quarta-feira, 11 de julho de 2012

As Mães: Bisavó


Muitas Mães



Eu sou uma pessoa de sorte, tive quatro mães : A minha Avó, a minha Mãe e a minha Madrinha, e a minha Bisavó qual delas a melhor. Vou-vos contar da minha bisavó.

A minha bisavó era uma força da natureza: de saia comprida lenço preto e xaile, era o protótipo da matriarca dos primórdios do século 20, que enviuvou cedo e trabalhava de sol a sol para sustentar os 3 filhos. Era uma cozinheira de mão cheia, e quando jovem e antes da Implantação da República, trabalhou nas cozinhas do palácio nas Necessidades, onde conheceu os soberanos reinantes, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia.

 Como viver em pecado era contra os princípios da Rainha, a minha Bisavó Júlia e o meu Bisavô Alberto, carpinteiro também no Palácio e que nunca cheguei a conhecer,  foram ”aconselhados” a casar pelo seu capelão, e ofertados pela Rainha depois do enlace, de camas de ferro com florões espectaculares para os rapazes dormirem ( pois que já tinham 2 filhos), camas essas que perduraram gerações fora, até serem vendidas com o espólio da casa do Fiandal, quando o Pai faleceu.

Teve 3 filhos: o Álvaro ( o protótipo do dandy, chapéu de lado e suaves maneirismos), o Américo, homem bonito, calmo e um tanto mulherengo, e a Adelaide, o patinho feio, que compensou a falta de beleza física com a muita determinação e perseverança que possuía, e que teve dois maridos e quase um terceiro. JJJ
 O filho favorito, era o filho do meio, o meu Avô Américo, ao qual a Mãe , o Mano e o Menino foram buscar os olhos azuis. O Avô casou com uma criada de servir de seu nome também Adelaide ( a Avó), casamento que não foi do total agrado da Bisavó, o que preconizou uma vida nada fácil para o casal. O Avô que era serralheiro e arbitro de futebol, era também o menino da mãe, ficando por isso, a morar com ela em Belém. Tiveram 3 filhas, a Maria Emília (a Madrinha), a Luzia e a Ivone( a Mãe).

A Mãe foi o rapaz que o Avô sempre desejou mas não teve. Era o terror das redondezas, e completamente adorada e apoiada pela Bisavó, impunha a sua vontade e ditava as suas leis com tal vigor que foi cognominada “O Veneno”. Ainda nos dias de hoje, se eu passar pela igreja da Memória, qualquer velhinho que descanse num qualquer banco do jardim me poderá facilmente reconhecer como “a Filha do Veneno” ou á minha Pérola Maior como “a Neta do Veneno”.

A Mãe apesar de maria rapaz e mais novinha do trio,  foi a primeira a casar , e então nasci euzinha, a menina na mão das bruxas, o ai Jesus de todos, mas não era o rapaz que ansiavam. Apesar dum bocado masculinizada pelo Avô no vestir e nos cortes de cabelo ( o que tirava a Mãe do sério), foi com o advento do Mano que a família rejubilou verdadeiramente. O Avô ficou encantado, o Pai realizado, a Mãe triunfante, a Avó feliz e a Bisavó tão maravilhosamente deslumbrada, que tornou o Mano o propósito de toda a sua existência. Transferiu toda a ternura que as agruras da vida lhe reprimiram no peito para aquele pequeno ser e amou-o incondicionalmente enquanto viveu.

Sobreviveu ao Avô, a quem um devastador AVC roubou anos de vida, e ainda embalou o Menino com canções de ninar. Passou os últimos anos numa Casa de Repouso, a que agora chamamos Lar da 3ª idade, donde fugia sempre que podia, para poder estar junto dos seus meninos.
A minha herança genética veio praticamente toda dos albicastrenses do lado da família do Pai. Penso que o mau feitio, e a maneira de encarar a vida herdei inteirnha da Bisavó Júlia, e estou grata por poder contar com o seu ADN nas horas mais complicadas da minha existência.

P.S.: Quem possa pensar que transparece uma ponta de ciume nestes meus escritos, desengane-se. EU fui a primeira e única Princesa Com Sorte da família !!!JJ



                                   

32 comentários:

  1. Este post é encantador!! Adorei ler a sua história de família, que é tão rica! Obrigada pela partilha.

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  2. Querida Dulce,

    Emocionei-me ao ler a sua história. Uma ternura. Obrigada por nos dar a conhecer algo tão pessoal, tão intimo e tão belo.

    um beijinho
    Lúcia

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    1. Minhas queridas, eu sou um alma simples, e daqui a nada estou com a lagriminha no olho... obrigada !!!

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  3. A Dulce é uma mulher de sorte. Eu só conheci uma avó, a materna. Tenho uma certa inveja dos que nasceram numa família alargada.

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    1. Foi a família grande que me habituou a saber lidar com muita gente. Obrigada pelo seu comentário Mara. Um Beijinho

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  4. Mais uma história deliciosa...de facto, a minha irmã têm o dom da escrita :) ... Obrigado.
    Assinado "O Menino" :)

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  5. Absolutamente encantada!!!
    E um bocadinho invejosa também; adorava ter conhecido uma avó que fosse!
    Tive outros colos que me acarinharam mas nunca uma avó ou um avô...
    Tenho tanta pena...

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  6. Eu tive a sorte de conhecer os meus 4 avós e a Bisa Júlia, e mais uma quantidade consideravel de tias-avós... realmente, tive uma infância especial....

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  7. Awesome post :)
    http://wereviewinternet.blogspot.com

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  8. vim aqui ler este post pelo link que deixaste no Tolan :)
    Ainda não tenho uma filha, mas eu e namorado já escolhemos o nome, caso um dia ela chegue. É Juliana, o nome da minha avó. Gostamos muito e não queremos saber de teorias sobre não dar o nome de pais, avós ou bisavós às crianças.
    E como já disse ao Tolan, também gosto muito desse Júlia. Era o nome da filha do Júlio César no livro O Primeiro Homem de Roma que lia muito na minha adolescência. A segunda filha dele era a Julila. Também gosto.
    :)

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  9. Sabes, eu não tive muito voto na matéria, quando da escolha do nome das minhas filhas... era tradição serem os padrinhos a escolher... vá lá, nem foi muito mau...

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  10. Sabes a.i. a filha mais nova está na FLUL, em História... e às vezes conversamos sobre o passado e é TÃO interessante...

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  11. pois é...também gosto muito de história e esse gosto foi incutido por pais. Parece pretensioso dizer isto, mas sinto muito orgulho em ter pais que gostavam de ler e ver programas de tb interessantes, ouvir música clássica e ir a museus e essas coisas.
    mas também sei que uma mãe também se deve sentir tão orgulhosa por filha se interessar por um tema que lhe é caro, como o que dizes de conversas com filha sobre história. é engraçado como conseguimos intuir, mesmo em novos, aquele cliché de que a história nos ensina muito para compreender o presente não é? Quer dizer, é um cliché, mas acho que é verdade.

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  12. Não é um cliché, é um facto comprovado. Se não conheceres o passado, como poderás entender o presente ? A R. esteve a fazer um trabalho sobre as "Memórias de Agripina" do Pierre Grimal, e não é secante, nem tampouco chocante.... e olha que a histórias se repete muitas vezes, seguramente noutros contextos, mas com idênticos resultados . :D

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  13. chibatadas pela minha ignorância, não conheço esse autor...Agripina não era alguém ligado ao Adriano, aquele da Yourcenair? ou estou a confundir tudo?

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  14. A Agripina era filha do Germannicus, irmã do Calígula e sobrinha do Cláudius, com quem acaba por casar, e claro está mãe do controverso Nero ... Situando-te na época, podes imaginar a vida e o percurso de Agripina a Menor ;D

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  15. UAU!

    mas então já percebi a minha confusão, é que nas Memórias de Adriano ele às tantas fala lá do Nero e do Calígula e da Agripina. O Adriano era um bocado sensível ao tema "antepassados".

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  16. Então e que antepassados !!! mesmo distantes mais ou menos um século, não deveriam ter sido de boa memória, já que Adriano foi considerado um dos cinco bons imperadores.
    Estás a ver que tivemos aqui uma conversa tão mais interessante e actual do que saber quem saiu do Big Brother ?? Beiinho !!

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  17. hahaha, essa agora do big brother foi de génio. Falando de pessoas ilustres da história, é natural irmos lá parar hahahahaha


    Se o Adriano foi considerado um dos cinco bons imperadores, deve ter sido por critérios muito "abrangentes". É que do que li lá nas "Memórias" ele também teve o seu quinhão de actos sanguinários. Mas claro que naquela altura, os fins justificavam os meios. E ainda estava por nascer o Maquiavel! Realmente os romanos eram mesmo "loucos", se formos a ver bem, inventaram todas as intrigas políticas e jogos de maquinação de poder que vemos hoje.

    :)
    Tchau Maria, obrigada pelo diálogo !
    Até outro dia...

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  18. que doçura de lembranças :))) e ainda com ligações (ligações, sim senhora!) reais :b
    tenho tantas saudades dos meus, tantas...

    (obrigada pelo convite :)))

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    1. Era uma querida a 'Vó Júlia. Contava histórias de cozinhados, como se gente fossem. O bichinho de cozinhas, foi ela quem me passou. Garantidamente. Obrigada nAn, muito obrigada !

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  19. Gosto de fotos antigas. Gostei da história de familia. A foto do dia do casamento (?) - linda.

    R.

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    1. Viva R. Casamento da minha mãe... que com 78 anos ainda é linda. Obrigada.
      Tenho outros posts com fotos antigas...

      acontarvindodoceu.blogspot.pt/2012/09/branca-e-radiante.html

      http://acontarvindodoceu.blogspot.pt/2012/10/a-maquina-do-tempo.html

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    2. http://acontarvindodoceu.blogspot.pt/2012/07/5-mae-belem-love-story.html

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    3. Pelo primeiro já tinha passado. Achei deliciosas as fotos com as noivas :-)

      E adorei os outros também. Vêr estas imagens fazem-me recordar outras, da minha familia, e recordar também algumas das histórias. Obrigado.

      R.


      E a foto da M D Roque a cortar o bolo - que mulher bonita :-)

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    4. Faltou o P.S. na última frase :-)

      R.

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  20. Gostei muito deste texto, porque gosto de histórias de família e pela forma tão bem humorada como está escrito.
    um beijinho
    Gábi

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    1. Viva Gabi, obrigada. Está tintim por tintim. Foi dos primeiros textos a sério que escrevi, e ainda saiu um bocado tremido.
      BFS e beijos

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É aqui que me mandas dar uma curva