na gana, sem ser escrava do maldito galo, pois que é melhor ninguém armar aos cucos antes de eu tomar  café, para não madrugar mais um dia de elefante.

 Consciente das minhas fraquezas, relego o diabinho que abelhuda no meu ombro esquerdo e que repete incessantemente “mais cinco minutos, mais cinco minutos” e sigo o conselho do anjinho que se dependura do meu ombro direito e que sabiamente me mostra que mais cinco minutos de prazer morfínico redundarão numa correria stressante e num mau começo de dia.


As Quartas e as Quintas Feiras, são dias santos : não tenho que ir trabalhar e consequentemente posso parasitar por casa em pijama, sem sapatos, nem soutien, nem qualquer outra artificialidade a que a minha aparência humanóide me obriga diariamente. Seriam óptimos dias para “dormir até partir”… seriam… mas não são. 

Não sei se é o raio do Morfeu a gozar comigo, porque de quando em vez lhe espeto com uma benzodiazepina em cima para o espevitar a ver se chega mais depressa, ou se são as idiossincrasias dos meus hábitos matinais a marcar posição, o certo é que, por mais que eu queira e tente, às 8 da manhã a minha cama ganha subitamente um colchão de faquir, e acabou-se o descanso.


Deambulo silenciosamente, como uma sombra,  um borrão,  qual entidade fantasmagórica sem força anímica, pejorando as horas que não dormi, até que o aroma e o sabor do café me despertam os sentidos ,  reconfortam os pesares e animam os humores.


Puxo as orelhas ao estaminé, trato dos gatos, adianto o almoço, pego no meu livro de autor-fora-de-moda-para-intelectuais, embrulho-me num polar e respiro fundo.  O tip-tap na janela e a cor plúmbea no céu confirmam as minhas suspeitas : vai estar de chuva… e eu ralada !


8 comentários:

  1. O poder das horas é brutal! Estamos de tal maneira "obedientes" ao trabalhar do relógio, que mesmo nos dias em que podemos por o maldito relógio de lado, ele permanece no nosso subconsciente a fazer das suas!

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  2. O tempo é impiedoso e se não estivermos atentas a vida passa e nós nem reparamos...
    Pode ser trágico!

    Um grande beijinho
    P.S. Adoro a tua forma de abordaros temas e da tua escrita que cativa.

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  3. Isso é tudo muito interessante, mas afinal de contas, quem é que fez os bonecos?

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  4. são giros, não são ? são digitalizados duma BD . Afinal escrevo umas tretas, mas de Bourgeon tenho só livros....

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  5. As malvadas das horas!
    Tanto se arrastam quando queremos que passem depressa como voam quando queremos prendê-las...
    http://www.youtube.com/watch?v=JoP4Ul-A9H8

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  6. Breathe !!! Música que dá asas !!!!

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  8. Os tons pastel de Lisboa...
    Boa, nada como ficar em casa a dar largas à nossa aparência humanóide-sem-soutien-nem-make-up-nem-artifíco-de-espécie-alguma!

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É aqui que me mandas dar uma curva