sábado, 14 de julho de 2012

A Terra no Norte


Pico de Regalados



Sendo nada e criada em Lisboa, a expressão “ ir á terra” não fazia qualquer sentido para mim, porque a minha terra era aqui. O Pai veio de Castelo Branco para Lisboa com a família tinha 2 anos e criaram raízes por aqui, por isso não era muito dado em “ir á terra”. A Mãe era quase alfacinha de gema e vivia na terra em que nasceu. Quase todas as colegas de Escola e Liceu iam nas Férias Grandes a Festas, Feiras e Romarias nas respectivas terras dos pais e traziam sempre relatos caleidoscópicos com que eu entretinha a imaginação.


Foi em Belém que conheci e casei com o Marido, homem do norte a viver em Lisboa há 12 anos, mas que nunca tinha descurado as suas raízes minhotas e trazia “a terra” na bagagem e no coração.


 
A Cidade dos Arcebispos passou a ser a minha “terra” de adopção, particularmente o Pico de Regalados, a seguir a Vila Verde, 10 minutos de Terras do Bouro, meia hora do Parque Natural da Peneda-Gerês.


Os meus sogros, gente boa, simples, franca e aberta, eram caseiros dos Abreus de Regalados, e viviam ao fundo do jardim daquela fantástica casa senhorial, onde havia um imponente espigueiro e uma capelinha, mais tarde transformada em adega depois da construção da Capela do Senhor da Salvação.


Mais abaixo, vive a minha cunhada Lúcia e o marido Manuel, que são encarregados da Quinta da Ribeira, donde ainda há pouco tempo saiam montanhas de lúpulo para a indústria cervejeira, e onde agora se produzem muitas das toneladas de Kiwis que abastecem o mercado nacional e internacional. A feitoria da Quinta tem passado na família de geração em geração há quase 100 anos.


Ir á terra é uma festa. Não vou tantas vezes como gostaria, mas adoro ir ao Pico de Regalados. Há um familiar em cada esquina; todos são primos,primas, tios,tias, padrinhos e madrinhas. Todos nos abrem as portas e o coração com aquela candura tão típica das gentes do Norte.


Acordar na Ribeira e ver o sol nascer é indescritível, assim como o é o ocaso. E que melhor poderá haver do que um lauto banquete de frango do campo no churrasco acompanhado de arroz de estrugido, tudo feito no fogo em grandes panelas e frigideiras de ferro fundido pela Lúcia, que consegue extrair sabores divinais de produtos tão triviais. São pessoas fantásticas os meus cunhados; nunca os vi amofinados, nunca lhes ouvi uma má palavra…

A “terra” é verde, o ar é puro, a Ribeira que passa na Quinta ainda é límpida e cristalina, com as trutas a regressar por altura do estio, e os seus murmúrios embalam-nos e deixam-nos sonolentos e preguiçosos.



Com a idade da reforma vista, á semelhança da célebre frase sobre Braga “por um canudo”, o sonho de erguer 4 paredes num pedaço de chão no Pico vai parecendo cada vez mais distante, mas nunca cairá no esquecimento, por que é lá que conseguimos a tranquilidade necessária para retemperar as forças e purificar o espírito; porque o Pico de Regalados é terra de paz.

4 comentários:

  1. O Minho é encantador e deslumbrante! Sou uma apaixonada por essa região!

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    1. Ir de Braga a Arcos de Valdevez, com passagem obrigatória pela minha "terra" :D

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  2. Miguinha, não sabes o que perdes... é lindo ! Aconselho também a rota do Vinho do Porto com viagem de barco até ao Douro internacional. Temos breathtaking sights no nosso país..

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É aqui que me mandas dar uma curva