sábado, 18 de agosto de 2012

De Porcos e Maus


De Porcos e Maus



Apesar de se considerar lisboeta dos 4 costados, pois veio para a capital ainda não tinha 2 anos, o Pai nasceu em Gaviãozinho-Sto. André das Tojeiras, Castelo Branco, 
e mantinha estreito contacto com a família que lá ficara, irmãos do pai e da mãe, em particular com o Tio Daniel e com a Tia Maria Adelaide, que viviam nos Rodeios, perto de Vila Velha de Ródão .


Por volta de  meados dos anos 70, o filho dos tios, Primo Manuel, convence o Pai a comprar um porco da sua pecuária, que seria criado por eles a expensas do Pai, e quando estivesse “no ponto” far-se-ia uma grande matança, e transformar-se-ia  o que não fosse lombo nem miudezas em presuntochouriços, morcelas e farinheiras.



E foi assim, que no Inverno de 1978 a entourage dos Roque abalou para os Rodeios para matar o porco.





Não há como descrever o antes … é primitivo, desumano, mau demais… Eu e o Pai fingimos ir buscar qualquer coisa e fugimos com os guinchos do pobre animal a ouvirem-se a léguas.



 Voltámos já estavam a recolher o sangue, que assim que jorra ,é retirada parte e imediatamente cozido em água fervente com um pouco de sal, e distribuído ritualisticamente por todos  acompanhado de vinho, como parte de um cerimonial milenar de prosperidade.



Depois há que recompor e trabalhar : chamuscar com ramos de tojo ardente, raspar abrir e começar a desmanchar. Aproveita-se tudo : rins, fígado, coração, miolos… Retiram-se os lombos e lombinhos, as mantas de toucinho, as mãos e pernas para untar e pôr no fumeiro.


 As tripas são lavadas 12 vezes no ribeiro gelado até ficarem limpas e (quase) sem cheiro. O resto é posto num alguidar e depois de almoçar,

Carnes
 toda a mulherada munida de um pau bicudo onde espeta fatias de carne e faca afiada, vai cortando pedaços magros e gordos para vários alguidares de barro, onde a Tia porá depois o tempero  com alho, cravinho, colorau, pimenta vermelha e sal, e outros , dependendo do propósito a que destinasse a carne, o sangue, etc.


No dia seguinte, depois das tripas terem enxugado e arejado, procede-se á difícil tarefa de encher chouriços na "loja" da casa. Pode não  parecer, mas um só porco tem muita carne e as vizinhas vieram todas ajudar ao enchimento e depois atar e pôr ao fumeiro , cantando-se as modas tradicionais para a ocasião.


O Pai adorou o resultado quando alguns meses depois fomos buscar os enchidos, as entremeadas curadas e os presuntos, mas acredito que,
 tal como os restantes membros da entourage, quando fechava os olhos no silêncio da noite, conseguia ouvir os guinchos do animal… eu ainda hoje os recordo como se fosse agora… foi a última vez que participámos numa Matança do Porco .

Voltámos a matar porcos na quinta da Barra Cheia/Moita, mas nunca mais estivemos presentes para acompanhar de perto a tradição.

5 comentários:

  1. Ai, aqueles guinchos! O vizinho da minha avó matava os porcos da vizinhança, em casa dele. Sempre que isso acontecia, apetecia-me sair de casa. Nunca assisti e parece que ainda estou a ouvir aqueles guinchos!

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  2. É coisa que nunca esquece, não é ???... arrepia só de lembrar

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  3. Esta é daquelas tradições que preferia que não existissem. Assisti uma vez à matança do porco na aldeia dos meus avós e ainda hoje, tantos anos depois, quando li o seu post me vieram à memória os guinchos do desgraçado do porco. Acho que por mais anos que viva nunca vou esquecer...

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  4. Devo dizer que desde miúda sou ABSOLUTAMENTE DOIDA (mas doida mesmo) por chouriço!
    Teria eu uns 16 anos e uns amigos convidaram-nos para ir à Anadia a casa dos pais deles para a matança do porco.
    Não sabia ao que ia; pensei que lá chegada já o almoço estaria na mesa, mas não; esperavam-nos para o ritual.
    Não vi; discretamente saí e fui esconder-me o mais longe que consegui mas não tão longe que não ouvisse.
    HORRIVEL não chega para classificar os urros! A dor que se pressente e eu impotente...
    Não almocei, não jantei e não ceei.
    No outro dia voltei para Lisboa com o som nos ouvidos e durante anos nem chouriço consegui comer. Acabei de ouvir na minha cabeça aquele porco a chorar...

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  5. Adoro tanto não ter cá o raio do Robot!
    Obrigaaaaaaaaada!

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É aqui que me mandas dar uma curva