sexta-feira, 15 de junho de 2012

Telenovelas, Floribelas e outras como elas...


Descrição :

Telenovela é uma história de ficção desenvolvida para apresentação na televisão. Tem a característica de ser dividida em capítulos, em que o seguinte é a continuação do anterior. O sentido geral da trama é previsto inicialmente, mas o desenrolar e o desenlace não. Durante a exibição – que pode levar de seis a dez meses, em episódios diários –, novos rumos e personagens podem ser inseridos.



As minhas recordações dos anos pré-Revolução são alegres e coloridas, repletas de tardes de Primavera e de grandes passeios á praia nos fins de semana, a que se seguia o tradicional piquenique, o badminton, o jogo do Mata, ou uma “Suecada” entre os homens, enquanto as mulheres arrumavam a data de tralha e mantinham os filhos ocupados com alguma brincadeira, ou simplesmente a ajudar. O dia acabava invariavelmente em casa duma das famílias, onde se consumiam os “restos” ao som de muita música e dança, e onde no final ( vá lá saber-se porquê J ) , se cantava sempre o fado á desgarrada. Era uma época mais alegre e despreocupada e muito menos sedentária do que a do PREC, quando a RTP , a partir do Verão Quente de 1975, nos começou a inundar o quotidiano  com as Telenovelas.

Em 1977, produto dos estúdios da Rede Globo, no Brasil estreou “Gabriela, Cravo e Canela”, a primeira, a inesquecível e de todas a mais irreverente, baseada em obra homónima de Jorge Amado. Misturava exotismo com sensualidade,  política com religião. Tinha tudo para ser um sucesso, e foi. Para um país que via pontualmente o Bonanza, o Mascarilha ou o Santo, todos bonzinhos, muito altruístas e certinhos, os personagens da Gabriela eram tudo menos heróis e santos, o que nos fazia vibrar de excitação pela ousadia. Tinha cenas de nu parcial e o sexo era explicitamente subentendido, o que para um povo habituado a vagas insinuações sobre a matéria, era simplesmente extraordinário.

A leviana Gabriela, o fundamentalista Coronel Ramiro Bastos, o revolucionário Mundinho Falcão,o conformado Nacib, a poderosa Maria Machadão... Personagens que marcaram uma época e cujos feitos, particularidades e ditos entraram directamente no jargão nacional.  Quem ainda hoje não chama ao bigodinho mal semeado, certinho e aparado, bigode á Tonico Bastos ?

A partir daí, foi um non-stop de Telenovelas de além mar, O Casarão, O Astro, e principalmente  Roque Santeiro, que atentava directamente contra os aspectos mais arreigados do fanatismo religioso. As criancinhas temiam mais o Professor Astromar do que o Papão, e as músicas bailavam de cor em todos os lábios. Tou certa, ou tou errada ?!?!

A Tieta do Agreste, também baseada no Livro do mesmo nome da autoria de Jorge Amado, que abordava prostituição, abandono e incesto, foi outro marco na história da  cultura televisiva portuguesa. E o povo  , cada vez mais bombardeado com devassidões depois de anos e anos de privação de liberdade de expressão, devorava agora sofregamente e em doses maciças toda aquela depravação, noite após noite, após noite... As peripécias telenovelescas eram temas de conversa nos empregos, nos cafés, nos transportes e até nas aulas... teciam-se considerações,  faziam-se apostas, eram um entretém e uma imensa diversão .  

Como tudo o que é bom, quando tomado em demasia , enjoa. Com o surgimento de outros canais televisivos para além do canal estatal , todos a apostar em conquistarem o público,  a telenovela que unia famílias depois do jantar e era tema de joviais controvérsias e alegres debates, depois de ser eleita a rainha das audiências televisivas, acabou por ser canibalizada e distribuída por diversos horários, nos distintos canais televisivos, cada um com uma nova produção e uma história diferente, cada história com o seu público-alvo, atingindo quase todas um sucesso relativo.

A televisão nacional também se aventurou  na produção de fazedoras de audiências e tivemos bons resultados com a Vila Faia, Origens, Chuva na Areia; bons argumentos e actores a sério, mas com pouca acção e cenas de exteriores quase inexistentes. Mas na minha opinião foi o melhor que se fez em produção nacional. É certo que dezenas e dezenas já correram por debaixo da ponte destes humildes escritos, algumas consagradas internacionalmente com galardões que reconhecem a excelência e qualidade da produção no seu todo, mas eu não posso avaliar;  já não vejo telenovelas. Desencantei-me. Penso que a realidade é bem mais estranha do que a ficção, e que a esse nível, já está tudo dito.

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