quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Rei, Capitão, Soldado, Ladrão


Tão Balalão

Rei, capitão
soldado, ladrão.
Menina bonita
de bom coração.
Tão, balalão,
cabeça de cão.
Orelha de burro,
sabe a leitão.
Tão-balalão
Soldado ladrão,
Menina bonita
Não tem coração.
Tão-balalão
Senhor capitão,
Espada na cinta
Sineta na mão.
Tão-balalão,
Cabeça de cão,
Orelhas de gato,
Não tem coração,
Tão-balalão,
Cabeça de cão,
Cozida e assada
no meu caldeirão,
Tão-balalão,
Senhor capitão
Orelha de porco
P'ra comer com feijão.

Adorava a histórias de reis, rainhas, pequenos príncipes e palácios que a Bisavó contava.

 Eram sobre lugares diferentes e gentes diferentes, longe no tempo, tão fantásticas como as fábulas de la Fontaine, porque pareciam saídas da época em que os animais falavam.




 Sem ser grande conhecedora da história deste rectângulo plantado no extremo Ocidente da Europa com 867 anos de Monarquia, a Bisavó idolatrava os Reis, e aterrorizava-me com o Costa e principalmente com o Buiça , que a par do Homem do Saco  povoava os meus pesadelos infantis.

A partir do Regicídio de 1908, os novos ideais Republicanos espalhados com os ventos de mudança da Revolução Francesa (1789/1799) propagaram-se como fogo em palha seca:


 “A República é pouco depois instaurada, a 5 de Outubro de 1910, e o jovem rei D. Manuel II parte para o exílio em Inglaterra. Após vários anos de instabilidade política, com lutas de trabalhadores, tumultos, levantamentos, homicídios políticos e crises financeiras (problemas que a participação na I Guerra Mundial contribuiu para aprofundar), o Exército tomou o poder, em 1926. O regime militar nomeou ministro das Finanças António de Oliveira Salazar (1928),professor da Universidade de Coimbra, que pouco depois foi nomeado Presidente do Conselho de Ministros (1932) ”In Wikipédia.




E durante cerca de 40 anos, foi a Ditadura, a perseguição, a opressão, a pobreza de ideais… a estabilidade política onde o povo era visto como uma criança, a quem se ensinava o bastante para juntar as letras e assinar o nome, mas nunca o suficiente para aprender MESMO a ler 
 As populações eram conservadas pelos censores ignorantes como animais de pastoreio, e mantidas na ordem dentro do rebanho pelos cães de guarda da polícia política do Estado Novo.


A partir de 25 de Abril de 1974, uma nova palavra foi ressuscitada do léxico popular: Liberdade
O Movimento dos Capitães abriu todas as portas e portões que se encontravam fechados; destruiu todos os muros e gradeamentos edificados que aprisionavam o povo e o pensamento; ensinou o significado de Democracia.


Como não há bonito sem senão, veio o PREC. EU vivi o PREC. Vivi em Belém toda a minha vida ( nasci, morei, trabalhei…) e senti na pele o medo. O poder caiu na rua, e os soldados, que deveriam ser uns heróis, eram uns rufias, feios, porcos e maus. Com 15 anos salvaguardei a minha integridade física com a filiação no Partido Socialista, e consegui passar incólume os meus restantes quase 3  anos de Liceu. 

Aprendi porém, que Democracia é só mais uma palavra no dicionário: com 2 dedos de cérebro e alguma competência, cedo me tornei dirigente do núcleo da JS do meu bairro. Um belo dia, com tudo preparado para discursar num comício com a presença do Medeiros Ferreira e do Marcelo Curto (velho idiota com a mania que era galã), e depois de trabalhar durante dias a fio na minha pequena oratória, foi-me entregue á ultima hora um papel para eu ler, porque era o que o Partido queria que eu dissesse. Foi a desilusão total e o princípio do fim da minha filiação partidária.
 Política, no more.


E fomos vivendo como povo e como País, num processo lento de adaptação à civilização europeia, sem pôr de lado os ideais democráticos da Revolução de Abril, mas também sem lhes dar importância por aí além, até chegarmos aos dias de hoje, aos dias em que regressámos á pré-história da democracia,
aos dias em que progressivamente despojados do orgulho que alimenta o espírito e do pão que alimenta o corpo, somos desesperadas Candles in the Wind , sempre na triste iminência   de que um sopro mais forte nos apague de vez.


Depois de tudo pelo que passámos como povo, pergunto-me qual será a continuação da lengalenga…

Tão Balalão, Rei, Capitão, Soldado, Ladrão ... 

9 comentários:

  1. Acho que a lengalenga que aí vem não vai ter um final feliz! Mas se resistimos a tanta coisa ao longo dos anos decerteza que vamos ultrapassar esta também...mas qual será o fim desta história??

    ResponderEliminar
  2. Tão Balalão, Rei, Capitão, Soldado, politico ladrão, não tem coração...

    ResponderEliminar
  3. seia bom saber como acaba a cantilena, mas é mais do que certo que não tem coração...

    ResponderEliminar
  4. Não tem coração e temo que não tenha cabeça, ou que a tenha boa demais, já nem sei que pense. Princípios é que faltam com toda a certeza.

    ResponderEliminar
  5. Agora é que já nem tem trambelhas.... nada...

    ResponderEliminar
  6. Um post muito completo de quem viveu as coisas de perto, e já o tinha lido , uma vez que por aqui andei a passear...:-)
    xx

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vou entrar nos 56 e as coisas nem sempre foram flores nos canos das G 3. :):):)
      Creio que agora podemos dizer que os cardos domaram o jardim de assalto.

      Eliminar
  7. Ainda bem que vim ler. Um outro lado vivido, num espaço próximo de "epicentros"...
    De facto, ente os contos de fada e os "contos" que corrompem, muitas histórias ficam por contar...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A facilidade com que uma pessoa com ideais de esquerda democrática sente todo o seu ser revoltar-se contra os fabricantes de ideias em cassete e dá uma volta de quase 360º é realmente espantosa.
      Para quem viveu dias conturbados, ouvir falar dos ideais que Abril nos trouxe é realmente tão divertido como ir ao circo. Duraram 12 meses? Nem tanto?
      Tiraram tudo, deram-nos enlatados, fizeram das pessoas gato-sapato ... e a censura ? Espirras contra a revolução, és fascista, porque um democrata não pode estar constipado... etc.etc.
      Aqui, no palco de todas as emoções, tinhas que ser de algum tom de vermelho, quanto mais carregado melhor, senão.... falar de Abril é fácil para quem nunca o sentiu na pele.

      Eliminar

É aqui que me mandas dar uma curva