segunda-feira, 9 de julho de 2012

Back in USSR


CCCP (Союз Советских Социалистических Республик)





Depois de 74, os ventos começaram a soprar de Leste,  falava-se em democracia e nos países que viviam para o povo, do povo e pelo povo.  Em 1990, nos nossos early 30s,  com o sangue na guelra e espírito de aventura, eu e o meu Velhinho  rumámos á União Soviética, o grande papão da Guerra Fria, um dos pólos colossais da ordem mundial estabelecida.

  Não que partilhássemos crenças políticas, porque os nossos padrões de socialismo em Portugal sempre foram burgueses demais para se compararem aos de uma sociedade comunista, mas estávamos ávidos de curiosidade e numa bela tarde de Março, embarcámos num Tupolev da Aeroflot rumo ao  Aeroporto Internacional Domodedovo em Moscovo.

Foi uma das viagens mais bizarras da minha vida: A refeição foi servida em pratos de plástico e para sobremesa, uma laranja inteira que teríamos que descascar com a faca que nos deram embrulhada no guardanapo com os restantes talheres, também em plástico. Era tudo posteriormente reutilizado e lavado num alguidar (!!), na zona por detrás da cabine dos pilotos em frente aos WCs, onde o papel higiénico era em folhas, presas a um canto por uma argola; em cima do autoclismo brilhava uma escova para limpar sapatos, com as cerdas um tanto gastas.





Depois de todas ( e que foram muitas)  as burocracias da chegada, fomos reencaminhados para  o esplendoroso hotel-tipo-Sheraton com lustres, escadarias e balaustradas dignas do New York Plaza. 

Aprendemos logo aí, que nem tudo o que luz é ouro, e que só a fachada contava; os quartos -  Valha-nos S. Soviete… nem toalhas, nem água quente, o duche ricocheteava na porta de madeira empenada… sei lá. Á hora que chegámos, com o Restaurante já fechado e só com US dollars no bolso( dinheiro decadente e proibido...pois sim...), transidos de fome e sem tradutores ou guias, conseguimos um deal com o barman : por 5 USD levámos 18 Pepsi-Colas e 5 pacotes de bolachas rançosas, mas  não dormimos de barriga vazia, o que já não foi muito mau.


O pequeno almoço, servido num salão que rivalizava com o preto e prata do casino do Estoril,  constava de leite fervido com nata aos montes e uma espécie de scones. Café, nem cheiro.


Moscovo é imponente: o Estádio, o Circo, o Bolshoi,  o Politburo, a Universidade, o Gorky Park, O Kremlin com as suas catedrais, o Túmulo do Lenin ( que visitámos quase despidos, e em pose de reverência total), as estações do Metro, cada qual a mais bonita e com uma história para contar… Moscovo, tal como o nosso hotel, o Bega,  era só fachada. A comida era horrível, na maior parte das vezes tartes de legumes e para a sobremesa, gomos de laranja: 2/8 por pessoa.

 Entendi então o luxo que nos proporcionaram com uma laranja inteira para cada passageiro na viagem de avião...
 Não se bebia água da torneira, só engarrafada, a saber a desinfectante e com umas bagas de zimbro. Nas ruas, máquinas cada qual com o seu copo comunitário, matavam a sede a toda a gente disposta a beber pelo mesmo vaso…. 

 A cidade mantinha a beleza e o misticismo do tempo do Czares, mas era cinzenta e deprimente.

  

Dia livre!
As compras nos Gum, os Armazens do Povo, outro  desapontamento, só prateleiras vazias ...Ouvimos falar num Macdonalds, o 1º, o pioneiro para lá da Cortina de Ferro, mas concluímos que não valia a pena perder um dia inteiro só para comer um hamburguer...


Ao 4º dia embarcámos num comboio do povo para St. Petersburgo ( na altura ainda Leningrado).  A viagem foi horripilante, com companheiros de cabina exibindo ferozmente a cremalheira metálica, ao melhor estilo do Jaws do 007 que usavam calçado de plástico... podem calcular a tortura das 10 horas de viagem, sem sequer poder abrir as janelas.

St. Petersburgo é fabuloso. Foi uma agradável surpresa e não me importava nadinha mesmo de lá voltar. Mais perto da Finlândia, era uma cidade muito mais cosmopolita e alegre, onde com meia dúzia de USD se fazia uma vida de Lord.


Comemos bem, passeámos bastante. A cidade tinha cor,  gente nova e nunca chegava a escurecer. Uma noite cerca das 23 horas, que parecia  6 da tarde, vindos de um show de danças e cantares da Ucrânia  no Hotel Leningrado ( CAFÉ!!!), fomos parar a um barco,  uma espécie de boite no meio do Neiva, onde por um dólar de cada vez, a banda que actuava ao vivo, tocou ( e cantou !!) a Lambada horas a fio. A Vodka corria livremente  e o Ikra , quase do tamanho de berlindes comia-se com blinis e pão escuro em vorazes e opulentas colheradas.

 Como as pontes abriam cerca das 3 horas para o tráfego naval e quem ficava na outra margem não podia regressar, arranjámos um taxista kamikaze que fez o percurso num quarto do tempo, e a quem remunerámos principescamente com 5 USD. O pobre comunista, ficou tão, mas TÂO feliz, que saiu do carro à porta do hotel brandindo na mão o rosto do Lincoln, gritando as únicas palavras que conhecia na nossa língua : “Eusébio !! Benfica!!”.


Está claro que fizemos compras fabulosas, desde icones antigos, a peles de zibelina, e sobretudo MONTES de Beluga… só eu (e o meu sorriso) passei  10 latas na alfândega de lá… sim, porque também somos muito revistados à saída, não vá  dar-se o caso de trazermos segredos de estado na renda da cuequinha. Adorei o Kirov,  o Hermitage, a cidade e o rio.

Regressámos à capital ,e na viagem de volta, comprámos metade do recheio do comboio, desde canecas de chá a samovares , cortinas, sei lá , bastava ter USD...

 Já em Moscovo fomos ao Bolshoi no 1º de Maio  ver uma ópera( creio que a de Verdi, mas em russo)  sobre a Joana D’Arc, que contou com a presença do Presidente Gorbachev e de  altos dignitários do Corpo Diplomático sediado na capital. Ouvi mais roncos do que ópera, pois devo ter sido das poucas pessoas que não adormeceu.



E acabou. Foi diferente e viemos muito mais ricos em conhecimentos e plenamente conscientes que o colosso, afinal tinha pés de barro.
Os russos podem ficar com a sua capital, porque se eu alguma vez voltar á Rússia, vou direitinha ao sol da meia noite.

до свидания

5 comentários:

  1. Tenho pena mas ainda não conheço...

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  2. Diz quem lá foi há pouco tempo, que o que nos faltou em géneros triplicou em criminalidade, coisa que em 1990 não existia... Mas se fores, é para a terra do sol da meia noite. Acho que ias gostar...white nights :D

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  3. Moro na Europa a um tempo e estou a fim de dar uma esticada na Russia.
    Embora eu odeie os Russos, pelo menos aqui na Italia eles sao muuuito mal educados ( digo os turistas que vem a passeio )
    Eles falam em russo com voce, acham que voce tem a obrigaçao de entender.
    Nao se esforçam nem para perguntar o preço das coisas em Ingles ou em Italiano, falam em Russo mesmo " Kas Kun Bien " malditos estupidos.rs..
    Enfim, mesmo assim quero muuito conhecer a Russia.
    Como é o processo do visto ?

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  4. Eu fui em 1990, num passeio organizado pelo SITAVA, que é um sindicato da TAP. Creio que terá que ser tratado e aprovado numa embaixada ou consulado. Os russos sempre foram muito massa bruta, e agora que têm uma economia emergente, acham-se os donos do mundo, só porque têm dinheiro...

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  5. A URSS era um lixo. Só era boa em guerra, porque no resto... país de merda. Socialismo é lixo pra começo de tudo né, não tem o que pedir muito.

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É aqui que me mandas dar uma curva